Friday, July 30, 2010

Batismo

Quando meus pais foram tentar me batizar (eventualmente eles conseguiram), o primeiro padre disse que, por eles não serem casados, eu era o filho do pecado. Meu pai mandou o cara tomar no cu e molhou a mão do próximo padre, que fez o batismo feliz da vida. Eles não casaram, mas continuaram juntos pelos próximos 17 ou 18 anos, o que torna a história meio que uma anedota familiar.

Mas o motivo dessa história ter algum tipo de significância para mim reside no modo como o “conservador” (nesse caso, o batismo) e o “liberal” (casamento não-oficial, por exemplo) ficam se fundindo na minha vida. Veja bem: sou filho temporão, meu pai nasceu em 1949 e eu sou fruto da era digital, ou coisa que o valha. Minha índole me diz que as regras (quase) todas são no mínimo infringíveis, mas minha família formada nos anos culturalmente reprimidos do pós-ditadura sugere que o bom cidadão é aquele que segue o "curso natural" das coisas.

Do lado da minha mãe, que compreende meus tios e avó, temos pessoas vigorosas e empreendedoras, trabalhando feito camelos, colocando sempre o dever acima da diversão. Do lado paterno – ou seja, meu pai e meus irmãos mais velhos, porque não tenho muito contato com os tios –, as pessoas são práticas, objetivas e pragmáticas, atraídas pelo dinheiro fácil do mundo financeiro (se você for capaz de lidar com números). É fácil perceber que não há muito espaço para a imaginação em nenhum dos dois cenários.

Minha primeira lembrança é na escolinha, derrapando no chão de madeira da sala de brinquedos. Lembro da visão de um dos joelhos para cima, decorado com um machucado ainda novo, avermelhado. Não sei se tinham passado Merthiolate, mas me recordo de uma ou duas experiências chatas com ele. Depois disso, lembro de brincar com tatu bola e de correr do irmão mais velho e semi albino do meu amigo mentiroso, que teimava em me chamar de gordo (e eu não era!)

Nunca entendi por que eu era especialmente perseguido nos colégios, mas também sei que não era santo. Rir da cara dos outros sempre me pareceu algo divertido demais para não fazer. Mais uma vez minha conduta contradizia as normas não-oficiais da família Gesualdi Barboza. Meu pai sempre foi um cara mais ou menos pacifista, o que hoje em dia eu vejo como uma coisa legal. Mas quando ele me dizia coisas como “responde que você pode emagrecer, enquanto ele é feio e isso nunca vai mudar”, me sentia ainda mais desamparado. Claro que isso nunca vai afetar ele, pai! Teria sido menos traumático se tivesse me ensinado a dar uns murros na cara do imbecil.

Então, a irmã de um amigo, da classe do maluco que me perseguia, me ensinou um pouco de defesa pessoal. E sem levantar um dedo. “Chama ele de sundownzinho”. Perfeito. Chamar o garoto semi albino de sundownzinho me pareceu genial. É daí que lembro de correr dele, enfurecido. Ponto para mim, tirei o babaca do sério. E aprendi a maior de todas as lições na prática da discussão verbal: tocar no ponto mais fraco e humilhante do inimigo, sem dó.

Monday, July 26, 2010

No Recreio: Colorido versus Sertanejo Universitário

Ficou bastante singelo esse texto. Saiu na Tribuna em junho.

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Jenifer tem 14 anos e está na oitava série, ansiosa para chegar logo ao ensino médio. Sua vida é bem normal para uma garota de sua idade. Ela vai para a escola, consegue passar raspando em química e matemática, conversa sobre coisas de garota com suas amigas no intervalo e suspira pelos gatinhos do segundo colegial. Ao chegar em casa, almoça e corre pro computador, onde acessa seu Orkut, abre o MSN e se engaja em sua função favorita: a de fã do Restart.

Jenifer gasta toda a mesada com produtos relacionados ao grupo, desde ringtones até camisetas. Liga na rádio para pedir a música deles, discute com outros fãs na comunidade do orkut e passa horas no Messenger planejando uma ida ao próximo show da banda. A devoção é tanta que a única apresentação do Restart presenciada pela garota figura entre os top três momentos de sua vida (ou assim diz a emoção).

Em geral, ela é uma adolescente que se dá bem com a maioria das pessoas no colégio. A única rixa da turma de Jenifer, assim como ela, fã de Restart, é com a turma da Joyce, todos fãs de Luan Santana. O cantor sul-mato-grossense, do hit Tô De Cara, faz o tipo de Joyce e suas amigas porque é gatinho e toca um tipo de country/sertanejo que poderia muito bem ser confundido com pop rock americano. O som dele não incomoda Jenifer (que até já se pegou cantarolando uma ou outra faixa do cantor). O grande problema é que Luan e suas fãs são mais comuns, mais populares e não se enquadram no estilo multicolorido do Restart.

Joyce, por sua vez, acredita que a cara alternativa dos policromáticos é muito afetada. “Coisa de gente que quer ser mais do que é”, ela comenta com os chegados. Tanto Jenifer quanto sua antagonista não dão muita bola para isso, mas poderiam incluir entre seus argumentos a velha guerra entre independente e mainstream: Santana é da Som Livre, enquanto o Restart faz parte da pequena Maynard Music. Ambos, no entanto, fazem sucesso similar.

Mesmo ignorando alguns argumentos mais consistentes (e talvez justamente por isso), Stella e Mari, amigas de Jenifer e Joyce, respectivamente, acabaram discutindo na semana passada. Quase saíram na mão. O motivo, torpe, você já deve imaginar qual foi. O diretor da escola, Seo Olavo, quarenta e nove anos, dois divórcios nas costas e um vício chato em café, não estava num bom dia para picuinhas adolescentes. Chamou os dois grupos para uma conversa, a fim de entender qual a grande diferença entre Luan Santana e Restart.

Primeiro perguntou a cada grupo o motivo de tanta adoração aos artistas. As respostas das meninas foram quase que rigorosamente iguais: meninos bonitos que falam sobre o universo delas. “E como é esse universo?” Mais uma vez, réplicas quase idênticas. Amizade, escola, saídas, namoradinhos... O litro de café ingerido pela manhã começou a confundir a cabeça do diretor, que resolveu procurar, então, os pontos divergentes.

“Por que você não gosta de Restart?”, perguntou a Joyce. “Olha, Seo Olavo, não é que eu não gosto de Restart. É só que eles são muito frutinhas, sabe? Essas roupas coloridas... E os fãs se acham os diferentes”. A mesma pergunta foi feita a Jenifer, dessa vez em referência a Luan Santana. “Ah, professor. Eu acho esse Luan muito zé povinho. O Restart, sim, entende a gente, os alternativos”. Sem encontrar muita sustança nas respostas, inquiriu: “Mas ‘pera lá. Pelo que eu sei, tanto Restart quanto Luan Santana andam bastante populares. Como é que um é zé povinho e o outro alternativo?”

Carlinha, a mais informada entre as coloridas, revelou que o sertanejo andava aparecendo no Faustão para receber prêmios de TV de Domingo. O que ela não contava é que Juju, sua contraparte country, também tinha um dado na ponta da língua: “Ei, e seu querido Restart? Esses dias mesmo apareceu no Gugu”. Em minutos, sem que percebessem, as meninas entraram numa espiral de contradições e confrontamentos. Não sabiam mais se defendiam o lado alternativo de seus ídolos ou se expunham, com orgulho velado, suas conquistas profissionais. As conquistas, aliás, vinham em maior número e aproximavam cada vez mais coloridos e sertanejos.

