Thursday, June 14, 2007

Queens of the Stone Age - Era Vulgaris

Quando Lullabies to Paralyze saiu, em 2005, quase todo mundo concordou que o disco era muito bom até a faixa 10 e depois se perdia. Disseram que “o Queens of the Stone Age agora tem 3,75 discos bons” e torceram para que o próximo álbum não seguisse pelo caminho das 4 últimas músicas. Seguiu, contrariando a expectativa comum. Mas foi uma coisa boa! Era Vulgaris não é apenas uma continuação de Lullabies to Paralyze, é a evolução dele.

Eu explico: por exemplo, Into the Hollow é irmã de Long Slow Goodbye, mas é bem melhor. E isso porque Josh Homme teve tempo de concatenar melhor as idéias, amadurecer esse novo som que ele vinha pretendendo para sua banda desde a saída de Nick Oliveri e ainda considerar de vez as influências novas que encontrou. E que influências! É como se Trent Reznor, do Nine Inch Nails tivesse emprestado um braço seu a serviço do QotSA.

Pois é, nos últimos anos, Josh Homme tocou com Foo Fighters, Mastodon, U.N.K.L.E., Strokes e Eddie Vedder, Chris Goss, Death From Above e Peaches, só pra citar alguns. Seriam influências (imaginando que essas colaborações trouxessem algum elemento novo de volta para ele) suficientes para desfigurar o som do trabalho novo do Queens. Mas não, Homme conseguiu juntar tudo isso em benefício próprio. As batidas eletrônicas do U.N.K.L.E., da Peaches e do NIN, por exemplo, serviram para encorpar ainda mais os característicos riffs, que antes se apoderavam do quarto em que você estava; agora tomam a casa toda.

É claro que os riffs continuam lá, ainda mais robustos. Sick, Sick, Sick, o primeiro single, é, hum, pulsante. Te dá uma inquietação nos braços e pernas e deve ser muito boa para dançar. Sabe como é, eu não danço. A música ainda conta com a participação de Julian Casablancas, o que deve recrutar alguns fãs para o QotSA, como aconteceu no Songs For The Deaf, que tinha Dave Grohl na bateria. Escolhe bem suas amizades, esse Josh Homme.

Depois de se apresentar para o mundo de uma forma mais ampla, em 2002, a cada disco a banda assume uma forma nova de promover seus trabalhos, e os integrantes vestem-se de uma persona totalmente nova. Em 2005, eram lobisomens atrás de sangue jovem. E em 2007, é genial como um logo novo, um boneco-ventríloquo retardado e uns utensílios domésticos de desenho animado estampados no site e na capa do álbum te deixam irremediavelmente curioso. Quem fica curioso compra discos.

Legal que mesmo no meio dessas infindáveis referências, musicais e estilísticas, o CD tem uma unidade como não se via desde que Nick Oliveri saiu. As músicas se completam e formam um bloco só. A falta do careca não é mais sentida como algo estrutural, e sim nostálgico, para quem gosta daquelas músicas furiosas com seus berros punk. E nostalgia é só um detalhe, principalmente quando se percebe que a principal mensagem desse Era Vulgaris é o crescimento do Josh. Ele finalmente encontrou seu direcionamento musical, e pela primeira vez sem a ajuda de ninguém ou sem fazer algo muito básico ou manjado. E isso por si só já o redime das últimas músicas do Lullabies e da ausência de Oliveri – se é que tem que ser redimido por isso.

E o cara ainda está cantando melhor do que antes!

E talvez a coisa se sustente tão bem desse jeito porque o QotSA sempre foi uma banda sem medo de mudanças. As saídas de integrantes sempre foram, de modo geral, discretas e naturais. Na única vez que esse caldo entornou, quando o Nick saiu brigado, o resultado foi justamente aquém do esperado. Tudo bem, merda acontece. Mas é que agora Joshua é um homem casado, com uma filha. A maturidade que se espera depois desses acontecimentos chegou para ele, e mesmo com algumas mudanças no line-up da banda – saíram Allain Johannes e Natasha Shneider e entraram Michael Shuman e Dean Fertita – ele manteve-se focado naquilo que queria fazer.

Quer mais dessa maturidade? A letra de Into the Hollow é, pra mim, sobre um cara que sempre fez as piores escolhas e encontrou agora alguém pra o seguir. Não nas escolhas ruins, mas segui-lo apesar do seu passado. Pode ser que não seja isso, interpretações sempre são perigosas. Mas que há um crescimento aí, há. Em I’m Designer, o vocalista dispara “My generation’s for sale” [Minha geração está a venda] e depois discorre sobre isso. Bom, antigamente o QotSA não estava lá muito preocupado com sua geração fútil. Depois, ele vem e diz “Wanna see my past in flames” [Quero ver meu passado em chamas] em Misfit Love. Isso é tema recorrente, mas Josh está bem resolvido com seu presente, com sua banda e com sua vida.

Assim, quando o disco acaba, você percebe que o “Queens Lite” (alcunha dada por Nick “Dark Side of the Force” Oliveri) conseguiu se encontrar, realmente. E que a volta de Nick virou um detalhe, e por isso mesmo é mais fácil de acontecer. Se você era fã da banda e sofria com essa indefinição, pode estourar uma garrafa de champagne.

Adendo:
Tinha pensado no parágrafo acima como conclusão do texto, mas isso me incomodava. Parei de escrever isso aqui por uns 10 dias. Pensei, pensei, escutei o disco até enjoar, até arranjei uns outtakes bem fodas pra incrementar a pasta de MP3 (a saber: covers do Billy Idol, Tom Waits e Elliot Smith, a versão definitiva de Fun Machine e uma versão acústica de Suture Up Your Future). Aí que percebi. Porra, ta na hora de esquecer o Oliveri. Mesmo. Qualquer que tenha sido o problema que os caras tiveram, isso já foi superado, pelo menos musicalmente. E é assim que importa. Se não, periga de nós parecermos com aquelas amebas que ficam realmente tristes porque uma banda acabou ou porque seus integrantes brigaram ou pegaram dengue. Fodam-se, caras, eu estou cagando para as suas vidas.

Saturday, June 02, 2007

Mais 2007 (Uns discos)

The White Stripes - Icky Thump
Não sei o que foi que o Álvaro Pereira Jr. tinha ingerido quando afirmou que o single novo dos White Stripes "parece apenas um Led Zeppelin". Provavelmente nada, com certeza ele só ouviu pouco Zeppelin quando era adolescente. Tudo bem.
Mas esse é realmente o disco mais, errr, roqueiro da dupla. Dizem por aí que foi o primeiro trabalho deles sem que as músicas fossem compostas apenas no piano. Não é um De Stijl, mas é melhor que o Elephant, por exemplo. E as músicas novas apresentam umas texturas diferentes: gaita de foles em "Icky Thump" e sons orientais em "Conquest", "Prickly Thorn, But Sweetly Worn" e "St. Andrew".
Fora isso, tudo se mantém igual. Meg continua parecendo um metrônomo (irresistível, é verdade) e Jack é o mesmo presunçoso poser de sempre (por exemplo, duas músicas no disco contêm Blues no nome).



Silverchair - Young Modern
Legal como esse disco começa. Dançante, como avisou Daniel Johns.
No Diorama, a banda emulava um pouco dos Beatles e um pouco do rock pop dos anos 90. Agora, transitam entre pop cafona oitentista ("Straight Lines") e até mesmo - pasme - Backstreet Boys ("The Man That Knew Too Much", menos o refrão). "Those Thieving Birds (Part 1) /Strange Behaviour /Those Thieving Birds (Part 2)" é um quase-épico (ou coisa do tipo) e é a melhor do álbum. Escute-o com o terno amarelo-banana, as ombreiras e as polainas vestidos.

Friday, May 18, 2007

Mano Brown Odeia Playboys

Nas últimas quase duas semanas, todo mundo falou do tumulto que ocorreu durante o show dos Racionais MCs na Virada Cultural. Falaram tanto, mas tanto, que a coisa se transformou num problemão. Até a MTV reservou um de seus programas pra falar sobre o assunto. Mas eu, bom, eu nem mensurei muito o tamanho da coisa. Talvez porque seja retardado, ou desligado, ou ache que tumultos são uma coisa corriqueira nesse mundo fodido que nós vivemos. Mas, certo mesmo, é que, após ver uma coluna dedicada ao tema até mesmo no Omelete, me senti irresistivelmente impelido a falar sobre o assunto. Não por eu manjar muito da coisa. Mas pela simples necessidade, quase básica, de dar pitaco em assuntos polêmicos.

Não que tumultos sejam uma coisa normal ou aceitável, mas pra mim, confusão num show de rap, com um monte de “playboy” assistindo (afinal, era um show gratuito na Praça da Sé, ia gente de todo tipo), é uma coisa bastante esperada. O rap dos Racionais (assim como grande parcela do rap nacional) não se comunica com quem não é da periferia, e pretende continuar assim. E isso reflete nos seus fãs – ou “trutas”. A hostilidade criada em torno do grupo e dos admiradores vai sempre resultar nessa explosão de ânimos quando os hostilizados dividirem o mesmo ambiente dos hostis. Difícil é tomar simpatia pelos hostilizados.

