Lembram deste texto aqui? Encontrei esta imagem no blog do Alexandre Matias e, embora seja só piada, não sei não. Faz algum sentido para mim, que não duvido da podridão de nada.
Wednesday, August 03, 2011
CQD
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Jambo Ookamooga
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Tuesday, April 05, 2011
O Dia que Mike Skinner Virou Ned Flanders
Durante o começo dos anos 2000, Mike Skinner era o melhor amigo que um garoto de 17 a 23 anos poderia ter. Seu projeto/pseudônimo/extensão de personalidade The Streets falava sobre tomar toco das minas, o eterno conflito entre as substâncias lícitas e ilícitas, sair de noite com os amigos, começar um namoro, porres e festas memoráveis e tudo mais. E além de todos esses temas adequados à molecada da nossa idade, ele também nos entendia.
Sem soar piegas ou professoral, dava verdadeiras lições de vida, mesmo que seu primeiro álbum, Original Pirate Material, tenha sido feito quando Skinner tinha 23, 24 anos. Empty Cans, última música do álbum seguinte, A Grand Don’t Come For Free, é a melhor de todas nesse sentido (e merece um ou dois parágrafos só pra ela).
Na canção de 8 minutos dividida em duas partes, o ponto em comum é o mesmo beat. É bom lembrar que se trata de um álbum conceitual e quando chegamos nessa faixa, o personagem principal já se fodeu legal. Daí Skinner começa a primeira parte da canção, pessimista, dizendo que ninguém se importa com ele e por isso está agindo mal. Toda a sonorização dessa primeira metade é árida, irritada, e os beats vão pelo mesmo caminho: ódio e resignação sangram pelos falantes. Depois, a música muda. O mesmo beat recomeça, mas, diante de uma visão de mundo mais otimista, ele ganha ares de motivação, te leva para frente.
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Este cara... |
Em 2006 foi lançado The Hardest Way to Make an Easy Living, onde Skinner chora as pitangas de ser famoso. Estaria Mike se distanciando de nós? De certa forma, sim. Mas quem dos nossos resistiria à tentação de reclamar da champanhe, premiações da MTV e do dinheiro? Skinner é da galera e é igualzinho à gente: um moleque reclamão. E mesmo assim a linguagem continua próxima da garotada. Ele reclama, por exemplo, como é difícil pegar uma mina famosa quando ficou tão fácil descolar uma metidinha com uma anônima. Mais moleque impossível.
Everything is Borrowed, de 2008, é mais complexo. As letras voltam a ser motivacionais, mas talvez motivacionais demais. Mike perdeu sua juventude, seus beats estão cada vez mais sofisticados e os conselhos começam a tomar aquele tom professoral. Contudo, mesmo que tenha mudado (queria mesmo escrever “perdido”, mas os puritanos da música me empalariam) seu estilo, algumas das músicas são simplesmente... lindas. A faixa-título, por exemplo, tem uma bela melodia e diz: “Eu vim para o mundo sem nada e irei embora sem nada além do amor. Todo o resto só está emprestado”. Mesmo um pivete beberrão pode encontrar beleza nisso aí num momento extremamente otimista.
Mas mesmo que ainda interpretasse o papel de válvula de escape com maestria, Skinner deixava claro, pelo menos para o bom entendedor, de que havia mudado para sempre. Faixas terríveis como You’re The Strongest Person I Know não deixavam dúvida de que ele está agora numa fase da vida em que um elogio bom para uma mulher é dizer que ela é “forte” e não uma “gostosa que está ligada disso”. Não me leve a mal: sou meio idoso no espírito e acho que mulheres fortes e independentes e tudo o mais são incríveis. Eu amo todas elas e odeio todas as menininhas imaturas, sem brincadeira. Mas não é isso que a gente quer ouvir quando aperta play num disco do Streets. Muito menos se for uma música tão ruim, tão piegas, tão mal cantada, que não se justifica como faz Everything is Borrowed.
Veio o Twitter e, como toda boa celebridade quase-velha, Skinner pirou. Não parava de postar todo tipo de mensagem, foto e música. Sim, várias músicas! Durante essa fase tuiteira, ele provou como é um produtor prolífico. E nos brindou com pelo uma grande canção, dona de uma ironia típica do velho Streets: He’s Behind You, He’s Got Swine Flu. Exatamente, ele foi capaz de fazer uma música (e um vídeo!) sobre o vírus H1N1 poucos dias depois do pânico se instalar na nossa sociedade maravilhosamente hipocondríaca. Lembra que chegaram até a dizer que os vitimados com a gripe suína poderiam virar zumbis? A resposta de Mike foi taxativa: “faça um sacrifício pela sociedade; decapite seu amigo”.
Promissor, não é?
Tão promissor que quando Computers and Blues saiu no começo deste ano, me pegou de calças curtas. Pior, me pegou de shortinho de lycra e polainas. Ainda estou tentando entender como é que a ruindade do álbum me foi tão surpreendente. Porque se você parar para pensar, do jeito que as coisas vinham vindo, Computers and Blues só podia ser como é.
E como ele é? Piegas e professoral. Cheio dos truquezinhos de produção e refrões soulzísticos de fazer corar os piores one hit wonders de dance music dos anos 90. E Mike, que nunca foi de fato um bom MC (mas compensava com fúria e ironia), agora praticamente recita suas letras sobre esses temas sonoros insuportáveis. Mais ou menos como Pedro Bial fez naquele seu projeto do Filtro Solar.
Mas é a outra celebridade televisiva que mais associo Skinner hoje em dia. Ele é bom, compreensivo, amoroso e justo assim como Ned Flanders. Sua forma de lidar com seus problemas é idêntica à do eterno personagem da segunda parte de Empty Cans. Mas Empty Cans não é bela apenas pela melodia de sua metade otimista. A principal virtude da música é misturar indignação e ternura na mesma medida, assim como todos nós.
Mike Skinner perdeu suas forças porque se tornou um personagem secundário de série de TV. Se ao menos ele soubesse que os heróis só são o que são por causa de seus defeitos...
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..virou este cara. |
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Jambo Ookamooga
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Tuesday, March 01, 2011
Orwell Ficou Porque Tem Bolo
Todo mundo já falou sobre este livro, mas originalidade é superestimada, mesmo...
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Li essa versão bonita - o Grande Irmão que mandou comprar |
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Jambo Ookamooga
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Monday, December 13, 2010
Os 10 melhores discos de 2010
Como sempre, fiz minha listinha. E como pelo primeiro fim de ano na história deste blog (e desta vida) estou empregado, coloquei o top 10 direto no site da Mixmag, onde estou trabalhando. As explicações estão todas aqui e aqui. No blog ponho só a lista. Mas recomendo acessar os links e prestigiar o trabaio dos irmão.
10. Spilling Over Every Side - Pretty Lights
9. Mundialmente Anônimo - Maquinado
8. This Is Happening - LCD Soundsystem
7. Say Goodnight To The World - Dax Riggs
6. Efêmera - Tulipa
5. Sea of Cowards - The Dead Weather
4. Mini Mansions - Mini Mansions
3. Plastic Beach - Gorillaz
2. I'm New Here - Gil Scott-Heron
1. Grinderman 2 - Grinderman
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Jambo Ookamooga
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Tuesday, November 30, 2010
"Parem de Lucrar com a Miséria Alheia"
Nunca pisei numa favela. As circunstâncias do mundo em que vivemos transformam essa afirmação numa coisa feia, é como se eu estivesse assinando meu atestado de playboy. Mas poxa vida, é verdade: nunca pisei numa favela. Vou mentir por quê?
Favela é um lugar de merda. Obviamente tem o tráfico, o esgoto a céu aberto, barracões que mal conseguem se manter em pé, acesso dificultado e se for em morro ainda rola uma subida filha da puta (playboys paulistas, mimados e hipócritas como eu, passam pelo mesmo drama quando sobem alguma rua em Perdizes a pé, ha ha ha). Não tem como gostar desse lugar, de morar nesse lugar. Deus abençoe o morro, dele saiu um dos dez maiores gênios brasileiros (me refiro ao Cartola, mas dá pra pensar em muito mais gente que mereceria o título), mas aquilo ali não é lugar decente pra ninguém.
