Tuesday, January 20, 2009

A Solução Para A África.

Depois de muito tempo sem escrever, consegui terminar dois textos em dois dias. Pensei em segurar a publicação deste segundo, mas acho que tanto faz.

Mais uma vez, não passa de um pitaco, e um pitaco bem ingênuo. Além disso, a partir da segunda parte, vão me considerar um porco direitista pior que o Paulo Francis. Quero que se foda, sem brincadeira. Quem acha legal o que acontece por ali merece o empalamento.

***

Sendo direto: a solução para a África não está em sentir pena do continente. Gente como eu e você chega lá só para sentir tristeza e imaginar mil possibilidades e soluções, que nunca se concretizarão. É duro, mas o poder não está conosco, com o povo, e essa é uma triste verdade que eu aprendi a admitir. Vivemos num mundo feio, onde, de fato, é o dinheiro que manda.

A solução para a África está na pura e simples bondade, no altruísmo. Mas não nosso (que poderíamos, sim, ser executores do “grande plano”, mas só). Dependemos, de qualquer forma, do dinheiro de bilionários, xeiques e sultões, como o daquele grande filho da puta que estava prestes a jogar 120 milhões de euros no lixo, ao comprar o passe de Kaká, iniciando assim uma reformulação no insignificante Manchester City. (Aliás, o próprio Kaká poderia parar de doar seu dinheiro para aqueles crentes safados e pilantras e ajudar a construir creches e escolas no Sudão, né?) O que é mais importante? Erradicar o Ebola no Congo ou transformar um time pau-de-bosta em potência futebolística? Agora, o que é mais fácil? E o que é mais confortável?

Isso também ocorre pelo fato de dinheiro e poder (em demasia) tornarem as pessoas más e hedonistas. Porque, além da constatação óbvia de que o investimento na África NÃO trará retorno financeiro por um longo tempo, outra razão para que bilionários e trilionários fechem os olhos para o continente é pura maldade. Em seus próprios países (Butão, Emirados Árabes, Brasil, Estados Unidos, Alemanha, etc.), há pobreza por toda parte e eles preferem continuar comprando milhões de carros, jóias e ações na bolsa.

Pense comigo: dizem por aí que Roman Abramovich perdeu cerca de US$14 bilhões com a crise financeira começada no ano passado. Duvido, mas vamos exercitar a mente. Antes, a fortuna de Abramovich seria de 16 bilhões e teria sido reduzida a 2 bilhões. Efetivamente, o que muda na vida dele? Nada, fucking nada. Imaginem que, ao invés de ter perdido 14 bilhões com a bolsa, ele tivesse doado. Mais do que isso, investido na fiscalização (porque a corrupção lá, assim como aqui, é absurda), presenciando com os próprios olhos o progresso que esses 14 bilhões trariam a algum lugar. Garanto que mesmo o coração de pedra do dono do Chelsea teria se sentido melhor e muito mais pleno. E o melhor: sem mudar nada em sua vida.

Outra solução para a África está em deixarmos o politicamente correto de lado. Foda-se a diversidade cultural, é uma situação drástica e não devemos dar trela para o monte de merda que acontece lá. Fodam-se as tribos que têm rivalidade histórica, foda-se a religião extremista do norte do continente, que continua a mutilar o clitóris de garotas na puberdade. Precisamos parar com tudo isso, colocar todo mundo em roupas confortáveis, dentro da escola e impedir que sigam com suas práticas tribais destrutivas (o que é diferente de tradição e folclore) de 20 mil anos atrás. Pode ser que envolva apenas conversa, pode ser que envolva truculência, mas estamos em 2009, desesperados para arrumar a bagunça que alguém fez ali e isso tem de ser feito.

Não importa. O que não pode continuar é a ignorância que permite que muito do dinheiro que é raramente doado à África seja usado para financiar guerras milenares entre tribos insignificantes que só fazem matar uns aos outros. Não pode continuar a barbárie justificada pela fé, que sempre manterá qualquer lugar anos-luz da civilização.

Sei que o que estou pedindo é ingênuo mesmo. É desejar mudança no âmago da consciência das pessoas. Sinto-me preso a um sentimento de impotência perante a impossibilidade de fazer qualquer coisa sem que para isso seja preciso desembolsar alguns milhões de dólares. Ironicamente, isso só vai mudar quando os milhões aparecerem e mudarem a história, num mundo onde força de vontade vai significar alguma coisa, onde a diversidade cultural poderá ser respeitada sem limites, porque não envolverá carnificina nem humilhação.

Enquanto isso não acontece, vou tentando me acostumar com o banho de sangue.

Monday, January 19, 2009

Dignidade Não Se Compra

Depois de algum tempo sem escrever, consegui rascunhar algumas palavras no Word. O texto a seguir fala de um tema bem batido, mas no fim das contas, como as pessoas em geral não prestam atenção em nada, é bem capaz que nunca tenha ocorrido esse tipo de pensamento a muita gente. Seja como for, é a minha visão para o assunto e já que deu vontade de falar sobre, fiz que nem os Menudos e não me reprimi.

Além disso, mudei o layout, seguindo a idéia do layout anterior, mas com um novo jogo de cores e novos personagens no banner. Pra quem não sabe quem são, em sentido horário a partir do canto superior esquerdo: Brian Jones, Monica Mattos, Meg White, Tony Ramos, Pamela Miller/Des Barres, Lisa Kekaulas e Muricy Ramalho.

***

Faz parte de um ciclo normal entre fãs de rock, obviamente com exceções, apaixonar-se por AC/DC ali pelos 15 ou 16 anos. Isso faz muito sentido porque todo o sex appeal do AC/DC vem de justamente não forçarem sex appeal. Eles formam a banda mais destrutiva, irônica e arruaceira de todas do tal rock clássico, basicamente como todo moleque de 16 anos quer ser. Num mesmo disco, eles cantam sobre o melhor boquete, sobre ser um garoto-problema e sobre o gênesis do rock and roll. E, no meio da adolescência, o que mais importa?

Para mim, no entanto, esse senso de adolescência tardia do AC/DC, que a transformou na banda número um dos garotos roqueiros de 16 anos com vida social, funciona só até a morte de Bon Scott – ou, sendo menos chato, até Back in Black, álbum que significa, ao mesmo tempo, adeus a Bon e uma ruptura com o AC/DC antigo.

Implico muito com Brian Johnson, mas a culpa não é dele. Sem seu principal letrista, Angus e Malcolm provavelmente perceberam que uma nova atitude deveria ser tomada. A bola do sucesso já havia sido levantada com Highway to Hell e a banda finalmente se tornou o jumbo mercadológico que é até hoje (é quase inacreditável o quanto Black Ice vendeu no ano passado), o que consistiu numa cortada melhor que qualquer uma do Giba. Marketing pesado e um som mais consistente para o mercado roqueiro-casca-grossa americano substituíram o tal sex appeal não forçado e renderam, além de uma imagem onipresente no mundo do rock and roll, milhões de dólares à banda, empresários, tour managers e quem-mais-você-puder-imaginar.

Ainda assim, se eu fosse do AC/DC, não continuaria. É ingênuo pra caralho pensar desse jeito, mas música é um negócio sério pra mim. E eu também acho que genuinidade é uma coisa muito rara e meu orgulho astronômico me impediria de minar a imagem e o apelo de uma banda como o AC/DC, se eu mandasse alguma coisa ali. As pessoas me olham atravessado quando eu digo que depois de Back in Black eles só lançaram merda, mas mesmo os fãs mais devotos não podem negar que o material lançado após essa época é “menos bom” do que o anterior. Ingenuamente ignorando o fator comercial, é por isso que sou contra voltas de bandas ou substituição de membros importantes que se desligaram por algum motivo.

Um músico bom e com alguma dignidade deveria ser capaz de criar música boa sem depender do respaldo de fãs antigos ou a segurança de uma marca forte. Jeff Beck, Dax Riggs, Curumin, Johnny Marr, Lauryn Hill, Jack Irons, Rodrigo Amarante, Richard Hell, Mike Patton – são alguns nomes bem randômicos de pessoas que não tiveram medo de abandonar projetos e começar outros, ou manter ambos simultaneamente. Por mais que eu goste muito mais de AC/DC do que, digamos, Fantomas, não posso deixar de admirar mais as atitudes de Mike Patton do que as de Angus Young, pelo menos nesse âmbito.

Pode parecer óbvio para quem trabalha com música, mas não é todo mundo que saca que comebacks como o do Police ou o do Alice in Chains significam a derrota da música e a vitória do dinheiro. Ao comprar o disco novo do, hummm, Blind Melon, você está incentivando o preguiçoso, o que tem medo de ousar (além de cuspir na imagem de Shannon Hoon).

Para você pode não significar nada, mas para mim é importante. Porque acima de tudo, o que eu mais quero evitar nesta vida é premiar o indolente, o aproveitador e ignorar o esforçado.

