Tuesday, September 09, 2008

O Poema do Encarceiramento

Isso aqui eu faço quando sóbrio, mesmo =/

***

Tinha esse cara
até que era meu amigo
quando foi para a cadeia
violaram seu umbigo

Os presos lavavam roupa
e muito bem lavada
podia ser camisa
ou cueca com freiada

A hierarquia lá
era muito justa e nobre
pobre comia rico
e rico comia pobre

O carcereiro bem sacana
não se fazia de rogado
ao terminar a janta
fodia o preso logo ao lado

Meu amigo, condenado
pensou até em se matar
mas conheceu o Bola Oito
e agora vai casar

Esta história é mui triste
mas meu amigo já tem planos
está muito bem noivado
e em paz com o seu ânus.

Mantido na Realidade

A leitura prolongada e ininterrupta de Charles Bukowski mais a ingestão de cannabis sativa produzem monstros como o conto a seguir.

***

Talvez a profissão mais triste do mundo seja a de dançarina do Faustão. Seus sorrisos chegam a ser aterrorizantes de tão falsos e mecânicos, além de terem de agüentar o apresentador mais gordo e estúpido de que se tem notícia e alguns xucros na platéia. O Faustão não é nem melhor nem pior do que os outros, uns diriam, mas a imagem das suas dançarinas é certamente a mais triste.

Por alguma ironia, então, como deveria ser, me arranjaram um encontro com uma dançarina do Faustão. Quase isso. Um conhecido tinha uma garota. Ela queria sair com ele e com sua amiga. Porque não fazer os dois ao mesmo tempo? Então alguém tinha que entreter a amiga dançarina do Faustão. Eu.

Seu nome era Márcia e tinha boas pernas e um rosto bonito. Vi pelo orkut. Mais um escravo da tecnologia. Enfim, boas pernas e rosto e boas fotos na praia. Acho que é o que eles exigem quando você quer ser dançarina do Faustão.

Isso me animou um pouco, mas não me impediu de passar o dia com tédio e pessimista. Em relação a outras coisas, já que em relação à Márcia eu pensava muito pouco. Talvez seja um fracassado por não pensar nos outros, mas pouco importa. Márcia era uma garota legal, saberia entender. Caguei, tomei um banho, fumei uma bombinha de haxixe e esperei. “A morte”, diria Hank.

Nos encontraríamos no Moe’s, um bar um tanto quanto hypado no centro. Pelo caminho, passei pela Sé. Gosto dali. Toda a sujeira e pobreza e depredação convivendo com o centro de uma cidade tão grande, onde tudo começa, percorre e termina, te fazem se colocar no seu devido lugar. Mantém as coisas na realidade.

Encontrei-os na frente do Moe’s, enquanto Paul Banks dizia “baby, baby, you really look bad” nos fones de meu MP3. Interpol também mantém as coisas na realidade, às vezes. Podia ver o Volks surrado de meu conhecido ali na outra esquina. As garotas estavam de vestido, com decote, tudo ia ser ok. Parecia uma noite calma e pouco barulhenta, ótimo. E, sinceramente, continuou a correr tudo bem por algum tempo.

Mas quando o cara e sua garota saíram e deixaram Márcia e eu sozinhos, foi como se perdêssemos aquele elo maravilhoso, quase mágico, que me fazia sentir bem ao lado de uma dançarina do Faustão, uma hippie estudante de letras e um cara que cagou nas calças até os 15 anos, num lugar com música ruim e cerveja quase quente. Márcia era uma garota legal, aposto que entendeu. Como ela aparentava ter alguma cultura, achei que uma conversa de maior conteúdo poderia segurar as pontas até que eu pensasse em alguma outra estratégia. Olhei bem fundo naquele decote e pernas e tentei:

- Você curte... hum... ehehe...

- Oi?

- Platão, você curte Platão?

Ela começou um discurso sobre Platão, provavelmente sabia mais do que qualquer um de nós ali naquela sala, naquele bar imundo. Não parava de falar, via toda sua boca, lábios, dentes, bochechas, língua, saliva, prepararem palavras intermináveis e perenes, como num arsenal. Oh, cara, foda-se Platão. Mas não conseguia emendar outro assunto.

- Então você considera Platão um ídolo?

- Considero, ele era muito bom! – uma resposta sem muito requinte, mas ainda assim bem decidida. Apelei para a velha técnica da confusão, com um pouco da minha licença poética:

- Você acha que pensamentos sobre ele se intrometem na sua mente?

- Cara, você ta chapado?

Não respondi. Eu estava, o que poderia ter dito?

As coisas se mantiveram assim, tediosas e constrangedoras como a tarde havia sido. Num determinado momento, o outro casal voltou e Márcia levantou-se num salto meio indecente e histérico e disse para a amiga:

- Vamos dançar!

Dançavam como se fossem duas lésbicas ou como se estivessem fazendo a dança do acasalamento. Odeio quando seres humanos se portam como animais irracionais. Eu e o cara não falamos nada. Apenas observamos a cena com os braços cruzados e olhar vazio. Por algum motivo, ela me parecia atraente, mesmo com toda aquela chatice de Platão e o emprego triste e a censura ao meu beque. Eu olhava para aquela garota que me deixava quase de pau duro e que não tinha nenhuma conexão comigo e pensava no que eu poderia ainda fazer para tornar uma noite aborrecida um pouco menos aborrecida.

O sorriso dela, por outro lado, parecia exagerado, como alguém que chama todos os holofotes para si. Um pouco perturbador olhar para toda aquela boca aberta, cheia de dentes, querendo ser acesa com neon. Por que todos nós não podemos agir como seres humanos? Mas o balanço ainda era positivo e eu ainda queria poder comer aquela garota e quem sabe tomar café da manhã depois.

De repente, por sorte, talvez, a conversa voltou a um nível bom, com cadência e palavras suficientes. Nem muitas, nem poucas. Então tomei os últimos goles de minha cerveja e me aproximei dela, quase fazendo nossos narizes se tocarem.

- Vamos foder agora, ali do lado.

Recebi um olhar de asco e, com uma expressão ressentida, Márcia virou-se de costas para mim, para nunca mais olhar. Pouco depois, convenceu a amiga de irem embora. Despediram-se e foram todos no Volks, provavelmente esse outro cara ia comer duas de uma vez, o grande filho de uma puta.

Fiquei no bar e pedi uma dose de pinga. Para acabar bem com uma noite muito aborrecida. Vi uma velha tingida olhando para mim e lambendo seu canudo como se fosse uma rola. Achei que era hora de sair dali. Na volta, enquanto passava pela Sé mais uma vez, já amanhecia. Um cara com metade do rosto deformada olhou para dentro dos meus olhos. Não importava a que horas você estava por ali, sempre manteria as coisas reais.

Subi para o ônibus pensando que as coisas poderiam ser piores.

Sunday, August 17, 2008

Carência Coletiva

Será que significa que o blog voltou?

***

O grande problema da nossa geração é que todos nós nos achamos importantes demais e que nossos problemas são problema dos outros. A internet, toda essa rede de informações e relacionamento e sensação de conectividade non-stop fizeram-nos pensar que nós temos que ser amados e queridos o tempo todo. Nossos pais têm problemas que tomam mais o seu tempo do que nós, nossos amigos e irmãos estão também enfurnados nas suas cabeças sedentas por afeto.

Essa demanda, essa necessidade de ser querido, faz com que nos tornemos bravateiros e, ao invés de nos ajudarmos mutuamente, ficamos por aí gritando os nossos sucessos para quem quiser ouvir. Eu sou assim, você é assim.

Há alguma solução? Eu não sei, e provavelmente não. Todos nós seremos puxados pro limbo e lá continuaremos a aumentar nossa carência. Lá, nós criaremos bonequinhos virtuais pra dar abraços (virtuais, naturalmente) nos outros, e vamos contar pra todo mundo quem nós gostaríamos de pegar. Fazendo a mea culpa, afinal, eu também sou um neo idiota, nós vamos abrir blogs com nossos textos irrelevantes, nossas conversas de MSN pouco engraçadas e nos cadastraremos no last.fm, achando que os outros querem saber o que nós ouvimos.

Podem me chamar de amargo, podem me jogar um milhão de coisas na cara, mas o meu diagnóstico vai ser esse para sempre. Mesmo quando eu for um notório-alguma-coisa, cheio de gente me lambendo as bolas via Buddy Poke, eu vou continuar pensando esse tipo de coisa e lamentando por todos nós.

Porque eu sou um moleque amargurado, mas sei do que estou falando.

Thursday, April 24, 2008

It's A New Year And I'm Glad To Be Here

Dizem por aí que no Brasil, o ano só começa de fato depois do Carnaval. Brasileiro que sou, é coerente dizer que, em 2008, longe de minha pátria, o show do Queens of the Stone Age representou o carnaval pra mim. Coincidência ou não, me senti muito mais inspirado após aquele fatídico 24 de fevereiro. Pode também ter sido o raio de sol, que voltou a incidir sobre as terras nórdicas, ou pode ter sido uma combinação dos dois. Seja como for, nos últimos dois meses meus olhos finalmente se abriram pra música deste ano. Compondo ou ouvindo, recentemente cresceu e amaduresceu em mim uma sensação de satisfação e até mesmo orgulho por estar vivendo nesta época, em que as milhares de referências que ajuntamos por todos esses milhares de anos de existência humana finalmente estão sendo costuradas, estofadas e embrulhadas numa embalagem bonita.