Daí dá a merda que deu no Rio e alguém acha que é legal subir o morro e acabar com o tráfico. Sobem, tiram os traficantes, prendem todos. Tem gente que acha que deviam era ter matado. Sei lá. O fato é que tiraram os traficantes do morro, estão tentando fazer alguma coisa contra o poder deles. E você sabe como é traficante, né? Traficante pica-grossa vive na favela como se fosse um monarca, manda e desmanda. A maioria é sangue ruim mesmo, gente que não vale a pena continuar viva. Mas olha aí, a PM não matou nenhum.
Mesmo assim, rola uma patrulha chatíssima de gente que manja de favela tanto quanto eu, gente que é esperta pra chuchu, que é justa pra dedéu, que sabe de tudo. Gente que fica no twitter o dia inteiro desmoralizando "a classe mérdia". Que acha que é feio que a população queira a execução de traficantes. Acontece que é muito fácil falar, do seu apartamento com acesso à internet banda larga, que porra, a favela é legal sim. É muito fácil desenhar suas tirinhas cômicas super sagazes e críticas e jogar no G1 como a sentinela do bom senso. É muito legal pagar de compreensivo e esquerdete pra comer as menininhas e ter a admiração dos colegas do curso de jornalismo.
A real é que o povo diz que quer a morte dos bandidos porque é assim que o povo se expressa. Porque a voz da massa fala da forma menos sofisticada e mais direta. Mais vale, em vez de fazer oposição burra e hipócrita a um clamor que é mais um slogan do que qualquer outra coisa, abstrair a ignorância e entender o recado. A população cansou da violência e "eliminar os vagabundos", seja com tiro, seja trancafiando num presídio, serve como simbolismo para isso tudo.
Se nada for feito depois, vão aparecer outros traficantes. Se não aparecerem traficantes, serão milicianos. Se não forem milicianos, vai ser alguma outra merda, alguma outra falcatrua que vai render muito dinheiro. "Sobe o morro e mete bala" é, ou deveria ser, apenas um equivalente a "parem de lucrar com a miséria alheia".
As soluções parecem óbvias: condições básicas (saúde-educação-cultura-trabalho), legalização das drogas, penas severas aos corruptos que fomentam a insolucionabilidade de todos esses problemas... Nós, playboys que nunca pisaram na favela e postam tirinhas perspicazes no G1, devemos agora brigar por tudo isso, fazer com que essas medidas sejam finalmente implantadas. Ironizar uma manifestação espontânea popular, no entanto, não ajuda em nada, apenas mostra praquela gatinha o quanto você é justo, compreensivo e defensor dos direitos humanos. Super fofo da sua parte, hein?
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Jambo Ookamooga
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Tuesday, November 23, 2010
Paul Macca
Saiu originalmente aqui.
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Jambo Ookamooga
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Sunday, October 10, 2010
Dave Matthews e Sua Banda de Mangá
Durante o feriado, enquanto espero pelo Grande Dia, resolvi reler meus mangás de Dragon Ball, que estão aqui na casa da minha mãe. Não sei dizer se Dragon Ball seguiu alguma coisa já existente ou se é o começo de tudo, mas definitivamente sua narrativa - tanto o ritmo quanto os clichês, que estão todos ali – segue o padrão clássico de quadrinhos da revista japonesa Shonen Jump.
Esse tipo de forma de contar uma história e agregar valor a seus personagens é uma coisa tipicamente japonesa. É um lugar comum que nem as novelas por aqui. Mas qualquer um que já tenha lido os quadrinhos ou assistido a desenhos como Naruto, Yuyu Hakusho e Cavaleiros do Zodíaco percebe um padrão.
Mais ou menos assim, geralmente há um personagem principal com características marcantes, alguma excentricidade e personalidade de líder. Conforme a história avança, o herói vai encontrando pessoas em diversas situações inusitadas, que geralmente só acontecem por causa de uma aventura ou por causa de uma busca. Um caso clássico e que ultrapassou as barreiras do interesse por quadrinhos e cultura japonesa é o de Pokémon. Na trama, Ash Ketchum vai conhecendo companheiros e antagonistas, cada um representando um tipo de pessoa no universo em que o mangá acontece. Seus pokémons meio que refletem ou completam suas personalidades e têm suas características peculiares também.
Nunca li um quadrinho sobre uma banda, mas acredito que se existir um e ele tiver esse ritmo de “busca” ou “aventura”, pode ser facilmente imaginado. Visualizo um vocalista-líder percebendo que só conseguirá tocar suas músicas da forma que elas devem ser tocadas se encontrar a banda perfeita. Para isso, ele embarca numa jornada pelo planeta atrás dos melhores músicos. O clichê indica que o percussionista seria um africano, que encarnou o espírito de Fela Kuti, o naipe de metais seria formados por músicos durões de New Orleans, etc etc etc. Chamo atenção para o hipotético guitarrista, um cara meio excêntrico e sombrio. Haveria também um músico extremamente leal e o “garoto”, aquele músico jovem e talentoso, mas ainda meio imaturo e a gente pode continuar nessa por horas.
Esse grupo dos mangás existe e tem nome: Dave Matthews Band. A incrível jornada do carismático Dave o levou a montar a banda “de músico” mais bem sucedida da nossa geração. Com seus poderes, os integrantes da orquestra tentam mudar o mundo através da música, sempre com muita personalidade e carisma. Durante sua turnê pelo mundo, Dave e sua turma encontram inimigos ardilosos, rivais honoráveis e aliados preciosos.
Ou quase isso. Sempre reservei um certo desprezo pela Dave Matthews Band sem saber por quê. Quer dizer, é uma puta música de bicha, de casalzinho em lua de mel e de casalzinho bicha em lua de mel. Normalmente ignoro esse tipo de caso, torcendo só para que apertem pause o mais rápido possível, mas desde o começo considerei silenciosamente o DMB a grande mancha negra no cast do SWU, pior que Jota Quest e Capital Inicial, muito pior do que Linkin Park, talvez só um pouco menos aceitável do que a hedionda Avenged Sevenfold. A birra foi se explicar só hoje há pouco, quando assisti à transmissão do seu show pela TV.
O grande problema é cada integrante parecer um personagem, um bravo guerreiro da música ocidental, guiado pelo seu líder cheio de empatia. Cada um desses músicos parece um boneco colecionável, com seu cabelo peculiar e sua técnica apurada. Quer dizer, chega um ponto em Dragon Ball em que os poderes dos personagens mais importantes é tanto que destruir o mundo é parte da rotina, é só mais um hematoma numa luta que vai para níveis não-terrenos. E os rapazes continuam super descolados!
A Dave Matthews Band esbarra nisso. A técnica de cada Davezette é tanta que nenhuma música parece complicada o suficiente. Mesmo assim, eles recusam a “tarefa” de tocar música erudita ou “punheta” que seu “ dom” impõe. Continuam fazendo música pop, vendável, sexy, compulsiva, sempre com um sorriso brilhoso. Tem o baterista rasta de camisa de time de futebol americano, o guitarrista com óculos vermelhos extravagantes e muitas caras e bocas durante o solo, o violinista com roupa de rapper e cabeleireiro do Djavan...
Todos eles aliens de diferentes planetas que nunca interagiriam se não fosse o carisma conciliador do Grande Dave. Eles parecem como Kuririn e Piccolo em Dragon Ball, Brock e Misty em Pokémon, Yahiko e Sanosuke em Samurai X (para ficarmos nos mais populares) e mais uma infinidade de personagens sem nada em comum de uma infinidade de mangás que nunca lemos.
Já passei da fase dos mangás. Com 14 anos, aquelas histórias pareciam geniais e originais, mas hoje em dia, consigo encontrar todas as repetições que eles trazem. Seja como for, ainda curto dar uma relida neles de vez em quando. O que não curto de jeito nenhum é ver esse tipo de narrativa parecer se repetir na música. Ainda mais sendo o personagem principal o boa-praça -coração-de-ouro Dave Matthews. A música pop só existe por causa dos anti-heróis.
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Jambo Ookamooga
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Friday, October 08, 2010
Podreira na Danceteria
Último texto a sair pela Tribuna de Indaiá. É diretamente relacionado a este post aqui, que saiu também pelo jornal (mas acabou saindo antes no blog), mas contemporiza um pouco a coisa, ou seja, fala de discos atuais. Quer dizer, isso tudo a meu ver. Vai ter gente que acha que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Particularmente, tanto faz. O que os une é o fato de eu gostar bastante de ambos.