Monday, January 12, 2009

3 Anos

E alguém duvida que 2009 vai ter ainda menos postagens (e leitores)?

Thursday, January 01, 2009

A Primeira Verdade de 2009

Só vi a entrevista do Amarante para a Trip hoje. Apesar de eu ter desconfiado bastante do fim do Los Hermanos e ter detestado Little Joy, ele continua sendo um dos caras mais respeitáveis da música brasileira atual.

A pergunta e a resposta abaixo firmam, praticamente, um dogma:

P: Às vezes tenho a impressão de que o jornalista cultural está mais preocupado em parecer que faz parte do circuito do que em entendê-lo. Que prefere fazer parte da fofoca a ir além dela.
R: Isso mesmo. Acho que o recalque vem um pouco daí também, de uma frustração. Aí fodeu, não vai ficar bom mesmo. É aquele mesmo lance da música, fazer pra receber em vez de fazer para dar algo. Principalmente em jornalismo cultural, que envolve muito ego, vira um exercício de chupação do próprio pau, de tentar fazer uma carreira baseada na persona, menos que no conteúdo em si, na visão.


Que neste ano, todos que escrevem sobre cultura admitam essa verdade e, a partir daí, resolvam seus problemas de auto-afirmação. Se isso acontecer, já garantiremos um 2009 com textos, matérias e resenhas mais dignos. É pouco, mas não deixa de ser alguma coisa.

Saturday, December 27, 2008

New Year's Eve

Sou contra esse lance de usar letras/textos dos outros pra expressar o que se sente, porque na real, nós mesmos temos que fazer essas coisas. Mas desta vez, seria inútil escrever qualquer outra coisa que não fosse a letra de New Year's Eve, do Kashmir.

new year's eve
fine dark suits
paper hats
les grands salutes

your tear stained speech
and your wounded eyes
your frail attempts
to be remembered -

takes me down
dries me out
it shoves me around
blows my flame out

the moon is on
and the morning lurks
but the mood is gone
with the fireworks
I lost my faith
in new year's eve

serpentines
cheap cigars
sparkling wine
fallen stars

it's time to quit
and start again
only god knows
what we're celebrating


Seja como for, que 2009 seja melhor (ou "ainda melhor", se seu 2008 já foi bom) do que este ano. No fim das contas, não dá nada desejar o bem - mesmo nesses momentos clichês e constrangedores.

Beijo.

Tuesday, December 16, 2008

Top 10 2008 - Os Shows

Os melhores shows que eu fui neste ano. =)
Menções honrosas para Kashmir, que por um mês não fez parte de 2008, The Streets, que eu desperdicei por estar meio alterado, e Yeasayer, que só presenciei três músicas, por ter preferido ver Streets (que não curti por estar benloco). Irônico, né?


10. Slayer – Roskilde Festival, 06/07
Das bandas brutais que existem na Terra, Slayer é a mais classuda de todas. Sim, Kerry King é um idiota, mas quando ele e Jeff Hanneman pegam suas guitarras pra tocar, nada pode ser mais pesado e catártico. Tom Araya é outro monstro e, a roda de pancadaria que se forma na platéia, apesar de uma das coisas mais burras que podem existir, é extrema, assim como o show. Assisti colado na segunda grade do Orange Stage, onde tudo ficava mais calmo e a visão era perfeita. Grande, grande show.

9. Black Mountain – SP Noise Festival, 21/11
Puta show. Clima aconchegante, mas pesado, tudo perfeito. Porém, muito curto. Tivesse uma hora a mais, teria sido o número um, sem nenhuma dúvida.

8. Curumin – Galeria Olido, 29/10
Último show da série que Curumin fez na Galeria Olido. Foi pau a pau com o que ele faria uma semana depois, no Planeta Terra, mas escolhi este pelo fator intimidade. Na verdade, Curumin estava ali tocando para amigos (era incrível o número de gente presente que conhecia o músico pessoalmente), no centro de São Paulo, um dos lugares mais incríveis do país, de costas para a janela, onde os transeuntes iam passando. Além disso, contou com discotecagem entre as músicas e participações de MCida e Kamau. Curumin em seu melhor momento, tocando para e com amigos. Merece o oitavo lugar.

7. Gogol Bordello – Tim Festival, 24/10
Teve tudo o que uma boa apresentação necessita (performance, som bom, repertório, energia e etc.) e duas minas muito bem apessoadas de shortinho tocando bumbo e dançando. Não carece de mais, né?

6. The Campbell Brothers – Roskilde Festival, 06/07
Banda com uma guitarra lap steel, uma guitarra pedal steel, guitarra, baixo, bateria e uma “vocalista-soul” tipo Lisa Kekaula (The Bellrays). Cantando música gospel. E sem soar cansativo. Campbell Brothers junta tudo o que acontecia no sul dos Estados Unidos nos anos 30 numa performance sensacional, de fazer inveja a qualquer banda de hard/blues rock dos anos 70. É pra ficar até meio religioso.

5. Radiohead – Roskilde Festival, 03/07
Sessenta mil pessoas olhavam atônitas para Thom Yorke, Phil Selway, Ed O’ Brien, Jonny e Colin Greenwood. Uma das bandas mais geniais da nossa geração estava insana no maior palco de um dos maiores festivais europeus, com o sol se pondo ao fundo. Sem contar a música, já garantiria um lugar nesta lista. Mas a música conta, sim, e o que tivemos ali foi um dos melhores setlists que alguém poderia esperar. O final, com Thom Yorke sozinho no violão, ladeado por seus companheiros de banda, ouvindo a platéia cantar o refrão de Karma Police a plenos pulmões, foi um dos momentos mais bonitos que eu já presenciei.

4. Dan Deacon – Tim Festival, 24/10
Pelo aspecto punk de seu show (que acontece no chão, junto com a platéia, sem nenhuma barreira), Dan Deacon poderia apenas apertar play e se acomodar. Já seria motivo de notícia, já seria alvo de hype. Mas o que ocorreu no dia 24 de outubro foi das coisas mais incríveis. Dan Deacon revertia o som de gameboy de seu disco mais recente em uma balada de música eletrônica pesada e pulsante, comandando a platéia, fazendo todos obedecerem-no, mexendo o corpo, fazendo quadrilha e roda de dança. Intenso pra caralho.

3. Queens of the Stone Age – KB Hallen, 24/02
Nada mais precisa ser dito.

2. Solomon Burke – Roskilde Festival, 05/07
Imagine a cena: Solomon Burke canta várias de suas músicas e um sem-número de sucessos do soul e do blues, homenageia grandes nomes da música negra, principalmente seu parceiro Otis Redding, com uma versão de emocionar de Dock of the Bay e, após tudo isso, não quer terminar seu concerto. Simplesmente. As cortinas se fecham e Big Sol pede para alguém da sua banda abrir, para continuar saudando o público. As cortinas se fecham novamente e ele não se levanta de seu trono dourado com veludo vermelho (sim, tinha isso, pra ficar perfeito) e ordena que a banda continue tocando. O público delira, não pára de aplaudir nem quando a organização do festival corta o som e entra o apresentador do palco (Arena) para anunciar a pausa até a próxima atração. Cinco minutos ininterruptos de palmas. Uau.

1. Gnarls Barkley – Roskilde Festival, 04/07
Pode parecer forçado que o primeiro lugar nos álbuns tenha também o melhor show, mas o que eu vi no dia da independência americana foi uma banda em sua melhor forma. Sim, uma banda. Gnarls Barkley ao vivo transcende o duo Cee-Lo Green e Danger Mouse Burton. Todos disciplinados, unidos, uniformizados e, ainda assim, cada um com sua própria postura. Meus favoritos são o grande guitarrista (que enfia solos nas músicas mais improváveis) e a baixista gordinha que é cool como gelo. Danger Mouse é mais descolado ainda e não tira os óculos, não troca palavras, apenas senta e toca seu teclado ou seu xilofone. Mas não de uma forma arrogante ou antipática, apenas cool.
Seja como for, nada disso seria tão legal se Cee-Lo não estivesse ali entretendo a platéia, cantando a plenos pulmões, comentando o clima e elogiando o cheiro de maconha que emanava no ar (não pra mim, não senti nada). Cee-Lo mostra que gosta do palco, das pessoas, sorri, senta na beira do palco, interage, esquecendo todos os seus problemas de auto-estima.
Ainda diz no final, durante o bis: “vocês sabem que nós somos fãs de música e como fãs de música gostamos de tocar coisas dos outros”. A bateria é inconfundível, a guitarra também. Gnarls Barkley está tocando uma versão de Reckoner ainda melhor do que a que o Radiohead havia apresentado no dia anterior, precedida por Who’s Gonna Save My Soul e seguida por Smiley Faces. Não menos que sensacional, a banda do ano.

