Monday, March 29, 2010

Nossa Fama de Bambi

Fazia tempo que não dava uma cornetada no meu time aqui no blog.

***


Que mundo zicado. Ontem, o São Paulo perdeu o terceiro clássico da temporada (quarto, se considerarmos o jogo contra a Lusa). Incrível que mesmo ramelando em toda partida decisiva e moralmente importante, continuamos no tal G4, na frente de Corinthians e Palmeiras. Típico.

O grande problema está ali, no "moralmente". O São Paulo é que nem aquele marido machão que bota banca no trabalho, no boteco, mas que no seu quintal, é desmoralizado pela mulher, pelo cunhado e pelos vizinhos. O pior não é perder um jogo que, no frigir dos ovos, acabou sendo emocionante e igual (além de, argh, justo). O que dói, e dói demais, é perder o terceiro clássico do ano. Não podia. Contra o Corinthians, tínhamos de vencer. Nem que fosse com gol roubado, nem que precisasse quebrar a perna dos melhores jogadores adversários.

Não digo isso pelo fato de ser o nosso adversário mais desprezível, e sim porque, em tese, eles tiveram o azar de nos pegar depois de dois reveses contra rivais importantes. Mais uma vez, o problema está no termo: "tese". O Tricolor vem, sistematicamente, ressucitando cachorros mortos em clássicos. Jogar contra o São Paulo em um momento de crise é quase motivo de comemoração. Os adversários sabem que lá vem um time competente, mas sem um pingo de sangue na veia. Nos "zóio", então... Nunca vi uma equipe com o branco dos olhos tão branco.

É essa falta de garra, de raça, de entrega em campo que confere aos são-paulinos a ingrata pecha de bambi. Não é pela torcida e nem por causa de jogadores ou atitudes extra-campo desses jogadores (a perseguição ao Richarlyson é mais uma consequência do que uma causa). Ser "o bambi" me ofende. Me ofenderia mesmo que eu fosse gay. Porque ser gay é uma questão de opção sexual. Ser "bambi" é uma decorrência da falta de honra.

Existe um movimento que as pessoas chamam de "pussificação" (ou, sem apelar pro estrangeirismo, "embucetamento") do futebol, que consiste em joguinho de bastidores, ações de marketing frescurentas, as absurdas punições extracampo do STJD, jogadores com discurso pronto, politicamente correto. Enfim, um futebol cada vez mais profissional e menos empolgante. Os rumos do São Paulo parecem se enquadrar totalmente nisso. Somos o clube mais rico, o mais competente. E também o mais inócuo. Nossas ações de marketing são risíveis (toda semana recebo um email do restaurante que fica no Morumbi, mas qual foi a última camisa comemorativa que o Tricolor lançou?), nossos jogadores jogam com o dólar na ponta da chuteira, o presidente se concentra em cada picuinha... Até o nosso blog do torcedor no Globo Esporte tem um cronista insosso, adepto do bom mocismo e das piadinhas de firma.

Se parece exagero reclamar desse tipo de coisa, rebato com o óbvio: são essas pequenas nuances que formam a imagem de qualquer coisa. Não somos os bambis porque flagaram uma orgia gay com 50 mil são-paulinos na Praia Grande. Somos os bambis porque repetimos os slogans enganosos da diretoria e aceitamos, passivamente, a rola no rabo que é o joguinho fraco do São Paulo Futebol Clube desde, sei lá, 2007.

Não me importo em ser o bambi, a bicharada, o Elton John que seja. O que enfurece é dar motivo para ser chamado assim. Meu maior sonho, neste momento, é ver o São Paulo entrando em campo de rosa-choque e meter 7x0 na fuça da gambazada indigente. Isso sim é atitude de macho (um tipo de macheza que a maioria dos boleiros-machistas não entenderia, mas não dá pra exigir muito dessa massa ignóbil). Entretanto, enquanto não reunirmos bolas para tanto, aguentaremos os fedorentos cantando que o freguês voltou. Contra fatos, infelizmente, não há argumentos.

Thursday, March 25, 2010

Show do Coldplay: Não Vi e Gostei.

Mais um texto da Tribuna de Indaiá. Ando meio ocupado, minha produção de textos acabase restringindo aos textos da coluna. Aqui vai o do dia 6/03.

***


Na última terça-feira (02/03), foi com algum pesar que perdi a apresentação do Coldplay no Morumbi. Não sou o maior fã da banda que você vai encontrar, mas acho o último álbum, Viva La Vida, honestamente bom e a faixa-título sensacionalmente catártica. E mais do que isso, observo no Coldplay sintomas do que é o mundo hoje (que eventualmente podem se tornar tendências do que será o mundo amanhã).

Primeiro que é uma banda cuja fama surgiu de dentro para fora, de um miolo indie para a grande mídia (mainstream). Se parece lógico que as coisas funcionem assim, é bom lembrar que durante anos o público foi forçado a aceitar astros pré-fabricados, entuchados goela abaixo diante da falta de opções e de acesso a alternativas.

Agora, a coisa mudou, e me parece que não só na música, mas na cultura como um todo. O caso do Coldplay, a banda que começou tímida, com clipe intimista na praia chuvosa e que neste momento é a maior banda do planeta, com cancha de “guia das multidões”, é bastante característico. Hoje em dia, para um grande empresário, vale mais apostar em um ícone consagrado em determinado nicho, tribo e/ou gueto cultural do que lançar o próximo “grande sucesso” sem nenhuma base de amostragem. Você vê isso até no Big Brother Brasil, onde alguns dos integrantes desta última edição foram selecionados a partir de uma fama prévia na internet (infelizmente, a web ainda é nicho, pois não é acessível para um monte de gente).

O Coldplay surgiu em 1997 em Londres, como Starfish. Depois de shows em clubes locais e alguns EPs independentes, assinaram com a Parlophone, selo da EMI famoso por lançar os Beatles no começo dos anos 60. Em 1999, o primeiro disco, Parachutes, soava como Travis e Radiohead e teve dois grandes sucessos, Trouble e Yellow. No entanto, esses hits serviram mais como cartão de visita do que como catapulta para o sucesso. Nos anos e trabalhos seguintes, a banda foi consolidando sua fama e crescendo sem parar com In My Place, The Scientist, Clocks, Fix You, etc. Cada vez mais, as canções do vocalista Chris Martin alcançavam o grande público, que gostava e queria mais. Foi mais ou menos nessa época de afirmação que minha mãe virou fã da banda, o que me fez imaginar que, talvez, eles não fizessem mais parte do universo independente “faça-você-mesmo”. Nesse meio tempo, Chris Martin ainda se casou com a mega atriz Gwyneth Paltrow, defendeu causas nobres e tornou-se alvo de paparazzi.

Com tudo (até a perseguição dos tablóides!) conspirando para um sucesso estrondoso, seria estranho que um disco de vocação tão grandiosa como Viva La Vida não desse certo. Coincidência ou não, Chris Martin acabou virando uma espécie de messias justo quando seu álbum mais com cara de U2 viu a luz do dia. O que ele estaria se tornando? Uma versão atualizada de Bono Vox? E o Coldplay? É o novo U2?

Faz todo sentido. Se hoje em dia Bono tem, para os mais jovens (e pode me colocar nesse bolo), mais cara de líder político pentelho do que de músico, Martin ainda apresenta a vitalidade e até certa sofreguidão necessária para ser respeitado como rockstar altruísta. E não dá pra negar que o guitarrista Jonny Buckland bebe na mesma fonte que o escudeiro de Bono, The Edge.

Está criado o cenário. Numa época em que praticamente não existem mais conjuntos musicais com cara de arrasa-quarteirão, o Coldplay é a exceção que confirma a regra. Você que foi ao show, pode ter certeza de uma coisa: assistiu à banda que está a um passo de representar a geração atual durante muitas décadas. Se os membros do Coldplay são as pessoas certas para isso, eu não sei. Mas você não sente um friozinho na barriga vendo a História acontecendo na sua frente?