A princípio, esses são mesmo os mais pobres, esmagados por um sistema que dá poucas chances de ascensão social e cada vez mais marginaliza os menos afortunados. Nada disso é mentira. Mas o modo violento como eles olham, se referem e até mesmo tratam os “playboys” (se bem que pros “manos”, qualquer loiro de olho azul é automaticamente um repressor ofendendo suas famílias) faz com que a distância entre essas pessoas seja ainda maior – e com mais espinhos pelo caminho. Qualquer um com uma roupa mais bacana sente-se constrangido pela própria existência na presença desses caras. É o preconceito do desfavorecido contra o favorecido. Justificado, justificadíssimo, mas tão perverso quanto o outro.

E no meio disso tudo aparece o rap brasileiro (paulistano?), disparando contra tudo e todos, e levando consigo um sem-número de moleques que acreditam naquilo e repetem as idéias, como um mantra. Não sou ingênuo para achar que a polícia é santa, mas o que faz um gambé quando, ao ordenar disciplina, ouve urros de protesto do público e recebe indiferença dos artistas? Desce a mão, mesmo. E é inocência pensar que não fariam isso.

Se o show em questão fosse do Marcelo D2, por exemplo, acredito que não teria havido essa confusão. Porque o D2 conseguiu, enfim, transformar seu rap numa coisa vendável. Ele se auto intitula o tal pesadelo do pop, mas ele é extremamente pop. Brilhante! Um monte de branquelo rico escuta aquilo se achando o malandrão, o anti-pop, o mano do gueto, e aí o Marcelo vende pra cacete. Mais ou menos como funciona há um bom tempo nos Estados Unidos. Melhor: ele incutiu umas doses de música brasileira na sua música e com isso se livrou do estigma de ser um clone dos rappers americanos e ainda conseguiu uns fãs de samba. Em 2005, levou o VMB de melhor clipe de MPB!!! Em 2006, voltou a levar, mas dessa vez como artista de rap.

Então, voltando ao hipotético show do D2, o ambiente seria muito mais miscigenado, e os manos que estivessem ali não se sentiriam tão donos da música, da banda e, conseqüentemente, tão invadidos. Aproveitariam a música congregados aos playboys e pattys e sambistas universitários de calça de saco de batata. Viu que poético?

Nisso, os Racionais seguem separados do resto do mundo. E vão continuar, enquanto se mantiverem irredutíveis em relação à sua posição (musical e comportamental) de parco alcance. Enquanto isso, não se surpreenda com tumultos e bombas de gás lacrimogêneo.

Monday, May 14, 2007

10 Álbuns pra Comprar

Basicamente a idéia é essa, mesmo: 10 discos que você indicaria para alguém que só baixa MP3 comprar, e que mudariam o conceito dessa pessoa em relação a "pagar por música". Foi isso que o Bruno do Rock Magazine me pediu para fazer, colaborando com uma grande matéria que eles estão preparando para o seu blog. Como é coisa pouca, ficam aqui os 10 plays que eu indiquei (acho que não vai estragar a surpresa). Misturei os critérios "preferência" e "importância histórica" pra montar a lista.

Black Sabbath - Black Sabbath
Foi aí que o heavy metal começou, com a idéia simples de uma "banda de terror". The Warning tem um dos melhores solos de toda a carreira de Tony Iommi.

Pearl Jam - No Code
O distanciamento do Pearl Jam com o grunge produziu o melhor disco entre as bandas de Seattle daquela época, e possivelmente é meu favorito até hoje.

Led Zeppelin - Houses of the Holy
O rock direto do Zeppelin se encontra com o pop, reggae e o lado sombrio de John Paul Jones. Tem a melhor dobradinha incial de um disco: The Song Remains the Same e Rain Song.

Secos e Molhados - Secos e Molhados (I)
Toda a força e a quase paradoxal sensibilidade do Hard Rock setentista americano muito bem representadas por uma banda brasileira.

Jeff Buckley - Grace
O disco me emociona demais e dá até um aperto no coração que um sujeito promissor desses tenha morrido tão cedo. Vai de Zeppelin a Edith Piaf sem nenhum esforço.

The Rolling Stones - Beggars Banquet
Eu odiava Stones. Até ouvir o Beggars Banquet.

Chico Buarque - Construção
Chico Buarque parte da mesma insubordinação do rock pra fazer seus clássicos. Construção será sempre um disco muito mais transgressor do que muito metal extremo e HC pirulito que ouvimos por aí.

Queens of the Stone Age - Queens of the Stone Age
Já estava com um outro disco na mão quando vi esse pelo mesmo preço na prateleira da loja. Não pensei duas vezes para trocar. You Can't Quit Me, Baby é simplesmente apoteótica!

Matanza - Música Para Beber e Brigar
Não importa que não tem classe e a crítica odeia: escute no máximo, até o ouvido sangrar!

Pink Floyd - Meddle
O progressivo só se tornou tão chato porque não ouviram Echoes o suficiente.


Five Leaves Left do Nick Drake seria um décimo primeiro, fácil.

Tuesday, May 08, 2007

Quadradinhos Multicoloridos

Vivemos numa época fodida. Eu sou um moleque – sim, um moleque que mal saiu das fraldas – e quando me meto a escrever sobre rock, é sob a nuvem do apocalipse que paira sobre ele mesmo. Sim, acabou a época do rock. Acabou a época de tudo. O que são os anos 00? Uma geração sem face comandando um mundo de muitos quadradinhos – pixels – multicoloridos.

Quem tem liberdade pra escrever sobre música, filmes ou livros? Ninguém, é o que eu te digo. A auto sustentabilidade da cultura já escorreu pelo ralo há algum tempo, e nós estamos aqui, sem nada, calados, esperando pela próxima empresa pra pagar por uma propaganda-reportagem. E sem cultura não há nada.

Lembram de Reações Psicóticas? No prefácio à edição brasileira tem um quote do próprio Bangs, datado de 1980: “Você acha que, continuando assim, a única coisa vendável vai ser a biografia-putaria de uma celebridade?” Maldito Lester. É claro que há 27 anos já estava óbvia essa descaracterização do mundo. Mesmo assim, maldito Lester. Realmente, hoje em dia só se vende isso, só se lê isso. Biografia-putaria.

Estou cansado de sempre me deparar com essa angústia em relação aos tempos e nunca conseguir me expressar em relação a isso. Meus textos saem truncados, pobres, como agora. A verdade é que os moleques da minha idade me cansam e suas atitudes me acertam em cheio na cara, e eu perco um ou dois dentes a cada soco desses. Acho que baixar MP3 compulsivamente, ou ir a um show de uma banda que você nem gosta pra impressionar alguém (os garotos-legais ou as garotas-bonitas) ou simplesmente não ler significa mais do que a retórica da automatização do ser humano ou da falta de tempo. Significa que nós estamos cada vez mais espertinhos e letárgicos. Como é que se faz dinheiro hoje em dia? Especulando na bolsa de valores, jogando bola ou ganhando em cima dos danos que a humanidade (antigamente tão imbecil quanto hoje em dia, mas um pouco menos preguiçosa) causou ao meio.

Então, as coisas tomam forma de pílula, cada vez mais. A internet possibilitou isso. Informação rápida, especulação rápida, dinheiro rápido, cérebro molenga. Eu era um garoto inteligente até os 14 anos, quando comecei a usar a internet. Hoje sou burro e indolente. E não consigo parar. Mas ainda acredito em ouvir uma música porque eu gosto e em ler um livro que possa mudar minha vida. Yeah, Salinger fez isso por mim, mas não fez por um monte de moleques, que nem sabem quem é ele. Devem existir ainda duas opções:

- A cultura como meio material acabar. Filmes e programas de TV por streaming, música exclusivamente por download e até shows transmitidos via web, sem nenhum contato com público, a não ser pelos 20 figurantes contratados pra dar “clima” de concerto. Quem sabe?

- Descobrir que, apesar de tudo, existem alguns fodidos cagados que pensam como eu escondidos por aí. Então a tal “cultura como meio material” é que se tornaria a alternativa, invertendo totalmente a situação de, hum, 10 anos atrás, quando a internet ainda era o segundo plano.

São duas opções bem idiotas. E eu, como não sei me adaptar, continuo me lamentando por ter nascido desgraçadamente perto dos desgraçados anos 2000.

Se os 80 foram bregas e os 90 nulos, os 00 chegam com um glamour minimalista, quase incolor e quase tão pouco glamouroso como se esse glamour não existisse. O que eu quero dizer é que o mundo nunca foi tão rico, mas também nunca foi tão limitado, inócuo. Existem umas amarras aí, e eu não sei onde elas começam, e nem onde terminam.

Um conhecido meu colocou uma vez na sua descrição do Orkut alguma coisa como “eu só quero me divertir num mundo em que as pessoas não sabem mais fazer isso”. É por aí. Não vou ser hipócrita em vir citar o Oscar Wilde com aquela coisa de “viver” e “existir”, e nem vou dar uma de comunista em pleno século XXI para reclamar de uma possível limitação imposta pelo consumo excessivo e monopólio do capital (bem possível, aliás). Mas me reservo no direito de dar uma de Arnaldo Jabor e dizer que as pessoas são estúpidas, não devem ser e se continuarem sendo, elas estarão erradas, e eu certo. E gente estúpida não sabe se divertir.