Friday, December 05, 2008

Top 10 2008 - Os Discos

2008 foi uma merda para mim, na vida pessoal. Musicalmente, no entanto, não houve ano melhor nestas 19 primaveras. Mais do que descobrir bandas, abri minha cabeça para estilos. Conheci um monte de coisa nova, aprendi a dar valor a certas coisas e percebi o que é realmente ruim. O rock, que eu tanto gostava, ficou ainda melhor depois de aprender a respeitar o hip hop, por exemplo, que eu tanto menosprezava. Ao não depender de uma coisa só, você começa a filtrar o que de melhor há em cada uma. Fui muito, muito burro em não perceber isso antes, em demorar 18 anos e alguns (poucos, vai) meses para colocar toda essa coisa em prática. Música está acima de quase tudo, portanto é coisa de mãe-na-zona se limitar.

Além disso, fui nos melhores shows da vida neste ano. A temporada na Dinamarca ajudou, mas no Brasil também houve coisas muito boas, como Dan Deacon, Gogol Bordello, Black Mountain, REM e mesmo meu conterrâneo Curumin.

Para mim, os últimos 12 meses contaram com pelo menos 25 discos muito bons, e uns 5 não menos do que geniais. Até por isso, neste ano fiz uma lista com 20 títulos. Escrevo aqui sobre os 10 primeiros, mas não custa citar os outros. Compõe também meu top 20 os discos novos de:

Sigur Rós, The Last Shadow Puppets, The Raconteurs, Black Mountain, Turbo Trio, Wado, Isobel Campbell & Mark Lanegan, Brant Bjork, The Streets e Duffy.

Agora, o top 10, pra comentar na escola e parecer bacana:


10. The Bug – London Zoo
Na real, o décimo lugar foi praticamente um empate técnico entre este do Bug, o quinto do Sigur Rós e o Last Shadow Puppets. Pessoalmente, escolhi o primeiro por ser a representação do quanto meu gosto musical mudou, e o quanto isso foi positivo. Em favor da música, posso dizer que o trabalho do DJ inglês Kevin Martin é dubstep grave pra caralho, com o baixo clipando, perfeito pra pista, ou estourando um, ou pra ouvir no ônibus lotado (principalmente as duas primeiras faixas, meio pessimistas, o que casa muito bem com um ônibus lotado, o mais próximo do inferno que chegamos no cotidiano). Poison Dart, com a MC jamaicana Warrior Queen, é uma das melhores músicas do ano.


9. N.E.R.D – Seeing Sounds

Bons produtores musicais, via de regra, são ecléticos. O N.E.R.D, de Pharell Williams, externa esse conceito básico quando mistura quase todo tipo de “música popular americana da segunda metade do século XX pra frente” (às vezes eu exagero?) em seus álbuns. No terceiro, encontra-se música para dançar tipo Spaz e Anti Matter, levadas pro hip hop como em Everyone Nose e Time for Some Action e até mesmo rock meio oitentista em Happy. Seeing Sounds, no fim das contas, é mais um expoente da época eclética e iconoclasta em que vivemos. E o nono lugar da lista anual de Jambo Ookamooga, a maior honra de todas.


8. Coldplay – Viva La Vida or Death and All His Friends
Coldplay era pra ser uma merda, certo? Uma banda meio sem graça, fresca, um U2 moderno... Viva La Vida foi um choque para mim, porque é na verdade muito, muito bom. Em geral, o estilo meloso das músicas é mantido, provando que as composições em si não eram ruins, mas sim os arranjos. Brian Eno teve uma participação fundamental, assim como os novos ritmos que ele deve ter apresentado a Chris Martin e sua turma. Provou que toda banda – até o Coldplay – tem chance de se redimir.



7. Apes & Androids – Blood Moon
Blood Moon é o tipo de disco que tem apelo com críticos e fãs. Com críticos por dar a eles a chance de desfilar seu formidável conhecimento enciclopédico apontando todas as dezenas de influências da banda, e com fãs por ser extremamente pop. É um pouco como o disco do N.E.R.D, com a diferença da porra-louquice, da juventude, que o Apes & Androids passa com a música. O segundo melhor début do ano.



6. Eagles of Death Metal – Heart On
Josh Homme é Deus. Qualquer dúvida que eu tivesse em relação a isso se dissipou com Heart On, por ser o melhor disco do EODM justamente quando Carlo Von Sexron/Baby Duck mais aparece. É claro que Jesse Hughes também é importantíssimo, principalmente por ser o único que parece conseguir extrair a veia humorísta de Josh num disco. Heart On, Cheap Thrills e Secret Plans, por exemplo, têm a identidade das águias, mas estão mais bem acabadas, com timbres de guitarra trabalhadinhos, o tipo de carinho que só o QotSA recebia.



5. Okkervil River – The Stand Ins

Em 2007, quando ouvi The Stage Names, foi como se uma luz brilhasse sobre minha cabeça. Por mais que todo mundo esteja fazendo esse som meio “Arcade Fire tocando Americana” (viajei demais?), ninguém o faz melhor que o Okkervil River. Não só isso, poucos têm a sagacidade das letras e perspectiva pop de Will Sheff. The Stand Ins é ainda melhor do que seu antecessor e faz pensar que é realmente uma pena que a banda só tenha recebido atenção quase dez anos após sua formação. Escute Pop Lie, Blue Tulip e In Tour With Zykos, no mínimo.



4. Kings of Leon – Only by The Night
Duas coisas me impressionaram nesse álbum, além do som em si. Das principais bandas indies-roqueiras do começo da década, Kings of Leon foi a primeira a chegar ao quarto álbum (Strokes, Interpol, Arcade Fire, Franz Ferdinand, The Killers, nenhuma chegou a essa marca). O outro aspecto admirável de Only By The Night é o fato de ele se mostrar muito mais maduro do que Because of the Times. Apontou que, mesmo depois das mudanças de som e estilo, os caipiras não se acomodaram, e continuam tentando fazer música cada vez melhor e melhor. Não dá pra partir pro clichê e dizer que “isso é raro hoje em dia”, mas entre bandas de rock indie, é raro, sim.


3. Curumin – Japan Pop Show
Luciano Nakata Albuquerque é um sujeito iluminado. É um dos caras mais sangue-bão da música brasileira, faz música boa para cacete e ainda conhece/trabalha com as pessoas mais legais do pop nacional. Além de tudo, mistura dub, samba, samba-rock, hip hop. E bem! Não só o melhor disco brasileiro do ano, Japan Pop Show é também o mais importante.



2. Yeasayer – All Hour Cymbals

Tem alguma coisa especial no Brooklyn. TV On The Radio, MGMT, Apes & Androids, Vampire Weekend… Todas essas bandas surgiram há pouco tempo na região, todas com uma veia “art rock”, todas muito legais... Mas nenhuma supera o álbum de estréia do Yeasayer, banda-irmã do mesmo lugar. Pelo menos no meu gosto, e eu nem tenho como explicar isso. Não sou muito fã de world music, corinhos hippies, e coisa do tipo, mas as canções do disco, todas muito boas, e as incursões eletrônicas criam um clima diferente. Eu não sou mais a mesma pessoa desde que ouvi No Need to Worry (sem brincadeira) e, como isto aqui é um blog pessoal, é motivo o suficiente para o Yeasayer estar na segunda e merecidíssima colocação do ano.


1. Gnarls Barkley – The Odd Couple
É a perfeição. Marcando o ano das misturas musicais (ou pelo menos, da descoberta delas por parte deste que vos escreve), a mais insana de todas. Danger Mouse é o maior produtor da atualidade e Cee-Lo o melhor cantor e um dos letristas mais sombrios. É notável como uma banda pop alcança tanto sucesso com letras tão pessimistas, carregadas, sofridas (Cee-Lo me lembra Tim Maia nesse aspecto, a do cantor extremamente talentoso, mas com sérios problemas de auto-estima por conta de sua aparência física). Danger Mouse faz as melhores bases instrumentais do mundo, com xilofones, sintetizadores, baterias e guitarras, ora mantendo o clima desesperado das letras, ora contrastando com elas, como que se manipulasse as emoções da música. Um exemplo da amálgama perfeita entre os dois é, também, o melhor momento musical (em álbum) do ano: a voz do cantor tornando-se, num ponto indefinido, uma motosserra em Would-Be Killer. Matador, mesmo.

Monday, December 01, 2008

Tom Zé, Caetano Veloso E Sua Influência Seminal na Blogosfera Anarco-musical Tupiniquim (Ou O Porquê de Não Se Recomendar Usar Ácido em Demasia)

http://www.rollingstone.com.br/secoes/novas/noticias/3975/
"No fim do espetáculo, Tom começou a agradecer a presença de amigos conhecidos e jornalistas e trouxe para a cena um "desentendimento" que até aquele momento estava restrito ao blog de Caetano Veloso e ao seu."