O diretor, confuso, coçou a quase-careca e ajeitou os óculos. Ficou observando a discussão por algum tempo e tomou mais um gole de café, até que desistiu. Interrompeu a algazarra com a pergunta-chave daquela reunião enviesada. “Afinal de contas, qual a grande diferença entre o Luan e o Restart?” Nenhuma das garotas se prontificou a responder. Encararam Seo Olavo com olhares confusos, em silêncio, por quase dois minutos, até que foram dispensadas para o intervalo.

Tuesday, July 20, 2010

Ronnie James Dio e o Escapismo do Heavy Metal

A morte de Ronnie James Dio revelou o tamanho do abismo que existe entre o heavy metal e o “mundo real”. E, como prevíamos, ele é imenso. Seu falecimento teve manchetes em todos os principais veículos de notícia, além de ter inspirado notas de pesar e declarações emocionadas acerca de sua pessoa e seu trabalho. Mas tudo isso, claro, pela grata posição que ocupou durante anos de sua vida: a de membro do Black Sabbath.

Para entender Dio e as declarações do parágrafo anterior, primeiro precisamos entender as duas faces existentes do metal. A face clássica, sombria, iconoclasta, que surgiu do descontentamento hippie, e a face meio constrangedora, dos moleques pré-adolescentes e suas camisas puídas do Nightwish.

O heavy metal viu a luz do dia no final dos anos 60, com a sonoridade selvagem do Blue Cheer e seu primeiro álbum, Vincebus Eruptum. Um pouco depois, Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward formatariam a temática e o humor do estilo com seu Black Sabbath. A idéia era simples: se as pessoas pagam ingressos para se assustar com filmes de terror, por que não tentar um conjunto musical de terror? Aliado a isso, havia o desgosto de quatro jovens da cinzenta Birmingham, sem muitas perspectivas para o futuro nem identificação com os hippies coloridos e despreocupados. Ou seja, o metal nasceu dentro de quatro caipiras entediados e com vontade de assustar um bom número de incautos.

Só que um povo meio burro entendeu errado toda essa mensagem e apareceu com o começo do fim, também conhecido por New Wave of British Heavy Metal. Dentro do movimento, Iron Maiden e Saxon, que levaram a premissa da banda de terror a lugares risíveis. Até hoje, tenho Bruce Dickinson e seu shots de lycra como referência de música ruim. Pior mesmo foi o movimento que desencadearam: o power metal, ou metal melódico. A referência primal dessas bandas, com seus cabelos cheios de laquê e letras sobre elfos e duendes não é aquele Sabbath de 1969, que fazia as criancinhas molharem as calças. É outro.

Ozzy foi demitido do Black Sabbath e substituído pelo vocalista do Rainbow, Ronald James Padavona, o Dio, em 1979. A interpretação de Dio destoava demais do que fazia seu predecessor, porque era forte, épica, expansiva. Claro, Padavona sempre foi melhor cantor do que Osbourne. A partir disso e dos peitos cabeludos – mutcho machos – que inundavam o heavy metal do começo dos anos 80, o Black Sabbath se tornou outra banda, mais teatral, mais óbvia. Dio, junto com outros metalíferos de sua época, tornou-se exemplo de integridade e postural “metal”.

O problema é que, na “vida real”, o mundo estava em outra. O punk e o pós-punk seguiam muito mais pelo caminho niilista do Black Sabbath do que o próprio Black Sabbath. Os embriões do hip hop, a disco music, o revival do country, nada disso apontava para elfos, castelos, morte, bicho-papão. Durante a guerra fria, o escapismo deu lugar ao conformismo e ao combate, por isso guerreiros vestidos com calças de couro em palcos de 12 metros de altura pareciam arcaicos e constrangedores. Daí, o metal institucionalizado por Dio deixou o Planeta Terra para sempre. Hoje em dia, ele reside nessas camisetas de banda e na molecada perseguida na escola. Costuma, inclusive, ficar por lá quando esses adolescentes crescem.

O nefasto da obra de Ronnie Dio não são suas bandas e LPs, e sim seu legado. O respaldo que deu a múmias, castelos, cavalos e espadas forçou a entrada do escapismo num estilo bastante lúcido, ainda que pessimista. Assim, trouxe também o ostracismo para si mesmo (o que, para certos fãs de metal, é um símbolo de honestidade).

Engraçado que, nos últimos tempos, o metal tem ressurgido entre as pessoas “normais”, apesar do desvio de percurso que foi a NWOBHM e a fase de Dio no Black Sabbath. Por causa dessa clausura forçada, alguns metaleiros realmente extremos, influenciados por Thrash Metal e Stoner Rock (por sua vez influenciados diretamente pelo Sabbath do começo – acompanhou?) surgem como a verdadeira opção do underground frente um mainstream cada vez mais afetado, mais ou menos como era em 69. Ainda bem, porque se não fosse a música pesada, talvez minha vida não tivesse mudado quando escutei Queens of the Stone Age e System of a Down aos 12 anos.

Sunday, June 20, 2010

Umbabarauma

Desta vez, uma coluna recente. Saiu neste sábado (19/06). Melhor postar agora pra aproveitar o clima de Copa. Fiz uma pequena mudança ali no meio, mas sussa. Nos próximos dias, volto a postar as colunas mais antigas.

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Gosto de ler livros e assistir a filmes, mas confesso que não entendo muito de literatura e cinema. Sei o que me faz a cabeça, mas não me peça uma análise de cinema ou literatura com muito embasamento histórico e propriedade. Dança, teatro e artes plásticas me empolgam de vez em quando, ficam restritas a seu momento. Sendo assim, as duas artes que mais me agradam são a música e o futebol (e não me venha dizer que futebol não é arte – nem vou levar a sério nenhum argumento seu!).

Em época de Copa do Mundo, fica difícil não se concentrar na segunda paixão. Festival badalado nos Estados Unidos ou a estreia complicada do Brasil? Show surpresa dos Strokes ou a pipocada fenomenal da Espanha? Woodstock meio genérico aqui no Brasil ou a chance de ver Messi virando o grande jogador da nossa geração? Nesse caso, melhor tentar conciliar os dois amores. E nem é tão difícil.

Por exemplo, Jorge Ben tratou de regravar “Umbabarauma” com alguns dos atuais queridinhos da cena – Mano Brown, Céu, Anelis Assumpção, Thalma de Freitas, Ganjaman, Zegon e outros – para um novo comercial da Nike. Se Dunga relutou em chamar Ganso e Neymar para sua seleção, no futebol-moleque da música brasileira, saravá, a sintonia é boa. Tendo o futebol como parte integrante e importante da nossa cultura – onde Garrincha é tão ícone quanto Carlos Gomes ou Glauber Rocha –, não é surpreendente que a união do velho com o novo se dê em época de Copa, numa interpretação de um clássico sobre o esporte.

Jorge, aliás, é mestre nisso: desde os primórdios de sua carreira, não esconde sua paixão pelo futebol e, especialmente, pelo Flamengo. São tantas referências ao rubro-negro que me pergunto se isso não é a causa da mítica que ronda o clube. Vá lá: metade pro Galinho de Quintino e metade para Ben Jor. Claro que o interesse pelo esporte bretão (bretão?!) não é exclusividade do rei do samba-rock. De “Um a Zero” a “Partida de Futebol”, passando pelas homenagens do headbanger Andreas Kisser ao meu Tricolor, o futebol faz parte da nossa música assim como, sei lá, chocolates devem fazer parte da música suiça.