Agora, antes do texto, momento featured post. Segunda-feira tem QotSA aqui na República do Abacaxi Cortadinho e se você também vai lá idolatrar a rapazeadinha, recomendo ler este relato sobre o primeiro show que vi dos caras pra aquecer. Dependendo da qualidade da apresentação, tento fazer um texto legal sobre o SWU.
Na semana passada, tentei mostrar um cenário caipira dos Estados Unidos que não se move em torno da música country necessariamente. Existe uma América caidaça que está atrelada a valores como nostalgia doentia, gel de cabelo, ternos baratos e covers de Elvis. Uma coisa bem de filme, mesmo. E ninguém representa melhor esse clima de fim de festa hoje em dia do que Dax Riggs e Grinderman.
Antes de prosseguir, acho que devo um parágrafo de explicação. O que a caipirada norte-americana tem a ver com a Tribuna de Indaiá? Tenho dois argumentos – além do simples fato de ser um assunto que me interessa. Toda a cultura mundial é influenciada pela ianque e fica impossível se desvencilhar dela, fazendo parte disso a reflexão acerca de seus símbolos, que já são quase nossos. Depois, se já engolfamos a cultura dominante (imperialistas! Yankees go home!), analisar seus meandros também é auto-análise.
Legal. Agora aos personagens principais. Você nunca ouviu falar de Dax Riggs, tenho certeza. Também, ele nunca participou de uma banda relevante que fosse e nunca emplacou um só hit. Riggs é um expoente de uma forte cena independente do hemisfério norte que se paga sem precisar de grandes investimentos e cujos shows passam por todo o seu território (mais ou menos o que o Fora do Eixo quer fazer aqui no Florão da América). Nos anos 90, ganhou alguma notoriedade enquanto tocava na banda de metal sujo – e essa é a única definição cabível – Acid Bath. Depois aventurou-se por projetos menos pesados, mas tão doentes quanto: Agents of Oblivion e Deadboy & The Elephantmen.
Mas Dax Riggs chegou a mim através de seu primeiro trabalho solo, We Sing of Only Blood Or Love, de 2007. Com músicas intituladas maravilhosamente como Demon Tied to a Chair in My Brain (“Demônio Amarrado a Uma Cadeira no Meu Cérebro”), ele é o tipo de artista que só chegaria aos nossos ouvidos por causa da internet. E, cantando sobre sangue e amor, sempre me passou uma idéia de hippie cocainado de alguma periferia cultural do sul dos Estados Unidos. Quase isso: Riggs é de Nova Orleans, um dos locais mais fantásticos e ricos do mundo quando se trata de ecossistemas artísticos. Ainda assim, ele está à margem, como alguém fazendo música eletrônica minimalista num rincão gaúcho.
Acontece que em Say Goodnight To The World, seu novo disco, o cantor se afasta da imagem de hippie acelerado e pé sujo e se aprochega a uma nova persona, uma espécie de cantor de churrascaria podreira, com a gravata borboleta folgada. Tipo a banda da festa de formatura que espera que todos dancem, mas é simplesmente sombria e tristonha demais para isso. Dax Riggs é sombrio o suficiente para dar sentido à comparação e tudo isso está explicitado já nos títulos de suas canções: Gravedirt On My Blue Suede Shoes, por exemplo. Musicalmente, como que provando toda esta ladainha, no novo disco destacam-se You Were Born to Be My Gallows e a versão enfastiada de Heartbreak Hotel.
Já Grinderman é o braço de rock de garagem de Nick Cave and the Bad Seeds. Nick Cave é um dos poucos heróis dos anos 80 que mantiveram seus colhões e sempre fez música folk iluminada por esferas espelhadas de danceteria. Daí, em 2007, junto com boa parte dos Bad Seeds, ele virou para o outro lado, disposto a estourar alguns tímpanos, e deu à luz o Grinderman. Perfeito. Assisti a um show do grupo em 2008 e vale destacar como o frontman funciona no palco. A primeira coisa que você repara em Cave é seu bigode indecente, desafiador até, tipo Josh Brolin em Onde os Fracos Não Tem Vez. Ele olha para a platéia com os olhos esbugalhados e pronuncia palavras repetidamente, em intervalos cada vez mais perturbadores. Na verdade, trata-se de um tio já meio careca com uma aparência que oscila entre diretor de escola, psicopata sexual e estrela do rock.
O primeiro álbum do Grinderman é simplesmente incrível. Suas letras mostram que o australiano Nick Cave entende essa América podreira como poucos. Das descrições minuciosas de como ele tentou e não conseguiu uma transa (em No Pussy Blues) até às bravatas de patriarca decadente (Go Tell The Women), todo o ambiente do disco é minuciosamente moldado dentro de um lugar com drive-ins, caminhões de sorvete e serial killers à espreita.
Em Grinderman 2, que sai em outubro (na internet já foi “saído”), a idéia continua. A diferença é que o descontrole emocional e a ironia aprendem a conviver com uma psicodelia quase tântrica em alguns momentos (especialmente o final de When My Baby Comes). É como uma sessão de hipnose no meio do baile da igreja. E é um discaço também. Desde já, um dos melhores do ano.
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Jambo Ookamooga
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Tuesday, September 28, 2010
White x Homme
E minha colaboração na Tribuna de Indaiá não existe mais. Vou postando os últimos textos, mas é capaz que o blog dê uma morrida de novo. Chato...
Se nossa época não está apinhada de guitarristas lendários, pelo menos fica mais fácil de identificar quem são os mais emblemáticos. Na minha opinião, é difícil encontrar um representante maior das Seis Cordas de Rock do que Jack White e Joshua Homme. E, em seus respctivos cubículos, reinam absolutos, sem concorrência – nem entre si.
Primeiro vamos aos fatos: tanto White quanto Homme conseguiram, ao longo dos anos, modernizar tudo aquilo que fizeram os pioneiros do rock – tanto aqueles do meio dos anos 50 quanto os que infernizaram o mundo entre o fim da década de 60 e o começo da de 70. Baseados em formas de comunicação mui peculiares, construíram verdadeiros impérios de junk food musical. Mas junk food daquela rede que faz o sanduíche na hora e que o bacon é crocante de verdade.
E que formas de comunicação são essas? Da parte de White é a urgência desesperada contida em dedos ágeis que respondem a um cérebro acostumado a ritmos frenéticos dos grupos de garagem dos anos 60. Sua primeira banda, o White Stripes, parecia uma resposta muito mais selvagem à inconsequência playboy dos Strokes. Petulantes a ponto de dispensarem o baixo de suas músicas, Jack e Meg White pareciam dois extra-terrestres vestidos com roupa espacial bicolor vindos direto de um filme B de ficção científica dos anos 70.
Já Homme aprendeu a tocar guitarra com os discos metaleiros mais sujos dos lugares mais áridos do planeta. Como integrante do Kyuss, fez parte de uma das maiores bandas de metal cult dos anos 90 e, com seus riffs chapados e cheios de reverb, ajudou a criar o stoner rock. Depois de mais umas boas orelhadas nas realizações mais piradas de David Bowie, Brian Eno e Phil Spector, aprendeu a usar o estúdio como poucos hoje em dia. Seu trabalho no Queens of the Stone Age é um mar de overdubs (gravações por cima de outras), instrumentos diversos, segundas, terceiras, quartas e quintas vozes.
Depois disso, munidos de suas respectivas personalidades (explosiva e irônica, na ordem), montaram linhas de produção dignas de inveja. White ganhou ainda mais notoriedade com os Raconteurs, sua gravadora Third Man Records – que, além de revelar artistas novos, vai lançar o novo álbum da lendária Wanda Jackson – e sua participação no filme A Todo Volume, ao lado de Jimmy Page e The Edge. O filme, aliás, definiu White como o principal herdeiro da guitarra, como aquele que vai levar a originalidade adiante num mundo cada vez mais monótono.
Mas ele não está sozinho. Porque Homme, mais do que se lançar como a salvação do rock, foi capaz de transformar sua banda numa espécie de Sol, exercendo atração em diversos outros artistas, que gravitam como planetas à sua volta. Exemplos não faltam: Eagles of Death Metal, Them Crooked Vultures (onde Homme tem a audácia de comandar John Paul Jones), Mondo Generator, além de participações incontáveis, de Foo Fighters à banda de metal Mastodon, todas com sua marca registrada.