Eu acho que sei me divertir.

Ou talvez não. Aos olhos da nossa época, provavelmente não. Há um modelo hermético a ser seguido, ou então você não se diverte, esse modelo limpo como um corte de lâmina bem afiada. E toda essa limitação não justifica o nosso passado, quer dizer, onde é que ficam as pessoas realmente excêntricas agora? Antes pelo menos elas conseguiam umas garotas (ou uns caras) e dinheiro pra pagar o aluguel. Agora elas são cortadas, nem as editoras e gravadoras e estúdios querem os mal enquadrados. Parece que essa “classe” dos anos 00 simplesmente eliminou as décadas anteriores, e o ser humano finalmente chegou àquele ponto que vinha ameaçando desde o começo do século XX: achar que a fórmula já está pronta, e descartar todo o resto.

Foda-se.

Friday, May 04, 2007

Wasted Generation

Sabe o que eu acho foda no filme Rockstar? É que aquilo é real demais. Um carinha que idolatra tanto uma banda que nem acha necessário escrever as próprias músicas. Seu talento é desperdiçado em cultuar um ídolo. Cara babaca. Quem põe os ídolos acima de si mesmo não pode ser um ídolo, ele mesmo.

Meus amigos, quando vêem o filme, cheio de guloseimas, dizem: “Caralho, mas que foda!”. Claro, não é em qualquer longa metragem que você vê o Zakk Wylde atirando numa placa de trânsito... Mas eu continuo me sentindo meio deprimido quando vejo um cara desses, seja real ou ficção.

Complicado é entender (e engolir) a atração de uma mina foda como aquela que a Jennifer Aniston interpreta por um bananão cover version daqueles.

É, tá cheio de gente retardada nesse mundo, mesmo.


Ainda bem que o carinha se toca no final.

Thursday, April 26, 2007

"Mais cem mangos, otários!"

No último dia 23, Los Hermanos anunciaram sua separação – ou “recesso por tempo indeterminado”, como definiram. No bilhete (nem se dignaram a escrever uma carta-despedida pros fãs tão fervorosos) dizem que “A pausa atende a necessidade dos integrantes de se dedicarem a outras atividades que vieram se acumulando ao longo desses dez anos de trabalho ininterrupto em conjunto.”.

Justíssimo. Deve ser maçante passar tantos anos tendo que se dedicar a uma única atividade, ainda mais se essa atividade for trabalhar numa banda famosa como a deles. O que não parece ser lá muito justa é a decisão dos barbudos em dar um último show para os fãs. Um não, dois! Como uma despedida... Quanta perspicácia! Eles realmente parecem ansiosos para engrenar essas “outras atividades”, não é?

“A banda vai acabar, mas não poderíamos perder uma última oportunidade de arrancar uns reais de vocês, otários”, dizem nas entrelinhas. Talvez isso seja uma vingança, ou uma forma de lucrar com os fãs retardados que tanto prejudicaram a imagem da banda desde 2001, quando saiu o Bloco do Eu Sozinho, agindo como se fossem apóstolos de uma entidade messiânica.

Não sou um grande conhecedor dos Hermanos. Comprei o primeiro disco a preço de pinga e me interessei pela banda. Depois, quando arranjei o Bloco do Eu Sozinho, percebi que se tratavam, sim, de uns bastardos talentosos. É um discaço, mesmo! Mas sempre tive preguiça com eles, justamente, talvez, por esses fãs. Agora eles estão provavelmente fuçando na bolsa da mãe atrás de dinheiro para esses últimos concertos. Precisarão: Cinqüenta pratas por meia entrada para cada dia.

Mas será que eles merecem tal comoção? Qual o serviço dessa banda para a música? Desde o fatídico lançamento do fatídico Bloco do Eu Sozinho (citado já pela terceira vez aqui!), um sem-número de garotos e garotas indie começaram a desenvolver verdadeira paixão por samba, por Chico Buarque, por Cartola. Foi isso que eles fizeram, apresentaram a música brasileira pra garotada que, no máximo, ouvia Weezer. Agora, quantos se aprofundaram nisso ou realmente gostaram da coisa, é outra história.

É um trabalho notável, pouca gente faz isso hoje. No mainstream “roqueiro”, então, só eles, mesmo. Então, por que parar? Rodrigo Amarante vai se dedicar à sua Orquestra Imperial, Marcelo Camelo provavelmente vai se envolver com produção e talvez lance algum trabalho solo, Barba e Medina também vão flutuar por aí. Todos apoiados no seu trabalho prévio com o Los Hermanos, gozando do status vanguardista que criaram, mas sem dar continuidade ao trabalho.

Espero que enquanto estiverem ouvindo sua música favorita no dia do último show, cem reais mais pobres, os fãs se dêem conta desse refugo.

Saturday, April 21, 2007

Ei, camarada! Enfie sua erudição no cu!

Odeio quem sabe apreciar um bom vinho. Odeio quem gosta de colocar um bom Jazz na vitrola e saborear um belo charuto cubano. Não suporto quem leva a namorada pra jantar num lugar chique e sabe fazer comentários pontuais sobre a comida.

Gosto mesmo é de gente cuspindo sangue ou esporreando nas calças de tanta dor ou felicidade. Quem gosta de expressar aquilo que sente sem se incomodar com expressões como “dicotomia” ou “auto referência” é quem eu costumo prezar.

A vida é simples, caramba! Por que as pessoas insistem em desfilar sua erudição por todos os lados? Por que a existência virou uma batucada com as mãos e um sorriso de canto de boca num terno impecável? Se você está fazendo dinheiro com isso, está tudo certo, mas e se não? Por que as pessoas acham que filmes, música e livros são apenas trampolins pra satisfazer as vaidades de um camarada que não se contenta em simplesmente saber?

Eu não sei quando foi que as pessoas deixaram de ser auto-suficientes, talvez nunca tenham sido. Mas essa necessidade em provar pros outros que sabe tudo me enoja. Quando vão descobrir que a graça de tudo é aproveitar, e não demonstrar o quanto se está aproveitando?

Friday, April 20, 2007

Exclusivo: Dagoberto tem duas cabeças!

É revelada uma anomalia durante coletiva que apresentou o craque oficialmente como novo jogador do tricolor.

Durante a tarde de hoje, mais uma novela futebolística chegou ao fim. Dagoberto, finalmente liberado do Atlético-PR, foi apresentado como novo reforço do São Paulo Futebol Clube. Mas, mais do que era previsto - entrevista, vestir a camisa do clube, pose para fotos -, um segredo sobre o atacante de 24 anos foi revelado. Dagol sofre de uma rara disfunção, a bicefalia geriátrica, que consiste numa segunda cabeça, geralmente de aparência mais velha do que a principal, ligada ao pescoço do enfermo.

- É um problema que nunca foi muito grave para mim, sempre pude esconder a segunda cabeça, que na verdade é uma grande companheira, ou melhor, companheiro. Ele se chama Twinkles, é um bom amigo e não vai atrapalhar em nada meu trabalho no São Paulo, cheguei aqui pra somar - garante o jogador.


O superintendente de futebol Marco Aurélio Cunha afirmou que não será nenhum incômodo para o clube a condição especial de Dagoberto:

- O São Paulo é um time tão diferenciado que é o primeiro a ter um jogador com bicefalia geriátrica. Daqui a pouco vai ter time querendo que a Fi
fa reconheça que teve um jogador com esse problema antes de nós - disse o cartola, alfinetando o rival Palmeiras, que há pouco tempo teve concedido pela Fifa o reconhecimento do primeiro título mundial interclubes.

Para quem ficou curioso, o Spreading Lies conseguiu em primeira mão a foto do jogador com sua segunda cabeça. Mas já avisamos que são imagens fortes, e não aconselháveis para cardíacos, grávidas e para quem sofre de problemas de labrintite.


Monday, April 09, 2007

Rápidas

- Ultimamente (ou então eu só notei agora) as propagandas têm tido seus últimos milésimos cortados, acho que pra encaixarem os segundos que são comprados pelos anunciantes. Não gosto disso, acho que a mensagem não é passada direito. E propaganda é mensagem, não é? A palavra não é degustada pelo ouvinte, e um "Aprecie com moderaçã" não atinge as pessoas como um "Aprecie com moderação...". Porque as emissoras não fazem 30 segundos e uns milésimos pelo preço de 30 segundos? Tempo é dinheiro, mas já tem tanta promoção inútil por aí mesmo... É, não manjo de ganhar dinheiro, mesmo!

- Jaded, Stuck in a Moment e Immitation of Life sao as 3 músicas que mais me lembram o curso de desenho que eu fazia com uns 11 anos (tocavam no radinho da sala de aula). Foi quando eu comecei a prestar atenção em música. Aqueles dois anos valeram a pena pra uma coisa que eu não previa. Um pouco da graça da vida é essa imprevisibilidade.

- Estou viciado no Beggars Banquet. Quando eu escuto certas músicas dos Rolling Stones, custo a acreditar que eles já conseguiram fazer um álbum com 10 obras primas. Mas conseguiram. Sensacional.

