Saturday, April 18, 2009

Eu Gosto Porque #1 - The Streets

Foi a idéia que eu tive pra atualizar este blog quando estiver sem inspiração ou tempo ou vontade, mesmo.

Assim, eu escrevo o porquê de gostar de determinada banda ou artista e basicamente é só isso. Justificativa, exaltação do próprio gosto musical e outros motivos mesquinhos.

Tem também uma diferença: nesses determinados posts, vou colocar link de wikipédia, youtube, fotinho... Tudo pra estimular os outros a gostarem do que eu gosto. A idéia é dominar o mundo.

O que eu queria era só pedir pros 2,32 leitores deste blog pra me questionarem, quando este estiver sem atualização. É pra provocar mesmo. Tipo "isso aí é uma merda, por que você gosta disso?". Daí eu escrevo.

Sem me preocupar com tese, dissertação, conclusão. Pro inferno com essas merdas. Eu só gosto porque...

***

Original Pirate Material é um dos meus discos preferidos de rap por causa da música, claro. Mas tem outro aspecto que faz eu me identificar com Mike Skinner acima de outros MCs. É o seu inglesismo. Simon Reynolds disse uma vez que The Streets é o "rapper britânico que consegue ser excepcional e soar autenticamente inglês". Isso o diferencia primariamente dos outros rappers mainstream (mesmo contando o Dizzee entre eles).


A afetação inglesa do Streets provavelmente é o que o aproxima de um moleque de classe média de São Paulo. Não tem como fugir disso, eu sou só mais um moleque quase-white-trash do Itaim, como a maioria dos meus amigos. Que toma umas, usa umas substâncias ilícitas às vezes, chega nas minas, pega de vez em quando, toma toco na maioria das vezes, sai a pé na rua pra comer um salgado e gosta de fumar um cigarro. Nada muito empolgante at all.

Original Pirate Material, o primeiro disco do Streets, e seu subseqüente, A Grand Don't Come For Free, falam basicamente disso. Tem a loucura chapada de cogumelos e álcool de Too Much Brandy (minha favorita até hoje), a violência bunda-mole tipo "cara, eu poderia te arregaçar na porrada se eu quisesse" de Gezzers Need Excitement e até um toco homérico em Fit But You Know It. Tudo aquilo que a gente vive de vez em quando num fim de semana.

Além disso, as bases eletrônicas, remanescentes da cultura rave britânica são das mais legais que se acha por aí. São loops toscos, sem muito requinte, de quem aprendeu a mexer no Fruity Loops na semana passada. Pura criatividade em favor da indolência, artimanha que quase todo moleque usa.

A mensagem, por trás de toda essa identificação com a molecada, é de positividade. Nos dois primeiros discos, a última música é otimista. Literalmente em Stay Positive ou deliberadamente estética, no caso de Empty Cans, onde Skinner briga com Deus e o mundo, mas, ao voltar a fita, a música recomeça, com a mesma situação sendo vista com olhos mais positivos e sendo solucionada, conseqüentemente. Um amigo meu jura que saiu do pó por causa dessa música. Olha que lindo.

Depois disso, nos dois últimos álbuns, as preocupações do MC são outras, mais adultas, mas o olhar de compaixão pros garotos do pub continuam, e as mensagens ainda estão lá.

Ninguém aqui tem um Bentley, um Hummer ou usa casaco de pele com boné. Mike Skinner também não (se ele tiver um Bentley agora, não tinha quando gravou suas primeiras músicas). Ele quer mais é sair e "get fucked up with the boys". É mais ou menos o que a gente faz.

Sunday, March 29, 2009

Tuesday, March 24, 2009

Radiohead/Just a Fest - 20 e 22 de Março

O mais surpreendente dos shows do Radiohead no Brasil, para mim, não foi sua qualidade. Eu já tinha os visto no Roskilde Festival no ano passado e fiquei muito feliz em constatar que eles se esmeraram muito mais aqui na América Latina (a começar pelos setlists), mas já era esperado que fosse um show bom. É como se a banda não conseguisse fazer uma apresentação ruim, nem se quisesse – estão nitidamente presos à sua esquizofrenia musical, que transforma espasmos em entretenimento.

O que me espantou mesmo foi ver que se trata de uma banda, acima de tudo, de hits. Não é brincadeira o quanto as pessoas esperaram por Creep, No Surprises, Karma Police e pela música do Carlinhos, que faz aula de inglês (se bem que acho que hoje em dia ele já deve ter terminado o curso). Descobri também, que pra maioria do público, o Radiohead não começa em Kid A. Pra muitos, até termina. A julgar pela recepção do público às músicas do In Rainbows, além dos hits, é como se houvesse um buraco entre OK Computer e o disco das Casas Bahia.

Mesmo sendo indie o suficiente pra ter o Amnesiac como preferido, isso não me incomodou. Era nítido o quanto cada música de cada disco, no momento em que era executada, recebia o devido respeito e entusiasmo de uma platéia heterogênea - juro que cheguei a ver gente com abadá na Chácara do Jóquei -, fosse o silêncio reflexivo de Exit Music, a insanidade de National Anthem ou a beleza confusa de Climbing Up The Walls e How To Disappear Completely.

Dos shows em si, não adianta falar nada. Se você não estava lá em carne e osso, pelo menos já leu todos os reviews possíveis, tanto sobre o Rio quanto sobre São Paulo. Foram unânimes em constatar a qualidade técnica da banda e do palco (puta merda, e que palco lindo pra caralho!), os acertos do setlist, mencionando sempre os hits, e a esquisitice de Thom Yorke. Tudo verdade.

Me alegrou também ver um ou outro falando mal, já que toda a unanimidade é burra. Um conhecido meu disse que não se volta pro bis com música do disco novo e li por aí gente dizendo que o momento da banda já passou, além dos habituais comentários sarcásticos sobre a cabecice dos trabalhos pós OK Computer. Mission accomplished, Radiohead! Sério. O que essa gente não percebe é que o Radiohead não faz música pra eles. Quando Nick Hornby reclamou, lá por 2000/01, que eles não estavam fazendo música para homens que trabalham o dia inteiro e voltam pra casa cansados, estava coberto de razão.

A música pop pertence – e sempre pertenceu – à molecada e aos vagabundos, que têm tempo e disposição de entender um disco, uma tendência e evoluir junto de uma banda. Thom, Jonny, Phil, Ed e Colin sabem disso e quando mandam, noite após noite, uma música desconexa e “nem-tão-boa” como The Gloaming, estão dizendo “nosso momento de maior êxito pode até ter sido no fim da década de 90, mas nós não somos o Kiss. Não espere a OK Computer 10 years tour”.