Mas tudo isso para dizer que cheguei à conclusão de que Jack White deu um passo à frente. Talvez uma medida definitiva. E esse passo tem nome: The Dead Weather. Que consiste em todo aquele blues rock agudo e meio inconfundível que ele vem fazendo já alguns anos finalmente unido a técnicas de estúdio avançadas. Como Homme já fez no Eagles of Death Metal, White assume a bateria, mas não deixa de lado as guitarras. Há solos ali que são seus, que carregam seu espírito, por mais que a banda fuja de seus trabalhos anteriores.
Jack White é, antes de mais nada, o guitarrista mais arrogante e presunçoso da nossa geração. E também um reciclador como poucos. Mas conseguiu enterrar suas digitais em cada compasso de cada música que trabalhou desde 1998. Quando finalmente entendeu a lógica de sua contraparte (ou sua “contralógica”), criou seu melhor projeto até o momento. Partindo da tese de que encontrar um consenso entre duas tendências distintas é se fortalecer, afirmo sem medo: The Dead Weather é o futuro do rock.
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Jambo Ookamooga
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Sunday, September 19, 2010
Lester Bangs
A característica mais fascinante de Lester Bangs, e a que o fez famoso, era sua paixão pelo ato de escrever sobre música. Mais do que escutar, mais do que apreciar, ele era capaz de transformar uma resenha numa obra tão completa e intrigante quanto o álbum em questão. É notável o caso de Astral Weeks, de Van Morrison, cuja fama é precedida pela excelente análise de Bangs. Nela, o jornalista se infiltra em cada aposento da mente do disco – sim, do disco – e deles tira conclusões incríveis, antes inimagináveis. Há quem diga que o texto chega a ser melhor do que a música em si.
Mas não adianta todo esse falatório se você está sem entender até agora quem foi Lester Bangs. Basicamente, foi o maior jornalista musical de todos os tempos. Um terço pelo talento, um terço pelo barulho que suas resenhas faziam e outro terço pelo estilo de vida. Como uma espécie de beatnik ou rockstar, Bangs foi bêbado, drogado e, certas vezes, até um misantropo. Suas brigas com Lou Reed, vocalista do Velvet Underground e uma das figuras mais podreira da história da música, escondiam uma admiração mútua que o músico não permitiria se não visse em Bangs um igual.
Numa época em que a crítica musical tinha importância mastodôntica por não ter concorrentes similares à internet e à MTV, os jornalistas eram vistos pelos caras das bandas como os “inimigos”. Muito provavelmente é daí que vem aquela idéia de que todo crítico é um músico frustrado. O poder dado ao redator era tanto que ele podia escrever qualquer impropério sobre qualquer artista quando bem entendesse, da forma que lhe parecesse mais insultante.
Bangs, por sua vez, era diferente. Claro, ele tinha seus momentos: descia a lenha sem dó no Led Zeppelin, por exemplo. Mas, na essência, acreditava na democratização da música e ridicularizava o mito da diva, o culto à personalidade do músico intocável, à figura do dândi iluminado que muitos roqueiros dos anos 70 acreditavam ser. Ele sabia que o músico era um trabalhador como qualquer outro, antecipando o conceito de música independente em 10 ou 15 anos. Lester Bangs também dizia que o único motivo para se forjar um herói era para jogá-lo por terra novamente. Por isso o punk e sua decadência igualitária foram sua redenção. Ele até chegou a se aventurar na música e Lester Bangs and the Delinquents, projeto em conjunto com Mickey Leigh (irmão de Joey Ramone), deu vida a um disco bem digno.
A influência de Lester é ampla. Na contracapa de seu Reações Psicóticas, editado aqui no Brasil pela Conrad e que inspirou este humilde escriba a escrever estas linhas, há até uma citação de Kurt Cobain: “Os textos dele me ajudaram a entrar em contato com pessoas como eu”. Além disso, o jornalista foi uma espécie de conselheiro do diretor Cameron Crowe (Vanilla Sky, Jerry Maguire) quando este ainda era um garoto que tentava ser crítico da Rolling Stone. Suas conversas podem ser vistas no filme Quase Famosos, onde Bangs é interpretado por Philip Seymour Hoffman.
No filme, ele mostra uma justa desconfiança em relação à Rolling Stone. Poucos anos antes brigara com seu editor Jann S. Wenner, a quem chamava de groupie disfarçado por não admitir que batessem nos artistas queridinhos da revista. Depois de sair da Rolling Stone, Bangs passou por Detroit (na revista Creem), Nova York (Village Voice) e contribuiu para Playboy, New Music Express e ainda outras. Morreu em 1982 de overdose de tranquilizantes, na mesma época em que trabalhava no seu primeiro livro não musical.
Dizem que Lester Bangs era, antes de tudo, um desperdício, já que devotou todo o seu talento somente para a música. Mas ele era cria de época em que curtir um som realmente importava e as pessoas realmente tinham algo para dizer. Isso, claro, fortalecia a crítica e permitia que tratados como a resenha de Atral Weeks tivessem significado à altura de um conto da alta literatura. Bangs fazia algo que há muito se tornou cafona, mas que talvez seja a salvação para essa pindaíba criativa que nos acomete de tempos em tempos: ele levava a cultura a sério.
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Jambo Ookamooga
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Tuesday, September 07, 2010
My Way no Coração de Ohio
And now, the end is near,
And so I face the final curtain.
My friends, I'll say it clear;
I'll state my case of which I'm certain.
I've lived a life that's full -
I've travelled each and every highway.
And more, much more than this,
I did it my way.
Jerry é caminhoneiro e acaba de voltar a Ohio de uma entrega especialmente especial direto do oeste. Ou coisa parecida. Jerry sentia falta de Rosie, sua mulher. Mas sente saudades de outra Rosie. Aquela de 30 anos atrás, quando iam ao drive-in (jesus!) e aos bailes do colégio. Ou aquela Rosie de 20 anos atrás que cozinhava divinamente e, depois de manter a casa impecável e cuidar dos filhos, ainda tinha tempo para um chamego no final do dia. Essa Rosie morreu. Ela e Jerry agora são dois velhos com vestidos, aventais, botas e botões de camisa soltos.
Regrets? I've had a few,
But then again, too few to mention.
I did what I had to do
And saw it through without exemption.
I planned each charted course -
Each careful step along the byway,
And more, much more than this,
I did it my way.
Há um baile para gente como Jerry e Rosie no boliche da cidade. No boliche as pessoas se vestem como pessoas de boliche, tarantinamente, com casacos vermelhos cintilantes, bonés e chapéus. Vestidos. Uma banda foi paga para fazer um verdadeiro flashback, um show que irá levar todos nós aos nossos anos dourados, quando era permitido sonhar. “My Way”. Jerry hesita. Abraça Rosie docemente, mas sem muita convicção.
Yes, there were times, I'm sure you knew,
When I bit off more than I could chew,
But through it all, when there was doubt,
I ate it up and spit it out.
I faced it all and I stood tall
And did it my way.
“Sou um homem, caralho! Quantos por aí podem dizer isso? Por vezes errei, mas sempre honrei minhas bolas!” Respiro; Suspiro. “Respeitei minha pátria, amei minha mulher, trabalhei com afinco. Sinatra me entende... Sou um homem, caralho!”
I've loved, I've laughed and cried,
I've had my fill - my share of losing.
But now, as tears subside,
I find it all so amusing.
To think I did all that,
And may I say, not in a shy way -
Oh no. Oh no, not me.
I did it my way
Jerry lembra de seu pai, mas Rosie nunca quer saber das suas histórias. Vagabunda. "Se fosse metade da mulher que foi minha mãe..." Americanos de muito brio. Jerry vinha de uma família de muita estirpe. Orgulho. Altivez. Justiça. Era uma família americana e justa. “I pledge allegiance to the flag”. Sinatra entende. Sintonia, Sinatra e a Bandeira, mas Jerry também estava atento. Não tolerava um certo vagabundo desde o tempo em que trabalharam juntos no armazém.
For what is a man? What has he got?
If not himself - Then he has naught.
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels.
The record shows I took the blows
And did it my way.
Jerry, um Homem. Já era hora de resolver essas coisas como um homem. Um gracejo, um pisão e o taco de sinuca era seu. Jerry observou bem seu antagonista antes de sua tacada mais importante, mas foi surpreendido por outro taco no meio das costas. Uma porrada na cervical que fez até com que ele cuspisse um pouco da merda que estava bebendo a noite toda. Antes de apagar, notou que a banda já não tocava mais Sinatra, aquele Americano Orgulhoso.