Ouvindo: Cyprus Avenue - Van Morrison

Saturday, March 31, 2007

Sobre a Mediocridade

Sou um cara chato. Assumida e deliberadamente. Consigo ser contra a causa e a conseqüência, contra a situação e a oposição, tudo ao mesmo tempo. Não me incomoda ser assim, pois é parte da minha personalidade e os fatos externos também não ajudam; Ou seja, ossos do ofício.

Mas será que eu sou tão chato assim? Vivemos numa era medíocre (no sentido coloquial e negativo da coisa – merda) em que quase todos os aspectos de quase todo o substantivo que existe vão mal. Dia após dia, qualquer um com um Q.I. de, no mínimo, dois dígitos, se depara com alguns sentimentos bem desagradáveis: decepção, indignação, medo, impotência e constrangimento. O último é o menos grave, entretanto, o mais constante. Como não se sentir incrivelmente burro quando o maior sucesso de vendas da indústria fonográfica do seu país é algo dantesco como RBD, quando a terceira maior televisão do planeta (e maior do Brasil) é incapaz de passar informações precisas e imparciais, quando a nação mais poderosa do mundo é comandada por um homem um pouco menos apto a comandar que um chimpanzé?

E estamos fadados a chafurdar cada vez mais, pelo menos enquanto o povo ignorar alguns valores bem simples e que mais parecem com detalhes, mas são importantes, sim, senhor. A vida perdeu um pouco do sabor, entende? Ir ao cinema assistir à estréia de um filme, ou passar numa loja e procurar por algum CD em promoção (são tempos difíceis e superfaturados) e eventualmente achar aquela raridade, ou encontrar um amigo por lá e sair para tomar um chope, tudo isso parece que perdeu um pouco do sentido pras pessoas. Agora você gasta seu dinheiro com as roupas que todo mundo tem (e se endivida pra isso, mas está tudo OK) e vai pra balada pra ficar bêbado e fazer comentários machistas e pegar geral. Não porque você gosta dessas coisas, e sim porque todo mundo está fazendo e Deus te proíba de ser diferente de todo mundo ou simplesmente pensar.

E quem se opõe a isso é que é o loser. Não sei não... Estava pensando: os caras “legais” daqui da cidade estão já com seus 20 anos e ainda moram com papai e mamãe e ainda têm suas bandinhas de pop rock cover e permanecem fazendo suas faculdades particulares de administração pra depois tocar o negócio do pai e continuam namorando com as mesmas menininhas do Ensino Fundamental (os mais conscientes de vez em quando arranjam uma garota do primeiro colegial!). Meus amigos, os que são “uncool”, estão todos em repúblicas, morando fora e aprendendo a se virar (embora eu admita que muitos deles às vezes tenham recaídas e tentem se incluir constrangedoramente nesse mundo dos “bacanas”). Há uma inversão de valores aí.

A real é que esse lixo todo gera dinheiro. Tanto de um lado quanto de outro, por isso não acho que vá parar. O grande modo de se arranjar grana no século XXI já está definido, e é usando a decadência a seu favor. Cientistas e Engenheiros Ambientais estão fazendo fortuna tentando entender ou reparar os rombos que o homem fez na natureza, enquanto o Celso Portiolli e a Daniela Cicarelli engordam suas contas bancárias com programas de namoro na TV (e eu duvido muito que alguém ali esteja realmente na seca, mas o homem moderno sente essa necessidade de aparecer na TV, nem que seja pra bancar o macaco). É claro, o show business é movido a baixeza. O que seria de Borat se os americanos não fossem um povo mesquinho e escroto? E eu, estaria escrevendo esse texto se não tivesse acabado de assistir na MTV um especial sobre “girl power”, em que uma das garotas comentadas era um dos maiores ícones do machismo e da bronha pré-adolescente, Britney Spears? Pior: programa apresentado pela Marina Person, presumidamente uma mulher decidida, inteligente e mais todos esses adjetivos que os machistas usam pra designar uma mulher que não abaixa a cabeça diante seus bigodões encorpados. E ela se submeteu a isso? É claro que sim. Umas caras aqui, umas bocas ali, uma ou outra frase de efeito e sua imagem segue intocada para com a audiência retardada.

Eu já perdi as esperanças e não vejo outra saída a não ser fazer piada disso tudo. Não há uma vontade em mudar, nem entre as pessoas “inteligentes” como a Marina Person, porque, claro, se as pessoas deixarem de ser idiotas, vão perceber que a Marina, de fato, não é inteligente. Tudo bem. Já me conformei e aprendi a me divertir.

Ei, cara, o que você está fazendo aí parado? Tá cheio de gente babaca pra você espinafrar. Corre!

Tuesday, March 13, 2007

Kings of Leon - Because of the Times

Um dos maiores e mais datados clichês da crítica musical é comentar a “evolução” de uma banda em determinado álbum. Como se a evolução imunizasse o grupo de quaisquer críticas. “Hey, eles evoluíram, eles estão à frente de seu tempo, você é que não entendeu a proposta”. Por outro lado, quando algum músico fica estagnado num tipo de som, seus detratores têm como argumento esse estacionamento musical. É um conceito dos mais babacas, porque determina condições sobre o que deve ou não fazer uma banda. Ora, música não deveria ser livre? No dia em que as grandes bandas começarem a se deixar levar pelo gosto alheio – da crítica ou de fãs – podem fechar tudo, de lojas de CDs a casas de show.

Ficar parado ou seguir em frente depende única e exclusivamente dos guitarristas, vocalistas, baixistas, bateristas. Nem mesmo os fãs sabem o que querem, porque alguns “enjoam” de uma banda sempre repetitiva e outros não conseguem digerir mudanças. O último disco dos Strokes não foi bem, disseram que “foram inventar e acabaram fazendo merda”. O recém lançado do Arcade Fire não foi uma unanimidade como Funeral. Rapture, Killers, Keane... As bandas indie estão cada vez mais ousadas e não estão agradando seus fãs. Há um motivo para ambas as coisas.

De um lado, pessoas extremamente jovens são transformadas, num piscar de olhos, nos “salvadores do rock”. Então, ainda numa psique de super humano, externam nos discos subseqüentes ao hype sua ainda latente rebeldia numa coisa que “ninguém” quer ouvir. Entenda as aspas, foi confrontando os fãs modorrentos e chocando a crítica (e vez ou outra a sociedade) que surgiram os grandes clássicos.

Do outro, os fãs estão descobrindo uma banda nova (e de seu agrado) a cada dia no MySpace e, portanto, não precisam refletir muito sobre a nova empreitada do Franz Ferdinand ou dos Strokes. Se agradou, ótimo. Se não, no máximo, a banda vai ser massacrada internet afora e só. Nada de segunda chance.

No meio de tudo isso, os membros do Kings of Leon anunciaram que “não teriam medo de nada e que entrariam no estúdio com a mente aberta”. Dito e feito. O disco ainda nem foi lançado oficialmente e já causa discussões, pelo menos entre os fãs. Alguns dizem que “foram inventar e acabaram fazendo merda”, e outros aplaudiram a mudança.

Decerto que estou com o segundo grupo. Because of the Times é um disco para derrubar queixos. Seja pela surpresa ou pelo direito que acerta sua cara em cheio. Não é um giro em 180° no som que a banda costumava fazer, é mais. Kings of Leon está num novo plano, não sei se mais alto ou mais baixo, talvez ele cruze com o anterior. E nesse cruzamento é justamente onde fica a caipirice. E a voz de Caleb Followill.

E é verdade. Se não fosse a voz de Caleb e alguns elementos aqui e ali, você provavelmente não acreditaria que é um disco dos Kings. Começa aberrante para os padrões deles, com uma musica de 7 minutos, com guitarras fazendo harmônicos e coros ecoando no fundo. Tem uma colher de chá de U2 ali. E tem também Hard Rock. Porque não Pearl Jam? A verdade é que não dá pra definir muito bem o que é esse som. A banda cresceu, e talvez tenha achado seu caminho.

Uma coisa que é bem definida nesse Because of the Times, porém, são as conduções do baixo de Jared, o mais novo da banda e positivamente um dos melhores (eu não me contenho com os superlativos) baixistas dessa safra de bandas novas desde 2001. Talvez o melhor. As notas do baixo são mais nítidas e impressionantes do que qualquer outro instrumento em diversos momentos ao longo do disco.

On Call é o primeiro single e não tem nada, nada, nada a ver com Molly’s Chambers ou King of the Rodeo ou Four Kicks. A puxada melódica do refrão emociona e a música é muito mais um “climão” que uma canção com ritmo frenético pra dançar. É esse “climão” que também difere Because of the Times dos primeiros dois discos, é uma coisa mais adulta. Black Thumbnail, Knocked Up, Arizona e The Runner também são assim. Ainda é rock, mas é um pouco mais complexo. A tal da evolução está aí.

Caleb disse certa vez que se “Youth and Young Manhood” é a festa, “Aha Shake Heartbreak” é a ressaca. Comparação perfeita, mas então o que seria BotT? Se prender em comparações sem estar dentro do processo é pura tolice. “Todo álbum carrega algum estereótipo consigo, mas nós não prestamos atenção nisso. Nós sempre tentamos fazer o próximo álbum melhor do que o último”, disse o baterista Nathan à revista americana Harp. Isso serve ainda mais para turvar qualquer suposição acerca do que representaria o disco novo.