Escrever um blog é essa coisa vergonhosa que é por causa de filhos da puta desse tipo. Quem é que briga via blog, cara? Quão fundo é o poço pra uma pessoa que se "desentende" com outra através de uma treta de diário virtual?

Eu, particularmente, uso isto aqui pra publicar meus textos, não pra brigar com alguém ou ficar de chororô. Mas aí, aparecem dois ex-músicos em atividade falando bosta e fica parecendo que todo mundo é punheteiro assim. No fim das contas, bem disse Noel Gallagher: " blog is for someone who’s got no mates". O problema é que, assim como ele, "I've got more than a dozen [mates]."

Então fica combinado que, a partir de hoje, isto aqui não é mais um blog. É um diário de viagem. Graças ao Tom, ao Caê e ao Noel, grandes caras.

(no mais, até o fim da semana, posto o top 10 de discos de 2008, já que não tenho vida, mesmo)

Saturday, November 29, 2008

Alegria em Jogar Futebol

Minha primeira tentativa escrevendo sobre futebol, que é outra coisa que eu gosto bastante. Quem não é são-paulino provavelmente não vai gostar. Mas, no fim das contas, foda-se quem não é são-paulino.

Pós-nota: Irônico que na véspera do provável título, tenha morrido um dos principais (se não o principal) responsáveis por tornar o São Paulo o que o time é hoje. Pelo que fez entre 2002 e 2006, na presidência, Marcelo Portugal Gouvêa é ídolo são-paulino.

***


Tem algo diferente nesse hexacampeonato do São Paulo. Não é pelo título em si, ou pelas marcas inéditas. Ser o primeiro time a conquistar três Brasileiros seguidos ou seis alternados é bem legal, e deve ser motivo de orgulho pros jogadores fazer parte do primeiro plantel do Time da Fé a ganhar três títulos consecutivos.

Mas não é isso que importa, agora, pra mim. A graça deste campeonato está no fato de o time ter recuperado o tesão pela bola. Acima de tudo, o futebol é o que realmente importa. Nós só estamos nessa de torcer, antes de tudo, porque o futebol é emocionante, porque nossos rivais podem, de uma hora para outra, nos superar, porque o melhor time nem sempre é o que ganha. Por causa das jogadas, dos gols e, também, de toda a politicagem nos bastidores e debates apaixonados nos periódicos (televisivos, impressos, etc.) que rodeiam o esporte, nós perdemos uma parte considerável do nosso tempo com nosso time.

Há uma semelhança fundamental entre os títulos são-paulinos dos dois últimos anos e o de 2008, que é a derrota na Libertadores da América. Em 2006 e 2007, o título nacional foi, claramente, um prêmio de consolação. Mas, mesmo assim, houve diferenças entre esses dois anos.

Há duas temporadas, perdemos a Copa Libertadores com a cabeça erguida, lutando, para um adversário que, infelizmente, era melhor e se esforçou mais. Deu gosto assistir àquela final em 16 de agosto de 2006, e, como admirador de futebol, foi bonito ver aquele time do Internacional jogar e levantar a taça. Lembravam o próprio São Paulo, um ano antes. A conquista do nacional, meses mais tarde, depois de 15 anos de jejum, foi um prêmio aos jogadores, que haviam merecido tanto o título continental quanto o Inter.

2007 não foi tão legal, ganhamos o Brasileirão e tudo mais, mas não passou de prêmio de consolação, mesmo. Tínhamos uma equipe sem vontade, sem carisma, sem talentos individuais, que perdeu a Libertadores mais humilhante que eu já vi, num dos piores momentos de Muricy Ramalho, que pecava pela falta de ousadia. O único motivo de orgulho pros são-paulinos no ano foi a defesa, que garantiu o pentacampeonato brasileiro juntamente com a ruindade dos concorrentes. Foi uma conquista sem emoção e a época em que mais se questionou o sistema de pontos corridos, uma vez que toda a “graça” do futebol, mencionada acima, estava ameaçada.

Pode ser que considerem este ano como uma repetição dos anos anteriores, justamente pela perda da Libertadores e o título brasileiro subseqüente, mas eu discordo. Sem se prender às convenções do tempo, o primeiro semestre de 2008 fez parte de 2007, e isso qualquer um pode perceber. A equipe perdeu poucos jogadores, nomes de peso foram contratados apenas para reiterar o que todos pensavam saber: “não existia time brasileiro melhor do que o São Paulo Futebol Clube”. Quão irônico foi ser eliminado da competição sulamericana justamente por um time Brasileiro (para piorar, um dos mais historicamente inexpressivos do tal G-12)?

Então, entramos em 2008 com a temporada já iniciada, na iminência de fecharmos o ano sem títulos, pela primeira vez desde 2005. De maio a, sei lá, outubro, fomos apenas mais um time médio, relegado a futuro participante da Copa do Brasil, que perdia, empatava e ganhava na mesma proporção.

De fato, 2008 tinha tudo para ser o ano da derrocada tricolor. Contratações equivocadas, uma eleição administrativa polêmica, declarações (ainda mais) arrogantes de dirigentes... Até nosso jogador-símbolo Rogério Ceni estava sem vontade, pegando mal, parecia abatido.

Antes que tudo isso arremessasse de volta o clube à terra, à poeira do lugar-comum, nosso técnico arrumou a casa e os jogadores entenderam o recado. Ainda assim, o objetivo nem era mais o título. Era a vaga para a Libertadores da América. Sem pressão, sem necessidade de afirmação, o time emendou dezesseis jogos sem derrota e está a dois pontos do hexacampeonato inédito e inesperado, que deve ser conquistado amanhã.

Essa é a beleza da coisa. O São Paulo precisou descer ao inferno, recuperar, no jargão boleiro, a “alegria em jogar futebol” para, finalmente, se tornar o maior time do país. Estou orgulhoso.

Monday, November 24, 2008

SP Noise Festival - 21/11

Sobre o SP Noise. Agradecimento à Ana, pela credencial de convidado (é esse o nome?), ao povo da Bizz, pela companhia, e ao Renato, do Black Drawing Chalks, pelas dicas de pedais.

Mais uma coisa, reabri os comentários.

***

Parece que as pessoas têm medo de barulho. Estranhamente, a primeira edição do braço paulista do Goiânia Noise Festival, estava às moscas na sua hora oficial de abertura. Pode ser culpa do horário (e do trânsito, num fim de tarde de sexta-feira) ou do line up pouco conhecido pelo público em geral, mas a real é que nem eu estava lá a tempo. Por volta das 19h00, cheguei apressado, pensando que já havia perdido alguma (ou muita) coisa, mas as portas nem abertas estavam. Um pouco depois, com quase 1h30 de atraso, a entrada foi permitida.

Emendada com a abertura dos portões, começou a apresentação do Black Drawing Chalks, de Goiânia. Alguém havia dito que é a melhor banda de rock ao vivo no Brasil. Pelo que tenho visto por aí, provavelmente a informação se confirma. Apesar de o som estar embolado no Palco 2, dava pra absorver todo o peso e paudurice da banda. Sem frescura, sem roupinha “de palco”, sem pose, sem querer estar nos anos 50. Mas parece que o povo tem medo de barulho, mesmo, a julgar pela distância que mantinha do palco. Não importa realmente, porque o problema de organização e o público acanhado não estragaram a apresentação de uma banda independente que, enfim, não copia os Stooges.

Em seguida, The Tormentos, da Argentina, abriu o palco principal, com um som melhor. O mundo não é justo, porque, sem firula e panos quentes, The Tormentos é uma bela bosta mole e merecia, no máximo, o som que estava disponível pro Black Drawing Chalks. Surf rock repetitivo, bateria monocromática, toda a parte ruim do rock. Música não é competição, mas é irresistível: não basta apanharem no futebol, os argentinos também comem na nossa mão quando é pra fazer rock.

Mesmo assim, honraram o nome do festival: era barulho, não tinha pose, Kaiser Chiefs, Cosplay folk, óculos de aro grosso e dedo enfiado no cu. E tinham presença de palco, o vocalista falava bom português e entretinha a platéia. Isso foi o mais legal, porque refletia um pouco o melhor do festival, a casualidade de tudo, bandas que se comunicam realmente com os espectadores, músicos que saem do camarim para assistir aos outros shows e conversam com o público, que não parecia estar ali pra fazer número ou “ser visto”. Mais ou menos como as coisas deveriam ser.

Até por esse aspecto “acolhedor”, Motek, no palco principal, acabou passando meio batido, fiquei conversando com as pessoas, pedindo dicas de pedais pro guitarrista do Black Drawing Chalks e coisas assim. Mal, ninguém é perfeito.