Yes, it was my way
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Jambo Ookamooga
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Por Que Ouvir Zu
Você precisa ouvir Zu. A pesquisa de campo abaixo prova tudo.
Pam diz:
que isso?
pedro diz:
uma banda muito doida
italiana
Pam diz:
caraleo que medo
pedro diz:
ahuahuahuhauhauhauhauhauha
muito, né?
demente
Pam diz:
deve tocar em rituais
certeza
que é isso cara?ahueha
pedro diz:
uma banda muito doida
italiana
.Matheus diz:
põe doida nisso.aehua
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Jambo Ookamooga
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8:02 PM
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Wednesday, September 01, 2010
A Melancolia Fácil
Se você olhar os primeiros posts deste blog, vai ver que já fui fã de Arcade Fire. Falta eu pra tanta vergonha.
Tribuna 14/08.
Quinta-feira retrasada, enquanto eu sofria vendo meu time sendo eliminado da Taça Libertadores da América, três acontecimentos eram comentados avidamente no Twitter: o próprio São Paulo x Internacional-RS, o primeiro debate dos presidenciáveis e um tal de show do Arcade Fire no Madison Square Garden. Longe de mim querer julgar as prioridades de cada um, mas a idolatria que seguiu essa simples transmissão ao vivo foi mais do que ridícula. Para os fãs, o webcast em questão foi tão incrível e catártico que poderia ser considerado uma missa! E eles falam sério, chegando a se ver como os “religiosos”.
É por isso que eu simplesmente odeio o Arcade Fire hoje em dia. Não por serem vistos como semideuses, coisa que acontece com qualquer banda ou pessoa pública (até ex-BBBs!), e sim pelo motivo de serem vistos assim. O Arcade Fire, desde seus primórdios, não consegue se desvencilhar da imagem de grupo sofrido, coitadinho mesmo. Para a massa indie, formada por gente que, na época do colégio, apanhava e não pegava ninguém, isso é muito bonito.
Toda vez que o vocalista Win Butler canta palavras simples como neighbour (vizinho) e children (crianças) com sofreguidão e nostalgia, é como se evocasse um passado romantizado, ainda que extremamente ambíguo: esquisito e saudoso, penoso e confortável. Para a horda de excluídos e desajustados que segue a banda, é como um orgasmo. Em seus ouvidos, a voz tremida de Butler corresponde à do sacerdote e as canções mergulhadas em melancolia são o coral da igreja.
E por que uma besteira dessas me incomoda, quando eu deveria simplesmente desprezar tudo isso? Porque se apoiar nesse tipo de melancolia fácil ao som de violinos e gritinhos só agrava a situação. Não fui dos que se deram bem na escola, não – graças a Deus, aliás, já que o velho clichê tem razão de ser: quem se dá muito bem no colégio geralmente acaba virando um bosta depois. Só que não foi ouvindo música de indie triste que dei a volta por cima.
Pior: já gostei de Arcade Fire. Tinha 16 anos, achava aquilo lindo (mas nunca a ponto de ser um “religioso”, vade retro), era facilmente levado pelos violinos, acordeons, “neighbours”... Mas aí nego cresce e nota que o mundo tem muito mais beleza e molejo do que parece. Tem muita coisa para conhecer, muita gente para transar, muito motivo para rir. E para chorar também. Vivemos, acima de tudo, num lugar feio e triste.
Só que você não vai conhecer toda essa amargura e sujeira na voz de um bando de ex-crianças bem nutridas chorando as pitangas de uma infância de classe média. Tristes são moradores da favela, tipo o Cartola, que foi esquecido pelo samba por quarenta anos. Triste é o Gil-Scott Heron, preto, pobre, ex-detento e (dizem) aidético, com uma voz cavernosa de gelar os ossos.
Ainda assim, apesar dos pesares e dissabores, esses caras conseguem colocar doses saudáveis de ironia e otimismo em suas letras. Claro, diferente do Arcade Fire, eles são capazes de ver mais cores no mundo. São capazes de olhar através de sua agonia e diversificar, explorar. Acima de tudo, são capazes de se comunicar.
Não me leve a mal, não sou a polícia da depressão. Cada um curte uma fossa do jeito que bem entender. Mas me parece que idolatrar a melancolia do Arcade Fire a ponto de enxergar seus shows como cultos é limitar o alcance da visão. Será que eles estão te mostrando o que você precisa ver ou será que estão apenas te dizendo o quer ouvir? Mais: se estiverem te mostrando o caminho, você ficará tão grato a ponto de aceitar qualquer lixo que te empurrem daqui para frente?
Esse é o grande problema do rock. As pessoas se tornam tão gratas às bandas, aos messias que elegeram, que impedem que esses predestinados sigam em frente. O caso do próprio Arcade Fire é emblemático. Seu primeiro trabalho, Funeral, é um bom disco de estréia. Mas depois, os temas se tornaram recorrentes, maçantes, tomando forma de demagogia alienada.
Música, além de devoção, é baseada em contestação. Se uma banda lhe diz que o caminho da tristeza para a catarse passa por coros angustiados, violinos e pianos delicados, você deve fazê-la provar. Se não, corre o risco de acreditar em tudo que um bando de tocadores de instrumentos fumadores de maconha com uma infância meio tristonha têm para dizer. E isso não é suficiente para ninguém.
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Jambo Ookamooga
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8:34 PM
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Sunday, August 22, 2010
Entrevista: Luiz Freitas
Uma entrevista para a tribuna. Fala um pouco da minha cidade, Indaiatuba, mas é interessante notar como essa situação é recorrente na maioria dos municípios pequenos aqui do Brasil.
Quando ouvi falar no Luiz Freitas, através de um amigo em comum (e sócio dele na Sinewave Records) quase caí pra trás. Mentira. Mas achei insólito e bastante surpreendente que houvesse em Indaiatuba alguém interessado em post rock. Mais: que tivesse uma banda do estilo. Claro, num lugar com quase 200 mil habitantes, é bastante provável que haja pelo menos um ou dois gatos pingados interessados em manifestações culturais obscuras como post rock. Mesmo assim, fiquei de cara.
O post rock, diga-se, é um movimento musical bastante novo, que mistura ambientes sonoros atmosféricos, sentimentos íntimos e guitarra distorcida. Pode ser que você conheça algumas canções do álbum Agætis Byrjun, da banda islandesa Sigur Rós, pelo filme Vanilla Sky, de 2001. Na minha humilde opinião, de leigo, trata-se do grande disco do pós roque. Três conjuntos legais para ir atrás: Godspeed You! Black Emperor, Mogwai, Explosions in the Sky.
A necessidade desse parágrafo explicativo vem da falta de intimidade do público com o estilo. Por causa disso, o Luiz, juntamente com seu sócio, o Elson Barbosa, fundou a Sinewave Records. Trata-se de um selo online que promove e lança, por meio de downloads gratuitos, discos de bandas brasileiras de post rock. O Luiz também tinha a sua banda, o Gray Strawberries, que acabou recentemente. Como todo moleque um pouco diferente do circuitinho Zoff-JC que passou sua adolescência em Indaiatuba, ele vê um monte de problemas nas opções de diversão da cidade. Falamos um pouco sobre esses assuntos, dá uma olhada.
Fala um pouco da Sinewave para começar.
A Sinewave surgiu duma idéia minha e do Elson quando a gente viu que não tinhamos o devido espaço na mídia, lugares pra tocar, porque não tinhamos os contatos, a repercussão, experiência necessária. Vendo iniciativas feitas "de banda pra banda", como a Constellation Records e o ATP, a gente, já que não tinhamos um selo, um site de notícias falando da gente, lugar pra tocar, etc, decidiu ser o selo, o site, o festival. Diante das dificuldades de ser um tipo de música nada popular, creio que os resultados são bastante satisfatórios. É visível que todas as bandas melhoraram depois da iniciativa nossa. Tá longe de ser algo reconhecido e famoso, mas é muito legal ver que essas bandas todas agora têm uma perspectiva, o que antes não era tão fácil
Você acha que ir por esse caminho de nichos mais bem definidos é o futuro da música independente brasileira?