Because of the Times era o nome de uma grande conferência religiosa que os irmãos e primo Followill costumavam freqüentar durante a infância, mas segundo Caleb, se refere também à mesma justificativa que as pessoas dão para um álbum ser um sucesso ou um fracasso: “É por causa dos tempos.” Talvez seja “por causa dos tempos” que a banda resolveu ousar tanto dessa vez. Não é preciso se preocupar com isso, só essa deliciosa ironia desafiadora já vale mais que qualquer explicação oficial.

Ainda falta algum tempo pro disco sair, e, ao contrário do que aconteceu com os anteriores, provavelmente vai dividir opiniões. Tudo bem. Because of the Times é o primeiro e honesto passo para que daqui alguns anos Kings of Leon seja lembrada como uma grande banda. É isso que interessa.

Thursday, March 01, 2007

Johnny Brechó - Rock de Veludo

Bandas como Johnny Brechó se proliferam como formigas. Isso é fato e carrega consigo um significado: as bandas de "rock atual" não cativam mais os jovens. Se houve uma explosão de rock de garagem, independente e alternativo no fim dos anos 90 e começo dos 2000, hoje em dia esse movimento se ramificou tanto que não existe mais um som emblemático ou com alcance suficiente para ser convidativo para todos. Quer dizer, é um movimento, não um estilo musical. E, por isso, cada vez mais, as bandas buscam no passado a maneira de fazer seu som. E às vezes exageram.

Johnny Brechó é um nome totalmente apropriado para uma banda cujo público é justamente o tipo de pessoa que vai a um brechó procurar plumas, chapéus e camisas antigas. Poderia também se chamar de Johnny Retrô e estaria tudo certo. Essa necessidade dos mais novos em ter por aí bandas como essa, Cachorro Grande, Wolfmother, Black Crowes e tantas outras vem, sem dúvida, da impossibilidade de acompanharmos às carreiras das bandas dos anos 60, 70 e 80 durante seu auge, seja ouvindo um clássico na semana do lançamento ou pegando shows memoráveis com o máximo de energia que os rockstars da época em que o rock era rock e o mundo ainda era bipolarizado podiam injetar numa apresentação ao vivo.

Mas a verdade é que os tempos mudaram e agir como se vivêssemos numa época em que uma revista em quadrinhos custava 25 cents não é menos que ridículo. Entenda, emular um som antigo pode ser tão interessante quanto desastroso e, assim como a influência externa determina que a banda siga por esse caminho, é ela que define qual dos dois aspectos a banda vai ter. Se você fica insistindo que é uma diva setentista ou um pioneiro do rock de garagem de 1965, está mal. Vai ser provavelmente motivo de chacota entre a crítica musical e não vai pra frente como artista. Se se apropriar apenas do som antigo, mesmo que não seja original, e não tentar parecer um macaco classic rock com sua roupa e trejeitos, provavelmente vai juntar alguns fãs e um pouco de respeito, já que as pessoas se permitiriam a aceitar uma espécie de "segunda chance" se não estiverem enjoadas com o cheiro de mofo da sua camisa.

Ainda não vi Johnny Brechó ao vivo e eles ainda não foram tomados pelas garras imediatistas das gravadoras - são 100% independentes -, por isso não sei como se portam, mas a banda impressiona. Em 2005 gravaram um EP, "Rock de Veludo", muito bem produzido, do tipo que vale gastar uns trocados pra ter. Os temas lisérgicos do Zeppelin já aparecem na abertura do disco, Impala 65, e depois as músicas continuam resgatando as bandas de Hard Rock dos anos 70, com odes ao Rock and Roll e tudo mais. No fim, um cover sensacional de Mutantes. A banda tem um line up que pode ser, também, interessante. Mas é a voz de desenho animado do vocalista Dino que, estranha no começo, vira uma identidade pro grupo ao longo das outras escutadas.

A real, então, é a seguinte: O Johnny Brechó tem a faca e o queijo na mão. A banda é independente, mas está redonda pra ser vendida como uma eventual "volta do rock" e se dar muito bem. Só não pode ser seduzida pela babaquice dos maneirismos "retrô" tipo o Cachorro Grande e se meter numa demanda por visual (e não por música). Até porque, como Dino cita Robert Plant em determinado momento, "it's been a long time since the rock and roll".

***

Não é a função deste blog, mas por se tratar de uma banda independente que provavelmente tem pouquíssimas fontes no soulseek e menos uploads ainda no rapidshare, segue abaixo o link da página do Johnny na Trama Virtual.

Friday, February 16, 2007

Teenage Angst

Meia noite e quarenta e quatro, coloquei Nevermind pra tocar, peguei uma cerveja lá embaixo (Bavaria é horrível, shame on you, dad!) e roubei dois cigarros do meu pai. É, roubei, infelizmente ainda tenho 17. Patético, não? A adolescência é patética na maior parte do tempo, já me acostumei.

Embora tenha irritado insuportavelmente Kurt Cobain o artigo que dizia que “a angústia adolescente compensou”, a ponto de ele abrir seu disco seguinte com essa frase em tom irônico, definir Nevermind e o Nirvana como um todo como “angústia adolescente” talvez tenha sido a mais brilhante significação para o disco que alguém poderia ter pensado.

Kurt definiu esse período de fortes conflitos hormonais e morais como ninguém. O enfado, a decepção, o asco e a própria angústia estão em Nevermind da forma mais limpa possível, mas ainda sim bruta. Talvez seja por isso que o disco também é um antídoto forte, entra na mesma freqüência da tua fúria ou desespero ou tédio e te cura, no fim das contas. Desde uns tempos atrás, tenho estado incrivelmente emputecido com algumas questões e hoje à noite, quando a coisa chegou no auge, não conseguia tirar o riff de Teen Spirit da cabeça.

Smells Like Teen Spirit é o carro chefe do álbum com muita justiça, porque não só é a faixa com maior apelo comercial como também escancara a idéia do que é a fase entre os 13 e os 19 anos, numa alegoria musical bem incisiva. Uma música simples, com uma base e um refrão e um solo bem mais ou menos (e curto) se estica por cinco minutos e se torna uma coisa muito mais dramática do que deveria ser: milhões de discos vendidos, mania, encheção de saco, Kurt, Krist e Dave mais presentes na sua casa do que aquele seu tio que mora não muito longe e, no fim, um tiro na cabeça que até hoje inspira discussões acaloradas entre garotinhas de 13 anos sobre quem o proferiu.

E Kurt foi sim o primeiro. Mesmo que o Iggy já tivesse dito “I’m losing all my feelings, I’m running out of friends”, mesmo que outros já tenham dito que nasceram para perder, nenhum o fez com o tédio do Nirvana. Hail!

Tuesday, February 06, 2007

Arcade Fire - Neon Bible


Recentemente, tive uma discussão sobre indie. O que é? Como soa? Quem é indie? A verdade é que, afora as incógnitas que vão sempre assombrar nossa cabeça, cheguei a uma conclusão bem elucidativa: o que é chamado de indie é algo tão abrangente, musicalmente ou não, que fica difícil não gostar de pelo menos alguma coisa dentro do estilo. Essa é a grande sacada do rótulo, cativar desde os fãs de “eletro-something” tipo Kasabian até os que gostam do country agitado do Kings of Leon. Então, qual o mérito de uma única banda que, em dois discos, passeia entre dois estilos diferentes, volta, torce, estica, mantém o hype e a qualidade inquestionável?

05 de março é o dia marcado para o lançamento do segundo disco do Arcade Fire, Neon Bible, mas graças à internet, veículo-chave, catalisador e principal outdoor do “independente mainstream”, quase-todo-mundo já está ouvindo-o. Neon Bible é o nome do primeiro livro de John Kennedy Toole e é sobre a vida de um jovem chamado David. Nascido e criado numa cidade rural da Louisiana entre as décadas de 30 e 50, o protagonista se vê num cenário dividido por dilemas religiosos e, consequentemente, políticos. O pano de fundo ideológico serve para ilustrar e interferir nas tragédias da família de Dave. Partindo dessa premissa do livro, a banda estabeleceu uma comparação, bastante contundente e lógica, com a atual situação da América do Norte e do mundo. O Jihad petrolífero organizado por Bush gerou tamanho caos que até uma banda como o Arcade Fire, cujo primeiro disco é totalmente autobiográfico e intimista, se viu impelida a gritar sobre isso.