Wednesday, March 10, 2010

Não Há Cova Que Segure Johnny Cash

Escrevi este pra Tribuna, saiu há duas semanas. Meu preferido até agora. Dei uma leve chupinhada no Lester Bangs no finalzinho do texto, vê se saca aonde.

***

O lançamento mais importante a sair nesta semana [Nota: 22 a 27 de fevereiro] foi um disco póstumo. American VI: Ain’t no Grave não é nem o primeiro álbum a sair depois da morte de Johnny Cash e nem o melhor da série American – que consistiu na “redescoberta” do artista pelo superprodutor Rick Rubin. Mas a importância do disco está descrita ali no meio da frase anterior: “Johnny Cash”.

Se você não conhece Cash pela sua música, é possível que tenha assistido à sua cinebiografia, erroneamente intitulada Johnny & June no Brasil (como se a vida do maior nome do country americano fosse uma comédia romântica bem bobinha). Mas Joaquin Phoenix é muito mais bem apessoado do que o personagem que interpreta e pode ser que você se confunda: Johnny Cash tinha cara e voz de velho desde sempre, e foi assim que apareceu para o mundo, com With His Hot and Blue Guitar.

Logo nesse primeiro álbum, sua música mais famosa e emblemática apareceria. Folsom Prision Blues foi provavelmente a primeira canção composta pelo cantor, quando mal sabia segurar uma guitarra, e fala sobre as agruras de estar preso. Mesmo sem nunca ter pisado numa carceragem, Cash conseguiu captar o espírito da coisa e tornou-se uma espécie de padroeiro dos presidiários americanos. Esse tipo de atitude, somada à sua voz honesta e música cascuda, garantiu moral e “credibilidade de rua” para o músico entre os fãs machões de country nos anos 50.

Mas ele nunca se limitou à música caipira. Surgido na gravadora Sun, casa de Elvis Presley, Carl Perkins e Jerry Lee Lewis (além de outros pioneiros do rock), chegou a gravar alguns rocks com os três, numa sessão lendária nos estúdios da gravadora. O nome é sugestivo: The Million-Dollar Quartet. Além disso, durante sua carreira, Johnny gravou cerca de 10 álbuns de hinos religiosos, em homenagem à sua formação musical, nos campos de algodão do Arkansas, quando ainda era J. R. Cash (seus pais não conseguiram pensar num nome e o batizaram apenas com as iniciais).

A partir do final dos anos 50, sua carreira decolou e seus discos vendiam cada vez mais. Mas ele se afundou na anfetamina, o que tornou a maior parte dos anos 60 um inferno para o cantor. Em 1967 ele se divorciou de sua primeira esposa, Vivian e no ano seguinte conseguiu largar as drogas. Então, no palco, pediu sua companheira de duetos (e eterna musa) June Carter em casamento. Logo depois, os dois se casaram e mais tarde cantaram para uma audiência de detentos da prisão de Folsom, cujo registro acabou se tornando um dos mais importantes álbuns ao vivo e certamente o mais famoso de Cash.

Os anos 70 foram melhores para J. R., que se tornou “o homem de preto”, por causa de sua vestimenta, que ele justificou quase como uma tarefa: “Quando nos lembramos dos que ficam para trás/Na sua frente deve haver um homem de preto” (Man in Black, 1971). Cash ainda teve um programa de TV, pediu reforma prisional para o presidente Nixon e montou o supergrupo de country The Highwaymen com Willie Nelson, Kris Kristofferson e Waylon Jennings. Nos anos 80, porém, sua fama começou a minguar e é aí que entra Rick Rubin.

O produtor e dono da gravadora American Recordings assinou com o homem de preto e investiu na sua carreira. Os discos de Cash pela American mostram um senhor maduro, mas ainda vital. Sua faceta de intérprete capaz de subverter a lógica de uma canção aparece mais do que nunca, com menos composições próprias do que seus álbuns anteriores. Cabeça aberta que sempre foi, ele regravou músicas de artistas como U2, Soundgarden, Beatles e Depeche Mode como se fossem suas. E o resultado é emocionante.

Conforme a série avança, sua voz vai enfraquecendo, mas sem perder coragem e integridade que sempre possuiu. Johnny Cash morreria em 2003. Sete anos depois, Ain’t No Grave ainda é importante porque, como diz o refrão da primeira música do trabalho, não há cova que segure seu corpo. Amém.

Monday, March 08, 2010

Descanse Em Paz, Sparklehorse


Quando escrevi meu top 10 de discos do ano passado neste blog, destaquei a importância e a relevância de Brian 'Danger Mouse' Burton na produção do quarto lugar, Dark Night of the Soul, um disco bonito pra burro. Então, no sábado, seu parceiro na produção do álbum, Mark Linkous se matou dramaticamente com um tiro no coração e, na onda mórbida que sempre segue esse tipo de morte, resolvi escutar um de seus álbuns como Sparklehorse.

Com parcos dois dias de audição, começo a entender por onde se move o espectro musical de Linkous - e até onde se estende sua participação e influência em Dark Night of the Soul. It's a Wonderful Life, terceiro LP do Sparklehorse, é uma ode melancólica à beleza da vida (na Wikipédia esse comentário é feito sobre a música-título, mas eu percebo esse clima durante todo o registro). Linkous se revela como uma espécie de Elliott Smith mais interessado na produção de um álbum. Por isso, mais do que o outro trovador suicidado em 2003, ele consegue trabalhar com influências e sonoridades, chegando a soar até como Radiohead às vezes.

Com essa maior possibilidade de brincar com estilos, vêm as participações de Tom Waits, Nina Persson, Vic Chesnutt, PJ Harvey e John Parish no disco. Anos depois, Persson e Chesnutt apareceriam no supracitado Dark Night of The Soul. Se a atuação de Linkous no projeto tivesse se limitado a conseguir participações incríveis para as músicas, sua importência já seria imensurável. Mas It's a Wonderful Life (e me perdoe por só conhecer esse até o momento) mostra direções musicais - melodias bonitas e, ao mesmo tempo, sujas - que permeiam o todo do trabalho com Danger Mouse.

O bonito dos dois discos de Mark Linkous que ouvi até hoje é notar como as músicas podem ser modificadas e adequadas às inúmeras parcerias e influências sem que percam sua identidade, sua espinha dorsal. Em outras palavras, quando Linkous imprime sua digital numa canção, é foda de apagar. E, na minha humilde visão, é isso que faz um grande artista.

Que este texto sirva para prestar a homenagem devida ao músico e para que ele me perdoe por ignorar sua importância por tanto tempo.

Monday, February 22, 2010

Céu 2010

Comecei a escrever uma coluna num jornal de Indaiatuba, a Tribuna de Indaiá. Aí que tinha escrito este texto sobre a Maria do Céu, mas acabou não vingando. Publico aqui porque achei que ficou legal e merece ver a luz do dia. Mas como quem lê a coluna a princípio não lê o blog, tem muita coisa que eu já falei aqui, alguns conceitos e tal. Quem leu a coluna e veio parar no blog provavelmente vai notar semelhanças com o texto do último sábado, porque era uma adaptação mesmo, com foco maior na Céu. Era um dos dois que sairia.

Divirtam-se.

***


Dizem que o ano no Brasil só começa depois do Carnaval. Com o fim dele, é hora de olhar pra frente e decidir o que será feito de 2010. Se parece uma tarefa difícil e cansativa planejar um ano inteiro, e se você anseia por uma definição do seu futuro, pode invejar a cantora paulistana Céu. Seus próximos doze meses já estão bem definidos. E vão ser legais pra chuchu.

No ano passado, ela plantou a semente: seu segundo álbum, Vagarosa, foi aclamado pela crítica (foi o melhor disco nacional segundo a Rolling Stone) e teve vendas impressionantes no mundo todo (por exemplo, alcançou o primeiro lugar na parada européia de World Music). Agora, colhe os frutos. Por enquanto, já está confirmada em dois dos maiores festivais do hemisfério norte (Coachella, na Califórnia e Roskilde, na Dinamarca) e teve o maior público do festival Rec Beat, em pleno Carnaval recifense, além de frequentemente lotar suas apresentações no eixo Rio-São Paulo. Obviamente, presumimos que muito mais está por vir.