É verdade que este blog foi impiedosamente abandonado, mas isso não significa que minha inspiração acabou. Tudo o que eu escrevia antes tem sido expressado pelos recitais de violão e músicas próprias que eu toco para platéias inexistentes, fechado no meu quarto. É assim que é legal, por mais pueril que soe. A família que me hospeda por aqui odeia, acha muito alto. Azar deles.

Também tenho escutado música nova, muita música nova que me inspira e sussurra no meu ouvido que ainda vale a pena e que a nossa época não deve em nada para as épocas anteriores. Como dito antes, eles criaram, mas nós somos quem está colocando tudo junto no pacote, e esse trabalho não deve ser desprezado ou diminuído.

Um dos discos que mais me inspira neste momento é ainda de 2007, no entanto. Recomendado por um amigo, We Sing of Only Blood or Love, de Dax Riggs (Deadboy & Elephantmen, Acid Bath) soa de um jeito que eu, cof cof, gosto. Hard Rock encontra-se com folk e um cheiro não definido (embora presente) de anos 90 e tudo isso junta-se à voz de Dax. Puta voz, se quer saber. Tudo o que a voz de Chris Cornell poderia ter sido. É potente, atormentada e alcança os agudos necessários. Porém, em seu estado normal (fiquei quinze minutos pensando numa palavra melhor e não deu, mal aí), tem a consistência e timbre que o ex Soundgarden e Audioslave nunca conseguiu alcançar em seus terríveis discos solo.

Foi no post sobre os melhores discos de 2007 que falei que é quase uma regra que Mark Lanegan figure entre os melhores do ano? Pois é, em 2008, pelo visto, não será diferente. O mais interessante de tudo isso é que o cara só precisa chegar lá, pegar o microfone e cantar o que quer que seja e sua voz sempre vai encaixar perfeitamente. Desta vez, dois petardos. O rock gótico e profundo do Gutter Twins ou o folk delicado da sua segunda colaboração com Isobel Campbell, fica à sua escolha. Em um, junta forças com Greg Dulli num casamento perfeito e cinzento de duas vozes lendárias dos anos 90. No outro, torna sombrias as músicas doces de Isobel, mas também é afetado pela atmosfera pastoral e, quase paradoxalmente, sexy das composições. Tem quem fale que ele é Deus. Não sou eu que vou negar.

O que eu mais tenho gostado deste ano é que os melhores discos vêm de onde menos espero. Quer dizer, não há muitoo que esperar, minhas bandas atuais preferidas lançaram seus discos novos no ano passado (quer dizer, eu gosto muito de Alice in Chains e AC/DC mas discos novos desses caras são mais atentados do que qualquer outra coisa). Então, já que falamos em vozes marcantes, imagine qual foi minha surpresa ao ouvir o novo do Gnarls Barkley. Seis meses atrás, se você me dissesse que eu ia gostar de uma banda enraizada, apesar de todas as outras incontáveis influências, no hip hop, receberia negação e, talvez escárnio. Heh, vivendo e aprendendo. The Odd Couple é uma pequena obra-prima. A produção e arranjos de Danger Mouse Burton surpreendem qualquer um que ainda duvidava da capacidade do homem que mixou Beatles e Jay-Z e a voz soul de Cee-Lo orgulharia Marvin Gaye. É um álbum sujo, paranóico, técnologico e genial, cravado no soul, no funk, na psicodelia e em batidas eletrônicas e hip hop. Não importa quantas vezes ouça, continuo sentindo calafrios em Would-Be Killer, no momento em que o canto de Cee-Lo se transforma no som de uma serra daquele tipo em que o Lula deve ter perdido o dedo. Tão perigoso quanto.

Quem tem executado com mais paixão e eficiência o trabalho de amarrar as referências antigas num embrulho com laço bonito, no entanto, têm sido mesmo as bandas mais novas. Apesar da salada cultural que é o som do Gnarls Barkley, e da versatilidade de Dax Riggs e Mark Lanegan, nenhum deles chega perto do Apes and Androids, por exemplo, em matéria de busca a diferentes fontes de inspiração. Sem forçar, em 18 músicas, seu disco Blood Moon passeia entre indie rock, eletropop, synth pop, rock progressivo, música eletrônica, pop, rock básico, pop rock, new romantic e ainda algumas pitadas de folk e hip hop. As duas outras bandas que formam a trinca de boas revelações do ano até aqui, MGMT e Yeasayer, também misturam muito. A primeira coloca música eletrônica e glam espacial no liquidificador, enquanto a segunda se diverte com influências de música africana, post rock e corais hippies. Ainda há Vampire Weekend, Hercules and Love Affair, Yoav e mesmo os brasileiros do Turbo Trio, do já veterano BNegão, todas multi facetadas, mas soando tão frescas, tão novas.

Tudo isso prova que em 2008, não é mais pecado nem audácia misturar tanto e ser tão iconoclasta. As bandas grandes e estabelecidas aprenderam a usar a internet, os novatos aprenderam a lidar com as vozes do passado e criam cada vez coisas mais originais e inclassificáveis, enquanto o consumidor está cada vez mais blindado a preconceitos e restrições. A internet nos devolveu a compreensão dos hippies e a anarquia dos punks e nós estamos numa era atemporal, em que 1973 está tão distante de nós quanto 2006. Se não fores muito rabugento ou saudosista, caro leitor, entendes o quanto isso é empolgante.

Tuesday, February 26, 2008

Gimme Toro, Gimme Some More

Nota: Este é o centésimo post do blog. Por coincidência, apenas, mas não poderia ser com um conteúdo melhor. Isso claro, fica mais um aviso: contém altas doses de tietagem e idolatria.


***

O primeiro CD que eu comprei foi o Songs for the Deaf. Digo, com o dinheiro que recebi dos meus pais, fui até a loja, escolhi e paguei. Pelo menos conscientemente, foi meu primeiro passo na música. Antes disso, era só um borrão rodeado por música sem personalidade, sem rosto, sem vontade. Pode-se dizer que o disco foi um divisor de águas e mudou a minha vida.

Desde então, estou tentando entender do que se trata a entidade Queens of the Stone Age. Poderia escolher A Song for the Dead, uma das melhores performances de bateria que eu já ouvi, ou No One Knows, que é o single perfeito da nossa década, para explicar melhor esta sensação. Mas concentremos-nos em You Think I Ain’t Worth A Dollar But I Feel Like A Millionaire. Nunca encontrei nada parecido com essa música, nem em um disco do Mondo Generator. Com 12 anos, minha entrada para o rock and roll foi com muitos decibéis. Não é mais bem a minha praia, mas eram os berros de Linkin Park e Slipknot que me empolgavam e era com System of a Down que eu gostava de chocar meus familiares. Mas nenhuma música dessas bandas chegou a me intrigar tanto quanto Millionaire ainda me intriga. É a música mais pesada que eu, fã ocasional de Thrash Metal, já escutei.

Tantas bandas foram as que eu reneguei e acolhi que é incrível que o Queens, uma das primeiras, sempre tenha se mantido como meu ícone máximo do cool, o exemplo a ser seguido. E, gradualmente, ao longo dos anos, sem nenhum alarde, eles se tornaram minha banda favorita.

Dito tudo isso, é de se imaginar como eu me senti no último domingo, quando finalmente vê-los ao vivo se tornou uma realidade. Minhas expectativas eram altas antes do show, pelo simples fato do que assitir aquilo significaria. Mas alguma coisa me dizia “bom, você já vai conseguir ver a banda, não espere nada como um set list perfeito ou pegar um souvenir”. Eu estava conformado. Deve ter sido durante In the Fade (a música que mais me arrepiou os pêlos da nuca), If Only ou River in the Road, com um Marlboro dado pessoalmente por Josh Homme enfiado no bolso, que eu percebi o quão sortudo eu estava naquele dia, e o quanto as minhas expectativas foram superadas.

Se você me pedir para analisar o concerto, estará sendo cruel. 24 de fevereiro de 2008 era um dia de fã. Eu sei que eu não poderia pedir um set list melhor, uma performance melhor, um clima melhor, nada melhor, e essa é a melhor análise que eu consigo balbuciar. Começou violento, com First it Giveth, e terminou violento, com a jam infernal de A Song for the Dead, ambas do primeiro disco da minha vida. Certa vez, alguém me disse que viu um show da sua banda preferida como o fim de um ciclo, por tudo o que ela representou na sua vida. O problema dessa pessoa é com o tempo verbal. Queens of the Stone Age ainda representa muitas coisas pra mim, e ter estado lá foi muito mais um começo do que um final. Quero mais, ainda. E tenho fé que os verei de novo, e de novo.