Essa é a principal diferença entre Funeral e Neon Bible, o primeiro fala da tragédia particular, o segundo fala dela incutida no panorama mundial, conta histórias, autobiográficas ou não, sobre pessoas vivendo na América de hoje. A maioria das músicas tem alguma referência sobre aviões se chocando em prédios aos pares, pedidos ao espelho mágico para saber onde cairão as próximas bombas, relutância em lutar numa guerra santa ou algum outro fantasma circunstancial da guerra contra o terror que usa o terror em seu serviço. O direcionamento novo, e o próprio medo em si, exigem uma sonoridade diferente. A música de Neon Bible é mais grandiosa e mais melódica do que a de Funeral. O motivo é de fácil de explicar: quando você fala da dor de perder um parente, pode manter um clima experimental e fechado, mas quando vê cidades sendo destruídas seguidamente, é como se fosse seu dever aumentar um pouco as coisas, para atingir mais gente. Picasso não colocou um ponto bege na tela e chamou de “Guernica”. Criou um quadro forte e dolorido, ciente de que em casos como esse, deve-se causar impressões. O Arcade Fire também sabe disso e, diferente de gente como Bono Vox, não tem ninguém na banda que seja arrogante o suficiente pra se achar o último pacifista do rock and roll, o que valida o esforço e angaria simpatia da parte de quem ouve.

Black Mirror abre o disco e ainda parece um pouco com música do Funeral, mas é mais sombria do que tudo do disco anterior. “Se despeça do Arcade Fire antigo”, diz ela por quatro minutos e onze, um tempo bastante generoso para uma despedida. Pouco generosa seria uma banda com tantos músicos, alguns multi instrumentistas, ficar estagnada no sucesso e no hype do som do disco predecessor. Keep the Car Running tem um ritmo convulso de pós punk e é uma das mais grudentas. Lá pelo meio tem um coro que lembra demais Cure (além da voz de Win Butler, que soa naturalmente com a de Mr. Smith), com aquela festividade meio angustiada... Tipo “Sexta feira estou apaixonado”, e você responde “É, mas provavelmente você vai se matar no sábado”.

O Arcade Fire festeja. Brinda à alta tecnologia, à liberdade, whatever... Festejar o que? Os americanos têm medo. Enquanto dançam e ensaiam seus coros, estão aterrorizados em pensar num avião caindo sobre suas cabeças numa terça feira qualquer. Então rezam. Rezam com a mesma fé cega dos cristãos Republicanos, dos Xiitas, dos Sunitas, dos judeus de Israel, a fé cega que move a guerra (além de outros aspectos bem pouco, digamos, paroquiais)... Saca? É esse o ponto, o clima do disco todo. E é um clima tão presente que torna o álbum quase conceitual. Falam de uma coisa que, nesses últimos cinco anos de “Bush-Oriente-Médio-E-Terrorismo”, ninguém estava falando: do indivíduo metido à força no turbilhão de terror e vaidade dos líderes mundiais.

Ironicamente, a banda dispensou produtores e gravou Neon Bible numa Igreja, abandonada acho, em Montreal. O som fantasmagórico do órgão contribui muito para Intervention, a melhor melodia inédita do disco, e My Body is a Cage também se vale do instrumento para o clima “fantasma da ópera” que tem, talvez um dos mais memoráveis dos anos 2000, e que fará qualquer garotinho blasé molhar as calças xadrez.

Intervention é a melhor melodia inédita do disco porque a melhor mesmo é uma regravação. 8 entre 10 fãs de Arcade Fire (e eu não pesquisei pra afirmar isso, foda-se) têm No Cars Go como uma de suas, vamos dizer, três preferidas da banda. A música apareceu pela primeira vez no lendário (e ligeiramente renegado) EP auto intitulado, de 2003, e agora volta, melhor ainda e provando que ninguém ali tem muitos pudores em fazer o que quiser com a própria música, ainda mais quando ela é tão adequada à temática do disco. Isso é sim é ser fodão!

E no fim, depois de conseguir sintetizar todo o significado dos tempos modernos na alegoria de um único livro, o eu lírico da banda de Montreal se coloca na pele do cidadão que é e clama por sua vida. “Set my spirit free, set my body free” (Liberte meu espírito, liberte meu corpo) é a última frase do disco.

Teste do segundo álbum? O que é isso?

Sunday, January 28, 2007

Small Talk de Começo de Ano... Hell Yeah!

Está aberta a temporada de lançamentos de discos de 2007, ou qualquer besteira do tipo. Janeiro é um mês mezzo morto, mezzo vivo, vários anúncios, pouca coisa concreta. Mas o vazamento do disco novo do Arcade Fire na última sexta abre oficialmente o ano de 2007 na música. Mais que isso: Andrew Bird, Fall Out Boy e Clutch já têm seus novos trabalhos sendo ouvidos por aí. Além disso, o Pearl Jam anunciou uma segunda tour na Europa em dois anos, e Young Modern, novo do Silverchair, deve vazar nos próximos dias.

Para esse ano são esperados Queens of the Stone Age, Metallica, Kings of Leon, Chris Cornell, Brant Bjork, Coldplay, Courtney Love, Los Hermanos, Velvet Revolver, Black Crowes, Smashing Pumpkins, Fu Manchu... AC/DC? Jerry Cantrell? John Frusciante? DVD do Matanza? Chinese Democracy??? Há!

A idéia é dar uma "profissionalizada" nesse blog, ou coisa do tipo, comentando os lançamentos, que afinal, são os discos que são resenhados no "mundo lá fora". Por isso, resenhas de discos de 72 vão ser menos frequentes, ou então até serão frequentes, se eu adquirir mais um par de braços e fizer atualizações a cada 2 ou 3 dias. É uma idéia, pode ser até uma meta. Pelo menos até julho.

E para isso, pretendo aquecer... Fazer uma pré temporada (ainda que esteja muito em cima da hora) lendo alguns certos livros que me inspiram. Vai ser uma beleza, amiguinhos!

Neon Bible, o novo disco do Arcade Fire, vazou e, embora eu tenha relutado em baixar, não resisti. E valeu a pena. Ainda não é nada definitivo, preciso esperar a empolgação passar, mas tá com cara que é melhor que o Funeral. Enquanto o primeiro disco é mais experimental, esse novo parece mais melodioso e intenso, além de ter forte influência do caos que o mundo (aquele que a América do Norte manda, sabe?) está inserido. E, olha que legal, parece totalmente sincero.

Alias, falando em sinceridade, o assunto Eddie Vedder morreu. Cansei de falar dele, cansei de gente que não sabe escrever uma carta pra mãe vindo reclamar de mim e, sobretudo, cansei de encarar a decadência da minha banda preferida, quero me alienar disso, quero pensar que o Pearl Jam ainda é lindo e maravilhoso!

Ouvindo: No Cars Go - Arcade Fire

Friday, January 26, 2007

Eddie Vedder e a Decadência

Falar mal de uma banda com “status inatingível” como o Pearl Jam pode dar merda. E mesmo que você jure de pé junto que é sua banda preferida, afinal, o povo vai chiar, vai duvidar de você, vai tirar conclusões precipitadas. Bem, é disso que é feita a crítica musical, e se não é polêmica, não é boa.

Alguns questionamentos sobre o artigo "Pearl Jam e a Decadência" foram levantados, e certos aspectos ficaram mal explicado ou mesmo obscurecidos pelo meu texto, levemente disléxico às vezes.

Derrubar Eddie Vedder é complicado, porque mexe com os brios das pessoas, amedrontadas em ver um herói seu caindo por terra. Ora, e será que elas não estão amedrontadas justamente porque ele não é mais o que era? Será que Vedder só é tido em tanta estima simplesmente por ter sido o que foi? Repito, ele era o símbolo do rockstar que todo mundo queria ser: Maluco e porra louca, sim, mas articulado e engajado quando sentava à frente de alguém com um Q.I. de uns dois dígitos que tentasse ou quisesse entendê-lo. E agora, o que ele é?

Muita gente ridicularizou (ou só tentou, quando Tico e Teco estavam sonolentos) o texto naquela parte em que a paixão ostensiva do ex frentista pelo surf era questionada. “Vedder sempre surfou, nhé nhé nhé!”. E eu não sei? Mas precisa fanfarrear tanto? Esse culto exagerado ao próprio hobbie, inclusive, é mui contraditório. Eddie ultimamente parece um daqueles caras, tipo Donavon Frankenreiter, que só consegue vender disco se mostrar que sabe subir numa prancha e que tem casa no Havaí. E são os próprios fãs mais puristas que falam que o Pearl Jam não deve satisfação pra ninguém, que não precisam fazer tipo e nem vender disco. Cadê a coerência aí?

Os menos puristas, os que admitem que uma banda tem que vender discos, sim, discordam de mim ao dizer que a nova verve política de Vedder e seus companheiros serve pra vender disco, realmente, mas que ela não é nem um pouco enfadonha. Qual o que! Se os discursos políticos do Pearl Jam não são chatos, minha noção de diversão anda bem distorcida. Quem lembra daquele bootleg deles que chamava “No Fucking Messiah”? A atual fase de Eddie Vedder toma conta de desmentir esse título, seja o sentido dele qual for. O cara está crente de que é a solução perfeita e a curto prazo do problema dos Estados Unidos e faz questão de deixar isso bem claro quando, de uma forma muito bem humorada, muito en passant, anuncia suas músicas políticas ou fala mal de alguém (Da política, claro! Ele não quer ter inimigos no meio da música, ele é Mr. Nice Guy) com aquela propriedade, com aquele know-how falso que tanto me enoja. Dos shows da turnê 2006 do Pearl Jam, só me lembro de ter percebido sinceridade, e, consequentemente, sentido simpatia num discurso do frontman em St. Paul, acho. Ele comentava, nitidamente surpreendido, a decisão de um bilionário em doar a maior parte da sua fortuna (coisa de US$34 bi) para a caridade. E olha que interessante, essa fixação do Vedder por caridade (que não critico, acho bonita, aliás) faz parte da sua “indumentária” política e, foi só ele parecer sincero, que eu já simpatizei com a causa.