Um show, acima de tudo, é performance, vontade. Se Jonny Greenwood vai dar seu melhor brincando com samples ajoelhado no chão, porque deveria empunhar uma guitarra e tocar uma música antiga apenas pra agradar os velhos que acham que o pop tem fórmula tipo “não se toca música nova no bis”? Se eles fossem assim, teriam feito o que fizeram pra lançar o último álbum?

O festival Just a Fest foi uma vitória do novo, pois reuniu Los Hermanos voltando sem quase nenhum sentido e aviso prévio, claramente só pela grana e pela publicidade, Kraftwerk desfalcado, mas impecável, e uma banda-catarse que levou 30 mil indivíduos à loucura com música eletrônica cabeça e esquisitice quase progressiva (além de alguns hits, é claro). É derrota demais pra quem acha que música tem que fazer sentido em pleno 2009.

Da minha parte, fiquei feliz porque vi três bandas que eu gosto fazendo seis shows bons ou sensacionais. No fim, é o que importa pra quem gosta de música, não é mesmo?

Friday, March 06, 2009

Certo, Mais Uma Vez

Pro inferno com a modéstia. Tudo que eu disse aqui ontem sobre Watchmen se confirmou. E isso sem que eu tenha visto o filme inteiro.

Explico rapidinho pra vocês. Fui todo-todo lá pro Kinoplex, até bem antes da sessão começar, ainda com alguma esperança. Mas foi bem o que eu pensava, um filme super lustroso, cheio de câmeras lentas, explosões, música incidental apocalíptica nas cenas de ação (o resto da trilha, com Dylan e toda a turma é, admito, duca) e exagero. E a história fazia sentido para mim, que li a graphic novel, mas dava pra ver que para quem não leu, faltava liga. Se o intuito era fazer mesmo um filme para fã, por que entucharam aquele monte de maneirismo hollywoodiano?

No entanto, o que me fez levantar e pedir meu dinheiro de volta não foi a perfeição técnica em detrimento da história. Eu já esperava isso e, numa pegada meio masoquista, estava gostando. O que me emputeceu de verdade foi perceber que o Brasil caga mesmo para Watchmen.

Quer dizer, eu estava no Kinoplex Itaim, um dos cinemas, a princípio, mais fodinhas de São Paulo (e, por acaso, na esquina de casa). E sabe quantas pessoas estavam ali para assistir a estréia em película da melhor graphic novel de todos os tempos? Menos de vinte, e dava pra ver que todos já tinham lido o gibi. Se fosse só isso, cagaria. Mas parece que nós não éramos importantes o suficiente para o Kinoplex (assim como não seríamos para o Cinemark, Lumière, ou o Cine Topázio em Indaiatuba, convenhamos) e a energia caiu duas vezes e dava pra ouvir um telefone tocando em algum lugar. Não obstante, a imagem estava desfocada e foi preciso interromper a projeção pela terceira vez para arrumar o problema. Foi nessa hora que eu saí da sala e pedi o reembolso.

Pau no cu. Não sou moleque.

Claro que todo estabelecimento está sujeito a problemas técnicos, mas eu corto a rola fora se alguém chegar e me disser que a mesma coisa aconteceu durante uma sessão de, sei lá, Milk, para os casaizinhos frequentadores da Pacha e teve a mesma abordagem desinteressada do Kinoplex. Esse descaso com o tipo de público que Watchmen atrai diz muitas coisas, mas a principal é que quadrinho - e cultura pop em geral, pra ser bem realista - ainda é coisa de criança pros olhos do Brasil, errr, corporativo.

Não adianta a Conrad, a Pixel, a Devir, o Omelete, etc tentarem, vai demorar tempo demais pra nos respeitarem neste monte de merda que é nosso país. Meu palpite é que isso na verdade nunca vai acontecer. Claro, vivemos num lugar em que a nossa Rihanna é a Claudia Leitte.

Às vezes fazem a gente acreditar que não, mas tem como negar que o Brasil é um buraco fundo demais?

***

Ah sim, sobre o filme, depois eu assisto. A horinha que eu vi mostrou que não vale taaaanto a pena (apesar de ser engraçado ver o Denny Duquete de Comediante) e eu ainda recebi meus 11 conto de volta. Se pá até me dei bem. Hehehehe.

Thursday, March 05, 2009

Who Watches The Watchmen?

Chegou a hora. Amanhã à tarde finalmente vou estar vendo o filme que eu mais espero há uns 6 meses, o ingresso já tá na mão.

Honestamente, não acho que deve ser um filme bom. Provavelmente se trata de mais uma megalomania tecnicamente perfeita do senhor Zack Snyder, mas a real é que isso é supérfluo. Watchmen é uma instituição acima de qualquer problema desse tipo. Mesmo imaginando algo como "300 parte 2" a tentação de ver Espectral, Dr. Manhattan, Ozymandias, Rorschach, Coruja, Hollis Mason e etc "se mexendo" é maior. O ingresso vai valer cada centavo.

Watchmen. Engraçado, não sei como (o download) foi parar na minha mão. Provavelmente foi com alguma coisa tipo "se você gostou de Preacher, tem que ler". Relutei, mas acabei admitindo: é melhor que Preacher - apesar de não tão bonita. Mais do que isso, é uma das maiores histórias que eu já li ou ouvi. Por mais que Alan Moore seja contra e haja vários indícios negativos, não tem como se empolgar com um filme de uma história tão perfeita. Nem que seja para reafirmar depois, pros amigos descolados, que "uma HQ como Watchmen é inadaptável, foi pensada pra mídia impressa e não cinema".

É o que estão dizendo por aí.

De ruim, só a pena que vai ser ver tal história flopar fodidamente nas salas do Brasil. Não quero abusar das minhas previsões (tenho acertado todas de futebol e várias de música), mas a real é que o nosso povo já está cansado de "filme de super herói" e a maioria dos brasileiros, os tais douchebags, têm uma ervilha no lugar do cérebro. Daí, até desvincularem Watchmen da imagem de "filme de super herói", se é que isso vai acontecer, ele já terá saído de cartaz. A onda agora é ver o filme que ganhou Oscar, "não esses filmes-pipoca que Hollywood nos empurra goela abaixo". He-he.