Ambervisions, penúltima banda no Palco 2, continuou com o barulho. Sinceramente, pareceu mesmo só isso: barulho por barulho, mas pode ser que eu não estivesse no clima, ou não tenha o ouvido suficientemente apurado. Ainda assim, a presença de palco da banda valeu pelo show. A apresentação ao vivo é a catarse, não precisa ser musicalmente impecável para ser boa. Por isso, cada vez que o vocalista, com sua máscara tosca de lutador mexicano (ou assaltante), dizia “Boa noite, nós somos o Black Mountain”, com uma ironia que inexiste no indie paulistano, eu sentia uma pontada de esperança no alto do estômago. Toda vez que ele descia do palco e andava entre o público, cambaleando, dava até pra imaginar um mundo em que moleques chorões seriam proibidos de pegar em instrumentos musicais.

Flaming Sideburns foi a que chegou mais perto da afetação irritante do rock. Li por aí que o vocalista parecia uma mistura de He-Man com David Johansen, e é bem por aí. Esse tipo de afetação irrita, porque ninguém sai na rua com calça de oncinha. Mas a música em si não era fake, era tocada com tesão. Talvez a mensagem seja essa: você pode manter o pensamento no passado e não inovar se seu produto final for bom o suficiente.

Saí durante as últimas músicas para pegar uma cerveja, cerrar um cigarro de alguém (os meus acabaram cedo demais) e postar-me bem à frente do palco principal, onde o Black Mountain tocaria em seguida. Alguns meses atrás, perdi uma oportunidade de vê-los ao vivo, então dessa vez resolvi ficar bem perto, na grade. Dignidade inexiste por aqui. Mas valeu a pena. O ambiente foi lotando, dava pra sentir a empolgação, a vontade pura de ver o show. É como se as pessoas tivessem perdido, finalmente, o medo de barulho.

Rock não é música pra gente educada, mas a conduta da platéia, que não empurrava, não fazia rodinha e coisas do tipo, somada àquele aspecto “acolhedor” mencionado anteriormente, fizeram com que, sei lá, o clima ficasse propício. Mesmo com toda a porrada e psicodelia, foi o show mais aconchegante que eu já vi.

Começaram o set com Stormy High, Angels, Wucan e Druganaut, nessa ordem. Nada poderia ser mais perfeito, foram 4 das músicas mais intensas que eu já presenciei, as pessoas balançavam o corpo, estava todo mundo em sintonia. Amber Webber é uma deusa, Stephen McBean é um gênio, baixo, bateria, teclado, moog, platéia, cervejas, tudo comungado numa experiência sensacional. Sinceramente, esqueci qual foi a quinta música (Evil Ways, talvez), mas ela manteve o pique e, ao seu final, quando parecia que tudo ia engrenar mais ainda e todos seríamos engolidos por um acontecimento quase orgásmico, o show foi interrompido abruptamente.

Ficamos frustrados, querendo mais. Os seguranças nos empurravam em direção à porta, limitavam o uso do banheiro, tudo para que saíssemos o mais rápido possível da Eazy. Não digo isso com os olhos ofuscados pela homofobia, mas sim pela indignação: INTERROMPERAM NOSSO BLACK MOUNTAIN PRA QUE UM MONTE DE BICHINHA VIESSE DANÇAR HOUSE MEIA HORA DEPOIS.

O público culpou os produtores e estes depois explicaram que o problema foi mesmo o horário de término combinado com a casa. Sendo bem justo, acho que a culpa pode ser dividida entre os produtores, que fecharam um acordo com um horário muito apertado, os espectadores atrasados, que impossibilitaram a realização de um show (imagine a primeira banda tocando para 3 pessoas ou coisa do tipo) e a inflexibilidade da Eazy.

Mesmo com todos os problemas, o primeiro dia do SP Noise teve um balanço positivo, pelas boas apresentações e clima – repito – aconchegante. Comercialmente, percebe-se que não foi um sucesso, mas, se houver perseverança, podemos estar presenciando a criação do nosso próprio festival. Sem empresa de telefonia, sem Medina, sem frescurada. Imagina só?

Friday, November 14, 2008

Mallu Magalhães

A introdução deste texto a seguir, sobre punk e tudo o mais, eu já tinha bolado há algum tempo, porque sinceramente acho que há uma relação com a atitude que a Mallu tomou. Mas, juntando com os dois últimos posts sérios, acabou ficando algo maçante, exagerado. Fez sentido, no entanto, unir os três, um atrás do outro, como se fosse uma série sobre o punk e a cena musical brasileira da atualidade.
Por outro lado, prometo parar com esse assunto durante um tempo. Todo mundo cansou de Iggy e Dee Dee.

***

As pessoas sentem-se fascinadas pelo punk, geralmente, por causa do som forte, ardido, destemido, ou por causa da atitude, “do it yourself”, as histórias que são contadas sobre gente como Stiv Bators e Dee Dee Ramone. Ou pela junção de ambos. Da minha parte, esse fascínio vem principalmente da segunda característica, da possibilidade de revolucionar com pouco, concentrado numa bolha que vai crescendo e dominando o mundo.

Por isso, quando Mallu Magalhães surgiu, foi uma coisa muito empolgante. Era uma menininha pequena, bonitinha, com pouca técnica instrumental, do tipo que você não bota fé, mas que conseguiu bastante atenção apenas com suas músicas gravadas toscamente, apesar de todo mundo saber que rolou uma “boa vontade” de pessoas mais influentes em ouvir (e divulgar) aquilo ali. Seja como for, foi a primeira vez que esse tipo de divulgação deu certo no Brasil, e a história da menina, em si, era interessante. Por mais rica que ela seja, por mais irreal que seja alguém de 15 anos ganhar uma bolada da avó no aniversário (pelo menos neste país), foi na raça que Mallu gravou suas quatro primeiras músicas, foi “metendo a cara”, algo muito punk, na minha opinião.

Então quiseram canonizar a menina, elevá-la ao status de gênio, vendê-la a qualquer custo. Algumas pessoas acharam que se tratava de uma “artista”, de um ser humano pronto para escrever músicas que realmente significariam algo, que valeriam a pena. Colocaram-na para aparecer no Jô, para participar de programas de rádio e do (chatíssimo) début solo de Marcelo Camelo e até chamaram Mário Caldato para produzir seu disco, que, instantaneamente, tornou-se um dos mais aguardados do ano. Aí, o encanto acabou. Como artista, Mallu é nula. Dando entrevistas, é constrangedora e infantilóide.

Bom, o disco apareceu, finalmente, e o melhor adjetivo pra defini-lo é “frustrante”. Porque, apesar de tudo, é um álbum com boas canções que não conseguem sustentar o resto.

A produção, por exemplo, é boa, feita por um dos melhores profissionais disponíveis, mas cai na vala comum, é clichezenta. Nem deve ser culpa do Caldato, porque, com sua publicidade exageradamente direcionada e pensamento retroativo (“sou Dylan, só gosto de Cash, não existe nada além de Brian Wilson”), Mallu e seu pessoal não deixaram outra escolha ao produtor. A persona da “artista” vem antes da qualidade das composições, da performance, dos timbres. Portanto, ninguém deixa você esquecer, nem por um segundo que seja, de que se trata de um disco de uma garotinha que escuta folk e country e curte fazer rabiscos toscos com lápis de cera.

Uma garotinha que escuta folk e country, curte fazer rabiscos toscos com lápis de cera e tem um fiapinho de voz. Pode ser que isso seja esperado e aceito pra compor a persona mencionada acima, mas não deixa de ser inaceitável. Os gemidos, os suspiros, os versos cantados em vários impulsos, tipo Dylan, se inseridos nos momentos certos, de vez em quando, dariam uma identidade à voz de Mallu. Como são constantes e sem critério, indicam apenas uma tentativa de camuflar pouca técnica vocal. É verdade que ninguém precisa cantar bem, mas geralmente, com cada Neil Young e Lou Reed, vem algum tipo de característica genuína, que corrobora aquilo que eles estão cantando (mal).

Mallu perdeu toda essa “característica genuína”, toda a autenticidade que possuía, quando virou “artista de verdade”, com aparatos de publicidade, disco lançado por compania de celular, e não foi capaz de suprir a demanda disso. Lógico, ela só tem 16 anos. Mas o fato é que na vida real ninguém irá considerar isso. Nossa “artista”, ao vender-se ainda tão verde e despreparada, deu armas carregadas pra qualquer detrator fazer uso quando quiser. Acima de todo o resto, é a primeira coisa que um artista de verdade, desta vez sem aspas, costuma evitar.

Thursday, November 13, 2008

Dicas #4

Cheguei pra mais um filler. Porque este blog, diferente daquele álbum do Sum 41, é all filler, no killer. Heh.

Reflexão da semana:
Diferente do que a maioria pensa, a maior contribuição da Bossa Nova pro Brasil não foi uma nova identidade para a música popular brasileira, nem a moral lá no exterior. Na real, a Bossa Nova revolucionou as praças de alimentação de shoppings. Sério, alguém imagina comer um McDonald's sem ter um tiozinho ali do lado tocando Águas de Março num banquinho? Reflitam.