Depende da situação. Por exemplo, para nós, é melhor aglutinar bandas que sejam parecidas, com o mesmo estilo. Porque da nossa experiência percebemos que a situação que ocorria era que muitas vezes essas bandas, no começo de carreira, não conseguiam shows num lugar legal, e aí tinham que tocar com bandas de hardcore, metal, coisas que não tinham nada a ver com a gente. O cenário musical independente está muito no começo. A gente não tem público formado. Não dá para esperar que mais pessoas gostem sem mostrar pra um pessoal novo, diferente. Hoje a gente já pensa numa correção de rota, se envolver com um pessoal que não faz um som tão parecido, já aceitamos bandas que não são tão post-rock assim. Em resposta à sua pergunta, acho que sim. Que hoje, na maioria dos festivais, selos, as bandas não são escolhidas por estilo, por genero. Elas são escolhidas por vários fatores que não a música que fazem. Acho que deveria se dar mais valor ao tipo de som que as pessoas fazem, mas não segregar totalmente e virar gueto. Afinal, precisamos de muito mais gente para termos um público grande o suficiente pra música independente ser um negócio rentável
Quando me falaram de você, fiquei bastante surpreso que houvesse uma banda de post rock em Indaiatuba, o que dá uma idéia de como a cultura na cidade parece linear, pouco ousada. Qual o motivo pra isso, na sua opinião?
O que pesa contra é o fato de sermos uma cidade muito rica e relativamente nova. Essas coisas deveriam ajudar a cidade a ser, como tu disse, mais ousada. Essa reclamação a respeito de cultura é clássica em Indaiatuba. Lembro que desde que eu era criança, se reclamava de que Salto tinha um teatro, e Indaiatuba não, mesmo sendo muito maior. O tempo passou, construiram o CIAEI e um auditório legal lá, e, pelo menos enquanto eu morava lá, rolavam as peças, eventos, e pouca gente tomava conhecimento e ninguém ia.
E como atrair o interesse das pessoas? E o que falta pra quem já está interessado?
Não sei. Mesmo. Musicalmente falando, seria legal se alguma banda da cidade se destacasse, isso puxaria outras, querendo repetir o mesmo caminho. Poderia até sido a gente, isso talvez resolveria a questão da iniciativa. Em outros setores, como teatro, e cinema, não sei. Mas, pelo que via quando fui embora, e pelo que leio nos jornais e fico sabendo, a coisa melhorou nos últimos anos, até pelo crescimento economico e populacional da cidade. Acho que também é uma questão de tempo.
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Jambo Ookamooga
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Wednesday, August 11, 2010
Não Vá ao SWU
Mais um texto para a Tribuna de Indaiá. Engraçado que agora, com Rage Against the Machine e QotSA quase fechado, já mudei de idéia. Para mim, o SWU tem muita, mas muita cara de picaretagem. Mas com o nível das atrações que eles têm confirmado fica difícil não dar as caras. Quanto a isso, já me retratei em outra coluna, admiti que era um hipócrita de merda.
Não vou perder apresentações incríveis por causa da malandragem de alguns produtores culturais. Mas vou ao festival com um tremendo pé atrás, sabe...
O Woodstock inspirou festivais no hemisfério norte que até hoje carregam seu espírito: milhares de pessoas bêbadas acampando num ambiente cheio de música e integração. Não é brincadeira: em 2008 tive a sorte de ir ao Roskilde Festival, na Dinamarca, e esse segue sendo um dos melhores acontecimentos da minha vida. Assisti às maiores bandas do mundo, mas também invadi acampamentos de completos desconhecidos que me ofereceram cerveja, perambulei por quilômetros de natureza e vi algumas das pessoas mais esquisitas do mundo passando. Ou seja, mais do que alguns shows, tive uma experiência inesquecível.
Já no Brasil, o Rock in Rio de 1985 serviu para difundir o rock entre os jovens daqui – sendo considerado um dos catalisadores do BRock e sinal de que a ditadura militar estava, enfim, acabada – mas seu legado foi por outro caminho. Sem o histórico dos acampamentos e das atividades não musicais, os festivais do Pindorama acabaram seguindo a filosofia “chegar, assistir o que convém e depois tomar o caminho da roça”. Com isso, os grandes shows se tornaram meros negócios e perderam seus poucos apelos não musicais ao se tornarem cada vez mais elitistas e nojentos. Exclusividade para clientes de certos bancos, a hedionda pista VIP (mais cara e mais perto do palco), preços exorbitantes...
Neste ano, o SWU apareceu como a pior de todas essas aberrações e, se tudo der certo, será um natimorto. A proposta do festival em questão é fazer como fazem lá na Europa e nos EUA: três dias de música, direto. Só que o espírito é aquele mesmo que impera aqui no terceiro mundo.
É ridículo pensar nesse SWU como uma espécie de continuação do Woodstock, como andou sendo dito por aí. O mote da campanha do festival é a sustentabilidade e me irrita notar que produtores que se mostram tão preocupados com o meio ambiente não se importam em falir uns jovens fãs de música. Claro: o que manda é o dinheiro, tudo gira em torno dele e para curtir uns concertos bacanas e salvar o mundo, precisamos gastar os tubos.
Só que não precisa ser assim. Usemos o exemplo do festival de Roskilde mais uma vez. Todas as pessoas que trabalham nele durante seus oito dias (quatro dias de “aquecimento”, outros quatro de shows) são voluntários que recebem ingressos para o festival em troca do seu esforço. Assim, o preço da mão de obra cai e ninguém trabalha de cara feia (eu, aliás, fui ao Roskilde nesses termos).
As onipresentes causas humanitárias também são muito bem planejadas. O projeto Human to Human coleta latas de bebida pelos acampamentos e faz a troca desses recipientes vazios por dinheiro para países necessitados. No último ano, surgiu o Green Footsteps, onde os participantes do festival mostram o que têm feito pelo meio ambiente e concorrem a ingressos para o Roskilde do ano seguinte.
Tudo isso parte, acima de tudo, de uma questão cultural? Certamente. Mas isso nunca vai mudar se não nos mexermos. Boicotar o SWU e a ganância de seus produtores é mostrar que não adianta colocar umas latas de lixo recicláveis e apoiar a causa nobre da moda para mostrar que se importa com a música e com o futuro. É preciso muito mais. Por isso, menos, SWU, menos...
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Jambo Ookamooga
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Sunday, August 08, 2010
Formigueiro
Todas as mulheres são vagabundas. Todos os homens são cafajestes. Toda unanimidade é burra. Todo mundo tem que sofrer um pouco na vida. Todo tatuado é um câncer na sociedade. Todos os políticos são corruptos. Todo homem mente sobre o tamanho do pau. Toda mulher finge orgasmo. Todo maconheiro é viciado. Todo mendigo é bêbado. Todo dia.
Quem cochicha o rabo espicha. Quem não cola não sai da escola. Quem não respeita os mais velhos é mal educado. Quem não respeita os mais jovens é antiquado. Quem já foi pra Paris quer voltar. Quem não gosta de viado é enrustido. Quem gosta de viado é viado. Quem cedo madruga, Deus ajuda. Quem estuda sobe na vida. Quem protesta é rebelde. Quem muito sabe, pouco diz. Quem disse?
Você precisa de um emprego. Você precisa trocar de emprego. Você precisa de uma namorada. Você precisa se conectar ao mundo. Você precisa ter modos à mesa. Você precisa ligar para seus familiares. Você precisa poupar seu dinheiro. Você precisa de um rumo na vida. Você precisa de amigos melhores. Você precisa encher seus pais de orgulho. Você entende?
A culpa é do governo. A culpa é da sua infância. A culpa é dos seus pais. A culpa é dos juros. A culpa é da sua ex-namorada. A culpa é do médico. A culpa é do professor. A culpa é do mecânico. A culpa é do islã. A culpa é da igreja. A culpa é dos judeus. A culpa é dos ateus. A culpa é do capitalismo. A culpa é do comunismo. A culpa é sua.
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Jambo Ookamooga
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Sunday, August 01, 2010
De She's So Heavy a Dead Weather
Uma reflexão meio confusa. Sei lá se gosto. Saiu na tribuna dia 10 de julho.
Se Helter Skelter, dos Beatles, foi o primeiro heavy metal da história, então os Fab Four eram tão geniais que foram capazes de, um ano depois, compor a primeira faixa de uma de suas vertentes. I Want You (She’s So Heavy) é a canção inaugural do stoner rock. Você pode ou não conhecer o gênero, mas não custa explicar.