O motivo é simples: são duas artes que vivem do ritmo e refletem a cultura onde estão inseridas. É só analisar a música não-efusiva de Stockhausen e Kraftwerk e o estilo pragmático do fussball alemão; a ironia do rock inglês e a ironia de os inventores do football quase sempre falharem em Copas do Mundo e Eurocopas; a ópera e o calcio italiano, tidos como chatos e antiquados, mas de grandeza e alcance inegáveis... A malemolência do nosso estilo futebolístico acaba se fundindo perfeitamente com a malemolência da nossa música. Um não vive sem o outro.

Mas a paixão pelo futebol, como não poderia deixar de ser, não se restringe aos músicos brasileiros. Existem vários exemplos estrangeiros do encontro entre música e futebol. Nosso eterno rival Diego Maradona, por exemplo, encantou tanta gente que já recebeu uma homenagem do francês Manu Chao. Também podemos ver, frequentemente, as torcidas gringas adotando rocks populares como hinos. “Seven Nation Army”, do White Stripes e “Chelsea Dagger”, do Fratellis são exemplos recentes.

Mesmo os americanos, antes tão resistentes ao “soccer”, vão se rendendo. Minha camiseta mais legal é uma da turnê de verão de 2008 do Queens of The Stone Age, durante a Eurocopa. Ela traz um escudo da banda, com o nome do vocalista Josh Homme e o número 5 atrás, como se fosse um uniforme retrô. Sua banda-irmã, Eagles of Death Metal, também já foi trilha sonora de uma das propagandas mais incríveis da Nike, Take it To The Next Level, que mostra a carreira de um jogador numa câmera em primeira pessoa.

Nietzsche disse que a vida sem a música é um erro. Eu completo dizendo que sem o futebol também. Por isso, vamos agradecer aos céus o fato de ambas as artes se completarem tão bem. Salve Jorge e todos que já sacaram essa verdade. E boa Copa do Mundo para todos nós.

Wednesday, June 16, 2010

Pearl Jam: Crescendo em Público

Quando estava sem assunto para a coluna, o Pearl Jam me salvou de novo. Amo essa banda. Esse artigo saiu no dia 15/5.

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O grunge morreu, de ressaca, em 1996. Mesmo que o suicídio de Kurt Cobain em 1994 tenha sido o porre, a cabeça só foi doer dois anos depois. Foi quando Soundgarden e Screaming Trees lançaram seus últimos discos, o brit pop surgiu e Dave Grohl se desvinculou do Nirvana. Como uma triste nota final, o acústico MTV do Alice in Chains – último registro do grupo, que definharia por seis longos anos até a morte do vocalista Layne Staley – ainda figura como uma das manifestações artísticas mais fúnebres de todos os tempos. Mais emblemático que tudo isso, no entanto, é No Code.

Apesar do impacto do Nirvana, era o Pearl Jam a banda que mais vendia nos anos da calça rasgada e da camisa de flanela, e No Code, seu quarto LP, escancarou o fim do grunge. Porque é um álbum onde o desespero expansivo e grandiloqüente do movimento é substituído por resignação íntima e reflexiva. Basicamente, não havia mais bandeiras a levantar, nem inimigos a combater – o hair metal estava acabado, as drogas pesadas não tinham mais glamour nenhum e todos estavam milionários. Restaram apenas os demônios interiores.

Daí a Eddie Vedder cantar sobre abrigos em árvores, onde jornais não importam (“In My Tree”) foi um pulo. Ainda tem canções sobre autoconhecimento, distância e até uma supostamente dedicada a Kurt Cobain. Porém Sometimes, mais do que todas, numa combinação incrível de música e letra, escancara o que era o momento confuso e introspectivo da banda.

Talvez tenha sido a experiência de Neil Young, com quem trabalharam no ano anterior, que trouxe essa serenidade aos músicos, ou o fim iminente do grunge, por todos os motivos já citados. Seja como for, o conjunto ficou muito mais legal, adultamente falando. Se os primeiros álbuns eram epolgantes, cheios de vitalidade e rock and roll, como é a adolescência, a partir de No Code, os temas ficaram bem mais complexos.

Dali para frente, mais do que famoso, o Pearl Jam tornou-se uma banda de massa – no sentido de que fala sobre os sentimentos mais íntimos da massa oprimida do rock, seja lá o que isso for. E como costuma acontecer com os “messias”, em algum ponto dos anos 2000, Eddie Vedder começou a perder a linha. Seu discurso anti-republicano e sua militância exagerada, em cada música e entrevista, transformaram-no em um vocalista mala de uma banda chatonilda.

Talvez seja por isso que muita gente apenas enxergue valor no Pearl Jam exasperado e eloqüente do começo dos anos 90. Mas, tanto na vida quanto na trajetória de emancipação da banda, uma crise dos 40 anos é aceitável. Depois de lançar seu pior disco em 2006, a banda teve um breve hiato em que cada um dos integrantes se dedicou a seus projetos particulares. Eddie Vedder, em especial, conseguiu renovar sua imagem com a trilha-sonora do filme Na Natureza Selvagem.

Finalmente assumindo a posição de trovador solitário que teimava em impor na banda, Vedder foi bem sucedido. Talvez por causa desse ato de bravura (inconseqüência até, se pensarmos que é mais conveniente ficar ao lado de um conjunto mundialmente conhecido), ele foi capaz de se transformar mais uma vez. A volta ao Pearl Jam não poderia ser melhor. Backspacer, do ano passado, mostra cada um dos integrantes na sua melhor forma e sem muita preocupação em passar mensagens paternalistas ou em mudar o mundo (a eleição do democrata Barack Obama contribuiu muito nesse aspecto).

No fim das contas, a beleza do Pearl Jam, para mim, reside tanto nas suas melodias e letras quanto na sua coragem para expor seus erros e acertos. Não tinha idade para acompanhar seu desenvolvimento em tempo real, mas, na época mais importante da minha formação – ali pelos dezesseis anos – eles eram minha banda favorita, mostrando como crescer é doloroso e instigante. Por isso, não julgo seus maus momentos, só tenho a agradecer. Obrigado.

Thursday, June 10, 2010

Salve a Gente da Antiga!

Arriba!

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A coluna de hoje se trata de uma fábula cuja moral reside na importância de redescobrir nossos velhos ídolos. Começa assim: a indústria fonográfica brasileira demorou a deslanchar na primeira metade do século XX, deixando muita gente boa para trás, mas registros tardios como os de Cartola nos anos 70 e Gente da Antiga cumprem bem o papel de resgatar essa fase rica da música tupiniquim.

Em 1968, Pixinguinha, João da Bahiana e Clementina de Jesus eram “gente das antigas” na nossa cultura. A bossa nova já havia conquistado o mundo e mudado a lógica da arte brasileira e a tropicália se firmava como o que havia de mais moderno e desafiador. Mesmo assim, começava nas altas rodas intelectuais um movimento de valorização dos grandes compositores que pavimentaram a estrada da música pop nacional. Hermínio Bello de Carvalho, à época o grande incentivador da velha guarda do samba, tratou de juntar os três músicos, já idosos, para viabilizar o disco Gente da Antiga.