Orgulho da semana:
São poucos os que têm a sorte de terem nascido no mesmo dia que a SYANG.

Felicidade da semana:
CARALHO MEU PIRU É NÓIS RADIOHEAD EM MARÇO!

Cansei da semana:
Cansei, até o próximo post sério.

Sunday, November 09, 2008

Overdose de Iggy

Tenho um pedido pra editora L&PM. Um pedido fodidamente sério. Parem de distribuir a versão pocket de Mate-me Por Favor aqui em São Paulo, ou enfiem preços escrotamente exorbitantes.

É sério, cansei. Todas as bandinhas alternativas daqui querem parecer com os Stooges, e o público quer ser tão andrógino quanto os Dolls ou nerd como o Tom Verlaine. Acho que ia ser bem mais digno se eles aprendessem com o Billy Murcia ou com a Edie Sedgwick. Morram rápido, filhos de uma puta.

Toda vez que eu vejo alguém num lugar público, de convívio social, fazendo air guitar, tenho vontade de morrer. Por que as pessoas fazem isso nas baladas ditas alternativas? Meu irmão vive dizendo que, pelo menos, numa micareta, as pessoas parecem estar se divertindo genuinamente. É capaz de ele ter razão.

Cansei dessa coisa escrota, em que ser blasé é legal, em que todo mundo se veste igual, em que parecer o filho da puta mais inadequado e cheio de bactérias fazendo air guitar é que é bacana. Falando sério, ontem vi um maluco dançando pogo (é pogo, o nome?) durante a DISCOTECAGEM de Should I Stay or Should I Go. Não, bróder, não era o Clash que estava ali, nem mais uma das novecentas e setenta e sete mil bandas que copiam os Stooges fazendo um cover de Clash. Era a porra de um CD (os sets nesses lugares não são com vinis e turntables, he-he-he) e o sujeito estava lá, com os cotovelos arqueados, a bundinha arrebitada, empurrando os amigos com sua camiseta milimetricamente furada. Tipo, cara, você não é o Richard Hell. No meu quintal, isso era passível de surra de pau mole.

Mate-me Por Favor é provavelmente um dos meus livros favoritos. O modo como foi escrito, as histórias, tudo isso é genial demais. Mas eu tenho uma certeza inabalável de que ele faz parte de uma revitalização babaca do “espírito de 77”, que vem com bandas e casas noturnas e a leitura de um livro “seminal” que é vendido a preço de banana em qualquer padaria. E a absorção das idéias que tudo isso pode passar é errônea pra caralho. Em vez de ir à raiz da coisa, o do it yourself, o foda-se, o “encontrar maneiras alternativas de ser representado”, as pessoas continuam pensando que o caminho é simplesmente copiar, copiar, copiar. E discriminar tudo que não siga essa cartilha, como se não fosse digno de participar do seu movimento mariquinha.

Falando sério, quem está mais próximo de 77: Os Forgotten Boys, com suas jaquetas impecáveis, som “rock and roll pra cacete” e cabeçotes Orange ou o gordo fodido Dan Deacon, que toca música eletrônica de gameboy no meio da platéia, que pode mexer à vontade no seu setup?

Se as pessoas pensassem um pouco mais nesse tipo de coisa, não seriam tão medíocres.

É, fiquei velho e rabugento.

Thursday, November 06, 2008

Decadência Com Um Pouco de Elegância

Fiquei em dúvida entre postar isso ou não. Mas no fim das contas, quero que a opinião dos outros sobre mim se foda com caco de vidro.
Pra falar a verdade, não recomendo a ninguém fazer o que fizeram os Diamantes, mas de vez em quando até que é legal.

***

Foi desastroso. Talvez tenha sido o show mais desastroso que eu já presenciei. Tratou-se de um fiasco completo, pra ser bem sincero.

Tudo começa com um ácido que teria sido usado durante a noite do Tim Festa, mas só acabou aparecendo três dias depois. Ficou guardado. Salto no tempo para quinta-feira, dia 30 de outubro. A banda Lesbians convida a banda amiga Grigo Sttar e Seus Diamantes para tocar na noite glam do Clube Inferno, em São Paulo, dois dias depois. Grigo fica em dúvida por causa do pouco tempo para ensaio e porque o baterista titular não poderia tocar no dia referido. Mas e daí? Sábado à noite é uma bosta, mesmo, melhor fazer um showzinho de boa e ganhar um cachê. Fica decidido, então, que é a noite perfeita para tomar aquele doce. Syd Barret tomava, Jimi Hendrix tomava, isso já é o bastante pra corroborar a decisão, certo?

Sábado chega e dois quartos da banda – Grigo e um dos diamantes – se reúnem na casa de um amigo e os três esperam pacientemente pela dissolução de um terço de ácido nas respectivas línguas.

Corta pro camarim do Inferno. Pessoas em estado mental retroativo – por sorte, duas delas, os caras de camiseta vermelha e manguinha de outra cor, nem vão tocar -, conversas sem nexo, risadas sem parar, a coisa toda. É o típico camarim estereotipado glam rock. Homens se arrumando demoradamente, naquela coisa meio “metrossexual-andrógena”, fumando, afinando as guitarras, falando sobre mulher. Na visão de alguém sob o efeito de alucinógenos, devemos estar em Los Angeles, 1987.

Mas estamos em São Paulo e a primeira banda sobe no palco. Lesbians não é minha praia e nem a dos freqüentadores do Inferno (e eu ainda me pergunto quem é que iria de livre e espontânea vontade ao Inferno num sábado, de qualquer forma), por isso o show é frio, a platéia está a uns 10 metros da beira do palco. Alguns idiotas gritam “Toca Raul”, que nem como crítica é engraçado. No entanto, TUDO é engraçado se você tomou um bike, certo? Mesmo a precisão técnica do Lesbians, a habilidade indiscutível do guitarrista, a alucinação do baterista e a teatralidade competente do vocalista são motivo de riso.

Chega a hora da segunda banda. E não vou poupá-los por se tratarem de amigos. A instalação dos instrumentos foi caótica e o show foi uma bosta, sem desculpas. Eu ficava ali olhando aquilo e rindo. E observava as pessoas, e ria. Ninguém sabia o que estava fazendo, e só o fantasma de Dee Dee Ramone parecia estar gostando. É sério, eles estavam ali fazendo alguma coisa, meu pensamento ia longe, numa viagem que parecia durar umas 3 horas, e quando eu voltava, eles ainda estavam naquela mesma coisa, sem parar, o baterista tentava as viradinhas para terminar a música, mas nenhum dos guitarristas queria parar de solar. Deve ser duro para um baixista e um baterista sóbrios (ou quase isso) tocar numa banda com Syd Barret e Jimi Hendrix loucos de ácido. Depois de ouvir uns 389 “Toca Raul” e de ver o primeiro verso de 20th Century Boy ser repetido por cerca de (o que pareceu ser) uma hora, cansei de ver meus amigos sendo massacrados. Voltei pro camarim e esperei. Quando eles desceram, só restou rir. Histericamente, por umas seis horas.

Depois, as pessoas foram indo embora, mas nossos três heróis não sabiam exatamente o que fazer e esperaram. Quando já não havia mais o que fazer e tinham que fechar as comandas, foram embora.

Pra ser sincero, achei digno pra caralho. Um dia ruim com uma platéia de merda pedia um show desastroso. E isso foi legal demais. Tocar músicas ininteligíveis num estado completamente chapado é o verdadeiro espírito do rock. Não tem nada mais falso do que uma banda que prega a bebedeira e a chapação (t.c.p. 99% da cena independente brasileira), mas que toca sóbria e pensando em “não se queimar” com o circuitinho descolado-pau-no-cu-profissional-pra-caralho das baladinhas alternativas. Tá difícil pra todo mundo, mas em 73 também estava e nem por isso tiveram medo de abrir um corte no peito e tocar Louie, Louie por 45 minutos e mandar todo mundo se foder.

Foi o show mais patético que eu já assisti e, entretanto, foi o que chegou mais perto de 77. E de 67 também. Quantas bandas por aí conseguem estar em três lugares ao mesmo tempo durante um show de merda? Ponto pro Grigo e pro ácido lisérgico.

Tuesday, October 14, 2008

Jeff Ament e as Férias

Olhando pra trás, neste blog, eu vejo o quanto essa banda ainda significa pra mim. Merda.

***


Tone, de Jeff Ament, significa a derrota do Pearl Jam como coletivo, pelo menos por enquanto. Se no ano passado tivemos Eddie Vedder superando o “disco do abacate" com sua trilha sonora para Into the Wild, em 2008 Ament repete o feito. Que não é lá um feeeito, tendo em vista que o último disco da sua banda, se não é uma bomba, é um amontoado de clichês bem sem graça. E, se eu não era tão contundente antes, é porque o abacate ainda não tinha amadurecido (meu humor continua uma coisa linda). Dois anos depois, não passou no teste do tempo.