O mais inacreditável, no entanto, aconteceu antes do show. Autênticas tietes que somos, eu e dois amigos seguimos um conselho precioso e fomos esperar a banda chegar no local, por volta da hora (estimada) da passagem de som. Incrivelmente, apenas mais dois garotos suecos estavam por ali. Simples assim, só cinco pessoas esperando a banda mais incrível do planeta chegar ao KB Hallen. Parecia que nada aconteceria, até que, em determinado momento, chega um ônibus para fazer companhia aos dois que já estavam lá. Há um burburinho em relação a ele e, conforme as primeiras pessoas vão saindo dele, o idioma se transforma no inglês. “It’s so fucking them”, eu exclamei. Poucos minutos depois, Joshua Homme em carne e osso (tipo, ele existe mesmo!) desce do ônibus. Ficou conversando com alguém e, após um minuto ou dois que pareceram umas três horas, começou a deslocar-se em nossa direção. “Josh Homme”, eu disse, estendendo a mão. Comprimentamos-o, e pedimos para tirar fotos. “Sure”, ele respondeu, tirando uma sacolinha com uns 200g de uma substância que poderia muito bem ser farinha ou talco de algum lugar. Virou para um cara e falou para ele entregar aquilo para seu, “...uhn, amigo” dentro do ônibus. Tiramos as fotos. Charlie, um dos caras que estava comigo, então, ofereceu um cigarro ao Josh. Primeiramente ele aceitou, mas depois desconversou, acho que por não conhecer a marca. Charlie, então, malandro que só ele, pediu um cigarro, e recebeu uma resposta ainda mais malandra das ruas: “Yeah, I stole these anyway”. Eram Marlboros, e Josh começou a dizer que Marlboros não eram lá seus preferidos, mas “that’s what you can get here”. Então, eu mencionei que também se acham Camels por estas bandas e ele respondeu que é a sua marca. Como tenho bom gosto, tirei minha caixa de camelos do bolso e ofereci um ao cara. Ele não só aceitou, como colocou um dos seus Marlboros na minha caixa. Se eu tinha Camels, para quê ia querer um Marlboro horrível? Josh Homme sabe quem é, e sabe o que significa para um fã ter um souvenir como esse. Sem ser arrogante, mas também sem falsa modéstia, ele transformou um cigarro ruim na nicotina mais sensacional da história. Depois, fiz o que vinha ensaiando desde que vislumbrei a chance de encontrá-lo: perguntei se era possível tocar You Can’t Quit Me, Baby naquela noite. Ele olhou para mim, pareceu fazer uma rápida análise na cabeça e respondeu que claro, tocariam sim. Quando ele estava quase indo embora, mencionei que Songs for the Deaf foi meu primeiro disco. “That’s a good way to start out”, respondeu ele, com um sorriso. Apertou nossas mãos e entrou no KB Hallen.

Minutos depois, encontramos Joey Castillo e Troy Van Leeuwen, um de cada vez. Caras simpáticos, mas mais breves. Joey elogiou minha câmera e Troy disse ter acabado de acordar (brincamos dizendo que nós também tínhamos acabado de acordar). Tiramos fotos e desejamos um bom show. Se bem que não precisava desejar um bom show. Estamos falando de profissionais.

Quando entramos, algumas horas depois, todos que ficaram perto de mim por mais de 30 segundos sabiam da história. E, quando a banda de abertura, Biffy Clyro começou seu set, eu ainda estava embasbacado pelo que tinha acontecido poucas horas antes. E em êxtase, sem entender o que havia acontecido com a minha sorte naquele fim de semana, quando até a banda de abertura era sensacional. É, Biffy Clyro é altos.

Mal acreditei quando o concerto em si começou. “Realização de um sonho” pode ser pesado demais, mas era o evento que eu vinha esperando desde tipo 2002. Depois de conhecer a banda ali, de pedir a minha música, minha expecatativa era ainda maior, ainda mais acachapante. Então, na hora em que os músicos subiram ao palco, quando o primeiro acorde foi tocado, tudo virou alegria. Minha única preocupação (e essa nem é a palavra mais correta) era saber se tocariam a música que eu pedi e eu continuava sendo surpreendido, música após música, por um dos set lists mais antológicos da história do QotSA. Eventualmente, You Can’t Quit Me, Baby começou e as notas no baixo pareceram uma ilusão para mim. Abrimos a bandeira do Brasil, talvez em agradecimento, talvez, sendo mais mesquinho, para mostrarmos que só tocaram por nossa causa e recebemos um olhar de Josh, do tipo “aí está a sua música, seus cornos”.

O encore final, pesado como um tijolo, começou com Millionaire, cantada por Josh e Mike Shuman e todo o filme passou mais uma vez pela minha cabeça. Sick, Sick, Sick foi a mais agitada e robusta e A Song For The Dead confirmou-se como a jam mais pesada do mundo. Inesquecível.

A vida não poderia ser melhor.

Set List:

First it Giveth
No One Knows
3's & 7's
If Only
Mexicola
Turning on the Screw
Misfit Love
Hanging Tree
Monster in the Parasol
Burn the Witch
In the Fade
Leg of Lamb
Little Sister
River in the Road
You Can't Quit Me, Baby
Do it Again
Tangled Up in Plaid
Go With the Flow
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Millionaire
Sick, Sick, Sick
A Song for the Dead

Sunday, February 10, 2008

Top 5 2007 - As Músicas

Na falta de uma inspiração, de um tema, de um tchananã e mesmo já estando em fevereiro, acho que não faz mal atualizar meu blog e deixar registrado aqui o meu glorioso ranking das melhores músicas do ano passado. Só pra desencargo de consciência, vai.

5 - Love Stoned - Justin Timberlake
O disco é de 2006, mas a música apareceu como single só em 2007. Passa. Um épico para os padrões da, cof cof, pop music com seus 7 minutos e meio, tem duas músicas sensacionais em uma. Perde pra Sexyback e a já clássica My Dick in a Box (ambas do ano retrasado), mas mantém o nível e comprova que o Justin tá bonito na foto.

4 - Misfit Love - Queens of the Stone Age
Robot Rock. Robot Rock. Robot Rock.

3 - Umbrella - Rihanna
Coisa de louco essa música. Preconceituosamente evitei escutá-la por meses, até que numa festa... pá! Bateu na minha cara. Cantada de forma inacreditavelmente sensual, com uma melodia pegajosa e o refrão do ano, eu virei praticamente uma sentinela da música, quando todo o resto do mundo já estava de saco cheio dela. Mas até uns emos gravaram uma versão, quer reconhecimento maior que esse?

2 - Ressurection Fern - Iron & Wine
Country made in Sub Pop. Não tem muito o que dizer. A música é simplesmente linda, inspirada e tudo o mais bucólico que se possa dizer. John Denver ficaria orgulhoso.

1 - All My Friends - LCD Soundsystem
Se repetir o comentário geral da nação jornalista/blogueira trintona dizendo que a faixa é um baluarte da vida depois dos 25, estarei sendo falso. Estou me cagando pra isso, sou sub-20. O fato é que aquele tecladinho recorrente, a voz cool de James Murphy e o feeling até meio, desculpem a expressão, redentor da música (justamente por ser esse ícone reflexivo em relação à vida) transformam-a num clássico instantâneo. Some isso às referências tipo "We ser controls for the heart of the sun" e frases-de-camiseta-ou-about-me-do-orkut estilo "Where are your friends tonight?" e você tem a música do ano. E uma das melhores de toda a década, com muita certeza.

Thursday, January 17, 2008

Preacher e a Minha Descoberta da América

Para um cara compulsivo e obsessivo por controle, uma HQ americana pode ser pouco atrativa por não ter final. Sendo eu um maluco desses, Preacher foi a minha solução. Quer dizer, eu já tentei comprar Homem-Aranha, Hulk, Demolidor e Marvel Max, mas achava monótono e não conseguia me conformar com o fato de que nunca iria chegar ao final das séries. É claro que eu sabia o que era uma graphic novel, mas minha tacada demorou a acontecer. E Preacher foi a minha tacada, e foi certeira pra cacete. Porque tem começo, tem meio e tem fim, sem encheção de linguiça. E tem o ritmo e a violência e a beleza que eu preciso. E pode ser a história em quadrinhos definitiva da América.

Preacher conta a história de um reverendo, Jesse Custer, que, após receber uma entidade meio divina, meio demoníaca no seu corpo – além do dom de ter os outros fazendo o que ele manda, quando quiser – acaba descobrindo mais do que imaginava sobre o Paraíso e decide ir atrás de Deus. Pra perguntar por que foi que esse grande filho de uma puta deixou o mundo nesta pindaíba. Cara. Tem como ser mais fodão que isso?

Mas deixe tudo isso pra lá. A beleza de Preacher consiste em ser o road movie (road comic book?) perfeito, consiste em mostrar a América, bonita e feia, consiste em nos enojar e maravilhar com cada freak que passa pelo caminho de Jesse ou de seus escudeiros (dizer aqui se são fiéis ou não apenas estragaria a mágica de tudo) Tulipa e Cassidy. Me faz sentir nostalgia e orgulho de um país que nem é meu. Quase tudo está lá. Em 66 edições, vemos odes a New York City, alucinógenos indígenas, batalhas no deserto, vudu em New Orleans, babacas de fraternidade tentando abusar de uma garota e todo tipo de redneck pervertido e sádico que você pode imaginar.

Ah, sim, os pervertidos. Depois de um, dois, três choques, você começa a esperar ansiosamente pela próxima aberração na história. Física ou mentalmente, é claro. O mais emblemático deles é também um dos personagens maiores na série. Cara-de-cu estourou seu rosto com um tiro após o suicídio de Kurt Cobain, porque era um fã doente de Nirvana e porque sua vida era uma merda. Depois de sobreviver e virar, bem, um rapaz com face de cu, tornou-se um garoto amável, quase abobado, e com um problema de fala bastante incômodo, que vê seu pai policial como um herói inquestionável.