Pixinguinha, hoje uma Entidade da mitologia brasileira, tanto quanto Zumbi dos Palmares, D. Pedro II e o Preto Velho, estava sem gravar desde os ano 50, já havia enfrentado o alcoolismo e trocado a flauta pelo sax tenor. Vivia de aparições no rádio e na TV. A fase não era exatamente ruim, mas ele andava sumido. João da Bahiana também tem seu nome garantido na história por ter sido, segundo ele próprio, o primeiro a colocar o pandeiro no samba. Compositor calcado na tradição africana, ele já colaborava com Pixinguinha desde os anos 20 e foi o primeiro a deixar um depoimento para a posteridade no Museu da Imagem e Som no Rio de Janeiro.

Clementina de Jesus, por sua vez, não teve uma bela história nos primórdios da música nacional. Sua carreira profissional, na verdade, começou aos 60 e tantos anos, após ser descoberta pelo próprio Hermínio de Carvalho. Antes, trabalhara como empregada doméstica e sua experiência artística se limitava a entoar cantos de escravos, sambas e lundus antigos durante o serviço. Cantou ainda ao lado de Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Milton Nascimento. Além da história em si, o interessante nisso tudo é que a voz de Clementina era simplesmente terrível!

Terrível, pavorosa. Anasalada, gutural, desafinada. Ainda assim, nenhuma outra cantora merece mais o status que Clementina conquistou (além-vida, é verdade). E nenhuma outra pessoa teria encaixado tão bem com Pixinguinha e João da Bahiana em Gente da Antiga. Porque, se a cantora tinha pouca instrução, possuía um conhecimento empírico do Brasil urbano e pobre que poucos sequer imaginariam. Sua sabedoria era baseada em sua humildade, amabilidade (era chamada de mãe por todos que a rodeavam) e nas raízes que mantinha, em forma de canção, na ponta da língua.

Juntos, os três músicos “da antiga” trouxeram de volta aos olhos do público a lógica de um povo e época simples, porém alegres. Músicas como Yaô, Quê Quê Rê Quê Quê e Mironga de Moça Branca apresentam palavras e ritmos de origem africana praticamente esquecidos pela sociedade de então. Já Cabide de Molambo (o melhor título de música de todos os tempos!) e Batuque na Cozinha falam a língua da malandragem sambista, tão exaltada pelos malandros modernos da bossa nova. Há ainda o saxofone de Pixinguinha serpenteando pelos choros Os Oito Batutas, Elizete no Chorinho e – lá vem outro belo título – Aí seu Pinguça.

Difícil não apreciar a competência dos três. Técnica, no caso do saxofonista; histórica, no caso do pandeirista e cantor; e afetiva no caso da cantora. Gente da Antiga daria um filme. Dos bons. Poucos anos depois, os três envolvidos foram chegando ao final de suas vidas, um a um. Não fosse pelo grande trabalho pregresso, o álbum de 1968 já valeria para tatuar seus nomes na música popular brasileira. Acabou servindo como última homenagem – a eles próprios e a um momento que nunca mais será repetido.

Póslúdio: Se Gente da Antiga fez parte de um movimento de resgate de nossas origens e, consequentemente, enriqueceu nossa música, talvez seja essa a solução para o amontoado de lixo que esmaga a arte pretensamente “séria” no Brasil. O caminho pode ser enclausurar essa molecada de Cine, Restart, junto com Anas Carolinas e Marias Gadú, num calabouço e obrigá-los a escutar samba antigo ininterruptamente. Não sei. É só uma sugestão...

Wednesday, June 09, 2010

Gorillaz - Plastic Beach

Da Tribunation-tion. Engraçado que, apesar das críticas, que mantenho, tô considerando o plastic Beach o grande disco do ano até o momento. Recomendadíssimo.

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Quando morreu o rapper Guru, dia 19 de abril deste ano, foi com ele parte da história do hip hop. O alterego de Keith Elam foi um dos primeiros a incluir ritmos além do soul, do funk e da música eletrônica na mistura do estilo. Jazzmatazz Vol. 1, de 1993, como o nome sugere, coloca uma banda de jazz e alguns MCs no mesmo ambiente sonoro. O resultado é experimental, não se trata do melhor álbum de hip hop de todos os tempos, mas com ele, Guru mostrou o caminho do futuro.

A década passada foi para o hip hop o que foram os anos 70 para o rock. Depois de uma origem tímida na era de aquário, o movimento passou pela consolidação nos anos 80, pela sofisticação nos dez anos seguintes e pelo grande sucesso comercial nos 2000. Por conta desse êxito, apareceu muito lixo megalomaníaco, inflado pelo dinheiro inesgotável. Porém, com ele também veio respaldo artístico, a posibilidade de experimentar, procurar o som perfeito. Hoje em dia, o melhor tipo de hip hop existente é fruto dessas experiências, da mistura que DJs e MCs de gosto eclético injetam na sua música.

É aí que você entende a importância de Guru e é aí que entra o Gorillaz. Damon Albarn era o vocalista do Blur até que um dia se cansou de britpop e resolveu tentar algo novo. Se uniu ao cartunista Jamie Hewlett e, juntos, criaram uma banda-desenho-animado, com intergantes/personagens e tudo. Basicamente, o Gorillaz foi o primeiro conjunto musical “virtual” (ou digital, se preferir) e trouxe para a grande mídia o trabalho esquizofrênico e multifacetado do underground. Sendo o estúdio o principal instrumento do hip hop e da música eletrônica hoje em dia, é natural que num trabalho desse tipo apareçam símbolos dos ritmos favoritos do produtor em questão. Albarn gostou da idéia e cada disco do Gorillaz parece refletir sua coleção de LPs.

A banda é recheada de referências pop: desenho animado, grafitti, consumismo, multiculturalismo e, como não poderia deixar de ser, variadas linguagens musicais. Por cima de batidas sincopadas, tem rock, rap, soul, IDM (t.c.p. intelligent dance music, um tipo de música eletrônica calma e introspectiva) e até ritmos latinos. Entretanto, alguma coisa me parece errada com o mais recente disco da banda, aclamado pela crítica.

Plastic Beach tem seus bons momentos, mas não dá pra acreditar que são os quatro macacos de desenho animado que estão tocando aquele som. São instrumentos demais, participações demais... Você precisa de uma grande imaginação para conceber Lou Reed e Snoop Dogg no mesmo espaço que quatro personagens de desenho animado. Afinal de contas, qual a proposta do Gorillaz?

Agora você deve estar me chamando de conservador, de falso moralista. Com certeza você sabe que, uma vez que o Gorillaz é uma banda 100% virtual – os integrantes não existem fisicamente, numa fantasia de lã tipo Mickey Mouse, por exemplo –, eles podem absolutamente tudo, nada é inverossímil. O vocalista 2-D pode virar um pteranodonte mestre de kung-fu com um sintetizador acoplado ao peito, se Albarn e Hewlett assim decidirem. Mais ainda: e daí que as músicas não parecem de fácil execução ao vivo? Os Beatles um dia também resolveram levar a experiência do estúdio a níveis nunca cogitados antes, parando até de fazer shows. E eles nem eram cartuns!

O problema é que o Gorillaz já tem turnê marcada para promover Plastic Beach. E uma apresentação do grupo é um voto de confiança em Albarn, já que consiste num telão exibindo imagens dos personagens enquanto músicos fazem o trabalho sujo atrás dele. E aí? Esperar transparência de um conjunto fictício em plena era digital talvez seja forçar a barra demais?