Já Jeff Ament consegue fazer rock básico nada revolucionário ou relevante, mas bastante agradável. Pra te situar, ele é ex-baixista de bandas seminais do, cof cof, “grunge” Green River, Mother Love Bone e Temple of the Dog, além do próprio Pearl Jam. Além disso, é o compositor de algumas músicas da banda, algumas muito boas e pelo menos uma muito ruim.

Sendo sincero, quando o trabalho foi anunciado, não esperava muita coisa. A decadência do Pearl Jam, de uma banda tipo divina pra uma banda “legalzinha” e irrelevante, acabou eclipsando seus integrantes e só Eddie, por ser uma espécie de porta-voz, se sobressaía. O álbum tinha cara de “um quinto de alguma coisa medíocre”. Talvez tenha sido sorte ficar nesse preconceito burro, porque a surpresa positiva, sem dúvida, foi benéfica. Quer dizer, eu poderia estar aqui numas de “Pearl Jam só tem gênio!”.

Tone, como dito anteriormente, é só rock básico que não importa de verdade. Mas é competente no que se propõe a fazer e, seja como for, apresenta as melhores músicas de Jeff Ament desde... sei lá, muito tempo. Em geral, é um disco composto de boas canções pop-rock grudentas (The Forest, Just Like That, Bulldozer) e baladas, como Say Goodbye e Doubting Thomasina. A última, aliás, tem a participação de Doug Pinnick, do King’s X, e tem forte influência soul no vocal. Pode ser ou não porque Ament quis, mas quando é que foi a última vez que a banda-mãe tentou alguma coisa mais ousada?

Essa competência descompromissada pode ter vindo da forma como o álbum foi realizado e lançado. Demorou 12 anos para ficar pronto, saiu por uma gravadora independente e só foram prensadas 3 mil cópias, vendidas apenas numa rede de lojas independentes (ou seja, nada de Walmart ou Virgin) e pelo site do fã clube do Pearl Jam. Jeff não quer revolucionar nada. Não tem panfletagem, não tem vendas revolucionárias pela internet, nem vote Obama, nem salve a Mata Atlântica. Só música, sabe? Pelo simples prazer de lançar suas faixas que demoraram anos pra ficar prontas. É tão respeitável quanto qualquer revolução ou causa humanitária.

No fim das contas, Tone não estará nas listas dos melhores do ano, em dezembro, mas acaba corroborando uma coisa muito importante: bandas não foram feitas pra durarem 20 anos, sem pausas. É possível que os integrantes do Pearl Jam tenham percebido isso (Stone Gossard está para lançar seu segundo disco solo, Eddie Vedder está excursionando sozinho e fazendo música pra times de beisebol) e deixado de lado essa idéia estúpida de fazer música panfletária sem inspiração, só pela “obrigação para com os fãs”. Tanto faz. A verdade é que serão três anos entre os lançamentos do último disco e o do próximo (presumivelmente) e eu posso apostar contigo como essas férias vão ter feito bem. 50 conto, vamo aí?

Friday, October 10, 2008

Isolamento

Texto baseado no quarto disco do Pearl Jam. Tipo aqueles Mojo Books, mas muito curto pra um Mojo Book. Oh, well.

***

Há quanto tempo estava ali? Podiam ser semanas ou uns poucos meses. Ou mais. Sem psicose, sem se considerar o maior misantropo da Terra. Um dia, ele simplesmente resolveu ficar. Nenhuma euforia, nenhuma ligação e nenhum objetivo a não ser se desintoxicar. Alguns amigos visitaram, fizeram o próprio café e serviram-se de conhaque sozinhos. A namorada tentou compreender, mas já tinha desistido. E sumido.

Lá fora, uma pilha de jornais se decompunha. Mas não havia tanta diferença entre a manchete dos primeiros e a dos mais novos, ainda inteiros. Era um ciclo e, se fechando para o mundo, ele mantinha seus olhos afastados desse ciclo. A grama do jardim estava alta, mas parecia mais saudável do que nunca, e observá-la era um dos seus passatempos. Seu nome era James, a propósito, e ele não havia se tornado um retardado. Ainda possuia pensamentos, ainda sabia do que se tratavam os anúncios no outdoor voltado pra janela da cozinha (apesar de ressaltar para si mesmo que aquilo era irrelevante e inócuo). James, ele nunca quis ser um ermitão.

Mas era preciso afogar-se em si mesmo e esperar. Tudo havia começado sem intenção, mas agora era uma busca. Sincera e imprevisível. Ler um livro ou seguir a trajetória de uma formiga ou tocar uma música no violão de corda de nylon que ele tinha roubado do primo há quase 15 anos. Eram todas missões e encaradas com a seriedade que mereciam.

Havia um amigo, um conhecido, que sempre aparecia e era o único com quem James falava. Porque era ele o único que sabia conversar, com as pausas necessárias e sem nenhum julgamento, como se estivesse alheio ao isolamento. E falava do tempo, e de algumas coisas do passado, trazia livros e cigarros, de vez em quando comentava alguma novidade do mundo lá fora, como se não pudesse se conter. Era algo um pouco proibido, sentia. James encarcerava-se por querer estar encarcerado e muitas informações quebrariam esse voto, despedaçariam essa busca. E depois, com o cenho franzido, flutuava para a porta de entrada e dizia adeus.

Por muito tempo, se esqueceu do lixo e do banho. Depois, lembrou-se. E aí colocava o lixo para fora de vez em quando e tomava banhos regularmente. Mais pela sensação do ar fresco do jardim e pela sensação do corpo imerso na água do que pela higiene em si. Sem tempo para higiene. Por acaso ela estava atrelada ao bem-estar que James precisava sentir.

Ao ser engolfado pela água, certo dia, ouviu a campainha. E depois ouviu de novo. Estava absorto em pensamentos, em conclusões, mas algum pedaço da sua consciência ainda estava conectado ao mundo “real”, onde atender à campainha significava alguma coisa. O quê, ele não sabia ao certo. Sem roupas ou toalhas e ainda pingando, abriu a porta. Um carteiro vestido de amarelo o encarava. James abriu a boca e falou pela primeira vez em muito tempo. Sua voz saiu fraca e rouca no começo, e depois foi se fortalecendo até tornar-se quase um brado.

- A vida tem dois lados, um bom e um ruim. E é como uma bicicleta, quando você tira as mãos, ela tende a virar pra um lado, sempre o ruim. É preciso buscar sempre o lado bom e ficar cansado, por nunca poder parar.

E fechou a porta.

Não teve tempo para sentir-se um clichê ambulante, um ermitão estabanado. Imergiu na água de novo e manteve-se funcionando, manteve-se pensando. O carteiro nunca mais voltou. Deixava as cartas na soleira da porta, às vezes as empurrava por baixo dela.
A maioria delas, das cartas, não importavam. O que importava a James agora era pensar. Ele tanto pensava que já havia desenvolvido um vício. Quer dizer, todos nós pensamos o tempo todo, mas ele sentia uma necessidade em filosofar acerca de tudo, do mais insignificante prego segurando um quadro na parede aos gravíssimos problemas da Terra. Mas seria assim tão insignificante aquele prego? Afinal de contas, ele segurava o quadro que seus pais tanto apreciaram um dia, e se um prego suportava algo que trazia alguma felicidade a alguém, não podia ser tão descartável. Era nesse tipo de besteira que James se prendia e, definitivamente, não era o ponto. Ele chorou algumas vezes, assombrado pela sua compulsão e ameaçou voltar para o “mundo lá fora”, mas quando encostava os dedos na maçaneta gelada, desistia. Algo ainda o prendia ali.

James nasceu numa sexta-feira de primavera em 1978, cresceu rápido e aprendeu a sentir raiva de muita coisa muito cedo. Da injustiça que via nas ruas todos os dias, dos pais ricos e vazios, das pernas longas demais, dos colegas de classe sem objetivo na vida, das namoradas possessivas e das infiéis, das dores de cabeça constantes que sentia... Ele odiava e amava sem parar, até o cérebro explodir, até as entranhas queimarem em bile, até os olhos cegarem de fúria. Vendo o mundo com tanta paixão, virou fotógrafo de pessoas, de situações, de tudo o que chamava a sua atenção. E o que não chamava, James tentava fazer chamar. Canais de esgoto, ruínas, chaminés, campos abertos, pátios vazios, calçadas imundas. Com a lente correta, o brilho e a nitidez bem escolhidas e alguns efeitos de computador, James fez arte de tudo isso e ficou conhecido. Ganhou o dinheiro que se recusou a receber dos pais, comprou uma casa, comprou um carro, comprou os próprios cigarros, as próprias drogas e a própria comida. Em ascenção, feliz, viu ternura no mundo. Sua aspereza encontrou-se com alguma alegria, alguma coisa genuína, e também alguma excentricidade. Os críticos, unanimamente, o chamaram de louco, alguns com elogios, outros com críticas. Ele riu, e respondeu que talvez fosse louco, mesmo.