Garth Ennis, o roteirista cretinamente genial, sintetiza um pouco do que é a famosa “segunda chance” que os Estados Unidos dão às pessoas (e o senso de humor divino, como bem lembra Jesse em certo momento) com o Cara-de-cu. Tanto a história de vida dele em si quanto o que acontece após determinados eventos em New Orleans, mostram que a Grande Mãe das Oportunidades está sempre disposta a te dar novas chances – e tirá-las, sem aviso prévio.

Soa piegas, e é. Preacher é a história de um caipira, um vaqueiro simplório, que recebe conselhos do espírito de John Wayne (juro), que preza o “fazer a coisa certa” mais do que tudo e que não tem vergonha de amar a sua garota da maneira mais brega possível. Diante disso, acreditar na América, mesmo tão indiscutivelmente podre e corrompida aos nossos olhos, é fichinha. Porque você não está acreditando num homem, ou em dois homens, você está acreditando no folclore, num delírio, num sonho. E isso, maldito seja, é lindo.

As paisagens e cenas de Steve Dillon, o desenhista insanamente inspirado, te puxam, te colocam em cena e tornam esses pensamentos sobre sonhos e oportunidades verossímeis. Quem é que vai resistir a uma paisagem de deserto Cherokee no Arizona? Não precisa de uma águia, do Tio Sam ou da Casa Branca. É essa simplicidade que te prende, que te convence. Jesse está numa missão atrás de Deus-Todo-Poderoso, puta merda!, e mesmo assim você só o leva a sério quando o vê demonstrando todo o amor que sente pela sua eterna musa Tulipa, abraçando seu amigo Cassidy ou ajudando algum miserável, sempre com um sorriso no canto da boca e um cigarro aceso. E você entende porque alguém escreveu “New York, New York”, apenas olhando para um quadrinho com Cassidy de braços abertos, no topo do Empire State gritando “Porra, eu te amo!” para a cidade abaixo.

Enquanto lia os últimos números da série, com um nó do tamanho do Texas na garganta, entendi o que ela significou pra mim. Até alguns dias atrás, se escrever um texto-tributo desses me causaria ânsias de vômito, escrever estas palavras sobre a hipócrita América, então, me faria cagar meu intestino. Preacher mudou isso, me fez acreditar na fábula, na segunda chance e em fazer a coisa certa. Nem que seja apenas pra colocar num texto meloso que ninguém vai ler. Já é uma coisa sem preço, não é?

Sunday, January 13, 2008

Tijolos, Cimento e Glamour

Algo como uma continuação deste post aqui.


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Uma das últimas grandes discussões da comunidade da Bizz no orkut foi sobre o conceito de “artista-pedreiro”, disseminado por algumas cenas (incluindo bandas, produtores e organizadores de festival) independentes brasileiras. Não, xará, este blog ainda não se tornou uma latrina e nem perdeu sua dignidade, mas é sempre legal dizer de onde você tirou as suas idéias.

De qualquer forma, o mote “artista-pedreiro” é polêmico porque consiste na desmistificação do artista, que agora, em vez de um dândi fumando uma cigarrilha recostado nas suas almofadas lilás, é um trabalhador braçal que rala tanto quanto um pedreiro. As gravadoras e bandas e festivais independentes afirmam que, com a polarização da música pop pela internet, a vida do artista independente ficou muito mais viável, mas demanda um trabalho muito maior. Nessas, é impossível posar de bon vivant quando, além de compor em berço esplêndido, você-artista também precisa ir atrás de estúdio, produtor, gráfica, distribuidora e etecétera e tal.

E é claro, há quem discorde, dizendo que o artista deve se valorizar, que quem não gosta de ganhar dinheiro é masoquista, está fazendo tipo. E, além disso, que se não houver um glamour na arte, as coisas perdem um pouco da graça. A discussão é acirrada, quase política.

Dando o meu pitaco, acho que ambas as, hã, ideologias podem andar juntas. Mais do que isso, já andam. Apesar de não termos mais megastars hedonistas ordenando toalhas brancas e rosas vermelhas por aí, ainda existem pessoas respeitadas, incensadas e, consequentemente, glamourizadas no showbusiness. E são justamente as que trabalham mais – ou apresentam mais resultados. Nomeando cinco nomes “grandes” (ou, no mínimo, comentados) da música pop internacional: Timbaland, produtor, músico e arroz-de-festa, que produz e participa dos discos de praticamente todo mundo que ainda vende discos nesse mundo cão, onde ninguém mais compra discos; Sean “Diddy” Combs, dono de gravadora, produtor, agente de artistas, dono de marca de roupas e – ah sim! – rapper; James Murphy, produtor, co-proprietário de gravadora e músico que grava praticamente sozinho seus discos ecléticos e multi-influenciados; Josh Homme, que, apesar de não produzir nem ter gravadora, é praticamente a peça central, junto com seu Queens of the Stone Age, de um conglomerado de bandas e parceiros, e participa de uns três ou quatro discos de terceiros por ano, além de seus remixes e seu projeto solo, as Desert Sessions; Devendra Banhart, dono da gravadora Gnomosong, ao divulgar novos artistas e lançar seus próprios discos ecléticos, praticamente criou uma das cenas em ascenção na música pop, o acid folk (ou folk revival).

Qualquer um desses pode ser seu ídolo, dependendo do estilo que mais te apetece. Mas, inegavelmente, todos trabalham pra cacete, bicho. E mantêm seu status. E vão nas festas. E tomam champagne. Um dos citados ali no parágrafo acima, no caso o senhor Homme, costuma dizer que é preciso um músico valorizar seu trabalho, que ter vergonha de ganhar dinheiro é uma estupidez enorme. E é verdade, não é mesmo?

O Macaco Bong, banda independente de Cuiabá, irá nomear seu primeiro disco “Artista Igual Pedreiro”. Se artista é igual pedreiro, não devem se envergonhar de querer mais. Ninguém quer ficar no ostracismo, na mesmice, na mediocridade. Todo mundo quer ganhar mais, ser mais, ter mais. Pergunta pro pedreiro que construiu a sua casa.

Saturday, January 12, 2008

Caramba!

O Senhor dos Tempos nos abraçou, assim como o Senhor do Esquecimento, e então o blog fez dois anos e eu nem percebi. Dois anos escrevendo num blog e menos de 100 postagens. Eu me surpreendo com a minha obstinação, com a minha paciência e, por que não?, minha perseverança. Quer dizer, é fácil quando você posta algo como 3 vezes ao mês, mas ainda assim, alguma coisa é alguma coisa e é melhor que nenhuma coisa.

A data do aniversário é 9 de janeiro, a mesma do Jimmy Page, que orgulho. Então, apesar de ser o pai disso aqui, agi como aquela tia de Brasília, que só se dá conta da data três dias depois. Pudera: minha vida está corrida, e só arranjei esse tempinho num sábado de manhã porque ontem fui dormir muito cedo e a casa está fedendo a alho e eu me recuso a sair do quarto neste momento.

Em 2007 não comentei o aniversário de um ano porque esqueci. Até lembrei em algum ponto, mas resolvi não falar nada, porque comemorar aniversário de um ano é que nem começar dieta na segunda, sempre dá zica. Mas é isso aí, o meninão já está com dois anos, não fede mais a bosta, já está aprendendo a usar o troninho e começa a dar uns passos com segurança, apesar de ser preguiçoso pra caralho.

Juro que tenho um texto engatilhado, que deve entrar em cena amanhã.

Stay tuned, bitches.

Thursday, December 20, 2007

Top 10 2007 - Os Discos

Conte pra mamãe! Mostre pra vovó! Mande de spam pro cunhado! Comente com o porteiro! Finalmente o top 10 mais esperado da blogosfera (quê?) saiu!

Desta vez, foi um processo mais caprichado e divertido escolher os melhores discos do ano, se compararmos com 2006. No ano passado, eu resolvi que devia fazer minha listinha assim, do nada, e muita coisa ficou faltando. Pra ser sincero, 2006 foi um ano chave pra mim, em que conheci muita coisa importante (Black Sabbath, Nick Drake, alguém?) e eu pouco ouvi os discos daquele ano. Foi um top 5 bem meia-boca, com muita coisa faltando, e uns critérios bem mal escolhidos. Quer dizer, Empire é um disco bom, mas primeiro lugar? Enfim... Só que em 2007, lá por outubro, num acesso de vaidade, resolvi que deveria listar os discos que já tinha ouvido e os que tinha que escutar neste ano. Percebi que tinha muita, muita coisa boa mesmo. Gente velha com soltando grandes álbuns (Springsteen, Robert Plant), segundos discos sensacionais (Arcade Fire, LCD Soundsystem, Beirut) e umas indiezeiras bem legais (Raveonettes, White Stripes, Kings of Leon). Fiquei devendo nos debuts, embora adiante que, jogue as pedras que quiser, achei Battles uma merda sem tamanho.

Gostei da listinha. Espero que comentem, amiguinhos, reclamando, elogiando e, claro, colocando suas listas pessoais.