Por outro lado, Watchmen e sua história-irmã "Tales of the Black Freighter" (leia a HQ pra saber do que se trata), falam primariamente de certezas que acabam caindo por terra, depois que todo um planejamento foi feito em cima delas. Por isso é sempre bom trabalhar com mais possibilidades, e a publicidade massiva da Warner permite que isso seja feito com bastante facilidade.

Mas só teremos certeza de qualquer coisa amanhã.

Quem viver, verá.

Tuesday, March 03, 2009

Sobre Capas de Disco

No pôr-do-sol da década de 2000, garantia de capa boa é uma mão feminina apertando alguma coisa. Eagles of Death Metal e Yeah Yeah Yeahs que o digam.

Monday, February 16, 2009

Música e Falar Sobre Música em 2009

Mandei um email pro Forastieri perguntando o que ele achava do meu blog, tipo aquela música dos Raimundos, com a diferença de que ele não é a Madonna e nem estava parado no jardim e eu não sou o Rodolfo. Quis saber mesmo o que o cara teria para me dizer, já que ele manja muito mais que eu. O legal é que ele respondeu.

Daí, me disse para manter o foco e, não sei se de brincadeira, pra tentar fazer o melhor blog de música do mundo. Levei a sério e respondi que acho difícil e a conversa acabou aí. Então, achei por bem explicar para mim mesmo (e para quem lê o Spreading Lies) porque eu nunca conseguirei fazer o melhor blog de música do mundo.

Primeiro: música para mim é uma distração, um divertimento. O melhor de todos, o mais importante e, por talvez ser um moleque sem nenhuma responsabilidade ainda, eu ainda queira viver desse hobby. E viver de música é diferente de escrever sobre música.

Porque olha só: hoje em dia a música é cada vez mais desorganizada e sem lógica. Tem vários exemplos por aí. Vamos brincar de name dropping? Franz Ferdinand chegou a dizer por aí que o álbum novo (que viria a ser o recém lançado “Tonight”) seria influenciado por Fela Kuti. M.I.A. é uma cantora de origem cingalesa que mora no Reino Unido e mistura tudo, tudo, até funk carioca nas suas músicas, além de aparentemente ter forjado seu próprio fim de carreira, como fez Bowie com Ziggy Stardust. Já o N.A.S.A. mistura participações de Seu Jorge, Kanye West, John Frusciante, Ol’ Dirty Bastard, a própria M.I.A. e mais uns 30 malucos que (a princípio) não têm nenhuma correlação, sob a batuta de um DJ brasileiro e um americano.

Eu já disse tudo isso em 2008. E, assim como ano passado, continuo achando tudo isso empolgante pra cacete. Gosto de pensar em como tudo isso se formou e definitivamente gosto de escutar música multiétnica, atemporal e cheia de texturas e referências. Mas não faço questão de saber quais são TODAS essas referências, não tenho tesão em colecionar informações desse tipo o tempo todo.

Até porque sou péssimo para reconhecer essas referências, mesmo quando elas são esfregadas na minha cara. Quer dizer, o Franz Ferdinand pode até ter se inspirado em Fela Kuti, mas eu nunca vou saber isso, não só por não manjar de Fela Kuti, mas também por ser do tipo de cara que precisa prestar muita atenção para perceber onde Sabbath e Soundgarden se encontram, ou definir qual o estilo musical do Pet Sounds (alguém sabe? Se sim, por favor, conta pra mim, mas rock não é nem fodendo).

E eu SEI que eu deveria conhecer Fela Kuti, não estou aqui dizendo que é super legal ser ignorante. Mas não quero, por outro lado, apressar as coisas. Cada artista tem seu momento, sua descoberta. É gostoso se concentrar na discografia inteira de alguém insignificante tipo Silverchair simplesmente porque é a banda que te emociona no momento.

Além disso, tem hora que tudo o que a gente quer é ouvir algo já mastigado e prontinho. Por que é que todo mundo tem uma obrigação meio velada de escutar várias de bandas velhas tipo, não sei, Uriah Heep, que nunca passaram de Silverchairs do seu tempo? Será que é porque um velho da galeria do rock ou da Rolling Stone escutava no seu tempo e transformou em “must“? Nunca. Nós somos jovens, e ninguém, nem os críticos musicais, têm obrigação de se ver atados a conceitos antigos, do tempo dos nossos pais.

Eu acho que para escrever bem sobre música, uma pessoa tem que ser, acima de tudo, sagaz, destemida e iconoclasta. Isso antes de ser uma enciclopédia. Em tempos de Google, Rapidshare e Wikipédia, ter um monte de fato na cabeça torna-se cada vez mais inútil fora das mesas de bar. Precisamos mesmo é encher a boca e não enrubescer pra dizer que gostamos mais de Sublime do que de Beatles ou que Queens of the Stone Age é muito melhor do que Black Sabbath. Apesar de não pensar exatamente nada disso, entenderia perfeitamente se alguém dissesse, até admiraria. Porque nada é uma verdade absoluta em música. Nunca foi e nunca será.

Queria que mais gente jovem, mais ou menos da minha idade, pensasse assim. Queria que aparecessem uns moleques escritores que realmente desprezassem tudo feito antes de 1992. Não seria o mais correto, o mais ponderado (meu velho sempre diz que “a virtude está no meio” – hehehe), mas é necessário romper algumas amarras.

Pense bem, veja como a música evoluiu e, em contrapartida, o passo lento que a crítica musical se encontra. Será que não tem a ver com esse bando de moleque querendo saber mais do que os velhos que presenciaram tudo aquilo? Ou com o monte de referências sem rosto, impostas em ritmo doentio em todo o texto que se lê por aí?

Enquanto isso não mudar, a crítica musical só vai afundar e afundar. E eu continuarei sendo um crítico de merda. Ainda bem.

Saturday, February 07, 2009

E Hoje

Hoje tem o show de volta do Thee Butchers Orchestra.

Acho que estarei lá.

Antes mais uma banda copiando (direitinho) o protopunk na cena do que um CSS a solta nos envergonhando. Né?

Thursday, January 29, 2009

Festival de Verão de Salvador

Fiquei sabendo que ia passar Quase Famosos na Globo às 2h10. São 2h27 e não começou ainda. Tudo bem, sou insone, estou de férias, quero que se foda.

O problema é o que está atrasando o começo do filme: o tal do Festival de Verão de Salvador. Não tem graça, não dá pra brincar. O naipe das bandas e público que comparece nesse tipo de evento me enoja pra caralho. Me lembra ignorância, sétima série, bullying, primeiro colegial, tatuagem tribal já esverdeada, tatuagem em japonês, André Marques e Sarah-ex-VJ-da-MTV (mas desses eu lembro por estarem apresentando o, ah, programa), Smirnoff Ice, beijar muito, já-é-ou-já-era, galera descolada, muita energia positiva, cachorra piriguete, pitboy, O Rappa, pop rock, rodinha de violão, hit do verão.