No fim das contas, não é uma coisa que incomode tanto assim. Sei que os responsáveis têm tudo sob controle e vão dar um jeito. E Plastic Beach já é um sucesso. Mas sua verdadeira vocação é trazer à tona um debate que até agora não parecia muito importante: como lidar com tantas possibilidades na música atual e ainda assim se manter coerente? Pena o Guru ter morrido. Talvez ele tivesse uma dica ou duas para nós.

Monday, May 24, 2010

Música é Devoção

Meu melhor texto pra Tribuna até agora. Enjoy.


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“O que me fez ter esperança no futuro da poesia foi o concerto dos Rolling Stones que vi no Madison Square Garden [Nova York]. Mick Jagger estava cansado e todo detonado. Era uma terça-feira, ele tinha feito dois shows e estava de fato à beira de um colapso – mas o tipo de colapso que transcende para a mágica. Jagger estava tão cansado que precisou da energia da plateia. (...) Adoro a música dos Rolling Stones, mas o principal não foi a música, mas a performance, a performance visceral.”

A citação acima foi tirada do livro sobre a história do punk, Mate-me Por Favor, num depoimento da maior enganadora da época, Patti Smith. Num movimento musical cheio de charlatões e enganadores, ser o maior deles é um feito. Patti, até montar sua banda e gravar seu primeiro disco, não passava de uma fã de rock and roll e Rimbaud que circulava pelo meio “descolado” dos pré-punks de Nova York. Ela se importava mais em saber se seu cabelo estava parecido com o de Keith Richards e em quem eram seus amigos do que em aprender a tocar um instrumento. Uma poseuse de primeira linha.

No entanto, Patti foi capaz de transformar toda a sua adoração pelos símbolos da contracultura em catarse. O fenômeno observado por ela no show dos Rolling Stones está para sempre representado em seu disco de estreia, Horses, de 1975. Você pode ouvir a voz ofegante de Smith soletrando, pedindo clemência, amaldiçoando e conseguindo a redenção. Naquele ano, os hippies estavam acabados, a guerra do Vietnã também e toda essa necessidade de redenção era reflexo de um mundo megalomaníaco e de ideais esvaziados.

A resposta nesse cenário desolador, como não poderia deixar de ser (e vem sendo desde a alvorada dos tempos), foi a fé. No caso de Patti Smith, no rock. No caso de Tim Maia, numa seita esquisita, que “não é doutrina nem religião”. O panorama sociocultural no Brasil do mesmo ano de 1975 era diferente dos Estados Unidos nas particularidades, mas não na essência. A ditadura militar começava a abrandar, mas o estrago já estava feito. O brasileiro vivia num país atrasado e as feridas abertas pelos militares ainda não haviam cicatrizado.

Tim Maia costumava dizer que praticava triatlo: bebia, fumava e cheirava. Vivia uma vida hedonista, de festas e excessos. Até que, em algum momento no início dos anos 70, encontrou respostas na Cultura Racional, uma espécie de doutrina fundada por Manoel Jacintho Coelho. Ficou claro para todo mundo que a seita era pura picaretagem, mas Tim, finalmente sóbrio e iluminado pelo que acreditava ser a sabedoria suprema do Universo, cunhou dois de seus melhores álbuns entre 1975 e 76. Depois, percebeu que tudo aquilo era uma grande bobagem e voltou para o “triatlo”.

Entre pessoas que gostam de música pop, por alguma razão, o número de ateus, agnósticos e gente que simplesmente não dá bola pra religião ou Deus é altíssimo. Ainda assim, Horses e os dois volumes da Fase Racional são considerados clássicos até hoje. Por que relevamos a pose de Patti Smith? Por que fazemos vista grossa para a religião bizarra pela qual Tim Maia se embrenhou? Por que não nos constrange nem um pouco uma música como Grande Deus, de Cartola, ou os velhos spirituals entoados por Elvis Presley, Johnny Cash e tantos outros pioneiros?

A explicação está no fato de que música é devoção. Quando empregamos toda a nossa energia numa escala pentatônica, ou quando somos levados a outro mundo por uma melodia, estamos vivenciando uma experiência de fé. No momento em que deixamos uma pessoa em cima de um palco ditar como será nossa próxima hora e meia, entregamos nossa alma a ela da mesma forma que um fiel se entrega ao pastor, ao padre, ao rabino. É uma comparação meio assustadora, ainda que inevitável. Mas deixa pra lá. Enquanto a música não te pedir dízimo, está tudo certo.

Rock e Política

Fiz esta matéria/entrevista com o Macaco Bong, que tocou em Indaiatuba no último sábado, durante a Virada Cultural. A conversa foi mais sobre política e música independente do que sobre o grupo em si. Saiu na Tribuna.

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Numa casa/estúdio em Perdizes, zona oeste de São Paulo, está acontecendo uma festa. Luzes coloridas, caixas de som genialmente feitas com recipientes plásticos, cerveja na geladeira. Não param de chegar músicos jovens e barbados com suas bandas, carregando instrumentos. Uma jam session e a exibição de um curta-metragem engrossam o caldo. Pode não parecer, tudo isso faz parte do lançamento do escritório do Fora do Eixo em São Paulo.

O Circuito Fora do Eixo começou como uma idéia dentro de uma produtora, mas cresceu a ponto de se tornar uma organização com escritórios por todos os estados do Brasil, exceto Maranhão e Piauí. Não há uma razão em especial para esses estados estarem de fora, só “não surgiram pessoas interessadas em montar escritórios por lá ainda. Mas em pouco tempo isso deve mudar”, pondera Ney Hugo, baixista do Macaco Bong. O Circuito tem como principal objetivo viabilizar a auto-gestão da música independente brasileira e conta com uma disposição linear, onde não há hierarquia e pouca burocracia. Cada escritório é tocado por qualquer pessoa interessada em trazer música independente para sua região e só existem algumas obrigações, como montar um festival independente por ano, para não virar bagunça.

Dois dias antes da festa, o Macaco Bong tocava na Virada Cultural em São Paulo, substituindo a Música do Mato. “Substituição” talvez não seja a palavra mais adequada, já que o projeto consiste no próprio Macaco e outros grupos do Mato Grosso mostrando um pouco do que vem sendo feito na música por lá. “A gente só estendeu a nossa parte porque os outros músicos não puderam vir”, explica o baterista Ynaiã Benthroldo. Por outro lado, existe sim uma vontade dos integrantes em fortalecer a cena independente no Brasil e não deixar espaços em branco nos festivais. Já que estão por lá e alguém faltou, por que não arrumar os instrumentos e mandar ver?

Esse comportamento voluntarioso não reside em pensamentos envaidecidos. Pelo contrário, a garra com a qual o grupo defende os ideais do Fora do Eixo vem de seu nascimento. “O Macaco Bong surgiu dentro do Espaço Cubo, como parte de todo o projeto. Sem o Fora do Eixo, a banda não existiria, mas o Circuito existe fácil sem a banda”, conta Ney.

O Espaço Cubo é uma produtora multicultural que organiza o festival Calango desde 2001 (à época, ainda se chamava Cubo Mágico). Em 2005, após a união do gestor Pablo Capilé com outros produtores do ramo independente, surgiu o Circuito Fora do Eixo, que leva as idéias surgidas em Cuiabá para o resto do Brasil, por meio dos escritórios. Mais ou menos à mesma época, surgiu a Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin), que deu um ar de “legitimidade” aos festivais, principalmente por se tornar uma ferramenta facilitadora no diálogo com órgãos estatais e empresas. De duas uma: ou é um plano de dominação mundial sem precedentes ou é a música independente se organizando como “nunca antes na história deste país”.