Com vocês, os álbuns preferidos de Jambo Ookamooga em 2007:


10. Silverchair – Young Modern

O disco dançante do Silverchair. Se em 2002, Diorama saiu contrariando as verdades anteriores do Silverchair, dessa vez Daniel Johns resolveu mandar para as cucuias qualquer ligação com o passado da banda. Por exemplo, eu consigo muito bem imaginar os versos de The Man That Knew Too Much cantados pelos Backstreet Boys, naquele clipe em que eles estão vestidos de monstros. E isso é tão doente como também – porra! – é legal. Those Thieving Birds/Strange Behaviour é maior e mais inspirado do que qualquer coisa que Johns fez nos seus dois primeiros discos, para se ter uma idéia. E olha que tem gente que acha que o Silverchair acabou ali. Mais do que qualquer coisa, Young Modern é a prova de que o Silverchair não pretende virar um cover de si mesmo e de que, mesmo depois de problemas, como a anorexia e a artrose, que sofreu, Daniel Johns ainda sabe fazer boa música.


9. Fall Out Boy – Infinity On High

Há alguns anos, o Fall Out Boy era só mais um grupo emo enchendo o saco. Porém, desde From Under the Cork Tree, a banda vem mostrando algum amadurecimento. Dance, Dance era já um expoente disso, mas destoava um pouco do resto, que ainda se desenvolvia, ainda estava pregado ao passado adolescente. Mesmo assim, as melodias e alguns arranjos mostravam ter alguma coisa que os Simple Plans da vida não tinham. Infinity On High é o processo completado, quando as músicas parecem todas seguir o caminho que Dance, Dance indicou. São divertidas, pop e não se levam muito a sério. E é desse jeito que importa.


8. Robert Plant & Alison Krauss – Raising Sand

Engraçado Robert Plant ter lançado seu melhor disco desde o Led Zeppelin justamente no mês em que a banda se reuniu para um último show. A idéia dos dois, disco e show, começou lá atrás. Em julho, lembro-me que li na última edição da Bizz uma notícia sobre Plant, em que ele dizia que queria fazer um álbum que percorresse todo o delta do Mississipi, homenageando seus antigos ídolos, e também alegava que uma eventual volta do Zeppelin dependia de um sentimento sincero e entrosado de todas as partes envolvidas. Ele encontrou esse sentimento e, principalmente, inspiração para realizar seu tributo não em um membro da sua antiga banda, mas sim em Alison Krauss, consagrada cantora de country e bluegrass. Raising Sand é uma caminhada pela América antiga, do blues, do folk e do country. A voz de Plant, agora confortável com sua idade, mostra que ainda dá caldo. E o show do Zeppelin? É, parece que foi legal.


7. Kings of Leon – Because of the Times

Apertar o play para um disco do Kings of Leon e dar de ouvidos (sacou, sacou?) com uma música de sete minutos pode ser uma coisa bizarra, se for assim, de sopetão. Mas se você percebeu ou te avisaram que, após fazer dois ótimos álbuns de country-show-me-your-boobs-and-let’s-grab-a-beer-rock, a banda resolveu seguir em frente, vai ter Knocked Up como um motivo para sorrir. Os Followill agora tocam rock de estádio, sem perder a caipirice. E, parecido com o que ocorreu com o Arcade Fire, isso os catapultou para o status de banda grande.



6. Radiohead – In Rainbows

Se fosse só pelo modo que foi disponibilizado, In Rainbows não entraria na lista. Revolucionário é meu ovo, as Casas Bahia já faziam isso desde quando? 2003, 2004? Falando sério, na minha opinião, o Radiohead apenas legitimizou o que muita gente já ia fazer, e ao anunciar o lançamento também em CD “físico” para os primeiros dias de 2008, só transformou o inevitável “leak” em algo oficial.
Mas o que importa de verdade é que In Rainbows são quarenta minutos de música boa pra caralho, do tipo que te faz escutar toda hora, viciado, e tentando entender como é que alguém conseguiu compor aquilo.


5. Arcade Fire – Neon Bible

De uma forma, este álbum significa um passo à frente para o Arcade Fire. Explico: enquanto Funeral, de 2004, era quase conceitual, estética e tematicamente, Neon Bible foi capaz de desvencilhar-se desta uniformidade, apesar de as músicas estarem atreladas, sim, a um tema central. Entao, por estarem livres, elas soam maiores, mais abrangentes e, consequentemente, mais fortes. E são grandes músicas. Quer dizer, colocar três colossos como Keep The Car Running, Intervention e No Cars Go no mesmo álbum é o bastante, não é?



4. Pelican – City of Echoes

“Um álbum instrumental que você quer realmente ouvir de novo e de novo”, assim define o guitarrista do Pelican, Laurent Schroeder-Lebec. E é verdade. Alguns fãs chiaram e tudo o mais, mas a banda foi capaz de aproximar seu som a um nível radiofônico (embora eu ache que rock instrumental nunca será “radiofônico”) sem perder a qualidade. Além disso, as suas jams soam como o tipo de coisa mais divertida que você pode fazer com uma guitarra nas mãos. É isso aí, morte ao vocal!



3. Soulsavers – It’s Not How Far You Fall, It’s The Way You Land

É como se fosse regra ter sempre um disco do Mark Lanegan entre os melhores do ano. Não é, mas depois do elogiadíssimo Bubblegum em 2005 e da participação certeira com Isobel Campbell em 2006, ele conseguiu de novo. Juntou-se à dupla de produtores ingleses Soulsavers, combinou a sua voz cavernosa-estilo-Tom-Waits-depois-de-anos-fumando com sintetizadores ora espaciais, ora um tanto deprimidos e está no terceiro melhor do ano. O álbum tem um clima espiritual, quase religioso, mas a maioria das músicas foi composta pelos Soulsavers e Lanegan. Spirtual, um hino de devoção de Josh Haden, no entanto, enriquece esse clima do disco. A voz de Lanegan funciona perfeitamente em cada uma das músicas, mas principalmente na versão de No Expectations, ainda mais cândida e triste do que a original dos Stones.


2. LCD Soundsystem – Sound of Silver

De todos os álbuns dessa lista, foi o último que eu escutei. Comecei desconfiando por ser unanimidade entre a galerinha hypeira descolada, mas depois virou TÃO unânime que não pude deixar de ir atrás. Depois de escutar, não tive pudores em colocá-lo logo em segundo, e por pouco o disco não bicou o primeiro lugar. Me falta conhecimento pra entrar em detalhes do som, mas o fato é que eu gostei demais. É música pop bem feita, com verso e refrão e uma base instrumental do cacete. E daí que é “artificial”?



1. Queens of the Stone Age – Era Vulgaris

Meu primeiro lugar. Simples assim. Pode ter pesado o fato de ser uma das minhas bandas favoritas, sim. Mas Era Vulgaris é o número um principalmente porque conseguiu finalmente superar a ausência de Nick Oliveri (e, na prática, de Mark Lanegan, embora ele ainda participe das músicas aqui e ali), equiparando a época de ouro da banda embora esteja longe de ser uma unanimidade. Porradas e riffs encorpados, igual a 2002. Mas sem se repetir. Além disso, I’m Designer e Misfit Love estão entre as músicas do ano. É isso que eu espero do Josh Homme. Com ou sem parceiragem peladona.

Tuesday, December 11, 2007

James Murphy e o Homem Moderno

A primeira vez que eu tomei conhecimento da crítica musical foi em 2002. Pré-adolescente, eu assistia na MTV um especial de fim de ano, na época que a MTV Brasil ainda tinha alguma moral (ou talvez só tivesse pra mim, pivete), e entrou o Fábio Massari falando o quanto o Songs for the Deaf, do Queens of the Stone Age era um dos discos legais do ano. Um must-have. Eu não sabia exatamente quem era o Massari e o que ele já tinha feito, mas sabia que era um cara que entrevistava músico famoso e devia ter um passado muito true, por causa daquela cicatriz na boca. E me senti extremamente feliz por ter comprado, por livre e espontânea vontade, com 12 anos apenas, um disco que ele endossava daquela maneira.

Depois de um tempo, as coisas mudaram. Minha forma de ver as coisas ficou mais cética, e a crítica em si já parece ter aberto e fechado ciclos em mim diversas vezes. Por exemplo, já achei que seria legal demais viver como o Lester Bangs (e talvez eu fosse ainda mais ingênuo quando pensava desse jeito), e já percebi que não tenho talento nenhum para isso. Hoje em dia, ficar pensando muito na análise de música não é mais alguma coisa que me empolga. Até por isso, escrever isso aqui está muito estranho para mim. É como se tivesse voltando num ponto e brigando por ele sem realmente sentir mais nada. Mas eu precisava, porque ainda uso do assunto que eu falo. Quando leio a Uncut, quando leio um livro de artigos velhos do Simon Reynolds, quando discuto sobre bandas no Orkut ou quando sigo uma indicação para pegar um disco. Mesmo tendo aprendido nesse meio tempo que não é nenhum crime escutar uma "banda ruim", eu continuo considerando certas opiniões especializadas. Para o bem e para o mal.

E foi assim que conheci LCD Soundsystem. Ainda munido de algum preconceito compreensível com "sons modernos", demorei a aceitar o que é fato: James Murphy é Deus. Fiquei relutando em escutar, mas o consenso foi tão consensual e massivo que não resisti. Fui atrás. Não preciso nem ficar descrevendo o que é a música dele por muito tempo. LCD Soundsystem é igual ao rock que você sempre escutou, com as melodias e batidas e tudo que você necessita (até solos!), só que com um instrumental sampleado e sintetizado. E, como se isso não bastasse, ao ouvir, apenas ouvir, você aprende a desprezar a desconfiança que tinha antes com sons eletrônicos.