Me doía quando, além de me constranger com tudo isso, não conseguia definir bem toda essa merda. Ainda bem que hoje em dia já conheço a palavra "douchebag".

Olha lá, começou Quase Famosos. A Tecla Sap não funciona. Merda.

Friday, January 23, 2009

Confissões de uma Groupie: I'm With The Band

Antigamente, eu tinha uma convicção muito boba, de que tudo que fosse escrito deveria possuir o estilo e classe de um Machadão ou Fante, pra citar dois nomes aleatoriamente. Claro que eu sabia que isso nunca ocorreria, mas imaginava um mundo perfeito, onde todo mundo saberia escrever bem.

Eu já tinha sacado que isso não existe, mas foi Confissões de Uma Groupie: I’m With The Band que jogou a pá de cal sobre essa idéia. Não tem cabimento esperar que autora-e-ex-groupie Pamela Des Barres escreva algo que deixaria o pau do velho Fiódor duro na tumba. É um livro que serve apenas para contar história – o que vale é a mensagem e não a forma como essa mensagem é trazida.

E a história é boa: uma das maiores groupies do fim dos anos 60 e começo dos 70 conta como era vida na sua juventude, quando saiu com Jimmy Page, Jim Morrison, Noel Redding, Keith Moon, Mick Jagger, Chris Hillman, Don Johnson, Waylon Jennings (entre outros) e conviveu com gente como os Zappa, Captain Beefheart, Gram Parsons, Alice Cooper e outras groupies famosas, as GTOs. Para voyeurs, apenas esses nomes soltos já garantem o interesse, mas Pamela vai além. Como eu – e muita gente, espero – cago e ando solenemente para a vida sexual alheia, para mim, a grande sacada do livro é a relação que é traçada entre pessoas e lugares e as milhares de referências en passant de pessoas e lugares.

Pamela estava em todas. A cena psicodélica de Los Angeles, a arte de Cynthia Plaster-Caster em Chicago, o movimento hippie em San Francisco, UK Underground, os bastidores de Altamont Speedway, os bacanais de Vito Paulekas e Carl Franzoni, a vida doméstica de Frank e Gail Zappa, etc etc etc. Ela cita tudo isso em diferentes graus de aproximação e empolgação e essa forma de contar a história é importante para dimensionarmos o tamanho de cada episódio na vida de Miss Pamela e das groupies de Los Angeles.

Confissões de Uma Groupie foi escrito e lançado em 1987, quando Pamela já estava casada com um músico (seu grande, err, sonho), vários de seus amigos e namorados já haviam morrido e seus sonhos de estrelato como atriz e cantora já estavam sepultados. Isso serve para segurar a empolgação do texto (que mesmo assim é bastante deslumbrado) e torna algumas histórias mais sóbrias. E o fato da groupie ter mantido diários durante toda sua juventude, desde a época que era apenas uma pré adolescente fã de Beatles, colabora com a veracidade e detalhamento dos relatos. Há cenas impagáveis, como quando ela e Keith Moon passam uma noite encenando sketches sexuais até o baterista do Who irromper numa crise de choro, eternamente atormentado por ter atropelado seu roadie.

O maior problema do livro se encontra justamente na narração, na forma como as informações são trazidas – justamente o que deveria ser desconsiderado. Mas não dá. Pamela floreia demais as descrições, tudo é “dourado” e “maravilhoso”, todos os rockstars parecem cascas ocas de estilo e maneirismos exagerados com um pau sempre em riste. Daí, pode-se tirar duas conclusões: a que a autora tenta caprichar suas histórias com adjetivos, para que elas pareçam mais interessantes e a que os músicos que sempre imaginamos como os mais autênticos e revolucionários da história eram apenas poseurs sem cérebro iguaizinhos aos moleques de hoje; e as míticas groupies não passavam de garotinhas estridentes e deslumbradas como as que encontramos hoje por todo lugar, de Birmingham a Valinhos.

Provavelmente um pouco dos dois, o que faz cair por terra todos os nossos sonhos lindos com os anos 60 e 70. Nesse aspecto, I’m With The Band, na verdade, presta um serviço, mostrando que nenhuma década foi necessariamente melhor ou pior que outra. As pessoas sempre foram e serão cheias de merda e talento, em igual proporção.

Às vezes, são as coisas mais improváveis que acabam com certas idiossincrasias. Essa é a beleza da vida.

Constatação

É uma delícia acordar cedo e tentar escrever alguma coisa ouvindo os mesmos discos de uma semana atrás. Este ano não vai servir pra escutar os lançamentos, fodam-se os Fleet Foxes e MGMTs de 2009.

Que alívio!

(seja como for, não sou de ferro, e o novo do Moz é bom mesmo, né?)

Tuesday, January 20, 2009

A Solução Para A África.

Depois de muito tempo sem escrever, consegui terminar dois textos em dois dias. Pensei em segurar a publicação deste segundo, mas acho que tanto faz.

Mais uma vez, não passa de um pitaco, e um pitaco bem ingênuo. Além disso, a partir da segunda parte, vão me considerar um porco direitista pior que o Paulo Francis. Quero que se foda, sem brincadeira. Quem acha legal o que acontece por ali merece o empalamento.

***

Sendo direto: a solução para a África não está em sentir pena do continente. Gente como eu e você chega lá só para sentir tristeza e imaginar mil possibilidades e soluções, que nunca se concretizarão. É duro, mas o poder não está conosco, com o povo, e essa é uma triste verdade que eu aprendi a admitir. Vivemos num mundo feio, onde, de fato, é o dinheiro que manda.

A solução para a África está na pura e simples bondade, no altruísmo. Mas não nosso (que poderíamos, sim, ser executores do “grande plano”, mas só). Dependemos, de qualquer forma, do dinheiro de bilionários, xeiques e sultões, como o daquele grande filho da puta que estava prestes a jogar 120 milhões de euros no lixo, ao comprar o passe de Kaká, iniciando assim uma reformulação no insignificante Manchester City. (Aliás, o próprio Kaká poderia parar de doar seu dinheiro para aqueles crentes safados e pilantras e ajudar a construir creches e escolas no Sudão, né?) O que é mais importante? Erradicar o Ebola no Congo ou transformar um time pau-de-bosta em potência futebolística? Agora, o que é mais fácil? E o que é mais confortável?