O sucesso extraordinário de uma cantora independente brasileira pode parecer um acontecimento isolado que dificilmente se repetirá, mas há dois fatores determinantes em que o sucesso da Céu se baseia – e que podem significar o caminho das pedras para futuros êxitos da nossa música independente.

Primeiro fator: Vagarosa é um disco primoroso, daqueles que acontecem apenas uma ou duas vezes na vida do artista, em que todo elemento se encaixa magistralmente, num registro pop perfeito. Céu é a antítese da cantora turrona de MPB, daquelas que sentam num banco alto de bar e mandam uma “Detalhes” boladona. Na verdade, ela representa a menina que escuta reggae, dub, samba e gosta de caçar vinis numa feira hippie. E tudo isso é representado no seu som, malemolente, esperto e muitas vezes sexy.

Segundo fator: A valorização de Céu é apenas a ponta de um iceberg muito maior do que se imagina. Ela faz parte de uma rede de colaborações e parcerias que envolve músicos incríveis, como Curumin, Wado, Emicida, Orquestra Imperial, Cidadão Instigado, Guizado e muitos outros. Juntos, formam uma cena que tem tudo para revolucionar a nossa música, há tanto tempo estacionada, burocrática.

Acredito piamente que teremos um ano crucial para essa revolução da música nacional. Por isso, brindo à Céu, que começa a abrir o caminho. A garrafa, no entanto, espero que seja dividida com muito mais gente.

Tuesday, February 09, 2010

Nesta semana, o Hotel Fasano é o Studio 54


O Studio 54 foi um clube em Nova York frequentado por celebridades do nível de David Bowie e Mick Jagger (aliás, você pode vê-los batendo um papo super agradável com Ozymandias, na realidade alternativa do filme dos Watchmen). A danceteria foi aberta em 1977 e tinha um estilo que atraía celebridades tão diversas quanto o tenista sueco Björn Borg e a cantora country Dolly Parton. Você podia assistir a shows de James Brown e Grace Jones. Tem uma lista interessante com os frequentadores na página do clube na Wikipédia. Se você quiser saber mais, sugiro ler tanto a página em questão quanto mais ocorrências registradas pelo Google. Era tanta influência que ainda existem alguns filmes que tratam sobre o Studio 54.

O Hotel Fasano, em Ipanema, não tem a mesma badalação (até porque é uma porra de um hotel!), mas certamente oferece a seus hóspedes mimos dignos de Studio 54. Tanto é que costuma hospedar as celebridades que passam pelo Rio de Janeiro - eu mesmo confesso que fiquei tomando uma cervejinha na frente do prédio numa manhã livre quando o Radiohead estava hospedado por lá no ano passado (e não me orgulho disso).

Nesta semana, o Hotel Fasano é o Studio 54 porque abriga, coincidência ou não, Madonna, Beyoncée e Alicia Keys ao mesmo tempo. Isso, no entanto, é mais triste do que parece. Metade pelo fato de um hotel é meio que a sua casa durante o tempo que você passa nele e não deve ser agradável ter fãs de três estrelas diferentes se esgoelando dia e noite atrás de uma foto ou simples aceno seu. Metade pelo fato de as três estarem singelamente no mesmo ponto durante certo tempo causar tanta comoção. Evidencia o tal lado triste da celebridade.

Se a ordem do século XXI é transformar cada mortal numa marca, num personagem de si mesmo, único, sendo todo mundo igualmente interessante, então não deveriam existir mais Studios 54 e Hotéis Fasanos. Moças talentosas como a Beyoncée e a Alicia Keys e uma senhora que fez por merecer o que já conquistou na vida como a Madonna deveriam poder tomar um sol sossegado em Ipanema sem nenhuma fotografia de cofrinho caindo na internet.

Quando chegar o dia e a ficha cair, nem mais posts assim existirão. E o mundo será um lugar melhor, eu tenho certeza. Quem sabe em 2012?

Friday, February 05, 2010

Apocalipse

Geisy Arruda transformada em Lady Gaga

Saca a alegria da moça:

Thursday, February 04, 2010

Em Busca do Post Perdido

A falta de assunto e inspiração me fez sair por aí, desesperado, vestindo só cueca, chinelos e óculos escuros, atrás de novidades que eu pudesse comentar aqui no Schprreading Leisz (como eles falam na Polônia). Eu disse que atualizaria todo dia, não importa como. A seguir, você acompanha meu esforço claudicante em conseguir algo minimamente interessante para colocar no blog, sem apelar para a metalinguagem.

A primeira notícia mais ou menos pop que eu achei foi que a Angélica, a lésbica gatinha do Big Brother, está apaixonada por uma mulher da casa. Achei melhor passar. Mas o pior estava por vir: logo depois, me deparei com uma foto do Sr. Orgastic fazendo um bolagato numa banana. Minha manhã não poderia ter começado pior.

Dez e quarenta e seis. Um mendigo ficou com pena dos meus trajes e me doou um sobretudo. Está frio, e a correria continua. Acesso os sites de música através de meu iPad 3g 967 Gb. A safra não é boa. Uma manchete, no entanto, chama minha atenção: "Ainda há ingressos para Beyoncé; Iced Earth se apresenta na mesma noite". Levando em conta que o público da maior diva da América nos últimos anos é o mesmo do Iced Earth, essa notícia deve ter esfarelado cérebros a granel. A dor da dúvida deve ser lancinante.

Não dói mais, porém, do que descobrir que, além de acabar com o AC/DC há quase 30 anos, Brian Johnson é tão complexado que acha que artistas não devem conscientizar seu público. Como eu suspeitava, o mundo está mesmo dominado por cavalheiros e doutores, além de roqueiros super aptos para falar em público.

Onze e treze. Desisti. 04/02/2010 não vem sendo um dia bom para blogs. Melhor parar. Se não, o próximo passo é analisar o BBB como um troço muito sério. Aí, como diria Caco Antibes, não há mais degraus a descer.

Tuesday, February 02, 2010

Grama Praiana

A idéia agora é atualizar o blog todo dia. Com isso, não só textos e análises rocambólicas serão postadas por aqui. O que eu quero mesmo é que você escute um monte de música, por isso inauguro hoje a sessão de playlist, aproveitando que conheci o tal do Grooveshark (grazie, Elson).

O critério para a lista temática de hoje é um monte de som brisante que você gostaria de escutar na praia, chapado de cerveja, camarão e queijinho com os amigos. Divirta-se.



Link direto.

Monday, February 01, 2010

A cigarra Kashmir e a formiga Mew

Mesmo que eu tente ser o mais racional possível, a música ainda é capaz de me impor certas sensações que, tivesse eu um pouco mais de juízo, seriam evitadas a todo custo, combatidas até. Mas a gente não foge, aceita, gosta até.

Exemplo claro, para mim: gostar da banda dinamarquesa Kashmir. Que justo eu, o arrogante e auto-intitulado arauto do bom gosto, da sinceridade musical, da identidade, goste tanto de uma banda tão sem personalidade é um mistério daqueles. Ainda mais porque desta vez eles foram longe demais.

Kashmir

Veja se isso não te causa indignação: são quatro músicos; um deles é o maior poeta vivo e um dos maiores guitarristas da Dinamarca, outro fez belas linhas de baixo e backing vocals ao longo dos 18 anos de banda, o terceiro é um baterista conceituado de funk e jazz e possui um molejo de dar inveja, enquanto o último entende o suficiente de música e produção musical para alavancar qualquer banda. Eles gravaram seu disco novo no Electric Lady, o estúdio do Jimi Hendrix. Além disso, foram produzidos por Andy Wallace (Nevermind, Reign in Blood, Grace) e tiveram um hiato de quatro anos e meio para preparar seu novo trabalho. Mesmo assim, pela quinta vez em suas carreiras, lançam um registro chupado de algum lugar.

Trespassers soa estranho para quem esperou de outubro de 2005 até hoje, porque justamente em outubro de 2005 o Kashmir mostrava ao mundo seu álbum com mais personalidade, No Balance Palace. Meia década mais experientes, era de se esperar que Kasper Eistrup e seus comparsas amplificassem a aventura do último disco em direção à perfeição, salpicada de novas influências e idéias.