Eu vejo o mainstream hoje em dia dividido entre a música "orgânica" e a música "artificial". Revistas como a Uncut promovem o revival do folk e do rock clássico e, do outro lado, temos bandas dançantes e produtores badalados. A figura do produtor, na era do sampler e do download, se glamourizou. Timbaland, Bob Rock, Rick Rubin e até mesmo o próprio James Murphy são agora mais famosos do que muitos dos artistas que produzem, e um timbre diferenciado, ou um eco bem localizado são às vezes mais apreciados do que um riff. Pode ser sinal dos tempos modernos, ou pode ser (e me desculpe pelo jargão proto-futebolístico) apenas o reconhecimento de um trabalho que faz, sim, milagres. Se Era Vulgaris é um dos meus discos preferidos no ano de 2007, além do surto criativo de Josh Homme, muito disso se deve, tenho certeza, à produção de Chris Goss. Porque um bom produtor, mais do que colocar os trecos tecnológicos nas músicas, é alguém que inspira e dá uma direção ao artista.

Por outro lado, o trovador também está em alta. Como se desafiando toda a gama de opções "artificiais", ele pega um violao, um piano e um acordeon e faz as melodias mais bonitas que você pode encontrar. Ressucita Tom Waits, Bert Jansch e Nick Drake (sem que todos estejam propriamente mortos) numa era em que só o Kraftwerk e o Brian Eno parecem importar. É o escapismo perfeito pra quem não acha que deve suportar tudo isso.

James Murphy é um pouco dos dois. Apaixonado pela sua cidade, ele cria um vínculo passional com o ouvinte e mostra que sabe do que está falando. Pode ser um contador de histórias como Devendra Banhart e também pode controlar uns aparatos eletrônicos como um membro dos Chemical Brothers. E ainda produz os próprios álbuns, o que elimina o dilema do "produtorversusartista" e o eleva a um nível mais complexo como músico. Timbaland consegue ser popular com o que faz, mas há quem diga que é melhor produtor. Rick Rubin é provavelmente o melhor produtor de discos de rock do mundo, mas sua banda nunca foi popular. Murphy une tudo isso e em prol de si mesmo.

Talvez ele seja a evolução do popstar. Talvez ele seja só o homem moderno. E talvez o cara seja a ruína da música. Mas o que importa mesmo é que Sound of Silver é do caralho, amigo.

Tuesday, November 20, 2007

Eddie Vedder - Into the Wild (Ou Como o Vocalista do Pearl Jam Recuperou Seus Colhões)

Há algum tempo, eu escrevi atacando Eddie Vedder e a malemolência que vem acometendo o Pearl Jam pós-Riot Act. Eram dois textos, e vamos dizer que acertei num ponto e errei em outro, ambos essenciais. Errei ao dizer que Eddie Vedder estava acabado e enterrado, mas acertei ao questionar o motivo dele não fazer um álbum solo. Na verdade, se eu tivesse algum dia encontrado-o, a primeira coisa que perguntaria a ele seria por que ele nunca fez um disco solo. Porque o Pearl Jam é uma banda super harmoniosa e respeitosa na relação intra-membros e etecétera, mas ainda assim, não é a expressão 100% pessoal do artista.

Passou um tempo e Eddie, sempre solícito, aceitou fazer a trilha sonora de um filme de seu amigo de longa data, Sean Penn. Into the Wild conta a história de Chris McCandless, um rapaz que desistiu da vida comum e confortável num subúrbio americano para se enfurnar numa paisagem erma no Alaska. Talvez Penn tenha escolhido Vedder justamente porque, há algum tempo, ele e seu Pearl Jam ameaçaram, de forma simbólica, fazer o mesmo que nosso protagonista. E Eddie talvez tenha aceitado porque, apesar de sempre ter flertado com essa deserção da sociedade, nunca teve coragem de fato para fazer o que fez McCandless.

E não estou aqui chamando Eddie Vedder de covarde. Muito provavelmente, se esconder num bloco de gelo não é a decisão mais sensata e corajosa a se tomar. Mas é instigante pensar numa pessoa que tomou uma decisão tão insólita e impetuosa e se colocar ali, mesmo que apenas no campo do pensamento. E para o velho Edward, o assunto instiga especialmente. Quando ele canta uma música como Society, de Jerry Hannan, evoca, de forma ambígua, Into the Wild, sim, mas também a si próprio, onze anos atrás. Em 1996, quando Sometimes tocou pela primeira vez na primeira audição de No Code em algum lugar, o Pearl Jam abnegava de vez o grunge, com um mergulho dentro do “eu”, solipsista na definição. Isso inspirou fascinação - e algum rancor - em milhares (milhões?), mas não mais do que no próprio Vedder, que, a cada album, explora de novo a retórica “E como seria viver isolado?” Representando sempre “o lado do bem”, ele já se aventurou também pelo “lado do mal”, em Soon Forget, a história do homem ganancioso escondido do mundo por causa do seu dinheiro. Mas percebe como o isolamento é recorrente, mesmo visto de outro prisma?

Into the Wild como tema foi, portanto, a chance perfeita para Eddie colocar pra fora seus pensamentos sobre isso sem parecer um cara de meia idade dizendo que quer deixar tudo pra trás e está muito tristonho e frustrado. Quer dizer, o cara tem mulher, filha, casa, carro, comida, roupa lavada, a cervejinha de sexta-feira e amigos famosos. Seria patético (e é, se você se força a pensar assim) cantar essas músicas de um modo pessoal. Mas é tentador para ele, porque está fascinado com isso.

Musicalmente, o disco é bom. Passa um clima de desolamento e de introspecção que funciona demais com a idéia de um sujeito indo pro Alaska, longe de tudo. Ele termina de se firmar como o melhor compositor de melodias da sua geração. No Ceiling é um grande momento do álbum, viajante, mas curta e precisa em seus noventa e pouco segundos. Hard Sun, algo próximo da primeira, arre, faixa de trabalho, também é boa música. O refrão, endossado pela vocalista do Sleater-Kinney Corin Tucker, é saudável, ensolarado, hippie, tipo a trilha sonora perfeita do “vamos partilhar a lentilha e o cortador de unhas”.

Há alguns momentos ruins, sim. The Wolf é a faixa mais desnecessária de Vedder desde Arc. Aliás, é como uma cópia de Arc, aquela música sombria, esquisita, com nove berros representando e relembrando as vítimas do festival de Roskilde de 2000 (particularmente, acho Love Boat Captain uma homenagem bem melhor). Mas o desespero e os berros comuns entre as duas se relacionam no momento em que a renúncia do convívio chega à renúncia da vida. Com o perdão do spoiler, no fim de Into the Wild, Chris McCandless morre.

Então, se correlacionarmos a exclusão da sociedade com a morte (e no fragilizado mainstream atual, desaparecimento significa morte, sim), The Wolf torna-se mais do que uma música dispensável. Talvez seja o momento em que Eddie chega mais perto de ser Chris, um virando o alter-ego do outro. A música continua sendo chata, mas ganha um sentido. Passa.

A pura verdade é que Into the Wild representa a volta de Eddie Vedder à introspecção como tema central de um álbum seu, e também representa a continuidade de seus colhões, artísticamente falando. E é por isso que a trilha pode ser considerada bem-sucedida: dá o clima perfeito pra história e também coloca o artista dentro dela. É uma relação de simbiose, mas no fundo eu acho que quem se deu melhor nessa foi o próprio Vedder.

Tuesday, November 13, 2007

Células Intumescidas

Ultimamente tenho sentido uma raiva incontrolável. Nem raiva, aliás, a raiva é consequência de alguma coisa. A verdade é que, pela primeira vez na vida, me sinto como um daqueles garotos americanos que aparecem um dia com uma uzi e matam meio colégio. Não que eu vá fazer isso, mas eu começo a entender um Jeremy da vida. Claro que meu problema é induzido por mim mesmo, vem de eu não ter meus amigos e família por perto, por estar num outro país, tendo um ano pra recomeçar e conquistar qualquer coisa. Um cotidiano. Mas eu rebato essa indiferença, essa falta de confiança e esse incômodo que os outros parecem sentir em relação a mim com agressividade. Com palavras brutas, ironia, sarcasmo. E quando essas coisas são ainda mais mal interpretadas, eu preciso de uma nova injeção de ódio pra combater. Uma bola de neve.

O que é que eu faço então? Minhas sensações são amplamente estimuladas por essa animalidade febril que eu demonstro. E é incrivelmente delicioso. Talvez eu seja um psicopata, mas toda essa confusão, todo esse ódio me deixam como uma criança descobrindo o mundo, os cinco sentidos. Todo frio, dor, embaraço, felicidade, surpresa, sabor, conhecimento parecem intumescer minhas células, me fazer maior, melhor.

É inacreditável o quanto eu estou mais corajoso, o quanto eu quero cada vez mais e mais experimentar coisas novas, e ao mesmo tempo buscar um meio de sair dessa situação desagradável de não ter nada nem ninguém.

E isso tem trilha sonora, ainda. Estou atrás de tudo que eu puder escutar de novo, desenvolvi uma obsessão doentia com uma lista de melhores de 2007. Como se eu realmente tivesse que fazer isso, e virou uma questão de honra. Mas é claro que é só uma desculpa das minhas entranhas pra ouvir mais, e mais, e fazer mais videoclipes na minha cabeça enquanto escuto música no ônibus (hoje de manhã foi Radiohead). Me dê Sigur Rós, me dê Pelican, me dê Foo Fighters, Bruce Springsteen, Devendra Banhart, Explosions in the Sky, Gogol Bordello, me dê até Velvet Revolver. Quero mais.