Isso também ocorre pelo fato de dinheiro e poder (em demasia) tornarem as pessoas más e hedonistas. Porque, além da constatação óbvia de que o investimento na África NÃO trará retorno financeiro por um longo tempo, outra razão para que bilionários e trilionários fechem os olhos para o continente é pura maldade. Em seus próprios países (Butão, Emirados Árabes, Brasil, Estados Unidos, Alemanha, etc.), há pobreza por toda parte e eles preferem continuar comprando milhões de carros, jóias e ações na bolsa.

Pense comigo: dizem por aí que Roman Abramovich perdeu cerca de US$14 bilhões com a crise financeira começada no ano passado. Duvido, mas vamos exercitar a mente. Antes, a fortuna de Abramovich seria de 16 bilhões e teria sido reduzida a 2 bilhões. Efetivamente, o que muda na vida dele? Nada, fucking nada. Imaginem que, ao invés de ter perdido 14 bilhões com a bolsa, ele tivesse doado. Mais do que isso, investido na fiscalização (porque a corrupção lá, assim como aqui, é absurda), presenciando com os próprios olhos o progresso que esses 14 bilhões trariam a algum lugar. Garanto que mesmo o coração de pedra do dono do Chelsea teria se sentido melhor e muito mais pleno. E o melhor: sem mudar nada em sua vida.

Outra solução para a África está em deixarmos o politicamente correto de lado. Foda-se a diversidade cultural, é uma situação drástica e não devemos dar trela para o monte de merda que acontece lá. Fodam-se as tribos que têm rivalidade histórica, foda-se a religião extremista do norte do continente, que continua a mutilar o clitóris de garotas na puberdade. Precisamos parar com tudo isso, colocar todo mundo em roupas confortáveis, dentro da escola e impedir que sigam com suas práticas tribais destrutivas (o que é diferente de tradição e folclore) de 20 mil anos atrás. Pode ser que envolva apenas conversa, pode ser que envolva truculência, mas estamos em 2009, desesperados para arrumar a bagunça que alguém fez ali e isso tem de ser feito.

Não importa. O que não pode continuar é a ignorância que permite que muito do dinheiro que é raramente doado à África seja usado para financiar guerras milenares entre tribos insignificantes que só fazem matar uns aos outros. Não pode continuar a barbárie justificada pela fé, que sempre manterá qualquer lugar anos-luz da civilização.

Sei que o que estou pedindo é ingênuo mesmo. É desejar mudança no âmago da consciência das pessoas. Sinto-me preso a um sentimento de impotência perante a impossibilidade de fazer qualquer coisa sem que para isso seja preciso desembolsar alguns milhões de dólares. Ironicamente, isso só vai mudar quando os milhões aparecerem e mudarem a história, num mundo onde força de vontade vai significar alguma coisa, onde a diversidade cultural poderá ser respeitada sem limites, porque não envolverá carnificina nem humilhação.

Enquanto isso não acontece, vou tentando me acostumar com o banho de sangue.

Monday, January 19, 2009

Dignidade Não Se Compra

Depois de algum tempo sem escrever, consegui rascunhar algumas palavras no Word. O texto a seguir fala de um tema bem batido, mas no fim das contas, como as pessoas em geral não prestam atenção em nada, é bem capaz que nunca tenha ocorrido esse tipo de pensamento a muita gente. Seja como for, é a minha visão para o assunto e já que deu vontade de falar sobre, fiz que nem os Menudos e não me reprimi.

Além disso, mudei o layout, seguindo a idéia do layout anterior, mas com um novo jogo de cores e novos personagens no banner. Pra quem não sabe quem são, em sentido horário a partir do canto superior esquerdo: Brian Jones, Monica Mattos, Meg White, Tony Ramos, Pamela Miller/Des Barres, Lisa Kekaulas e Muricy Ramalho.

***

Faz parte de um ciclo normal entre fãs de rock, obviamente com exceções, apaixonar-se por AC/DC ali pelos 15 ou 16 anos. Isso faz muito sentido porque todo o sex appeal do AC/DC vem de justamente não forçarem sex appeal. Eles formam a banda mais destrutiva, irônica e arruaceira de todas do tal rock clássico, basicamente como todo moleque de 16 anos quer ser. Num mesmo disco, eles cantam sobre o melhor boquete, sobre ser um garoto-problema e sobre o gênesis do rock and roll. E, no meio da adolescência, o que mais importa?

Para mim, no entanto, esse senso de adolescência tardia do AC/DC, que a transformou na banda número um dos garotos roqueiros de 16 anos com vida social, funciona só até a morte de Bon Scott – ou, sendo menos chato, até Back in Black, álbum que significa, ao mesmo tempo, adeus a Bon e uma ruptura com o AC/DC antigo.

Implico muito com Brian Johnson, mas a culpa não é dele. Sem seu principal letrista, Angus e Malcolm provavelmente perceberam que uma nova atitude deveria ser tomada. A bola do sucesso já havia sido levantada com Highway to Hell e a banda finalmente se tornou o jumbo mercadológico que é até hoje (é quase inacreditável o quanto Black Ice vendeu no ano passado), o que consistiu numa cortada melhor que qualquer uma do Giba. Marketing pesado e um som mais consistente para o mercado roqueiro-casca-grossa americano substituíram o tal sex appeal não forçado e renderam, além de uma imagem onipresente no mundo do rock and roll, milhões de dólares à banda, empresários, tour managers e quem-mais-você-puder-imaginar.

Ainda assim, se eu fosse do AC/DC, não continuaria. É ingênuo pra caralho pensar desse jeito, mas música é um negócio sério pra mim. E eu também acho que genuinidade é uma coisa muito rara e meu orgulho astronômico me impediria de minar a imagem e o apelo de uma banda como o AC/DC, se eu mandasse alguma coisa ali. As pessoas me olham atravessado quando eu digo que depois de Back in Black eles só lançaram merda, mas mesmo os fãs mais devotos não podem negar que o material lançado após essa época é “menos bom” do que o anterior. Ingenuamente ignorando o fator comercial, é por isso que sou contra voltas de bandas ou substituição de membros importantes que se desligaram por algum motivo.