Rock sempre teve a ver com sinceridade, nunca foi um estilo que demandasse “estar por dentro”, se incluir. Você pode não tocar nada, mas ser criativo, e você já é um rockstar. Vedder parece que desaprendeu isso. Abnegou da música em prol da panfletagem, quis entrar pro grupinho dos garotos legais. É como se ele se obrigasse a escrever sobre os mesmos temas que todo mundo está escrevendo em vez de ir de acordo com seus sentimentos, suas vontades. Repito o que eu disse anteriormente para uma das pessoas que comentou o fatídico texto: Eu duvido que a essa altura o Eddie fosse capaz de escrever uma música como Sometimes sem se sentir um porco alienado. E não é nada disso, o talento não corresponde a demanda, a inspiração não vem sob condições. Isso que Vedder sente é medo.

Eddie Vedder se revelou, na verdade, um belo cagão. Nunca teve colhões pra sair em carreira solo, nunca os teve pra montar uma outra banda e não está os tendo agora, quando escreve música política no “vai-da-valsa”. É fácil se apoiar no Pearl Jam, uma das últimas bandas intocáveis, difícil é colocar teu nome na capa de um disco e falar tudo o que você sente sem mais quatro caras dividindo a conta do pato. E não é que o Vedder não contribuiu, e muito, para o Pearl Jam ser o que é, mas usar a banda como salvaguarda é o maior sinal de que, talvez, ele não a ame mais como a gente ainda ama.

Outra engraçada do último ano: EV simulando uma limpeza de bunda com as páginas da Rolling Stone que tinham a matéria com ele. Molecagem sem classe e constrangedora. A senilidade teatral de Vedder chegou a níveis que ultrapassaram o limite seguro, protestando contra uma matéria que ele mesmo contribuiu e autorizou! Ou será que obrigaram-no a participar da revista, como parte de alguma conspiração? Será que apontaram uma arma na cabeça da mulher dele (Aliás, mais alguém lembra? “Model, role model, roll some models in blood”)? Bem provável que não.

Qualquer um que tenha polegares invertidos sabe que as atitudes de Vedder andam tão fora de moda quanto polainas. Dizer que o Pearl Jam já é carta fora do baralho é doloroso e precipitado, mas se as coisas continuarem assim, vislumbro um fim melancólico pra uma das bandas mais emocionadas e sinceras que eu já ouvi falar.

Oh, e só uma recomendação. Corta essa de “It’s Evolution, Baby!”, isso aí é clichê e me faz pensar que você não é uma pessoa interessante.

Tuesday, January 23, 2007

Pearl Jam e a Decadência

Músicos de rock não são como vinho. Ou pelo menos uma boa parte deles não é. A máxima do Rock and Roll ainda é a mesma de James Dean e River Phoenix: “Viva rápido, morra cedo, deixe um cadáver bonito”. E não é preciso ser tão literal quanto a “morrer cedo”, basta, sei lá, se lançar em uma carreira solo obscura, virar embaixador da boa vontade da Unicef, abrir um restaurante, trabalhar de encanador...

Veja só como a idade não faz bem às bandas: Os Rolling Stones viraram uma piada de mau gosto, o U2 hoje se resume ao outdoor animado de Bono Vox, o AC/DC não fez nada digno de nota desde Back in Black e nada com qualidade desde a morte de Bon Scott. Eu poderia ficar horas aqui citando bandas que morreram e só esqueceram de deitar, mas acho que os três exemplos acima são bem ilustrativos. E paralelamente, não é fácil perceber quando uma banda está em processo de declínio.

Ou até é, se prestarmos atenção em alguns detalhes moqueados pela aura cool dos rockstars. Como por exemplo, a síndrome de Peter Pan que insiste em acometer gente tão díspar quanto Elvis e Wacko Jacko.

Alguém lembra da psique do Rei por armas de fogo? E daquela palhaçada de colecionar distintivos de polícia? Faz favor, o cara atirava em postos de gasolina, ele queria ser o Kojack... Mas não rolava, porque daí ele lembrava que, além de ter uma bela cabeleira, tinha que fazer música pra comprar o leitinho da filha e quem sabe mais um Cadillac de ouro maciço. Já Michael Jackson, bem, a casa do homem chama Neverland (ou chamava, parece que a receita abocanhou o shangri-la do popstar bicolor), além de tudo que todo mundo ouviu falar, por isso me economizarei.

Mas se tem alguém do qual eu posso falar, cuja decadência está sendo esfregada na minha cara, é Eddie Vedder. Entenda, ele parece estar numa ladeira, e sem freio. E é engraçado, porque o cara sempre foi uma das estrelas mais competentes que eu já vi por aí. Era porra louca o suficiente para pular de uma altura de 4 metros, num dos stage dives mais intensos que eu já vi, mas não ficava vomitando em estúdios de TV, sabia falar, sabia ser gente. Encarnava a máxima de que o segredo do sucesso é a moderação, e levantava multidões por onde passava.

Agora é um típico tiozinho na pior crise da meia idade. Ostenta pra quem quiser ver que ele sabe pegar onda, que tem amigos havaianos, que toca ukelele com Ben Harper e chamou pro Pearl Jam um tecladista que parece um vendedor de peixe de Waikiki. Veja bem, eu gosto do Boom Gaspar, acho-o um tecladista fenomenal, com uma presença magnífica, mas não tem como negar que ele só está lá pra servir de suporte pra nova fantasia tropical do senhor Vedder.

Além disso, nos últimos tempos parece que é tipo melhor amigo de Bono Vox e está ficando tão politicamente pedante quanto o beijoqueiro irlandês. Apesar de ter grandes sacadas, o mais recente álbum do PJ exagera no conteúdo político. Só pra lembrar, quais são mesmo as melhores músicas deles? Quantas dessas falam de política?

Pois é, mas tudo isso seria facilmente relevado se a música estivesse a todo vapor. Porém a acomodação finalmente bateu no Pearl Jam e, principalmente, em Eddie. Ele deu uma pesquisada aqui e ali, fez uma ou outra conta, chegou ao formato ideal de show para agradar todos os tipos de fã da banda e aí ligou o piloto automático. O famoso ovo na boca foi substituído por uma voz anasalada tão insuportável, acompanhada por solos tão infindáveis e babacas e uma bateria tão sem tesão que eu nem me dou mais ao trabalho de baixar aqueles famosos bootlegs oficiais. Pra que? Eu já sei como começa, como prossegue, quando pára e como termina. Talvez essa história de “setlist que varia” do Pearl Jam seja uma farsa tão contundente quanto o Milli Vanilli.

Enfim, não há muito a se fazer quando seu ídolo chegou naquela hora de colocar as chinelas de pelúcia, mas ainda insiste em fazer rock. Só torcer pra que ele abra um restaurante ou entre em coma.

Tuesday, January 16, 2007

Matanza em São Paulo (13/01/07)

Neste sábado fui ao show do Matanza no Hangar 110 em Sampa. Já é a quinta vez que o Matanza toca em São Paulo desde setembro. Deve dar dinheiro tocar por lá.

Foi um show fodido pra caralho, porra, os caras da banda elevam à décima oitava potência esse negócio de que insultar é uma arte. Seja empurrando pra baixo os cretinos que sobem no palco pra dar mosh, seja apresentando as músicas de uma forma, hum, pouco ortodoxa ("Vai tomar no cu, vovó! Bom mesmo é quando faz mal!") ou simplesmente tocando suas músicas rudes e desafiadoras.

Comecei a noite bebendo cerveja no bar da frente. Associei duas coisas de lá ao Rock Rocket, e concluí que seria a banda de abertura perfeita para qualquer show do Matanza precedido por um esquenta num boteco putrefato. Explicando: logo no começo, vi uma garota realmente bonita... Fiquei quase apaixonado (hahahaha, ô!). Fiquei cantarolando "A Mulher Mais Linda da Cidade" mentalmente até entrar no banheiro do lugar. Nojento, como em todo bar de esquina... Daí, era inevitável não pensar em "Cerveja Barata". Teria sido bom ver o Rock Rocket antes do Matanza, tendo em mente as duas outras bandas de bosta que eu já havia visto abrirem pra eles num show anterior. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. A banda de abertura parecia uma merda, e talvez realmente seja. Mas quando a frontwoman japonesa de cabelo moicano e meia arrastão tocou o riff de Whole Lotta Rosie, putz, eu fiquei realmente achando aquilo a coisa mais foda do mundo. Eu estava pegando cerveja na hora, e saí gritando pra todo mundo que via na frente "AC/DC, porra! AC/DC!!". Nada mais normal.