Depois disso, enclausurou-se, como sabemos. No começo, para tirar fotos e captar a pureza da vida doméstica ou algo do tipo. Queimou a maioria, e guardou apenas as que achou muito boas: o gato do vizinho dormindo, o canto do armário do banheiro, o outdoor da janela da cozinha, o chão de madeira marrom do quarto menor e a caneca azul com a asa quebrada. Depois, perdeu a vontade de conviver com tudo lá fora e resolveu se desintoxicar. Da sua loucura, talvez, ou do que o mantinha com os que o achavam louco. Bem, ele pensava, ficar perto desta gente é loucura ou intoxicação cerebral.

Avançando mais no tempo, o dia era um sábado em maio e James encolhia-se num canto da sala, apavorado. Ele havia se tornado paranóico, tinha medo de si mesmo e dos hábitos que havia adquirido. Estava ali há muitos minutos ou horas e, pela primeira vez, sua obsessão por pensamentos tomou forma, e era uma conclusão tão acachapante para ele, e ainda assim tão óbvia e absoluta que, como na vez do carteiro, ela saiu em voz alta. Foi desencadeada por nada, já que nada acontecia há muito tempo e despencou para sua boca como se estivesse tomando forma há dias, meses:

- O mundo está cheio de gente sem nada para falar, e com vícios desprezíveis. Ainda assim, são pessoas, e estão sujeitas a isso e eu estou sujeito a amá-las. Qualquer que seja minha decisão em relação a elas, falar ou calar, devo me manter firme em meus propósitos e crenças, porque deveriam ser coisas diferentes. Cessar minhas atividades e ser devorado por pensamentos esquizofrênicos só me fará mais desqualificado do que qualquer um que eu venha a julgar. Aceitar os outros e ver beleza no que eles fazem é beneficiar a mim mesmo.

Então, levantou-se, destrancou a porta e a abriu. Sorriu ao ver o semáforo, verde como a grama.

Tuesday, October 07, 2008

Dicas #3

Banda que todo mundo gosta mas é uma bosta da semana (o patrocinador...):
Little Joy
Na boa, cara, momento desabafo. Tô aqui ouvindo o Bloco do Eu Sozinho e como é que um cara que já escreveu músicas tipo Retrato pra Iaiá entra numas de fazer banda-pastiche de Sondre Lerche, reggae manjado e Albert Hammond Jr.? E um monte de gente gostou. Não entendi.

Cantada via interweb da semana:
"kika vc quer se minha namorada....tenho 18 anos 1.70 peso 61 quilos a minha qualidade e ser sinsero"
No blog daquela Kika, da MTV. Acho que se esperta a Kika for, atrás desse cara a Kika vai. Falando sério, assim, quem é que hoje em dia tem coragem de pedir uma donzela em namoro? E quem é que faz isso de forma tão sincera, tão devota, que acaba ignorando as regras da gramática e ortografia? Ninguém, eu te digo.

Essa aí só fica sozinha se quiser

Pergunta da semana:
O que eu estava fazendo no blog da Kika da MTV?
Boa, não sei.

Spoiler furado da semana anterior da semana:
Ana Paula Arósio morre na novela.
Parece que não morreu. Minha mãe nem sempre acerta.

Citação da semana:
"Estamos nos organizando para a grande festa do hexacampeonato"
Marcio Braga, presidente do Flamengo. Essa eu me abstenho de comentar.
Já encomendei as coxinha

Sacada genial da semana:
"Ele não sabe nem se é penta e está falando do hexa – alfinetou Leandro [lateral do palmeiras, em resposta a Marcio braga]"
Qual era a velocidade máxima do Créu, mesmo?

Friday, October 03, 2008

Escrever o Próprio Futuro

Alguém está sentado na frente de um computador numa sexta-feira à noite, ouvindo Smiths e o primeiro LP do Black Sabbath, sentindo-se miserável numa viagem fodida de auto-indulgência.

Parece mentira, mas um monte de gente está assim. Milhões de sextas-feiras treze, toda semana, pra milhões de pessoas. Gente como eu e você, com alguns prazeres na vida, alguns sonhos, uns bons amigos, mas sempre com uma chateação pequena do lado do ouvido, sussurrando sem parar: “você não está no seu lugar”. Existe gente assim, embora a maioria dos seres humanos esteja mais preocupada em dar uma olhadela e deixar a ambigüidade no ar, como se fossem grande coisa.

A nossa época é a dos nerds e dos magrelos esquálidos que apanhavam na escola há dez anos. Hoje em dia eles chegaram ao poder, a internet nos deu a anarquia punk, a democracia hippie e tudo o mais. Hoje em dia é permitido ouvir de tudo, até funk carioca. Pode beijar menina e menino, pode cheirar cocaína pra cacete. Mas e aí?

O totalitarismo estilístico ainda continua sodomizando a todos que não têm tempo ou vontade de se adequar às regras e indumentária dos 00. O totalitarismo está em todo lugar, nos desfiles de moda, nos shows de rock, nas baladas alternativas, na rua Augusta, nas padarias 24 horas e lojas de camiseta.

E parece que dividem tudo em dois grupos: o dos que sabem disso tudo e o dos que não sabem, que estão nas marginais da coisa toda. Só que existe um terceiro grupo. O dos que entendem tudo isso, mas não estão afim de participar. Somos nós.

Nós, que não podemos sair nos dias de semana, que sentamos fumando maconha o dia inteiro porque não temos nada melhor pra fazer, que somos mimados e sem direção, basicamente esperando a morte. Olhamos pras bandas e elas são boas e tudo mais, mas não se comunicam com a gente. Os filmes só mostram as minas que a gente nunca vai pegar e os caras que a gente nunca vai ser. O Mc Donald’s segue subindo os preços, os ônibus estão lotados e a chuva nos molha da cabeça aos pés.

Cansamos da Funhouse, do Tim Festival, do David Beckham, da Amy Winehouse, da NME, do iPod, do funk carioca, da MTV, da cerveja a 4,50, dos desfiles de moda e da UEFA Champion’s League.

É hora de encontrarmos nosso espaço e nossos próprios ídolos, é hora de transformar a nossa normalidade em choque cultural. Vamos achar o nosso próprio lugar, que nem fizeram lá por 75, quando todo mundo tinha que ouvir Yes.

A hora chegou, apontem suas guitarras em direção ao céu e “escrevam seu próprio futuro”.

Wednesday, October 01, 2008

Dicas #2

Evento não comparecido da semana:
Carol Miranda fazendo pornô e continuando virgem.
Pois é, galera, não foi desta vez que eu e meus trutas presenciamos uma celebração desse porte. Mas tudo bem, parece que a própria Carol nem apareceu, por causa de uma pedra no rim ou coisa do tipo. Falando sério, o que eu tava fazendo segunda? Deveria ter ido.

Citação da semana:
"Levy Fidelix agradeceu a receptividade do eleitor e voltou a defender que, para resolver o trânsito da cidade, é preciso fazer o aerotrem."
Taí um incompreendido. Nova York, Londres, Tóquio, Madrid, etc, usam metrô porque são OTÁRIOS, PANACAS, INGÊNUOS. E o Levy tá tentando abrir os olhos da população há um puta tempo e ninguém quer saber. Daí um dia o Levy morre, geral percebe que ele tava certo e fica choramingando. Tipo um Van Gogh da política.

Luto da semana:
http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas/2008/09/30/ult59u172672.jhtm
Parece que não vai dar pro meu AaB. :(

Boneco da semana:














Isso é o que eu chamo de boneco de super-herói.

Spoiler da semana:
Ana Paula Arósio morre no final de Ciranda de Pedra.
Li numa revista ou site de fofocas, mas minha mãe já tinha cantado a bola porque leu o livro. Minha mãe é foda, manja muito.

Gafe musical da semana (o patrocinador exige que o assunto música seja abordado):
Só fui ouvir White Light/White Heat dia desses.
Mó brisa ficar mudando o balance em The Gift.

Sacada genial da semana:
Palmeiras e a tal tríplice coroa.
Ele acredita.

Posição ideológica da semana:
Vote no candidato mais engraçado.
Domingo é eleição e geral pára com a graça pra dizer que é pra votar no candidato com as melhores propostas, que o futuro da sua cidade está em jogo, yada yada yada. A opinião de Jambo Okamooga é que você deveria provavelmente votar no candidato mais hilário, fodido ou deformado. Já que a gente vai sentar num pepino de 34 cm de qualquer forma, que pelo menos seja uma experiência humorosa.

 
Clicky Web Analytics