Um músico bom e com alguma dignidade deveria ser capaz de criar música boa sem depender do respaldo de fãs antigos ou a segurança de uma marca forte. Jeff Beck, Dax Riggs, Curumin, Johnny Marr, Lauryn Hill, Jack Irons, Rodrigo Amarante, Richard Hell, Mike Patton – são alguns nomes bem randômicos de pessoas que não tiveram medo de abandonar projetos e começar outros, ou manter ambos simultaneamente. Por mais que eu goste muito mais de AC/DC do que, digamos, Fantomas, não posso deixar de admirar mais as atitudes de Mike Patton do que as de Angus Young, pelo menos nesse âmbito.

Pode parecer óbvio para quem trabalha com música, mas não é todo mundo que saca que comebacks como o do Police ou o do Alice in Chains significam a derrota da música e a vitória do dinheiro. Ao comprar o disco novo do, hummm, Blind Melon, você está incentivando o preguiçoso, o que tem medo de ousar (além de cuspir na imagem de Shannon Hoon).

Para você pode não significar nada, mas para mim é importante. Porque acima de tudo, o que eu mais quero evitar nesta vida é premiar o indolente, o aproveitador e ignorar o esforçado.

Monday, January 12, 2009

3 Anos

E alguém duvida que 2009 vai ter ainda menos postagens (e leitores)?

Thursday, January 01, 2009

A Primeira Verdade de 2009

Só vi a entrevista do Amarante para a Trip hoje. Apesar de eu ter desconfiado bastante do fim do Los Hermanos e ter detestado Little Joy, ele continua sendo um dos caras mais respeitáveis da música brasileira atual.

A pergunta e a resposta abaixo firmam, praticamente, um dogma:

P: Às vezes tenho a impressão de que o jornalista cultural está mais preocupado em parecer que faz parte do circuito do que em entendê-lo. Que prefere fazer parte da fofoca a ir além dela.
R: Isso mesmo. Acho que o recalque vem um pouco daí também, de uma frustração. Aí fodeu, não vai ficar bom mesmo. É aquele mesmo lance da música, fazer pra receber em vez de fazer para dar algo. Principalmente em jornalismo cultural, que envolve muito ego, vira um exercício de chupação do próprio pau, de tentar fazer uma carreira baseada na persona, menos que no conteúdo em si, na visão.


Que neste ano, todos que escrevem sobre cultura admitam essa verdade e, a partir daí, resolvam seus problemas de auto-afirmação. Se isso acontecer, já garantiremos um 2009 com textos, matérias e resenhas mais dignos. É pouco, mas não deixa de ser alguma coisa.

Saturday, December 27, 2008

New Year's Eve

Sou contra esse lance de usar letras/textos dos outros pra expressar o que se sente, porque na real, nós mesmos temos que fazer essas coisas. Mas desta vez, seria inútil escrever qualquer outra coisa que não fosse a letra de New Year's Eve, do Kashmir.

new year's eve
fine dark suits
paper hats
les grands salutes

your tear stained speech
and your wounded eyes
your frail attempts
to be remembered -

takes me down
dries me out
it shoves me around
blows my flame out

the moon is on
and the morning lurks
but the mood is gone
with the fireworks
I lost my faith
in new year's eve

serpentines
cheap cigars
sparkling wine
fallen stars

it's time to quit
and start again
only god knows
what we're celebrating


Seja como for, que 2009 seja melhor (ou "ainda melhor", se seu 2008 já foi bom) do que este ano. No fim das contas, não dá nada desejar o bem - mesmo nesses momentos clichês e constrangedores.

Beijo.

Tuesday, December 16, 2008

Top 10 2008 - Os Shows

Os melhores shows que eu fui neste ano. =)
Menções honrosas para Kashmir, que por um mês não fez parte de 2008, The Streets, que eu desperdicei por estar meio alterado, e Yeasayer, que só presenciei três músicas, por ter preferido ver Streets (que não curti por estar benloco). Irônico, né?


10. Slayer – Roskilde Festival, 06/07
Das bandas brutais que existem na Terra, Slayer é a mais classuda de todas. Sim, Kerry King é um idiota, mas quando ele e Jeff Hanneman pegam suas guitarras pra tocar, nada pode ser mais pesado e catártico. Tom Araya é outro monstro e, a roda de pancadaria que se forma na platéia, apesar de uma das coisas mais burras que podem existir, é extrema, assim como o show. Assisti colado na segunda grade do Orange Stage, onde tudo ficava mais calmo e a visão era perfeita. Grande, grande show.

9. Black Mountain – SP Noise Festival, 21/11
Puta show. Clima aconchegante, mas pesado, tudo perfeito. Porém, muito curto. Tivesse uma hora a mais, teria sido o número um, sem nenhuma dúvida.

8. Curumin – Galeria Olido, 29/10
Último show da série que Curumin fez na Galeria Olido. Foi pau a pau com o que ele faria uma semana depois, no Planeta Terra, mas escolhi este pelo fator intimidade. Na verdade, Curumin estava ali tocando para amigos (era incrível o número de gente presente que conhecia o músico pessoalmente), no centro de São Paulo, um dos lugares mais incríveis do país, de costas para a janela, onde os transeuntes iam passando. Além disso, contou com discotecagem entre as músicas e participações de MCida e Kamau. Curumin em seu melhor momento, tocando para e com amigos. Merece o oitavo lugar.

7. Gogol Bordello – Tim Festival, 24/10
Teve tudo o que uma boa apresentação necessita (performance, som bom, repertório, energia e etc.) e duas minas muito bem apessoadas de shortinho tocando bumbo e dançando. Não carece de mais, né?

6. The Campbell Brothers – Roskilde Festival, 06/07
Banda com uma guitarra lap steel, uma guitarra pedal steel, guitarra, baixo, bateria e uma “vocalista-soul” tipo Lisa Kekaula (The Bellrays). Cantando música gospel. E sem soar cansativo. Campbell Brothers junta tudo o que acontecia no sul dos Estados Unidos nos anos 30 numa performance sensacional, de fazer inveja a qualquer banda de hard/blues rock dos anos 70. É pra ficar até meio religioso.

5. Radiohead – Roskilde Festival, 03/07
Sessenta mil pessoas olhavam atônitas para Thom Yorke, Phil Selway, Ed O’ Brien, Jonny e Colin Greenwood. Uma das bandas mais geniais da nossa geração estava insana no maior palco de um dos maiores festivais europeus, com o sol se pondo ao fundo. Sem contar a música, já garantiria um lugar nesta lista. Mas a música conta, sim, e o que tivemos ali foi um dos melhores setlists que alguém poderia esperar. O final, com Thom Yorke sozinho no violão, ladeado por seus companheiros de banda, ouvindo a platéia cantar o refrão de Karma Police a plenos pulmões, foi um dos momentos mais bonitos que eu já presenciei.