O cenário favorável para esse fortalecimento da cena independente vem de dois aspectos principais. O primeiro é a alta do marketing cultural, que bebe na fonte dos incentivos fiscais (como o ProAC e a Lei Rouanet) e do interesse das empresas em se comunicar com seu público de forma mais direta. Assim, projetos como os festivais são viabilizados por meio da iniciativa privada. Já o interesse do público, que motiva essas ações, parte do maior acesso à arte alternativa, viabilizado pela internet. Basicamente, tudo isso que está acontecendo vem da possibilidade do consumidor escutar o que quiser, onde quer que esteja. Se uma banda do Fora do Eixo tem algum público em Indaiatuba hoje, isso se deve quase que exclusivamente à internet.

A inovação mais revolucionária (e insólita) do Espaço Cubo é o Cubo Card, espécie de moeda alternativa aceita nos pontos do Fora do Eixo pelo Brasil. Bandas, produtores e outros envolvidos nos projetos organizados pelo Espaço recebem Cubo Cards que podem ser trocados por produtos e serviços – igualzinho dinheiro normal. As críticas à moeda partem de um princípio básico: ela não é aceita em muitos lugares. Ney Hugo rebate as críticas argumentando que os Cubo Cards podem servir como complemento ao Real, uma vez que eles já são aceitos em alguns estabelecimentos de Cuiabá e podem começar a surgir em outros lugares. “Em 2004, se você dissesse que seria possível comer num restaurante com os Cards, ninguém acreditaria. Hoje em dia, as lanchonetes que funcionam no Calango nem trocam mais os Cards que recebem durante o festival, porque o dono sabe que, por exemplo, pode comprar material escolar para o filho com eles, numa papelaria parceira nossa”.

Além do Fora do Eixo, a Abrafin também recebe críticas. Muita gente torce o nariz para a impossibilidade dos festivais em pagar cachê e traslado a todas as bandas. Na visão de Ney, os detratores se encaixam em dois grupos principais: os que não conhecem os projetos de perto e os artistas que se consideram talentosos demais para batalhar. O argumento tem conexão com a filosofia do Macaco Bong. O título do primeiro disco da banda é Artista Igual Pedreiro, enfatizando a visão de que um músico tem que ralar da mesma maneira que qualquer outro trabalhador.

“Nossa gestão é totalmente aberta, está tudo relatado, as planilhas estão no site (www.foradoeixo.org.br/tec)... Nós estamos abertos e nos sentimos seguros nesse debate porque nosso embasamento é muito forte. Se um artista acha que sua arte é importante demais para que ele tenha trabalho com ela, essa pessoa não nos interessa. Preferimos nos envolver com o garoto que, se não fosse pelo Fora do Eixo, estaria vivendo uma rotina frustrante de trabalho.” O baixista lembra que esse investimento dos conjuntos iniciantes – tanto neles mesmos quanto na cena musical que pretendem formar – é um antídoto importante contra o monopólio das grandes gravadoras, que durante muito tempo limitaram as atenções musicais no país.

Aí me pergunto: e quando o projeto finalmente der certo e as bandas, mesmo no âmbito independente, começarem a firmar parcerias com a iniciativa privada, como fez Mallu Magalhães em seu primeiro CD? Será que elas não estarão presas a um novo “chefe”, com contas a prestar a pessoas que não dizem respeito à sua arte? Um dos grandes trunfos desse circuito alternativo, que engloba o Fora do Eixo, a Abrafin e tantos outros coletivos, é libertar os artistas das exigências comerciais das gravadoras multinacionais, permitindo-lhes fazer música de todo tipo. É daí que vem a preocupação.

Ney Hugo, no entanto, minimiza: “O Fora do Eixo não é contra parcerias com a iniciativa privada, muito pelo contrário. Se houver algum tipo de controle por parte das empresas, somos contra, mas no caso de uma parceria boa para ambas as partes, apoiamos.” A preocupação dos envolvidos em viabilizar opções e em não desprezar nenhum lado do debate está enraizada na constatação óbvia de que ninguém consegue triunfar sozinho. Pelo menos quando o desafio é unificar e fortificar a cena independente brasileira.

Se nada disso lhe parece interessante e se você só quer curtir um som, não faz mal. O engajamento político do Macaco Bong não interfere negativamente na sua música, da mesma forma que sua mensagem pode acabar abrindo seus olhos. Você gosta de guitarra, baixo e bateria? Curte ver performers ensandecidos em cima de um palco? Então aparece no Parque Ecológico hoje, às 19h30. Periga ser o show do ano.

Tuesday, May 18, 2010

John Frusciante

Mais um da Tribuna, já fazia tempo. Tchangas afuniladas são isso aí.

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No comecinho de abril, os ouvintes da rádio BBC 6 Music elegeram John Frusciante o melhor guitarrista dos últimos 30 anos. Sem dúvida, o ex- Red Hot Chili Peppers fez parte de uma das minhas bandas de rock favoritas e ele próprio, com seu trabalho solo, teve as manhas de fazer um dos 10 discos da minha vida. Mesmo assim, não acho que seja o mais importante desde 1980.

Basicamente porque Frusciante nunca foi especialmente imprescindível como guitarrista na sua própria banda. Antes dele, veio o finado Hillel Slovak, que praticamente criou a guitarra do funk rock e viria a inspirar seu sucessor, um fã antes mesmo de entrar para a banda. Mesmo quando largou os Chili Peppers no meio dos anos 90, Frusciante foi substituído com bastante maestria por Dave Navarro (e arrenego de quem afirma que One Hot Minute é o pior disco do conjunto).

Só que bróder: quem disse que um bom guitarrista só sabe tocar bem seu instrumento? Se no rock a figura do tocador de guitarra acabou associada a uma espécie de camisa 10, esperto é o músico que assume a tarefa com a cabeça erguida, olhando para o gol. Um exemplo legal é Jonny Greenwood, do Radiohead. Sem se limitar às seis cordas, Greenwood programa samples e batidas, arranja músicas, toca piano, sintetizadores e até uma espécie de rádio de pilha.

Já Frusciante é um artista mais, digamos, analógico. Se os Chili Peppers estouraram no mundo todo com Blood Sugar Sex Magik e depois tomaram conta dele com Californication, muito se deve à capacidade do guitarrista em criar melodias, backing vocals e adaptar seus maneirismos ao estilo pulsante e suingado da banda.

Fã de Jimi Hendrix, Frank Zappa, Marc Bolan, além de bandas punk, o nova-iorquino radicado na Califórnia chegou a estudar guitarra por um tempo numa das escolas mais renomadas dos Estados Unidos, mas largou o curso rapidamente. Aos quinze anos, Frusciante assistiu a um show de sua futura banda pela primeira vez e instantaneamente tornou-se fã. Pouco tempo depois aprendeu todas as músicas do grupo e impressionou os veteranos Anthony Kiedis e Flea, que o elegeram para substituir Hillel Slovak, morto em 1988 numa overdose de heroína.

Nos anos seguintes, John gravou Mother’s Milk e Blood Sugar Sex Magik com o Red Hot Chili Peppers, e o segundo foi um enorme sucesso. Cansado das turnês e do que a banda estava virando, ele resolveu jogar tudo para o alto e se demitiu. Essa fase coincidiu com o princípio de seu vício em heroína e nos anos seguintes, enquanto seus antigos companheiros gravavam One Hot Minute com Dave Navarro, Frusciante passou em casa, consumindo heroína e gravando discos terríveis. A nóia era tanta que ele perdeu todos os dentes e Smile From The Streets You Hold, seu segundo álbum solo, é um retrato fiel do que é o fundo do poço.