Acabou o show da japa punk, e todos no Hangar ficaram assim, esperando o Matanza. Uns 20 minutos e uns três cigarros depois, a banda entrou. Quer dizer, desde logo depois da abertura, já dava pra ver os integrantes da banda terminando de checar os últimos preparativos para entrar em cena (tem uma cortina, mas sabe como é, a molecada que fica na frente não resiste e espia). Mas nada disso importa. Quando subiu no palco em definitivo, o Matanza se transformou: Jimmy parecia realmente puto, Donida girava a cabeça como um ventilador sem errar uma única nota, China estava se divertindo para cacete e Fausto mantinha o ritmo com seus óculos escuros, emulando um Guy Patterson fanfarrão.

Abriram com a seqüencia matadora de Meio Psicopata e Interceptor V6, sem dúvida nenhuma duas das top 10. O show foi selvagem, eu me segurava pra nao cair no meio daquele bolo de gente se acotovelando e empurrando e me esforçava para desviar dos que se jogavam do palco. Essa brutalidade, esse caos de braços e punhos é exatamente a síntese do que o Matanza prega. E é nesse "cada um por si e deus contra todos", que você entende o que é arte do insulto: socos, cotoveladas e impropérios mútuos. São nos concertos do Matanza que fica mais evidente essa coletividade entre a banda e o público. Você emputece o vocalista Jimmy subindo no palco DELE e ele te manda montar a SUA banda, se quer subir no palco. E que se encostar nele enquanto lá em cima, tá fodido. Dizem que um dos caras que ele empurrou teve de sair dali carregado, que bateu a cabeça quando caiu. Quer atitude mais coerente de um artista do insulto?

Sendo o showman que é, Jimmy sabe que um show de rock é feito de rocks. Então não se alonga muito no culto à própria personalidade e a conversinhas tolas, apresenta as músicas de um jeito rápido e grosseiro, mas engraçado. Talvez seja por isso que a admiração por ele só cresça e cresça, o efeito reverso, mas provavelmente esperado. Mas até esses textos mais cultuados cansam o frontman, que é, afinal, humano. "Já cansei de falar essa merda todo show! O pior pesadelo de um homem, bla bla bla bla bla, ela roubou meu caminhão", diz ele, antes da primeira música de trabalho da carreira do Matanza. Antes era: "O pior pesadelo de um homem não é ela roubar sua comida, não é ela roubar sua bebida, não é ela roubar seu dinheiro... O pior pesadelo de um homem é ela roubar seu caminhão". Entende? A idéia agora é subverter tudo o que havia sido feito e deixar o novo show coerente com o título do novo disco.

E isso é feito muito bem, porque é realmente uma apresentação totalmente diferente de qualquer outra anterior. Contribuem para isso o aspecto supracitado e o set list maleável, característica das bandas que são grandes ao vivo. Nem as covers de Johnny Cash, praxe, mantêm-se. Na primeira vez que eu os vi, foram San Quentin e I Got Stripes. Dessa, Leave that Junk Alone e Cry Cry Cry. Além disso, ainda pude ouvir Imbecil, E Tudo Vai Ficar Pior e Ressaca Sem Fim. Bom, muito bom.

No fim, todos saíram de lá satisfeitos e cantando alto as músicas da banda. No metrô, enquanto ia embora, um último fato serviu para fechar o balanço da noite de forma bastante coerente: um bêbado que cantava alguma coisa ininteligível ficou me enchendo o saco incessantemente para eu fazer air guitar enquanto ele cantava. Mais ultrajante, impossível.

Monday, January 08, 2007

John Frusciante - Shadows Collide with People


Eu deveria estar dormindo. Faltam dois minutos pras quatro agora, e eu estou aqui fazendo um review. Pior: continuo com a minha mania irremediável de só fazer análises de álbuns relativamente velhos. Veja só, 2007 acaba de despertar em berço esplêndido e eu aqui ouvindo, absorvendo e tentando transpor para zeros e uns um disco de fevereiro de 2004. Mas vá lá, é o melhor disco de 2004! Possivelmente um dos três melhores dessa década (que ainda está longe de terminar, é verdade). Exagero? Tente escutar Shadows Collide With People e não considerar o disco, pelo menos, acima da média.

John Frusciante, o prolífico guitarrista dos Red Hot Chili Peppers, é um dos maiores músicos das décadas de 90 e 00, e meu sonho era vê-lo gravando numa banda com Jeff Buckley e Brant Bjork. Mas deixando isso de lado, são só devaneios do imaginário musical das dream bands, é realmente notável a maturidade musical que John atingiu em tão pouco tempo. Não estamos falando de Sinatra ou algum outro cantor que teve 50 anos pra burilar sua música tranqüilamente. Somente em 1989 ele gravou seu primeiro disco com os Chili Peppers e, mesmo assim, nesse ínterim, foi até o inferno e voltou (com o perdão da citação a Justin Hawkins). Duvida? Ouça então Smile From the Streets You Hold, disco de 97 que coincide com a pior época nas drogas de John e que foi feito pra conseguir dinheiro pra heroína. Se você conseguir imaginar a trilha sonora para um trapo ensangüentado sendo torcido sobre um moribundo, ou alguma coisa tão deprimente e sanguinolenta quanto, bem, você tem Smile From the Streets You Hold. E não é um disco ruim, exprime algum tipo de niilismo e arrependimento, principalmente o último, que você verá em Shadows Collide With People, mas não tem a classe deste. Quer dizer, um é um junkie desesperado gritando por heroína e o outro se trata de um junkie recuperado, arrependido pelo que fez e pelo que perdeu e também vendo agora a vida por outro prisma.

Shadows... é basicamente um disco sobre arrependimento e volta por cima e isso é passado totalmente para a música, de modo que não é preciso ler o trecho a seguir pra sacar isso.

”This is the time to die
I'm not someone on whom to rely
Chances come and chances go
This is letting you know”

As melodias dão conta de traduzir pra você o que John quer dizer. Entende como isso é, de certa maneira, especial? Basicamente todas elas são intrigantes, não te fazem ficar choramingando com a cara no travesseiro, mas também não são música pra se dançar de cueca pela casa (eu não faço esse tipo de coisa, que fique claro). Foram feitas para mexer com você, de uma forma ou de outra. Exemplo: antes de me pôr a escrever este review, eu estava tentando dormir ouvindo o disco. Mas meu organismo reage a esse álbum de uma forma estranha, num tipo de palpitação da alma, primeiro uma angústia que comprime meu peito e logo depois uma euforia que lateja bem nas paredes internas da minha costela. Pode ter a ver com o instrumental, sim, mas o grande trunfo de Frusciante aqui é mesmo sua voz.

Ela dança pela música toda, primeiro soando normalmente como soaria o canto de um cantor folk bem afinado, depois berrando angustiada, depois sumindo por baixo dos sintetizadores eletrônicos, aí sussurrando, resmungando aborrecida, ressentida... O coro inicial de Carvel é a prova inquestionável de que vocal é sim um instrumento. Poucas vezes vi a voz fundir-se à guitarra, bateria e baixo tão perfeitamente, e essa é a palavra, e tão sincera, também. Porque não estamos falando de fades ou zumbidos, e sim um coro forte e marcante.

E se Carvel escancara a habilidade de John em fazer harmonias, Omission tem como função, além disso, mostrar sua versatilidade ao tomar as decisões que os rumos das suas músicas devem seguir. Inesperada e inexplicavelmente, a música pop e limpa ganha um refrão acelerado (e paradoxalmente doce) e com uma levada eletrônica. E com extrema propriedade, aquilo fazia parte da música o tempo todo e você nem sabia! Não é trabalho só dele, a música tem co-autoria de Josh Klinghoffer, mas tudo bem. O imaginável não imaginado não se limita a Omission.

A princípio, todas as músicas tratam também de serem redescobertas e provarem que a música pop pode ser imprevisível (a idéia aqui era encontrar algum superlativo, mas acho que se é imprevisível, então não há porque fazer comparações). Second Walk, Wednesday’s Song, In Relief, todas, são assim.

Em determinados momentos, músicas sem letra e totalmente experimentais entram pra te colocar flutuando ou coisa do tipo. -00 Ghost 27, Failure 33 Object e 23 Go into End são John Frusciante orbitando em seu casulo, ou podem significar qualquer outra idéia ou alegoria. E essa é a beleza dessas faixas, a discordância que podem causar, e qualquer mito que possam criar.

Musicalmente o álbum supre qualquer necessidade de letra (e isso não é nenhum demérito, é só pensar que o Black Sabbath tem algumas letras bem infantilóides), mas quando o sujeito faz um disco desses, de redenção e arrependimento, ele não pode deixar o essencial se transformar em supérfluo, por mais que tenha o aval para isso. E as letras não deixam a desejar. O tema do remorso é recorrente no disco e a minúscula (mas significativa de qualquer maneira) letra de Regret resume tudo o que John Frusciante quer lidar com seu Shadows Collide With People.

“I regret my past
Stay alone”

Não apenas isso, a música também poderia ser algo como um estandarte da adolescência entediada e dramática que existe por aí. Ou a frase-emblema oficial de todos os ex-viciados em heroína do mundo. Poderia estar numa camiseta que vendesse horrores.

Mas nada disso importa, não é mesmo?

Shadows Collide With People é a redenção definitiva de um artista, que o suga para dentro da dor e esperança dele mesmo e ainda redefine certos conceitos da música pop (mesmo que não tenha influência suficiente pra mudá-los definitivamente). Não é isso que faz um grande disco?

 
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