As novas influências até estão ali, mas a (já exaustivamente repetida por aqui) personalidade não. Trespassers, na verdade, é um exercício de síntese/amálgama de tudo que tem influenciado as bandas indie que estouraram justamente nos últimos cinco anos. Algumas delas até chegaram ao estrelato total, como o Coldplay. Você ouve um pouco de pós punk, de shoegazer, de U2 no novo disco do Kashmir, coexistindo da mesma forma como coexistem nos inúmeros discos hypes que você escutou nos últimos tempos.

Como não me interesso nem um pouco por esses estilos, tudo isso poderia ter passado despercebido por mim. Só que o destino é traiçoeiro e, alguns dias atrás, ao chegar de volta a São Paulo, recebi uma encomenda da Dinamarca com o mais recente lançamento do Mew. No More Stories... é competentíssimo em reunir todas essas influências supracitadas e em fundi-las com um som próprio que consagrou a banda desde o sucesso Frengers, de 2003.

Alguns maneirismos deles chegam a irritar (como disse um crítico da Slant Magazine, a banda não é reflexiva e inventiva como pensa, mas sua convicção é inspiradora), mas é absolutamente inegável que Mew soa sempre como Mew.

Mew

Apelando para a analogia com a fábula, é como se o Mew fosse a formiga e o Kashmir a cigarra. Os primeiros, infinitamente menos talentosos - o que não é nenhum demérito, uma vez que a maioria dos seres humanos me parece menos talentosa do que os integrantes do Kashmir - seguem com sua fervorosidade quase religiosa, lançando álbuns a cada dois anos, procurando refinar seu som e torná-lo uma marca registrada sem descambar para o lugar comum.

Já a cigarra deita apoiada em seu talento e parece escolher a dedo, depois de intervalos preguiçosos de três ou quatro anos, o som mais apropriado para tornar grande seu próximo disco - no passado, elegeram o Pearl Jam e o Radiohead e desta vez, o Coldplay e o próprio Mew, que é, atualmente, a banda dinamarquesa de maior sucesso internacional. Longe de mim afirmar qualquer coisa (me identifico melhor com a especulação desleal!), mas a obsessão pelo sucesso do Kashmir mira alvos tão óbvios que parece totalmente deliberada.

Ainda assim, numa dessas peculiaridades pessoais impostas a nós pela música, tão irascível e teimosa, cometi o crime de preferir o álbum da cigarra. Trespassers possui um clima de desolação árida que toca meu coração de uma forma engraçada. Mais que isso, seja como for, minha história com o Kashmir irá me perseguir para sempre, a identificação com a banda nunca vai deixar de existir.

Acontece que o mundo não é regido pelas minhas preferências e um questionamento muito pertinente que você pode fazer é: quem é mais conhecido fora dos limites da pequena Dinamarca? Quem estará no festival de Coachella junto de Faith No More, Sly and The Family Stones, Thom Yorke, LCD Soundsystem e Them Crooked Vultures?

Pois é. Como não poderia deixar de ser, a fábula estava certa.

Friday, January 29, 2010

As 21 Melhores Músicas da Década (Passada)

21 músicas fundamentais dos anos 2000 para mim. Algumas foram hit, outras não, mas todas têm seu significado. Levei em conta sua representatividade pro mundo, também, e sua força como hit, como música capaz de falar com mais pessoas. Lógico que as idiossincrasias estão aí, mas você me perdoa, né?

Eu poderia ficar horas explicando cada uma, mas é complicado. Recomendo procurar as que você não conhece, de qualquer forma. É tudo puro amor.

Depois, prometo que não volto a falar na década passada. Pra frente, Brasil!

21. No Need to Worry - Yeasayer (2008)
20. Cordão da Insônia - Céu (2009)
19. Fluorescent Adolescent - Arctic Monkeys (2007)
18. The Fallen - Franz Ferdinand (2005)
17. Turn the Page - The Streets (2002)
16. Stillness is the Move - Dirty Projectors (2009)
15. Steady, As She Goes - The Raconteurs (2006)
14. I'm Your Torpedo - Eagles of Death Metal (2008)
13. Dance, Dance - Fall out Boy (2005)
12. Pavão Macaco - Wado (2009)
11. There, There - Radiohead (2003)
10. Everyone Nose (All The Girls Standing In The Line For The Bathroom) - N.E.R.D. (2008)
9. Umbrella - Rihanna (2007)
8. Magrela Fever - Curumin (2008)
7. Toxic - Britney Spears (2007)
6. Viva La Vida - Coldplay (2008)
5. Sentimental - Los Hermanos (2001)
4. No One Knows - Queens of the Stone Age (2002)
3. Sexyback - Justin Timberlake (2006)
2. All My Friends - LCD Soundsystem (2007)
1. Crazy - Gnarls Barkley (2006)

Edição: O Elson me mostrou o grooveshark.com, onde você pode fazer umas playlists, então fiz esta aqui com as músicas do post. A única que não tinha no site era Pavão Macaco do Wado, então você pode dar uma olhada (e não só uma orelhada) nela aqui, no clipe que ele fez pra música.

Sunday, January 24, 2010

Eureka

Finalmente entendi: a principal influência do Gnarls Barkley não é musica negra, nem pirações eletrônicas/de produção. É o Black Sabbath.

Os instrumentais nóia e as letras sarcáticas, auto depreciativas, formam o mesmo clima sombrio, potencialmente austero, da primeira banda a colocar intenção macabra na música pop. Comprove no bruto exercício de repetição instrumental em Open Book e no clima de desilusão quase apática, a la Solitude, de Who's Gonna Save My Soul. Mesmo as melodias mais animadas, como Smiley Faces e Blind Mary ganham letras de ironia e desconsolo.

Os Caras.


Desta vez tenho certeza: a junção de Cee Lo com Danger Mouse não significa algo simples. Significa que o Universo venceu. Já estamos salvos, vai ficar tudo bem. Vamos dormir em segurança.

Wednesday, January 20, 2010

E a Céu, Hein?

Se você é uma daquelas pessoas antenadas (e sonhadoras), que lembram de cor a escalação dos festivais gringos mesmo sem ter a mínima possibilidade de ir até um deles, já deve saber que a atração brasileira do Coachella é a Céu. Pra deixar tudo ainda mais bonito, hoje foi anunciado mais um show dela fora do país, desta vez no festival de Roskilde na Dinamarca.

Se nos Estados Unidos a Maria do Céu já tem uma moral alta, na Europa ela deve se dar ainda melhor. Muito porque europeu paga um pau pra música brasileira, ao mesmo tempo que gosta de novidades e misturas. E a Céu tem tudo isso.

Na verdade, o processo já começou. Há algum tempo, o festival dinamarquês vem valorizando e incentivando as apresentações de world music nos seus domínios, mas confesso que não imaginava que colocariam a nossa nova diva num pedestal tão alto. Saca só como eles apresentam sua nova atração no site do festival:

Astrud Gilberto, Erykah Badu and Lauryn Hill, make room for Céu.

The beautiful, 30-year-old singer with the velvety voice has taken an international audience by storm. In fact, no Brazilian artist has gotten as far as Céu on the US Billboard chart since Astrud Gilberto and the by-now worn-out "The Girl from Ipanema".

Céu stands ready with a range of more modern signature tunes for the big country. Her pop music draws on both salsa, bossa nova and hip hop in a hot and sophisticated mix.

Welcome a crown princess of sunny pop music to the far North. The next time she visits these latitudes, she may very well have joined list of queens.

Achei engraçado falarem de salsa ali no meio, mas a gente releva. Colocaram ela junto da Lauryn Hill, olha que preza.

Se tudo der certo, a Céu vai abrir caminho para esse monte de gente que está fazendo musica boa por aqui, e pode até ser que a nossa cena finalmente role. Não faz sentido um som tão nosso, no entanto com um potencial tão pop e global, ficar escondido do resto do planeta.