Friday, October 19, 2007

Travis e Ave

Uma coisa em comum entre os dois shows que eu estive aqui na Dinamarca até agora foi a qualidade das bandas de abertura. Na primeira vez, Marvel Hill, abrindo para os milenares tiozinhos do DAD, conseguiu ofuscar a atração principal com uma apresentação esquisita, eletrônica demais para o público presente e com um baterista que literalmente exalava fumaça.

A banda que eu vi hoje à noite, no entanto, tinha uma missão um pouco mais difícil do que superar as macaquices de meia-idade do Disneyland After Dark. Quer dizer, Travis pode não ser mais aquela anda que fazia chover em Glastonbury, mas ainda é boa música. Sério, Selfish Jean põe no chinelo, fácil, qualquer single dos Klaxons ou Kate Nash. Não?

De qualquer modo, essa banda de hoje, Ave, à primeira vista parece demais Arcade Fire, mais do que seria saudável: Nove músicos no palco, terninhos, trocentos instrumentos clássicos... Mas é bom quando o som começa e você vê que as aparências enganam. Eles estão MUITO mais nessa de “Art Rock” (ui) do que o Arcade Fire. Oscilam naquele vaivém, hipnotizando a platéia com uma cantiga ao som do piano ou sintetizador e de repente acordam, irrompem em notas e batidas. Na verdade, em determinado momento, quando eu já estava com um pouco de, cof cof, medo deles, o baterista explodiu numa manifestaçäo sonora que foi das maiores que eu já vi ao vivo, possuindo a banda, engrandecendo, completando tudo aquilo de novo. Caralho, tomei um susto.

Uma coisa que aprendi com DAD e Marvell Hill é que quando você está num show e não exatamente sabe cantar as músicas junto dom a banda, sente necessidade de uma imagem, de algo visual que complete sua experiência, naquele momento muito mais sensorial do que racional – como escutar um CD novo folheando o encarte. Os músicos do Ave parecem estar cientes disso e montam um verdadeiro banquete visual. São dezenas de pequenas coisas para prestar atenção: Velas e abajoures espalhados pelo palco; Máscaras nos rostos das três garotas que tocam violoncelo e violino; Uns quadros de paisagem encostados nos instrumentos e caixas de som; Uma maçã que o guitarrista (separado do Frusciante no nascimento) parece estar muito interessado em comer; Uma máquina de escrever que realmente é usada como instrumento em certo ponto; O vocalista em si, que canta sentado numa cadeira, como se fosse um doente terminal, se controcendo, e depois levantando, e andando pelo palco gesticulando, e depois tocando trompete e piano; E no alto, o mais importante, um telão com imagens precisamente escolhidas para cada música, como se fosse um clipe.

Como banda iniciante e, portanto, filha da internet que é, o Ave sabe que apenas a música não é mais atrativo hoje em dia. Baixar bootlegs é mais fácil que tocar guitarra e não é mais preciso estar lá. É, é uma pena, mas é assim que é. E, portanto, para valer mesmo a pena, para moleques como eu, ou da minha geração, uma apresentação não pode ser menos que catártica.
Com suas explosões musicais e sons de máquina de escrever, Ave está no caminho certo, parece.

E o Travis, bom, foi grande. Ao som da música-de-treino-do-Rocky-Balboa, eles chegaram por trás da platéia com roupões coloridos de boxe, e passaram por todo mundo antes de pularem pro palco. Abriram com Selfish Jean, tocaram os hits esperados (e minha favorita pessoal, Love Will Come Throught), zoaram o tecladista sueco e mandaram aquele cover esperto de Britney Spears. Ótimo show, em muitos (quase todos) aspectos melhor do que os das outras três bandas citadas aqui, mas Travis é isso aí. Tem alguma coisa pra teorizar? Praticamente nenhuma.

Monday, October 08, 2007

Sobre Coisas Boas

Há uma coisa que eu sei que não sou, um jornalista musical. Não tenho idade pra isso e nem o diploma, e nem o conhecimento. Quem acompanha meu blog ou as coisas que eu escrevo e falo, de certa forma, acompanha meu crescimento como escritor (cof cof), como amante de música, e tudo mais que meus textos possam passar.

Por isso mesmo não tenho vergonha em dizer que hoje comprei minha primeira Uncut. Nem que eu não conhecia nenhum dos artistas do CD que o Devendra Banhart compilou para a revista. Podia ficar aqui citando todos os prós da revista e ficar em devaneios do tipo “será que uma revista dessas daria certo no Brasil?” “Eles fazem isso e aquilo e é genial”. Mas o problema é que não é muito comum eu me interessar por esse tipo de coisa (o que me desqualifica ainda mais como jornalista-wannabe). O que me pegou mesmo hoje foi o CD. Porque se você for pensar, entre as duas artes subjetivas que são a escrita (nesse caso, a do jornalismo musical da Uncut) e a música, a música é ainda mais subjetiva, ainda mais incerta, ainda te leva mais pra lá e pra cá do que a outra. Não requer sua concentração, a conquista.

Quando eu escuto alguma coisa como Echoes ou Since I’ve Been Loving You, eu fico realmente emocionado, a música toca no meu peito de verdade, eu sinto aquele amor por ela, aquela empolgação e aquele agradecimento aos deuses por poder estar escutando aquilo. E quando o que está tocando no meu som é alguma coisa como Nirvana, Wolfmother ou esse CD do Devendra, com seus braços-direitos-acid-folk, eu sinto que é possível. São moleques como eu, com um instrumento, chique ou rudimentar, fazendo música básica e bonita, e tão eficiente quanto a dos gênios que colocam as notas mais perfeitas com os timings mais perfeitos.

Quer dizer, eu peguei meu violão, toquei minhas poucas composições e realmente considerei, sei lá, gravar um demo e mandar pro Devendra. Quem sabe eu não faça isso?

Provavelmente não e sabe lá como é que vão ser as coisas daqui pra frente, näo é? Não sei como eu vou evoluir ou o que eu vou pensar ou o que eu vou fazer... Seja como for, vou continuar sempre escrevendo, sempre tentando externar todas as bobagens e raros (pseudo) lampejos de genialidade que aparecem na minha cabeça. E, deixando o lado “sou escritor beatnik fodido e estou cagando pra você” pra lá, espero que você se mantenha acompanhando nisso.

Tuesday, September 25, 2007

Segunda e Terça

Escrevi durante umas aulas frustrantes. É toda a minha produção em quase dois meses. Quase um épico.

24/09/2007

I
Quando eu me sento na privada pra cagar, não costumo pensar muito na merda. Acho que pouca gente de fato pensa. Acontece que quando se está atolado nela, na merda, você não tem outra alternativa.
Porque o cheiro de bosta é horrível, te fode por dentro e não há nada mais importante naquele momento do que tirar os toletes de barro da sua cara.
E o que me revoltou hoje foi algo mais ou menos assim:
- Bem, Morten, sexta-feira você me disse que ia ao cabeleireiro.
- Pois é, acho que dá pra ver - ele mostra o cabelo ridiculamente pintado de castanho escuro, com um sorriso orgulhoso.
- Então quer dizer que você recusou uma ida ao bar pra fazer essa coisa medonha? Cara, você é uma aberração.
- Você só diz isso porque seu cabelo é feio.
É. Foda-se.

II
Podem dizer que eu tento copiar o velho Bukowski. Isso se algum dia alguém ler algo meu pra poder dizer alguma coisa. Talvez eu tente, e essa é a beleza do negócio. Se eu aprendi alguma coisa com o velho, foi que ficar com muito medo das pessoas é uma grande bobagem. Ele provavelmente condenaria meu trabalho, mas me daria uns tapinhas nas costas por ter feito o que eu queria, mesmo sabendo que era porcaria.

25/09/2007

I
Não sei qual a minha opinião sobre esse Peter. É velho, ensina física, tem cara de bicha e há quem diga que é pedófilo. Acho que é só bicha. Mas não enche o saco. Acho que é importante que um professor não encha o saco. É como se ele não estivesse implorando pela nossa atenção. Passa a impressão de estar seguro.
Ontem uma professora velha exigiu nossas anotações, pra ver se estávamos tomando notas direito. Para mim, um ato de desespero. Era matemática e eu poderia estar anotando. Mas eu preferia desenhar. E eu decido o que é melhor para mim, porque sou eu que sofro as consequências, só eu.
Ela arrancou os desenhos da minha mão, puta da vida. Perguntei se pegaria uma nota legal por eles. Ela disse que não. Essa professora é como a própria matemática: já está fazendo hora extra na Terra.
Uma pena.
Mas compreensível.

II
Se eu tivesse que escolher duas pessoas desta classe pra formar algo como um "casal nojento" ou "casal sebinho nas dobras da bunda", seriam o tal do Kasper e a tal da Louise. Esse Kasper eu näo duvido que já tenha lambido um bueiro. Näo que seja um Casanova. É que ele curte fazer coisas estranhas com a boca toda hora. Boca que parece um prepúcio inchado ou infecçionado. É o tipo de imagem que não é legal. E é o tipo de coisa que eu imagino quando vejo alguém fazendo beat box.
Adivinha: ele faz beat box.
Já a outra é provavelmente o ser mais grotesco que pisou nesse mundo. Esqueça o Pé Grande, a Britney Spears pós-Federline e aqueles hindus que limpam a bunda com a mão. Aliás, me surpreenderia se me dissessem que ela limpa a bunda. Além da personalidade babaca, contribui para a minha ojeriza aquele cabelo amassado e ensebado, com cara de cipó e palha, que não vê shampoo desde 1992. E ela tem aquela cara engordurada, cheia de maquiagem, ou de resíduo de maquiagem (sempre lembro das propagandas do Leite de Colônia).
Eu näo sou o cara mais arrumado do mundo. Também devo ser um nojo pra muita gente, mas no fim, eu só estou no meu direito de malhar o próximo, assim como Jesus queria. Rapaz, estou verborrágico hoje.