O stoner surgiu oficialmente lá pelo final dos anos 80, mas seu coração bate no mesmo ritmo que batia o do Black Sabbath, o do heavy blues do fim dos anos 60 e do hard rock da década seguinte – tipo Blue Cheer, Grand Funk Railroad, Budgie, Uriah Heep, Dust… Ou seja, caras machos e barbados que gostam de motos e cerveja. O som é pesado, sincopado, mas também tem o alívio de teclados psicodélicos e viagens instrumentais fortes. Claro: stoner em inglês significa drogado, viajandão.
O movimento cresceu no deserto da Califórnia e o Kyuss permanece como seu maior expoente. Mas suas ondas não se mantiveram estáticas e a expressão do stoner – talvez tenha a ver com a costa oeste americana – chegou até o estado de Washington. Soundgarden e Melvins, embora não sejam frequentemente enquadrados no gênero, sempre se utilizaram dos riffs como forma de comunicação. Não é segredo para ninguém, também, que Dave Grohl acabou ficando amigo de Josh Homme quando ambos ainda tocavam no Nirvana e no Kyuss, respectivamente.
A coisa engrenou e hoje em dia pipocam bandas do estilo por todo o mundo. A maioria delas nenhum de nós jamais ouviu falar. São bandecas que emulam aquele som cheio de riffs dos grupos citados no parágrafo anterior e não apresentam nada de novo. E como isto aqui é uma coluna opinativa, vou me reservar o direito de discordar do senso comum e dizer que o stoner rock não tem nada a ver com isso.
E sabe por quê? Porque o legado de um estilo musical reside muito mais no seu conteúdo, digamos, filosófico do que no seu som. Para fechar Welcome to the Sky Valley, terceiro disco do Kyuss, há uma música-tiração-de-sarro no estilo The Doors com um pedido singelo por sexo oral. Isso logo depois da tensa Whitewater. Da mesma forma, uma letra como Paranoid, do Black Sabbath, não deve ser levada totalmente a sério, apesar do choque que foi a parte instrumental da canção na sua época.
Entendeu? O legado do stoner é a ironia, o alívio cômico, o inusitado, o contraditório. Essa constatação em si já encontra um paradoxo interessante: caipiras manguaçados do deserto da Califórnia ou do interior da Inglaterra com sensibilidade suficiente para tirar um sarro da própria cara. É por aí que associo I Want You (She’s So Heavy) à estética institucionalizada pelo Kyuss. Em 1968, Os Beatles estavam totalmente pirados nas tecnologias de estúdio e nas mais belas harmonias já inventadas pelo homem. John Lennon, então, resolveu fazer uma música que fosse o extremo oposto de tudo isso: She’s So Heavy é arrastada, repetitiva, sua letra é mínima (são só 14 palavras), o refrão é dissonante, a ordem dos versos é imprevisível e o final é brusco.
Esse espírito contrariador e quase sarcástico vem da própria origem do rock and roll. Por isso, encaixar manifestações tão básicas (e tradicionais) dentro de um só estilo chega a resvalar no “forçar a barra”. Mas por outro lado, se nos detivermos em riffs e paisagens áridas, limitaremos o stoner assim como, no passado, limitamos o metal, abrindo precedentes para a chegada de lixo atrás de lixo.
E isso meio que já vem acontecendo. Mais recentemente, o Dead Weather é um dos únicos conjuntos que me dão vontade de encher a boca para dizer que são stoner. A banda conta com Jack White na bateria e tem a femme fatale Alison Mosshart nos vocais. Variando entre hardcore eletrônico e blues, eles te agridem sem parar. Mas agridem de uma forma que te faz querer mais, te transformam num masoquista imediato. Na essência, não era isso que o Kyuss tentava fazer – só que sem a presença fácil de uma gostosona cantando – há 15, 20 anos?
No fim, a lição que fica é simples. Quem entendeu o rock ilógico e chapado dos pioneiros do stoner não tenta copiar sua estética sonora. O grande lance é confundir os outros e surpreender a si mesmo. Mais ou menos como fizeram os Beatles, inusitadamente, a primeira boy band da história.
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Jambo Ookamooga
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Friday, July 30, 2010
Batismo
Quando meus pais foram tentar me batizar (eventualmente eles conseguiram), o primeiro padre disse que, por eles não serem casados, eu era o filho do pecado. Meu pai mandou o cara tomar no cu e molhou a mão do próximo padre, que fez o batismo feliz da vida. Eles não casaram, mas continuaram juntos pelos próximos 17 ou 18 anos, o que torna a história meio que uma anedota familiar.
Mas o motivo dessa história ter algum tipo de significância para mim reside no modo como o “conservador” (nesse caso, o batismo) e o “liberal” (casamento não-oficial, por exemplo) ficam se fundindo na minha vida. Veja bem: sou filho temporão, meu pai nasceu em 1949 e eu sou fruto da era digital, ou coisa que o valha. Minha índole me diz que as regras (quase) todas são no mínimo infringíveis, mas minha família formada nos anos culturalmente reprimidos do pós-ditadura sugere que o bom cidadão é aquele que segue o "curso natural" das coisas.
Do lado da minha mãe, que compreende meus tios e avó, temos pessoas vigorosas e empreendedoras, trabalhando feito camelos, colocando sempre o dever acima da diversão. Do lado paterno – ou seja, meu pai e meus irmãos mais velhos, porque não tenho muito contato com os tios –, as pessoas são práticas, objetivas e pragmáticas, atraídas pelo dinheiro fácil do mundo financeiro (se você for capaz de lidar com números). É fácil perceber que não há muito espaço para a imaginação em nenhum dos dois cenários.
Minha primeira lembrança é na escolinha, derrapando no chão de madeira da sala de brinquedos. Lembro da visão de um dos joelhos para cima, decorado com um machucado ainda novo, avermelhado. Não sei se tinham passado Merthiolate, mas me recordo de uma ou duas experiências chatas com ele. Depois disso, lembro de brincar com tatu bola e de correr do irmão mais velho e semi albino do meu amigo mentiroso, que teimava em me chamar de gordo (e eu não era!)
Nunca entendi por que eu era especialmente perseguido nos colégios, mas também sei que não era santo. Rir da cara dos outros sempre me pareceu algo divertido demais para não fazer. Mais uma vez minha conduta contradizia as normas não-oficiais da família Gesualdi Barboza. Meu pai sempre foi um cara mais ou menos pacifista, o que hoje em dia eu vejo como uma coisa legal. Mas quando ele me dizia coisas como “responde que você pode emagrecer, enquanto ele é feio e isso nunca vai mudar”, me sentia ainda mais desamparado. Claro que isso nunca vai afetar ele, pai! Teria sido menos traumático se tivesse me ensinado a dar uns murros na cara do imbecil.
Então, a irmã de um amigo, da classe do maluco que me perseguia, me ensinou um pouco de defesa pessoal. E sem levantar um dedo. “Chama ele de sundownzinho”. Perfeito. Chamar o garoto semi albino de sundownzinho me pareceu genial. É daí que lembro de correr dele, enfurecido. Ponto para mim, tirei o babaca do sério. E aprendi a maior de todas as lições na prática da discussão verbal: tocar no ponto mais fraco e humilhante do inimigo, sem dó.
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Monday, July 26, 2010
No Recreio: Colorido versus Sertanejo Universitário
Ficou bastante singelo esse texto. Saiu na Tribuna em junho.
Jenifer tem 14 anos e está na oitava série, ansiosa para chegar logo ao ensino médio. Sua vida é bem normal para uma garota de sua idade. Ela vai para a escola, consegue passar raspando em química e matemática, conversa sobre coisas de garota com suas amigas no intervalo e suspira pelos gatinhos do segundo colegial. Ao chegar em casa, almoça e corre pro computador, onde acessa seu Orkut, abre o MSN e se engaja em sua função favorita: a de fã do Restart.
Jenifer gasta toda a mesada com produtos relacionados ao grupo, desde ringtones até camisetas. Liga na rádio para pedir a música deles, discute com outros fãs na comunidade do orkut e passa horas no Messenger planejando uma ida ao próximo show da banda. A devoção é tanta que a única apresentação do Restart presenciada pela garota figura entre os top três momentos de sua vida (ou assim diz a emoção).