4. Dan Deacon – Tim Festival, 24/10
Pelo aspecto punk de seu show (que acontece no chão, junto com a platéia, sem nenhuma barreira), Dan Deacon poderia apenas apertar play e se acomodar. Já seria motivo de notícia, já seria alvo de hype. Mas o que ocorreu no dia 24 de outubro foi das coisas mais incríveis. Dan Deacon revertia o som de gameboy de seu disco mais recente em uma balada de música eletrônica pesada e pulsante, comandando a platéia, fazendo todos obedecerem-no, mexendo o corpo, fazendo quadrilha e roda de dança. Intenso pra caralho.

3. Queens of the Stone Age – KB Hallen, 24/02
Nada mais precisa ser dito.

2. Solomon Burke – Roskilde Festival, 05/07
Imagine a cena: Solomon Burke canta várias de suas músicas e um sem-número de sucessos do soul e do blues, homenageia grandes nomes da música negra, principalmente seu parceiro Otis Redding, com uma versão de emocionar de Dock of the Bay e, após tudo isso, não quer terminar seu concerto. Simplesmente. As cortinas se fecham e Big Sol pede para alguém da sua banda abrir, para continuar saudando o público. As cortinas se fecham novamente e ele não se levanta de seu trono dourado com veludo vermelho (sim, tinha isso, pra ficar perfeito) e ordena que a banda continue tocando. O público delira, não pára de aplaudir nem quando a organização do festival corta o som e entra o apresentador do palco (Arena) para anunciar a pausa até a próxima atração. Cinco minutos ininterruptos de palmas. Uau.

1. Gnarls Barkley – Roskilde Festival, 04/07
Pode parecer forçado que o primeiro lugar nos álbuns tenha também o melhor show, mas o que eu vi no dia da independência americana foi uma banda em sua melhor forma. Sim, uma banda. Gnarls Barkley ao vivo transcende o duo Cee-Lo Green e Danger Mouse Burton. Todos disciplinados, unidos, uniformizados e, ainda assim, cada um com sua própria postura. Meus favoritos são o grande guitarrista (que enfia solos nas músicas mais improváveis) e a baixista gordinha que é cool como gelo. Danger Mouse é mais descolado ainda e não tira os óculos, não troca palavras, apenas senta e toca seu teclado ou seu xilofone. Mas não de uma forma arrogante ou antipática, apenas cool.
Seja como for, nada disso seria tão legal se Cee-Lo não estivesse ali entretendo a platéia, cantando a plenos pulmões, comentando o clima e elogiando o cheiro de maconha que emanava no ar (não pra mim, não senti nada). Cee-Lo mostra que gosta do palco, das pessoas, sorri, senta na beira do palco, interage, esquecendo todos os seus problemas de auto-estima.
Ainda diz no final, durante o bis: “vocês sabem que nós somos fãs de música e como fãs de música gostamos de tocar coisas dos outros”. A bateria é inconfundível, a guitarra também. Gnarls Barkley está tocando uma versão de Reckoner ainda melhor do que a que o Radiohead havia apresentado no dia anterior, precedida por Who’s Gonna Save My Soul e seguida por Smiley Faces. Não menos que sensacional, a banda do ano.

Friday, December 05, 2008

Top 10 2008 - Os Discos

2008 foi uma merda para mim, na vida pessoal. Musicalmente, no entanto, não houve ano melhor nestas 19 primaveras. Mais do que descobrir bandas, abri minha cabeça para estilos. Conheci um monte de coisa nova, aprendi a dar valor a certas coisas e percebi o que é realmente ruim. O rock, que eu tanto gostava, ficou ainda melhor depois de aprender a respeitar o hip hop, por exemplo, que eu tanto menosprezava. Ao não depender de uma coisa só, você começa a filtrar o que de melhor há em cada uma. Fui muito, muito burro em não perceber isso antes, em demorar 18 anos e alguns (poucos, vai) meses para colocar toda essa coisa em prática. Música está acima de quase tudo, portanto é coisa de mãe-na-zona se limitar.

Além disso, fui nos melhores shows da vida neste ano. A temporada na Dinamarca ajudou, mas no Brasil também houve coisas muito boas, como Dan Deacon, Gogol Bordello, Black Mountain, REM e mesmo meu conterrâneo Curumin.

Para mim, os últimos 12 meses contaram com pelo menos 25 discos muito bons, e uns 5 não menos do que geniais. Até por isso, neste ano fiz uma lista com 20 títulos. Escrevo aqui sobre os 10 primeiros, mas não custa citar os outros. Compõe também meu top 20 os discos novos de:

Sigur Rós, The Last Shadow Puppets, The Raconteurs, Black Mountain, Turbo Trio, Wado, Isobel Campbell & Mark Lanegan, Brant Bjork, The Streets e Duffy.

Agora, o top 10, pra comentar na escola e parecer bacana:


10. The Bug – London Zoo
Na real, o décimo lugar foi praticamente um empate técnico entre este do Bug, o quinto do Sigur Rós e o Last Shadow Puppets. Pessoalmente, escolhi o primeiro por ser a representação do quanto meu gosto musical mudou, e o quanto isso foi positivo. Em favor da música, posso dizer que o trabalho do DJ inglês Kevin Martin é dubstep grave pra caralho, com o baixo clipando, perfeito pra pista, ou estourando um, ou pra ouvir no ônibus lotado (principalmente as duas primeiras faixas, meio pessimistas, o que casa muito bem com um ônibus lotado, o mais próximo do inferno que chegamos no cotidiano). Poison Dart, com a MC jamaicana Warrior Queen, é uma das melhores músicas do ano.


9. N.E.R.D – Seeing Sounds

Bons produtores musicais, via de regra, são ecléticos. O N.E.R.D, de Pharell Williams, externa esse conceito básico quando mistura quase todo tipo de “música popular americana da segunda metade do século XX pra frente” (às vezes eu exagero?) em seus álbuns. No terceiro, encontra-se música para dançar tipo Spaz e Anti Matter, levadas pro hip hop como em Everyone Nose e Time for Some Action e até mesmo rock meio oitentista em Happy. Seeing Sounds, no fim das contas, é mais um expoente da época eclética e iconoclasta em que vivemos. E o nono lugar da lista anual de Jambo Ookamooga, a maior honra de todas.