Em 1998, depois da saída de Navarro, John finalmente estava sóbrio e quis voltar para o Red Hot Chili Peppers. Do casamento renovado, veio Californication, seu maior sucesso comercial até o momento. É o trabalho mais “autoral” do guitarista com a banda, e é possível encontrar a primeira grande ruptura com o funk que vinham tocando havia 15 anos. Em 2002, lançaram By The Way e logo depois, Frusciante produziria sua obra-prima solo (e, como destacado anteriormente, um dos dez discos da vida deste colunista): Shadows Collide With People.

O álbum de 2004 soa como um suspiro aliviado, resignado de um ex-viciado com feridas ainda cicatrizando. Nosso “melhor guitarrista dos últimos 30 anos” mostra que é um cantor de primeiríssima linha – na realidade, muito melhor do que Anthony Kiedis – e ainda exibe habilidades como produtor musical, com umas pirações muito doidas entre as 17 faixas do disco. Ele ainda voltou para gravar Stadium Arcadium com os Chili Peppers, mas no fim do ano passado, deixou o conjunto.

Dito isso tudo, ainda tenho coragem de manter minha posição: John Frusciante não é o maior guitarrista dos últimos 30 anos. Mas isso não exclui o valor de um cara que desceu ao inferno e voltou, foi pivotal na confecção de dois dos trabalhos musicais de maior sucesso dos anos 90 e ainda fez um dos meus LPs favoritos. Tá bom ou quer mais?

Friday, April 30, 2010

A Culpa é Toda Sua

Só no cavaco, rapazeadinha. Coluna do dia 10/04.

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Numa primeira olhada, parece que tudo vai bem na música brasileira e quase toda semana somos agraciados com lançamentos incríveis e desafiadores. Até o fato de a gravadora Deckdisc ter comprado uma fábrica de vinis e lançado edições lindas e luxuosas de bolachas de bandas como Nação Zumbi e Pitty, parece sugerir uma retomada do consumo da música como bem de valor. A produção independente se mostra acessível a qualquer um com um modem e começamos a acreditar na consolidação do que os punks idealizaram nos anos 70: faça você mesmo (e obtenha sucesso).

Do outro lado, Rômulo Fróes deu uma entrevista na semana passada para o site Scream & Yell (http://www.screamyell.com.br) afirmando que as coisas não são tão bonitas assim, na prática, para o artista. Entre outras declarações, ele destaca que, apesar dos esforços em levar a nova música brasileira (não a do slogan do rádio, veja bem) para todo o Brasil, ela continua centralizada no Rio e em São Paulo. Ele ainda lembra que mesmo os artistas mais talentosos e de alto potencial comercial, como o Curumin, seguem tendo que fazer das tripas coração para viver de música.

Rômulo também é parte dessa tal nova música brasileira. Como vem sendo regra, ele mostra coragem ao misturar estilos e ritmos díspares em seu trabalho e, principalmente, ao expor suas opiniões sem rabo preso. Não é só o Rômulo que é assim: de Macaco Bong a Emicida, passando por Cidadão Instigado e Lulina, todos têm sua carga de fibra e engajamento. Sem dúvida, é o que precisávamos ante os músicos pasteurizados que dominavam a cena.

Então, por que é tudo tão difícil para essas pessoas certas no lugar certo? Por que, numa cidade como Indaiatuba (e dá até pra colocar Campinas nesse bolo), as únicas chances que temos para ver essas novidades são em eventos tipo a Virada Cultural? Será que é justo que artistas tão bons – e, em algum grau, desbravadores – se limitem a tocar apenas nas baladas da região da rua Augusta, em São Paulo? De quem é a culpa?

Ora, a culpa é toda sua. E minha. E das pessoas que nós conhecemos. Você tem acesso à internet, mas continua baixando só aquelas bandas que você escuta desde os 10 anos de idade. Ou você conhece o Curumin, o Wado e a Tiê, mas não se faz ouvir, não faz questão que eles venham tocar no seu quintal. Eu mesmo, até ler a entrevista, nunca tinha ouvido um disco do Rômulo Fróes. Um tremendo erro. Quem se interessa por música, quem torce por ela, deve conhecê-la e prestigiá-la.

Na entrevista, Fróes reclama que ninguém “da cena” vai ver seus shows. Nem os outros músicos, mesmo os que trabalharam com ele. Não é uma pena? Esses dias, encontrei um modo muito louco de explicar a sociedade brasileira, através da cerveja. Na maior parte do mundo, a cerveja é vendida em embalagens individuais, como long necks e latas. Aqui, o jeito mais comum de tomar um suco de cevada é partilhando garrafas de 600ml em torno da mesa, onde se joga truco, purrinha e se toca samba. Faz algum sentido que músicos tão 600ml ajam de uma forma tão long neck?

Mesmo assim, é difícil crucificá-los. Se por um lado deveriam dar o exemplo, por outro, quando se vêem na condição de platéia, percebem como é cansativo assistir a um show às duas da manhã de uma terça-feira – o que ocorre bastante. Mais uma vez, a culpa é nossa, que não fazemos parte de um público que demanda apresentações em lugares diversos, a horários razoáveis e com estrutura decente.

Engajamento não é útil apenas para divulgar o que eu e você gostamos. Uma música popular forte estimula a geração de música popular ainda mais forte no futuro e desdobramentos criativos que nós nem imaginamos. Só lembrar que depois do samba veio a bossa nova e dela surgiu a tropicália. Estamos numa época com recursos e acesso rápido à informação e disso decorre uma criatividade artística sem precedentes. Só falta descobrir como usar esse poder que temos em mãos.

Tuesday, April 20, 2010

Nick Drake e Noel Rosa

Mais um texto da Tribuna de Indaiá.

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Há muitas diferenças óbvias entre Noel Rosa e Nick Drake. Um possuia a malemolência do brasileiro, estava sempre rodeado de amigos e, irreverente, parecia se virar muito bem. O outro representava o inglês tímido, introspectivo e tragicamente frágil. Entretanto, identificar e entender suas semelhanças é encontrar afinidades entre o samba e o folk inglês. Desafio proposto, desafio aceito.

Noel de Medeiros Rosa nasceu no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro em 11 de dezembro de 1910 e lá permaneceu até sua morte, em 37. Logo cedo aprendeu a tocar violão, depois bandolim e aos 19 anos já integrava o Bando dos Tangarás, que contava, entre outros, com João de Barro, mais tarde conhecido como Braguinha. Foi a primeira de muitas parcerias ilustres do músico que, dois anos mais tarde, emplacou seu primeiro grande êxito, que até hoje permanece como um dos maiores hinos do carnaval: Com que Roupa? O sucesso da canção, no entanto, não garantiu fama nem fortuna ao cantor.

Já Nicholas Rodney Drake veio ao mundo em 19 de junho de 1948, 11 anos após Noel partir. Apesar de inglês, nasceu na antiga Burma, hoje conhecida como Mianmar, por conta do trabalho do pai. Pouco depois, a rica família Drake voltou à Inglaterra, onde se instalou no pequeno vilarejo de Tanworth-In-Arden. Solitário, Nick via na música, exaltada pelos pais – principalmente pela mãe, Molly – uma válvula de escape. Foi apenas depois de entrar para a Universidade de Cambridge e passar por experiências, humm, psicodélicas (como provar maconha e LSD) que Drake gravou seu primeiro disco, Five Leaves Left.