Em geral, ela é uma adolescente que se dá bem com a maioria das pessoas no colégio. A única rixa da turma de Jenifer, assim como ela, fã de Restart, é com a turma da Joyce, todos fãs de Luan Santana. O cantor sul-mato-grossense, do hit Tô De Cara, faz o tipo de Joyce e suas amigas porque é gatinho e toca um tipo de country/sertanejo que poderia muito bem ser confundido com pop rock americano. O som dele não incomoda Jenifer (que até já se pegou cantarolando uma ou outra faixa do cantor). O grande problema é que Luan e suas fãs são mais comuns, mais populares e não se enquadram no estilo multicolorido do Restart.
Joyce, por sua vez, acredita que a cara alternativa dos policromáticos é muito afetada. “Coisa de gente que quer ser mais do que é”, ela comenta com os chegados. Tanto Jenifer quanto sua antagonista não dão muita bola para isso, mas poderiam incluir entre seus argumentos a velha guerra entre independente e mainstream: Santana é da Som Livre, enquanto o Restart faz parte da pequena Maynard Music. Ambos, no entanto, fazem sucesso similar.
Mesmo ignorando alguns argumentos mais consistentes (e talvez justamente por isso), Stella e Mari, amigas de Jenifer e Joyce, respectivamente, acabaram discutindo na semana passada. Quase saíram na mão. O motivo, torpe, você já deve imaginar qual foi. O diretor da escola, Seo Olavo, quarenta e nove anos, dois divórcios nas costas e um vício chato em café, não estava num bom dia para picuinhas adolescentes. Chamou os dois grupos para uma conversa, a fim de entender qual a grande diferença entre Luan Santana e Restart.
Primeiro perguntou a cada grupo o motivo de tanta adoração aos artistas. As respostas das meninas foram quase que rigorosamente iguais: meninos bonitos que falam sobre o universo delas. “E como é esse universo?” Mais uma vez, réplicas quase idênticas. Amizade, escola, saídas, namoradinhos... O litro de café ingerido pela manhã começou a confundir a cabeça do diretor, que resolveu procurar, então, os pontos divergentes.
“Por que você não gosta de Restart?”, perguntou a Joyce. “Olha, Seo Olavo, não é que eu não gosto de Restart. É só que eles são muito frutinhas, sabe? Essas roupas coloridas... E os fãs se acham os diferentes”. A mesma pergunta foi feita a Jenifer, dessa vez em referência a Luan Santana. “Ah, professor. Eu acho esse Luan muito zé povinho. O Restart, sim, entende a gente, os alternativos”. Sem encontrar muita sustança nas respostas, inquiriu: “Mas ‘pera lá. Pelo que eu sei, tanto Restart quanto Luan Santana andam bastante populares. Como é que um é zé povinho e o outro alternativo?”
Carlinha, a mais informada entre as coloridas, revelou que o sertanejo andava aparecendo no Faustão para receber prêmios de TV de Domingo. O que ela não contava é que Juju, sua contraparte country, também tinha um dado na ponta da língua: “Ei, e seu querido Restart? Esses dias mesmo apareceu no Gugu”. Em minutos, sem que percebessem, as meninas entraram numa espiral de contradições e confrontamentos. Não sabiam mais se defendiam o lado alternativo de seus ídolos ou se expunham, com orgulho velado, suas conquistas profissionais. As conquistas, aliás, vinham em maior número e aproximavam cada vez mais coloridos e sertanejos.
O diretor, confuso, coçou a quase-careca e ajeitou os óculos. Ficou observando a discussão por algum tempo e tomou mais um gole de café, até que desistiu. Interrompeu a algazarra com a pergunta-chave daquela reunião enviesada. “Afinal de contas, qual a grande diferença entre o Luan e o Restart?” Nenhuma das garotas se prontificou a responder. Encararam Seo Olavo com olhares confusos, em silêncio, por quase dois minutos, até que foram dispensadas para o intervalo.
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Tuesday, July 20, 2010
Ronnie James Dio e o Escapismo do Heavy Metal
A morte de Ronnie James Dio revelou o tamanho do abismo que existe entre o heavy metal e o “mundo real”. E, como prevíamos, ele é imenso. Seu falecimento teve manchetes em todos os principais veículos de notícia, além de ter inspirado notas de pesar e declarações emocionadas acerca de sua pessoa e seu trabalho. Mas tudo isso, claro, pela grata posição que ocupou durante anos de sua vida: a de membro do Black Sabbath.
Para entender Dio e as declarações do parágrafo anterior, primeiro precisamos entender as duas faces existentes do metal. A face clássica, sombria, iconoclasta, que surgiu do descontentamento hippie, e a face meio constrangedora, dos moleques pré-adolescentes e suas camisas puídas do Nightwish.
O heavy metal viu a luz do dia no final dos anos 60, com a sonoridade selvagem do Blue Cheer e seu primeiro álbum, Vincebus Eruptum. Um pouco depois, Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward formatariam a temática e o humor do estilo com seu Black Sabbath. A idéia era simples: se as pessoas pagam ingressos para se assustar com filmes de terror, por que não tentar um conjunto musical de terror? Aliado a isso, havia o desgosto de quatro jovens da cinzenta Birmingham, sem muitas perspectivas para o futuro nem identificação com os hippies coloridos e despreocupados. Ou seja, o metal nasceu dentro de quatro caipiras entediados e com vontade de assustar um bom número de incautos.
Só que um povo meio burro entendeu errado toda essa mensagem e apareceu com o começo do fim, também conhecido por New Wave of British Heavy Metal. Dentro do movimento, Iron Maiden e Saxon, que levaram a premissa da banda de terror a lugares risíveis. Até hoje, tenho Bruce Dickinson e seu shots de lycra como referência de música ruim. Pior mesmo foi o movimento que desencadearam: o power metal, ou metal melódico. A referência primal dessas bandas, com seus cabelos cheios de laquê e letras sobre elfos e duendes não é aquele Sabbath de 1969, que fazia as criancinhas molharem as calças. É outro.
Ozzy foi demitido do Black Sabbath e substituído pelo vocalista do Rainbow, Ronald James Padavona, o Dio, em 1979. A interpretação de Dio destoava demais do que fazia seu predecessor, porque era forte, épica, expansiva. Claro, Padavona sempre foi melhor cantor do que Osbourne. A partir disso e dos peitos cabeludos – mutcho machos – que inundavam o heavy metal do começo dos anos 80, o Black Sabbath se tornou outra banda, mais teatral, mais óbvia. Dio, junto com outros metalíferos de sua época, tornou-se exemplo de integridade e postural “metal”.
O problema é que, na “vida real”, o mundo estava em outra. O punk e o pós-punk seguiam muito mais pelo caminho niilista do Black Sabbath do que o próprio Black Sabbath. Os embriões do hip hop, a disco music, o revival do country, nada disso apontava para elfos, castelos, morte, bicho-papão. Durante a guerra fria, o escapismo deu lugar ao conformismo e ao combate, por isso guerreiros vestidos com calças de couro em palcos de 12 metros de altura pareciam arcaicos e constrangedores. Daí, o metal institucionalizado por Dio deixou o Planeta Terra para sempre. Hoje em dia, ele reside nessas camisetas de banda e na molecada perseguida na escola. Costuma, inclusive, ficar por lá quando esses adolescentes crescem.
O nefasto da obra de Ronnie Dio não são suas bandas e LPs, e sim seu legado. O respaldo que deu a múmias, castelos, cavalos e espadas forçou a entrada do escapismo num estilo bastante lúcido, ainda que pessimista. Assim, trouxe também o ostracismo para si mesmo (o que, para certos fãs de metal, é um símbolo de honestidade).
Engraçado que, nos últimos tempos, o metal tem ressurgido entre as pessoas “normais”, apesar do desvio de percurso que foi a NWOBHM e a fase de Dio no Black Sabbath. Por causa dessa clausura forçada, alguns metaleiros realmente extremos, influenciados por Thrash Metal e Stoner Rock (por sua vez influenciados diretamente pelo Sabbath do começo – acompanhou?) surgem como a verdadeira opção do underground frente um mainstream cada vez mais afetado, mais ou menos como era em 69. Ainda bem, porque se não fosse a música pesada, talvez minha vida não tivesse mudado quando escutei Queens of the Stone Age e System of a Down aos 12 anos.
Postado por
Jambo Ookamooga
às
8:15 AM
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