Thursday, January 14, 2010

Os Anos 00 e Seus 15 Discos

Enfim acabaram os anos doismil. Foram dez anos importantes demais para a maioria das pessoas que lê isto aqui (na maioria, meus amigos, que não passam dos 30 e poucos anos). Claro, qualquer conjunto de dez anos são decisivos na vida de uma pessoa, a não ser que ela tenha estado em coma. Mas esta década em especial marcou a transição para a vida adulta para essas pessoas com quem eu convivo. Junto com isso houve discos que serviram como trilha sonora (é brega falar assim, eu sei) para todas as descobertas, conquistas e incontáveis decepções que passamos. Com isso, seria no mínimo pusilânime da minha parte, que tenho um blog musical, não enumerar meus 15 álbuns favoritos entre 2000 e 2009. Mesmo que com um certo atraso atraso, (a maioria das pessoas descoladas fez suas listas da década antes de 2009 acabar!) consegui juntar algumas coisas legais.

Antes de tudo, pensei em escrever uma pequena resenha para cada álbum listado aqui, mas seria uma perda de tempo daquelas. Além de ser inexplicável e injustificável o quanto os três primeiros lugares, por exemplo, significam para mim e o quanto eu gosto deles, meu ranking é, acima de tudo, irrelevante. Nunca terei o alcance da NME, da Rolling Stone, do Pitchfork com um blog desses. Por isso, optei por uma lista pessoal, idiossincrática, egoísta. E sem distinguir a música brasileira da música internacional, como é feito por aí. Metade por acreditar que música não tem barreiras de nacionalidade e metade por ainda me considerar imperdoavelmente ignorante em relação à música do nosso país.

Essas listas maiores, por conta de seus inúmeros votantes, acabaram, de certa forma, no lugar comum, resumindo bem o que foi a década (e esse clichê tem sua óbvia importância): uma frente indie, metida a eclética, que podia misturar Kraftwerk com Erkin Koray e uma ascenção do Hip Hop semelhante à do rock nos anos 70, que resultou em experimentações e junções pouco óbvias, além de uma cena underground cada vez mais forte. O quadro Hip Hop x Indie já aparecia lá pela década de 80, quando os primeiros raps políticos eram a alternativa ao post punk afetado. Se é verdade que a moda gira num ciclo de 20 anos, tudo se encaixa direitinho aí.

Pessoalmente, foi o período em que tudo começou. Dos dez aos vinte anos, descobri muita coisa e aceitei que não sou nenhum universo particular, nenhuma Entidade Especial, como a gente tende a pensar em algum ponto da puberdade. Dito isso, observe como a minha lista pessoal é calcada em poucos estilos musicais, como estou sujeito ao que é popular, como meu primeiro lugar é especialmente óbvio para quem me conhece ou acompanha este blog.

Ainda assim, foi possível me enredar por muitos caminhos, movimentos, épocas. Tudo isso por causa da ação fundamental da internet, particularmente a tal web 2.0. As infinitas ferramentas possibilitaram que nos livrássemos das últimas amarras de uma era em que ouvir mais de uma coisa era feio. Em suma, se musicalmente houve pouca novidade nos anos 2000, com as novas mídias, pudemos assimilar definitivamente o legado do nosso passado. O CD (e as mídias em geral) morreu, mas cada vez mais música é disponibilizada, a cada semana eu fico sabendo de um artista obscuro que foi fundamental para que tal banda ou movimento existisse.

Dois exemplos fáceis para te convencer que acabamos de passar pela "Década da Síntese": nenhuma cantora pop trouxe uma revolução como a Madonna nos anos 80 e na verdade, todas elas seguiram à risca os paradigmas estabelecidos pela mãe da Lourdinha. Só que, mesmo assim, com suas curvas, sensualidade e até mesmo por causa das maiores facilidades para produzir música pop, a Beyoncée dá UM PAU na Madonna. Ela foi capaz de absorver os ensinamentos da predecessora, juntar com sua sexualidade gritante, uma estética Hip Hop pré-estabelecida e fez mágica. Alguém acha o clipe de Erotica mais sexy do que Naughty Girl? Eu não, hein.

O segundo exemplo trata dos "comebacks" de bandas que não param de ser anunciados desde 2007, mais ou menos. Algumas delas ainda não estavam separadas por seis anos completos (Blink 182). Isso significa que, agora, mais gente escuta e entende coisas tipo bandas de Shoegaze (eu, por sorte, sou ignorante o suficiente para continuar detestando) e que, sem gastar dinheiro com CDs e LPs, as pessoas vão a mais shows, tornando a turnê de uma banda já quase esquecida algo rentável. Significa também que royalties não sustentam mais nenhum marmanjo e que voltar com sua banda antiga pode garantir uns trocados. Por isso também que os anos 2000 foram os anos dos workaholics, a década do trabalho.

Minha visão é essa. Não tenho muitas referências para trabalhar, uma vez que sou só um moleque de 1989. De qualquer jeito, só descobriremos o que valeu a pena e o que vingou daqui mais dez anos.

Sem mais delongas, a lista:


15. Silverchair - Diorama (2002)
14. Yeasayer - All Hour Cymbals (2008)
13. Twilight as Played by The Twilight Singers (2000)
12. Mark Lanegan Band - Bubblegum (2004)
11. Elliott Smith - Figure 8 (2000)
10. LCD Soundsystem - Sound of Silver (2007)
9. Curumin - Japan Pop Show (2008)

8. The Streets - Original Pirate Material (2002)

7. Death From Above 1979 - You're a Woman, I'm a Machine (2004)
6. Los Hermanos - Ventura (2003)
5. Gnarls Barkley - The Odd Couple (2008)
4. Kashmir - Zitilites (2003)
3. Radiohead - Kid A (2000)
2. John Frusciante - Shadows Collide With People (2004)
1. Queens of the Stone Age - Songs for the Deaf (2002)

Sunday, January 10, 2010

12 Horas

4 anos escrevendo aqui. Que merda de desocupado eu sou.

Enfim, aniversário e quem ganha o presente é você. Escrevi esse continho dia desses. Não está lá muito bom, eu não tenho lá muito estilo, mas é o que tem. Beijo.

***

Nove e trinta e três. Ela me perguntou onde estava o escorredor de macarrão. Pro inferno, eu disse, nem sabia que nós tínhamos um! Foi a gota d’água para mim, peguei o carro e fui embora. Parece pouca bosta, mas nós estávamos brigando e toda vez que ela decidia fingir uma personalidade passiva-agressiva, eu estourava.

E eu estava errado. Na maioria das vezes estou errado, demora menos de 5 minutos para eu perceber que estou falando asneira e que não poderia estar mais equivocado. Só que, uma vez engajado na discussão, agarrado pela necessidade de sair por cima, não posso desistir. Ela sabe disso e desiste primeiro, pergunta sobre escorredores de macarrão, revistas e se vai chover, deliberadamente, como se nada estivesse acontecendo. Maldita, me tira do sério.

Normalmente, demoro os mesmos 5 minutos para deixar para lá. A esta altura, o normal era já ter voltado pra casa, olhar sereno, quase achando graça. Já teve até vez que voltei com flores, que me renderam uma trepada de reconciliação bastante proveitosa. Dessa vez, no entanto, um rancor esquisito tomou conta de mim. Sempre tive medo de rancor, não queria ficar como meus pais, que faziam uma briga durar um mês, que estavam sempre remoendo suas raivas e arrependimentos. Mesmo assim, continuei dirigindo até o outro lado da cidade. Parei numa loja de conveniência e comprei o diário de esportes. Pouco mais de um real por notícias que eu já tinha lido mais cedo. É a força do hábito ou é burrice?

Tanto faz, parei no bar e pedi uma Brahma. Podia com Bohemia, Original, mas algo me dizia que era dia de Brahma. Depois dessa primeira, vieram a segunda, a terceira e a quarta, todas de 600ml. Meia noite e dezessete ela me ligou. Não discuti, disse que estava bem e que não sabia que horas ia voltar. Disse também que não tinha ido pro puteiro (achei um absurdo que desconfiasse disso, não fazia meu estilo ir pro puteiro de birrinha - ainda que já tivesse dado minhas escapadas antes), mas que se ela continuasse a encher o saco, eu pegava e ia pra zona. Monte de bravatas, ainda sou imaturo o suficiente para esse tipo de coisa.