Monday, July 30, 2007

Hvad Hedder Du?

Agora que a nossa busca quixotesca por medalhas, assim como fazia o Mutley, acabou, o acidente da TAM ficou (que surpresa!) inexplicado e o cadáver do ACM já está fedendo, levanto a mão e peço a palavra.

Quinta feira devo ir embora, então. E os posts aqui ficarão escassos.

Vou sentir falta demais de todo mundo, vou até chorar. Mas daqui um ano volto com AQUELE sotaque nórdico para o prazer geral da nação. E não vou parar de ouvir música. Quiçá saiam umas resenhas durante o exílio, não é?

No mais, espero que esse blog tenha divertido vocês nesse ano e meio mais "agitado", apesar dos erros factuais, gramáticos e algumas explosões de humor mal desenvolvidas.

É isso aí, beijo do gordo (hoje fui dispensado do exército por pesar mais do que eles aguentam HOHOH).

Thursday, July 19, 2007

Mundo Perverso

Em 1969, quando Tony, Geezer, Bill e Ozzy escreveram Wicked World, muito provavelmente não pensavam em aviões enfiados em prédios. Sua visão se limitava às agruras da guerra. Que a guerra é horrível, nós todos sabemos. Mas não sei se é por só estar vivenciando tudo agora ou se é por de fato as coisas estarem piores, para mim há algo sugerindo que o mundo perverso começou há pouco tempo. Pode ser equívoco meu, mas parece que antes as pessoas morriam e pronto. As tragédias aconteciam por pura falta de destreza, de tecnologia, o mundo era mais inocente.

Hoje, as coisas parecem, justamente, e a palavra é essa, perversas. Não é só morrer. Estar num avião pilotado por um xiita louco significa deixar como legado da sua morte uma guerra no oriente e um pavor generalizado entre os seres humanos. Antes, pessoas eram mandadas pra guerra por causa da soberba dos reis, e presidentes e militares. Como é que eu vou dizer isso? Não é que suas mortes tinham menos significado, mas quando você vai pra guerra tem mais chances de morrer. Quer dizer, NÃO morrer é a exceção que comprova a regra. Agora, tudo é parte de um quebra cabeças funesto. Não é que você perece por fazer parte de uma inocente conspiração Rússia x EUA, ou porque um maníaco resolveu atirar na sua cabeça. Você morre engolido por um buraco que aparece por baixo do asfalto, quando o engenheiro que projetou a obra tinha sido contratado pelo estado, com toda a tecnologia e know-how ao seu dispor. Sinal dos tempos, as mortes ficam ainda mais tolas e quem está vivo fica, assim como eu, achando que a Guerra Fria, que aterrorizou tanta gente por 40 anos, é brincadeira de criança.

Essa tragédia com o avião E prédio da TAM (que macabro!) pegou no fundo do meu estômago. Foi o que abriu meus olhos pra essa brutalidade do mundo. No momento que o acidente aconteceu, eu estava no carro, com a minha mãe, indo para São Paulo. Minutos depois, alheios, recebemos uma ligação da minha avó, contando o que aconteceu e falando para evitarmos os arredores do aeroporto. Depois, meu pai. Ele já adiantou, antes que precisássemos ver na TV, aquele lance das ranhuras na pista. Esqueceram de colocar as ranhuras aderentes, para dias chuvosos, na pista auxiliar do Aeroporto de Congonhas, reformada única e exclusivamente para desafogar a pista principal e aquietar, na medida do possível, o caos dos controladores de vôo que vem incomodando o país há alguns meses. Quer dizer, pros políticos, pra Infraero, o importante era jogar o pepino pra algum outro otário. Quiseram solucionar o problema do céu (e bem mal solucionado) sem pensar que na aterrissagem, talvez, alguns 186 filhos-da-puta azarados pudessem morrer. Deus abençoe esses políticos! Pode ser que a causa do acidente nem tenha sido ESSA negligência e pode até ser que tenha sido uma cagada do piloto ou um problema mecânico, mas só o levantamento da questão, a menor possibilidade disso ter acontecido, já corrobora a hipótese. Percebe a ironia? Por causa de um caos aéreo que começou depois das investigações acerca de um acidente horrível, outro acontece, e ainda mais trágico, no meio de uma cidade gigante, acertando um prédio e matando mais umas pessoas que nem sonhavam em pegar um avião. Pra piorar, aconteceu no solo, onde deveria ser seguro. Recentemente, eu andei de avião. Por mais confiante e ciente das estatísticas aéreas (é mais fácil você ficar tetraplégico num acidente de carro do que morrer voando pelo céu) que você possa ser, sempre sente algum alívio quando as rodas tocam o chão. “Agora não tem mais como dar zica”. Então, quão cruel é ser arremessado contra um bloco de concreto segundos depois de sentir esse alívio, esse aconchego quase maternal? Quão cruel é ser acertado por um avião desgovernado quando se pensa estar seguro, em terra, protegido por paredes grossas de concreto?

Muitas coisas mudaram desde que Wicked World foi escrita. Mas talvez a principal seja que os políticos não escolhem mais quem vai “sair e morrer” (A politician’s job they say is very high, ‘cos he has to say who’s gonna go out and die), só preparam as armadilhas.

Friday, July 13, 2007

13 de Julho

Dia mundial do rock. É macaquice demais pensar que isso significa alguma coisa e eu até pensei em fingir que não vi, mas é aquele negócio: se você ignora alguma coisa deliberadamente, já deixou de ignorá-la há muito tempo. E eu realmente não consigo esquecer que tem gente comemorando isso. Ou pelo menos notando.

O dia do rock geralmente serve pra denegrir ainda mais a imagem dele. Estereótipos, piadinhas, frases prontas... O tipo de coisa que constrange qualquer um que tenha um mínimo de bom senso. Acaba sendo mais o dia dos metaleiros virgens do que qualquer outra coisa. Esses sim se deleitam com o dia do rock. Aproveitam pra mandar aquelas frases geniais tipo “o mundo só será legal quando o último pagodeiro morrer enforcado pelas cordas de uma guitarra”. Dores de estômago aqui.

Acho que o principal problema do rock and roll e seus subgêneros é serem vistos como “rock”, e não como música. Isso dá margem pra muito imbecil “roqueiro”, sei lá, achar que está num nível acima dos outros. E também dá margem pra cronistas-babacas e reaças em geral acharem que, na verdade, o estilo está abaixo dos outros. “Isso não é música, é barulheira”.

Segundo o dicionário do tio do Chico Buarque, música é “arte e ciência de combinar sons de modo agradável ao ouvido”. E, sendo “agradar” um verbo subjetivo, qual a grande diferença entre Maria Bethânia e Cannibal Corpse? Algum desses não é um combinado de sons?

Equivaler o rock ao restante da música não só seria algo honesto como também nos pouparia de bandas cover “celebrando” o dia do rock ("SUPER PROMOÇÃO GALERA!!! RICARDO SEIXAS E NORMAN PRESLEY PRESTANDO HOMENAGEM AOS REIS DO ROCK NESSE DIA 13 DE JULHO! MULHER FREE ATÉ MEIA NOITE!") e de headbangers achando que ouvir Rhapsody vai realmente trazer algum malefício para os “pagodeiros”.

Sunday, July 08, 2007

Post-típico-de-blog

Nos últimos quase 20 dias não postei nada. Por uma profunda falta de inspiração e também por desmotivação. Não só pelo baixíssimo número de comentários, mas também por estar direcionando toda a minha motivação para as tarefas pré intercâmbio. É complicado.

Mas ganhei um Mp4 e as músicas fluem direto pra sua cabeça e reverberam no seu cérebro. Assim é mais fácil memorizar um disco e até estabelecer uma conexão mais forte com ele. Como só arranjei o bicho ontem, até agora só escutei 4 coisas diferentes. O Shadows Collide With People, do Fruscia fica ainda mais genial com os fones enfiados nos ouvidos. Carvel ainda é a minha preferida, mas Omission sintetiza melhor do disco. Começa de um jeito, muda completamente no refrão, vai, vem, e há aquele monte de detalhes como zumbidos e coisas assim... É fácil e é complexa.

Aí, escutei também o Beggars Banquet e o novo do QotSA. Dá pra ouvir cada respiração dos Stones e no caso do Era Vulgaris, os riffs urgentes ficam ainda mais robustos. Gostei desse negócio de Mp4.

Além dessas, tenho escutado muito Kashmir. É dinamarquesa e deve ter até alguma fama porque até o Bowie e o Lou Reed aparecem num disco dos caras. A verdade é que eu to começando a projetar a banda alto no meu gosto. É mais simplista que a conterrânea Mew, lembra um pouco Travis, Unified Theory, coisas assim. Escute o Zitilities.

 
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