8. Coldplay – Viva La Vida or Death and All His Friends
Coldplay era pra ser uma merda, certo? Uma banda meio sem graça, fresca, um U2 moderno... Viva La Vida foi um choque para mim, porque é na verdade muito, muito bom. Em geral, o estilo meloso das músicas é mantido, provando que as composições em si não eram ruins, mas sim os arranjos. Brian Eno teve uma participação fundamental, assim como os novos ritmos que ele deve ter apresentado a Chris Martin e sua turma. Provou que toda banda – até o Coldplay – tem chance de se redimir.



7. Apes & Androids – Blood Moon
Blood Moon é o tipo de disco que tem apelo com críticos e fãs. Com críticos por dar a eles a chance de desfilar seu formidável conhecimento enciclopédico apontando todas as dezenas de influências da banda, e com fãs por ser extremamente pop. É um pouco como o disco do N.E.R.D, com a diferença da porra-louquice, da juventude, que o Apes & Androids passa com a música. O segundo melhor début do ano.



6. Eagles of Death Metal – Heart On
Josh Homme é Deus. Qualquer dúvida que eu tivesse em relação a isso se dissipou com Heart On, por ser o melhor disco do EODM justamente quando Carlo Von Sexron/Baby Duck mais aparece. É claro que Jesse Hughes também é importantíssimo, principalmente por ser o único que parece conseguir extrair a veia humorísta de Josh num disco. Heart On, Cheap Thrills e Secret Plans, por exemplo, têm a identidade das águias, mas estão mais bem acabadas, com timbres de guitarra trabalhadinhos, o tipo de carinho que só o QotSA recebia.



5. Okkervil River – The Stand Ins

Em 2007, quando ouvi The Stage Names, foi como se uma luz brilhasse sobre minha cabeça. Por mais que todo mundo esteja fazendo esse som meio “Arcade Fire tocando Americana” (viajei demais?), ninguém o faz melhor que o Okkervil River. Não só isso, poucos têm a sagacidade das letras e perspectiva pop de Will Sheff. The Stand Ins é ainda melhor do que seu antecessor e faz pensar que é realmente uma pena que a banda só tenha recebido atenção quase dez anos após sua formação. Escute Pop Lie, Blue Tulip e In Tour With Zykos, no mínimo.



4. Kings of Leon – Only by The Night
Duas coisas me impressionaram nesse álbum, além do som em si. Das principais bandas indies-roqueiras do começo da década, Kings of Leon foi a primeira a chegar ao quarto álbum (Strokes, Interpol, Arcade Fire, Franz Ferdinand, The Killers, nenhuma chegou a essa marca). O outro aspecto admirável de Only By The Night é o fato de ele se mostrar muito mais maduro do que Because of the Times. Apontou que, mesmo depois das mudanças de som e estilo, os caipiras não se acomodaram, e continuam tentando fazer música cada vez melhor e melhor. Não dá pra partir pro clichê e dizer que “isso é raro hoje em dia”, mas entre bandas de rock indie, é raro, sim.


3. Curumin – Japan Pop Show
Luciano Nakata Albuquerque é um sujeito iluminado. É um dos caras mais sangue-bão da música brasileira, faz música boa para cacete e ainda conhece/trabalha com as pessoas mais legais do pop nacional. Além de tudo, mistura dub, samba, samba-rock, hip hop. E bem! Não só o melhor disco brasileiro do ano, Japan Pop Show é também o mais importante.



2. Yeasayer – All Hour Cymbals

Tem alguma coisa especial no Brooklyn. TV On The Radio, MGMT, Apes & Androids, Vampire Weekend… Todas essas bandas surgiram há pouco tempo na região, todas com uma veia “art rock”, todas muito legais... Mas nenhuma supera o álbum de estréia do Yeasayer, banda-irmã do mesmo lugar. Pelo menos no meu gosto, e eu nem tenho como explicar isso. Não sou muito fã de world music, corinhos hippies, e coisa do tipo, mas as canções do disco, todas muito boas, e as incursões eletrônicas criam um clima diferente. Eu não sou mais a mesma pessoa desde que ouvi No Need to Worry (sem brincadeira) e, como isto aqui é um blog pessoal, é motivo o suficiente para o Yeasayer estar na segunda e merecidíssima colocação do ano.


1. Gnarls Barkley – The Odd Couple
É a perfeição. Marcando o ano das misturas musicais (ou pelo menos, da descoberta delas por parte deste que vos escreve), a mais insana de todas. Danger Mouse é o maior produtor da atualidade e Cee-Lo o melhor cantor e um dos letristas mais sombrios. É notável como uma banda pop alcança tanto sucesso com letras tão pessimistas, carregadas, sofridas (Cee-Lo me lembra Tim Maia nesse aspecto, a do cantor extremamente talentoso, mas com sérios problemas de auto-estima por conta de sua aparência física). Danger Mouse faz as melhores bases instrumentais do mundo, com xilofones, sintetizadores, baterias e guitarras, ora mantendo o clima desesperado das letras, ora contrastando com elas, como que se manipulasse as emoções da música. Um exemplo da amálgama perfeita entre os dois é, também, o melhor momento musical (em álbum) do ano: a voz do cantor tornando-se, num ponto indefinido, uma motosserra em Would-Be Killer. Matador, mesmo.

Monday, December 01, 2008

Tom Zé, Caetano Veloso E Sua Influência Seminal na Blogosfera Anarco-musical Tupiniquim (Ou O Porquê de Não Se Recomendar Usar Ácido em Demasia)

http://www.rollingstone.com.br/secoes/novas/noticias/3975/
"No fim do espetáculo, Tom começou a agradecer a presença de amigos conhecidos e jornalistas e trouxe para a cena um "desentendimento" que até aquele momento estava restrito ao blog de Caetano Veloso e ao seu."

Escrever um blog é essa coisa vergonhosa que é por causa de filhos da puta desse tipo. Quem é que briga via blog, cara? Quão fundo é o poço pra uma pessoa que se "desentende" com outra através de uma treta de diário virtual?

Eu, particularmente, uso isto aqui pra publicar meus textos, não pra brigar com alguém ou ficar de chororô. Mas aí, aparecem dois ex-músicos em atividade falando bosta e fica parecendo que todo mundo é punheteiro assim. No fim das contas, bem disse Noel Gallagher: " blog is for someone who’s got no mates". O problema é que, assim como ele, "I've got more than a dozen [mates]."

Então fica combinado que, a partir de hoje, isto aqui não é mais um blog. É um diário de viagem. Graças ao Tom, ao Caê e ao Noel, grandes caras.

(no mais, até o fim da semana, posto o top 10 de discos de 2008, já que não tenho vida, mesmo)

 
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