Não sei por que brigamos tanto. Quando a conheci, me pareceu a mulher mais bonita que eu já tinha visto e falávamos e queríamos e queríamos falar das mesmas coisas. Depois deu tudo meio errado, era compatibilidade demais, talvez. Ou talvez tenham sido as barrigas. Deus – nós éramos tão mais bonitos antes! No caso dela, pode ter sido a bebê. As mulheres ficam lindas depois de virarem mães... mas ela nunca emagreceu. Acho que é um tipo de futilidade da alma, mas todo mundo quer uma miss mundo ou um mister universo. A verdade definitiva sobre a humanidade? Nós sempre nos achamos grande coisa.

Claro que não foi só isso. Foi o emprego dela, e o meu também, as discordâncias em relação à bebê, meus amigos grosseiros. Enfim. Depois cansei de beber. Não vejo graça em beber sozinho, nem acho bonito ser alcoólatra. Paguei a conta, saí, duas e cinqüenta. Hora de voltar para casa. Elas já estariam dormindo. Mas não parecia certo. Andei pela rua, voltei para o carro, bêbado, mas consciente, em totais condições de guiar. No final, dirigi até o porto e parei. Acabei dormindo e acordei com a buzina.

Nove e quinze. Ninguém veio encher meu saco. Também, era domingo e o porto estava vazio. Morar “perto do mar” foi idéia dela. Maldita. Nove e trinta e três. Trinta e dois anos. Cada vez menos cabelo. Ainda dentro do carro, lesado, um dos meus amigos grosseiros liga. Nove e meia não é hora de gente direita ligar, mas o bom senso inexiste. Me chamou para jogar bola. “Jogar bola”! Nesta idade! Sou muito moleque mesmo. Aceitei, porque a ressaca hoje é piedosa (e parece que sempre foi assim). Voltei para casa, ela fingiria que não aconteceu nada. Almoçaríamos. Mais tarde, cerveja e futebol; a vida não estava ganha, mas quase.

Thursday, January 07, 2010

Top 10 2009 - Os Discos (parte 3)

Esqueci da última parte e fui viajar. Perdão.

Faltaram resenhas mais legais pros três primeiros lugares, mas escrevi isso na pressa, às seis da manhã. Por outro lado, quanto melhor um álbum, menos você precisa explicar porque ele é bom. Ruim mesmo só foi descobrir tarde demais que For Long Tomorrow, da banda japonesa Toe, merecia estar neste top 10.

***

3. Dirty Projectors - Bitte Orca
Loucura as vozes das vocalistas Amber Coffman e Angel Deradoorian. Mais loucura ainda as composições de Dave Longstreth, também vocalista e líder da banda. Maluquice total, um negócio até meio desconfortável, inadeqüado, misturado com as melodias mais bonitas do ano. Dirty Projectors representa uma face mais "orgânica" da cena do Brooklyn, mas com as mesmas inovações dos "eletrônicos" Animal Collective e Apes & Androids, mais belas vozes, mais títulos estranhos e duas minas lindas.

Me parece o bastante. A trinca Stillness is the Move, Two Doves e Useful Chamber vale a orelhada atenta.

2. Wado - Atlântico Negro
Além de ter escrito a música do ano - Pavão Macaco - o barriga verde/alagoano Wado me cativou por não se valer daquela coisa de usar "música regional" para ser respeitado. Pode até ter carimbó, afoxé, whattafuck, mas o mais legal em Atlântico Negro (e em todo o trabalho do Wado, em geral) é que essas coisas são apenas parte da diversão. As melodias, estruturas e roupagem pop falam por si, transcendendo a dinâmica "regional", "brasileira".

Em outras palavras, Wado é genuinamente brasileiro sem apelar para a demagogia ufanista "vamos valorizar a música nacional". Porque legal mesmo é fazer um troço universal.

Some isso ao português hilário do começo do disco que me faz rir e uma das capas mais bonitas do ano e você tem o segundo lugar.

1. Them Crooked Vultures - Them Crooked Vultures

David Eric Grohl. John Paul Jones. Joshua Michael Homme. Tá bom, né?

Ficou abaixo do que a gente esperava? Ficou. Mas melhora a cada audição. E num ano sem nenhum grande destaque, não tem como virar as costas pra eles (não sem levar um pescotapa).

Pra finalizar, a melhor frase de 2009 está no disco: "if sex is a weapon, then smash! boom! pow!"

Sunday, December 27, 2009

Top 10 2009 - Os Discos (parte 2)

E aí? VAMOS LÁ, RAPAZEADA?? A segunda parte ficou mais indie. Mas hoje em dia, quem é que consegue fugir disso?

***


7. Animal Collective - Merriweather Post Pavilion


O que eu mais gosto no Animal Collective é sua habilidade com os barulhinhos. Como uma banda só com alguns sintetizadores e outros brinquedos eletônicos e uma guitarra (pelo menos foi isso que eu vi ao vivo) pode fazer um som tão completo e popular continua sendo um mistério para mim. Mas mais do que isso, evidencia uma genialidade que está mais baseada em usar os aparatos eletrônicos da forma certa do que num feeling musical "puro", como acontecia antigamente. Resumindo, o Animal Collective faz a música do futuro.

Não bastasse isso, Merriweather Post Pavilion é o disco de 2009 da maior banda da geração hipster americana, que tornou-se mais conhecida neste ano e tem tudo para crescer ainda mais em 2010. Mesmo deixando tudo isso de lado, My Girls destrói tudo e sozinha já meio que garantiria um lugar aqui para a banda. Agora que o Yeasayer foi pro saco, é minha aposta no meio indie.


6. Arctic Monkeys - Humbug

Andam responsabilizando o - opa! - produtor Joshua Homme pela mudança drástica no som do Arctic Monkeys, mas desde 2008, com o disco de estréia do Last Shadow Puppets, Alex Turner já apontava para onde queria seguir. Desde o título, Humbug, o novo trabalho da banda de Sheffield é diferente. Um amigo meu chegou a dizer que esperava alguma coisa como 'The Rocambolic King of the Cobra Slaves From Kuala Lumpur', ou algo tão estrogonófico quanto. Porém, com uma palavra antiga que significa farsa, a banda nomeia um disco tão discreto e oblíquo quanto possam querer sugerir.

Em Humbug, portanto, a tarefa de Josh Homme foi canalizar toda a vontade de mudar e emprestar alguns timbres classudos ao Arctic Monkeys. O resultado é uma mistura de Last Shadow Puppets com o clima meio sinistro dos últimos trabalhos de Homme, mais a piscadela insolente dos macacos ingleses. My Propeller, Dangerous Animals, Dance Little Liar e Pretty Visitors são os melhores expoentes dessa brisa toda. Não se acanhe, hoje em dia já é chique ceder ao hype.


5. Pearl Jam - Backspacer

Eu bem que achava que um hiato faria bem ao Pearl Jam, mas não imaginava que o resultado chegaria ao nível de Backspacer. O nono disco da minha ex-banda-favorita-de-todos-os-tempos é basicamente o que eles estavam meio que tentando fazer há quase 10 anos. Se a inspiração para experimentações introspectivas - como Sometimes e Sleight of Hand - e épicos tipo Rearviewmirror parece ter acabado (ou foi uma escolha deliberada? É minha maior dúvida em relação ao Pearl Jam), que pelo menos eles fizessem bons trabalhos com os punks mezzo pop mezzo anos 80 que vinham tentando fazer. Porque o "Abacate" (o auto-intitulado "Pearl Jam"), de 2006 trazia alguns belos fiascos, tipo "tio, pare de passar vergonha". Como é que se diz hoje em dia? "Fail", não é? Desta vez, no entanto, deu certo.

A primeira metade do álbum traz músicas rápidas e vigorosas que podem até se equiparar a clássicos da banda como MFC e Hail, Hail. Minhas favoritas são Got Some e Johnny Guitar. Depois, há uma sequência de experiências bem-sucedidas, como a valsinha Speed of Sound e o crescendo emocionado de Untought Known. Ainda arrumaram espaço para um marketing pessoal de Eddie Vedder: as duas baladas do disco são cópia exata do estilo musical (folk? ukulele-rock?) de seu disco solo, mas isso não atrapalha. Pelo contrário, são belas melodias que completam o disco direitinho.

No fim, o principal mérito de Backspacer foi me fazer voltar a respeitar o Pearl Jam. E tomara que continue assim.


4. Danger Mouse and Sparklehorse Present: Dark Night of The Soul

Deus abençoe Brian Joseph Burton. Se no ano passado ele conseguiu soltar o melhor álbum de 2008 e um dos melhores da década com o Gnarls Barkley, em 2009 não fez nem um pouco feio. Desta vez, junto com Sparklehorse (e perdoem eu não saber nada sobre o cara e nem até onde vai sua participação no projeto) e com projeto gráfico de David Lynch, Danger Mouse se embrenhou por caminhos diferentes do mundialmente famoso Gnarls Barkley. Dark Night of The Soul é mais maluco, mais nóia, mais sombrio, mas também é mais Beatles pós-67, as sensações de amor, angústia e sensualidade alternando e misturando.

Para viabilizar essa piração, algumas pessoas foram chamadas: Iggy Pop (cantando, oportunamente, que é uma mistura de deus e macaco), Flaming Lips, Nina Persson, Julian Casblancas, e mais um monte de gente diferente que contribui para essas oscilações esquizofrênicas de humor ao longo do álbum. Inclusive, com seu suicídio recente, a participação de Vic Chesnutt, a mais desconfortável e misantropa de todas, fica parecendo um tipo de despedida macabra.

Mas antes de tudo, o que mais chama atenção é o bom gosto do trabalho e a sua coerência. Não surpreende. Há pouco tempo, Danger Mouse foi considerado o melhor produtor da década pela Paste Magazine e agora prepara Broken Bells, com o carinha do The Shins (que canta uma das melhores em Dark Night of the Soul). Já temos um candidato a melhor álbum de 2010.

Saturday, December 26, 2009

Top 10 2009 - Os Discos (parte 1)

Neste ano, além de demorar para elaborar minha lista final de melhores do ano, resolvi dedicar uma resenha mais caprichada para cada um dos eleitos. Por isso, dividi a postagem em 3 partes e espero que a segunda já seja publicada amanhã. Depende da minha capacidade de escrever as coisas. Complicado...

Não achei 2009 um bom ano, nem de longe. Pode ser porque ouvi pouca coisa (sendo que no final acabei correndo para ouvir alguns lançamentos e quatro discos listados aqui eu só fui ouvir no último mês).

Acho que precisava ter escutado mais hip hop e música brasileira, mas a vida continua. Flaming Lips, Pelican e Dizzee Rascal provavelmente teriam entrado se eu tivesse ouvido seus lançamentos. Black Drawing Chalks e Cidadão Instigados não me enganaram (muito por causa dos seus vocalistas; já vi os instrumentistas de ambas as bandas ao vivo e é coisa fina). Emicida lançou uma mixtape, que hoje em dia já é disco, longa demais e só por isso não entrou.

Mãos à obra?

***

10. Céu - Vagarosa
Ainda que uma menina como a Céu cantando "cumadji", como se alguma vez na vida já tivesse proferido essa palavra, me incomode de leve, e essa "brasileiridade" resgatada pela turminha mpb da Vila Madalena/Lapa me pareça ligeiramente falsa, nada disso é capaz de macular a qualidade de um disco como Vagarosa. Cangote, Bubuia e Cordão da Insônia, num mundo justo, teriam cada uma um clipe maravilhoso que passaria o dia inteiro na MTV (se bem que não tem lá muito sentido reclamar disso, a Céu é conhecidíssima hoje em dia).

Mesmo que o álbum não fosse bom desse jeito, ousado instrumental e estilisticamente como é, dois motivos ainda me deixariam inclinado a arrumar um lugar para a cantora nesta lista. O primeiro é puramente temporal, quase técnico: não incluir algum representante dessa cena em que ela se encontra (a mesma em que estão Curumin, Kassin, Thalma e até rappers como Emicida e Kamau) seria virar as costas para o inegável: a música brasileira está renascendo - e com criatividade. O outro motivo é meramente masculino. Como disseram por aí (acho que foi o Alexandre Matias), a Céu não se identifica com o estereótipo da cantora de mpb durona e sapatão. Ela está mais para a irmã gatinha do seu amigo que fuma maconha e escuta os CDs de reggae do irmão mais velho. Aí meu coração amolece.


9. Slayer - World Painted Blood
Como achei 2009 um ano ligeiramente fraco, nada mais natural que um som familiar figurar numa lista de melhores do ano. É meio que uma salvaguarda, para garantir que o ano não seja um fiasco total, na retrospectiva. Vejo o Slayer como mais uma daquelas bandas que fazem sempre o mesmo disco, mas com a vantagem de não terem tido substituições de músicos equivocadas tipo o AC/DC e de suas tentativas de variação sempre acabarem sendo muito classe (diferente de um Kiss da vida). Quer dizer, Dead Skin Mask não é um troço do caralho?

Nessa linha de pensamento, World Painted Blood encaixou direitinho em 2009. É Slayer puro, pesado e com Tom Araya cantando como nunca, mesmo beirando os 50 anos. E eu valorizo demais uns tiozões tocando thrash metal sem parecerem ridículos (o Kerry King meio que é ridículo, mas a gente finge que não vê).


8. Mastodon - Crack The Skye
Quando ouvi Mastodon pela primeira vez, achei que era a salvação do heavy metal, ou pelo menos a prova de que havia massa cinzenta em algum lugar dele. O crítico Simon Reynolds, pelo visto, concordava comigo e chegou a comparar a vertente em que o Mastodon se encontrava como o equivalente ao post punk nos anos 80. Faz todo o sentido, uma vez que o metal hoje em dia é desprezado por sua característica exageradamente solipsista, ou seja, por se fechar em guetos intransponíveis (e raramente o interesse de penetrar esses guetos é despertado numa pessoa "de fora"). Essa exclusão causa sentimentos pessimistas quase idênticos aos dos punks sentimentais do início dos 80. Em suma, o chamado "metal progressivo" tem o papel que o indie tinha antes de se tornar produto de massa via as piores bandas da história.

O último do Mastodon, Crack The Skye, parte de onde seu antecessor, Blood Mountain, parou. Explico: o álbum de 2006 começa impiedosamente bruto, pesado, os 12 braços do baterista judiando a bateria. Conforme vai avançando, vai ficando mais etéreo, cada vez mais viajandão. Até as participações especiais mostram isso. Scott Kelly, do Neurosis, Josh Homme, do QotSA, Cédric Bixler-Zavala e Ikey Owens, do Mars Volta, na ordem.

Crack The Skye é exatamente a mistura perfeita do começo e do final de Blood Mountain e é tão bem resolvido que chega a ser claramente pop (tão pop quanto o metal pode ser). Atente para Oblivion, Divinations e o épico dividido em quatro partes The Czar.

Friday, December 11, 2009

O Novo Trabalho do Yeasayer é um Belo Cocozão.

Falando sério: estou de luto pelo Yeasayer.

Porque parece que eles não assimilaram esse hype todo em cima das bandas do Brooklyn e quiseram fazer alguma coisa estranha que no fim é só ruim. Essa coisa se chama Odd Blood, seu segundo disco.

Eu gosto de Apes & Androids, de MGMT, Dirty Projectors e Animal Collective (que, se não é da cena hipster do Brooklyn geograficamente, está lá com o coração) assim como gostava do Yeasayer de All Hour Cymbals, justamente pelo fato de cada uma ser diferente da outra! Todas com o mesmo jaco colorido e o Nike Dunk de cadarço fluorescente, mas cada uma com uma contribuição diferente, numa mistura doida e improvável, do eletropop-lucio-ribeiro (MGMT) à freakagem sensível (Dirty Projectors).

Triste que o caminho que o Yeasayer escolheu pra capitalizar na visibilidade dessa cena hipster tenha sido misturar um pastiche oitentista/pós punk nas suas camadas de sintetizadores. As mesmas que casavam tão bem com aquela doideira world music cheia de ecos.

Chega a me ofender que uma música ridícula como Love Me Girl seja da banda que eu tinha certeza absoluta que seria a melhor banda dos anos 10 (anos 10 é muito classudo, né?). Daquelas que ninguém dá bola, mas que quem escuta sabe que é fodida. Tipo, em outras palavras, o Yeasayer tinha tudo pra ser a "minha" banda. Sem nenhuma síndrome de underground aqui, só estou externando aquele egoísmo que todo ser humano sente o tempo todo.

Além de Love Me Girl, temos ainda Madder Red como música muito ruim. Fora isso, quase todo o resto é simplesmente plástico descartável (mas lembre-se, as pessoas boas reciclam). Boas mesmo, só Ambling Alp e O.N.E. Mesmo assim, não representam o que a unhinha do dedinho carcomido de Wait for the Wintertime (ou No Need to Worry) respresenta. E, numa comparação ainda mais direta, é uma afronta que Griselda seja a faixa de encerramento, quando a banda já teve uma música-epifania do nível de Red Cave fechando um álbum.

Talvez o problema seja a comparação com All Hour Cymbals, a estréia do grupo. Tudo daquele disco parece superior a Odd Blood, e isso é sempre um problema gravíssimo. Talvez a produção desse segundo disco seja melhor, mas até aí, era o Bob Dylan que dizia que uma canção boa não dependia de produção ou algo parecido?

Seja como for, é besteira ficar chorando as pitangas, se martirizando. "Olhem pra mim, a minha principal aposta mandou mal pra dedéu, olhem como sou azarado!". Não. O caminho é escutar All Hour Cymbals esperando que o terceiro disco seja legal. Se não der certo, aí sim é hora de desistir e seguir em frente. A próxima cena sinishhhtra pode ser aquela dos subúrbios de Kiev.

E essa é uma lição valiosíssima, crianças!

Monday, November 16, 2009

Só Iggy Pop Importou no Planeta Terra

Já perdi o timing, obviamente, mas é de bom tom registrar a primeira - e provavelmente última - vez que eu vi James "his Igness" Osterberg ao vivo.

***

Pensando bem, o lineup do Planeta Terra costuma ser uma merda. É direcionado pros indies mais babões e inadequados, daqueles que você evita encarar nos olhos quando cruza na Augusta para não virar pedra. Em 2008, eu fui porque ganhei um ingresso de graça do doce Shepa e tinha Curumin. Sério, de todos aqueles nomes, eu fui pra ver o Luciano Albuquerque, que toca toda semana na esquina de casa. Tive a sorte de fazer um puta amigo, ver um puta show do Curumin e descobrir uma puta banda (o Animal Collective). E a organização do PT é realmente exemplar. Mas organização exemplar a gente precisa mesmo em restaurante, hospital, hotel. Em festival, a gente procura por música e Mallu Magalhães, Vanguart, Jesus & Mary Chain, que formavam o lineup, são piadas de mau gosto. Offspring também, mas as 5 ou 6 músicas que eu vi foram legais pra lembrar os 12 anos. Lógico que nem fiquei pra ver Kaiser Chiefs, Breeders e Bloc Party. Deusolivre.

Chegou 2009 e nem cogitava ir ao festival, apesar da boa organização e das lembranças legais de 2008. Maxïmo Park? Primal Scream? Copacabana Club? Ting Tings?? (essa até me ofende) Eu não acho que tenho cara de palhaço. Você acha?

Mas é que eu amo o Iggy Pop. Costumo dizer que se eu tenho um dilema moral, eu saio dele perguntando "o que Iggy faria?". Quando fecharam a volta dos Stooges com o Williamson para a edição 2009, tive que desmarcar meus planos de ver Faith No More no Maquinária (o festival concorrente, com atrações bem mais legais, mas sem Ele) e engolir o lineup anêmico do PT. Tudo bem, colocaram o Playcenter como o local da farra indie e deixaram o público andar nos brinquedos do parque. Além disso, Macaco Bong e N.A.S.A. completariam o dia com um bom nível.

Faltou combinar com os russos.

Um problema de saúde me fez chegar bem meia bomba no festival, sem condições de brincar no Evolution ou no Chapéu Mexicano e tarde demais para ver o show que dizem ter sido sensacional do Macaco Bong. Esse problema (até hoje não me curei e não sei exatamente o que é) me faz ver duplo e eu tinha que ficar fechando um olho para o mundo fazer algum sentido pra mim.

Nesse estado pouco confortável, a primeira banda que acompanhei, Maxïmo Park, me pareceu uma pegadinha das menos inspiradas. Daquelas forjadas, tipo João Kléber. De forma bem insistente, perguntava pras pessoas: Isso aí é sério? Aposto numa pegadinha mesmo, só que de Deus: era um cover muito mal feito do Kaiser Chiefs, que eu conseguira fugir um ano antes. Realmente, não dá pra engambelar o destino.

Depois, Primal Scream e Sonic Youth são dois lixos tão superestimados que fizeram shows tão qualquer-nota que não tem lá muito o que dizer. Primal Scream me animou de leve só quando tocou Deep Hit of Morning Sun, e eu fiquei imaginando que tesão seria se, ao invés deles, fossem os Gutter Twins tocando a sua versão. Do Sonic Youth, só me perturbou muito ver uma mulher que parece a minha mãe segurando uma Fender Jaguar.

Só que aí entrou o Iguana e sua gangue. Numa pegada meio masoquista, eu tinha pagado 95 reais já prevendo que tudo poderia ser um desastre até ali e me conformava, desde sempre, que Stooges é Raw Power, então não pedia qualidade musical da performance de qualquer forma.

Pedrinho é sensato pra chuchu, mesmo!

A banda estava obviamente desentrosada e meio fora de forma, mas o grande O fazia uma performance digna dele mesmo. Pulou na platéia - muito bem seguro por uma corda, mas minha sensatez envolvia não esperar um Metallic K.O. - , chamou uns 50 sortudos pra cima do palco durante Shake Appeal, jogou o microfone no chão, arremessou uma muleta pro alto e mostrou sua bela bunda enrugada e decrépita. Todo aquele teatro delicioso que tem que acontecer enquanto o Iggy fizer shows, até os 173 anos, se for preciso.

O setlist foi curto e eficiente. Foi aquilo que eu e você queríamos, sem The Weirdness, Préliminaires, Candy, ou qualquer outro acidente de percurso. Tivemos I Wanna Be Your Dog, Raw Power, Loose, Gimme Danger e metade de Raw Power e Fun House. Iggy e Williamson, patifes, ainda conseguiram encaixar algo do seu antigo projeto, nunca lançado, chamado Kill City. Confesso que boiei.

Os quase 70 anos pesaram. Depois de uma hora e uns dez minutos, a banda pediu arrego e anunciou a última, num esforço bem voluntarioso e espontâneo. Lust For Life não parecia ter sido ensaiada, mas teve energia e diversão.

Saí do show satisfeito, mas com a certeza de que Iggy and the Stooges não foi a redenção do Planeta Terra, nem a banda gigante que o provedor nos deve (deve só porque se propôs a isso) desde que trouxe o Pearl Jam. Mas provaram para todos os shoegazers e neoravers e chupadores de pinto que poluíram meu 7/11 o quanto ainda são mirins.

No final, conferi um trecho de N.A.S.A. e tive que cair fora. O cansaço era tanto que achei mais negócio colar nos meus amigos que iam me dar carona. Foi nessa hora que descobri o quanto é nocivo um lineup cocô. Se o que você quer ver é só no final, as apresentações inúteis te deixam bichado para o que realmente vale a pena.

Olhando pra trás, conquistei meu objetivo, que era ver o porra louca mais idiota da face da Terra. Mas se for fazer um balanço geral, assim, tipo numa frase... Sei lá, viu? Sei lá mesmo.

 
Clicky Web Analytics