Se Noel teve parceiros importantes como Braguinha, Cartola, Ismael Silva e Lamartine Babo, Drake também contou com colaborações edificantes. Richard Thompson, do Fairport Convention, até hoje o maior expoente do folk inglês, Joe Boyd, produtor de bandas como The Incredible String Band e Pink Floyd, e até mesmo John Cale, do Velvet Underground – e um dos músicos mais doidos do planeta – ajudaram a moldar o som do cantor de 1,90 metro.

De certa forma, tanto Rosa quanto Drake tiveram vidas boêmias, sem muito apreço por convenções sociais. O segundo era fumador inveterado de maconha (e em homenagem à erva, escreveu a belíssima The Thoughts of Mary Jane) e mantinha-se acordado pela noite compondo canções, muitas vezes isolado em um apartamento. Noel, mais social, era como um líder dos sambistas nos botecos da Vila Isabel (e dessa rotina vêm duas de suas melhores: Feitiço da Vila e Conversa de Botequim) e estava sempre a subir o morro para conhecer novos compositores das favelas, como Angenor de Oliveira, o Cartola.

Noel é responsável por trazer o samba dos morros para o asfalto (a clássica divisão da cidade do Rio de Janeiro) e acabar por, se não criar, fomentar o que viria a ser o samba dali para frente. Drake também foi capaz de transpor o clima pastoral dos vilarejos britânicos para o asfalto das ruas de Londres e lá aconteceram seus poucos shows. Interessante notar que, enquanto o samba precisou de um especialista do batuque que unisse os conservadores do asfalto aos talentosos do morro, metáfora clara da formação do Brasil, o folk apareceu para os ingleses após ser formulado em universidades e exposto por moleques corajosos, como Drake e Boyd. Quem aí ainda tem coragem de dizer que música não é influenciada diretamente por aspectos sociais?

Suas mortes, aos 26 anos, de certa forma foram causadas por eles próprios: Drake num estranho suicídio com pílulas (ao som de Bach, dizem!) e Rosa por negligenciar cuidados à sua tuberculose descoberta anos antes. Foram finais de vida melancólicos, com inúmeras desilusões. O sambista chorava por Ceci, a dama do cabaré que o trocou pelo ator Mário Lago, e estava consternado por causa das limitações físicas causadas pela doença, ao passo que o trovador também se resignava pelo fim do relacionamento – que não chegou nem a ser namoro – com Sophie Ryde, além da enorme frustração por nunca ter chegado ao estrelato com seus três LPs.

Morreram quase que no esquecimento, mas a história lhes fez justiça. Hoje todo mundo que toca samba deve os dois braços e as quatro cordas do cavaquinho ao prodígio da Vila Isabel. Da mesma forma, não existiriam Elliott Smith, Rufus Wainwright, REM e The Cure sem a melancolia de Nicholas Rodney. Por mais demorado que tenha vindo o reconhecimento para ambos, o Universo tratou de colocar o pingo nos is, no fim das contas. Ainda bem.

Thursday, April 15, 2010

Gorfo Western

Olha só, um texto completo pro blog. Se alguém ainda acompanha isto aqui, pode ser que fique feliz.

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Como toda pessoa que aprecia e procura entender alguma coisa (música, no caso), me reservo ao direito de ter minhas idiossincrasias. No caso, a "verdade absoluta" de hoje se refere ao fato de achar rock em português uma merda. Em geral, as boas bandas de rock que cantam em português, tipo Mutantes e Los Hermanos, são legais justamente porque não são rock direto ao ponto. Sempre tem uma mistura ali que torna menos improvável a improbabilidade semântica de um ritmo feito para ser cantado em inglês não estar sendo executado na sua língua-mãe. Todavia, eu achava que as letras do Matanza até que caíam bem com o som que eles fazem.

Quer dizer, até, hã, dois anos atrás, provavelmente a última vez que parei para escutar um disco da banda supracitada. Na verdade, você até pode achar aqui pelo blog várias menções favoráveis ao conjunto de Jimmy London e seus amigos. Eu achava Matanza o máximo até mais ou menos os 17 anos. Fui a alguns shows e me diverti para caramba.

Daí hoje, pelos velhos tempos, resolvi colocar A Arte do Insulto, último disco de estúdio do quarteto, pra rodar. Soaram os primeiros segundos da primeira música e eu enrubesci. Tipo "era isso que eu ouvia com 16 anos! Que vergonha". Não existem palavras para descrever a ruindade d'A Arte do Insulto. O Matanza não sabe se é country, hardcore ou metal. Se o intuito era fazer uma mistura MUTCHO LOKA, o resultado é insultante. Ainda é verdade que as letras encaixam direitinho com os instrumentos e melodia, mas os grunhidos de Jimmy London são tão ofensivamente guturais e sem técnica que estragam essa única qualidade.

Não são só as cordas vocais do frontman que são forçadas; Cada letra, cada tema e cada atitude do Matanza é feita em torno de um meme, de uma imagem que a banda algum dia deve ter julgado ser LEGALPRACARALHO. Mais uma vez, o resultado é sofrível. Misturam-se saloons com carros em fuga e encontros com o caramunhão em pessoa. Hank Williams pede clemência, Johnny Cash enrubesce. De minha parte, acho quezZzZZzzZZzZZZzzZzZ.

Mas confesso que parar para escutar o álbum teve seus prós. Por exemplo, recentemente, andava conversando com um amigo sobre a possibilidade de ir a um show do grupo só pra relembrar os 16 anos. Nesse âmbito, A Arte do Insulto me foi muito útil: economizarei uns bons 15 contos, que provavelmente seriam gastos na entrada desse hipotético concerto.

Moral da história: assim é a vida, perdemos e ganhamos todos os dias. Hoje mesmo, eu perdi uma referência de banda bacana, mas ganhei um frisbee novo.

Nada mau prum boçal. Nada bom, também


Tuesday, April 13, 2010

Isso Está Acontecendo

É uma manhã ensolarada, ainda que fria. Estou vestido com um pijama improvisado que aguentou bem a noite gelada do outono. Ou quase. A garganta está um pouco congestionada. Mas aí assumo a culpa: é muito cigarro.

Os maravilhosos tentáculos de seda e movimentos serpenteantes da Rede mais uma vez anteciparam em um mês o que, provavelmente, eu não aguentaria esperar nem mais um dia. Me processa aí, RIAA filha da puta!





Não importa. 146MB depois, começo a ouvir o novo LCD Soundsystem e um sorriso involuntário brota na minha face. Deus abençoe James Murphy.

Monday, April 12, 2010

Greg Dulli: A Vitória do Coração

É, mulambada: agora só coloco texto da coluna por aqui. Quem sabe em breve alguma outra coisa exclusiva pro blog. Mas por ora, vê se este te apetece.

(De quebra, tem um comentário sobre o show histórico que o Dulli fez com o Mark Lanegan aqui em São Paulo no ano passado, que eu pecaminosamente não resenhei no blog na época.)

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O que me impeliu a escrever este texto foi um dia ruim, de uma tristeza meio atípica e assustadoramente cíclica. Não. Na verdade, o que me impeliu a escrever este texto foi o álbum que serviu como escape nesse dia ruim. Porque uma das muitas belezas da música é que se ela não cura, pelo menos alivia. E o que eu precisava naquele momento para aliviar a dor era a mistura de rock, trip hop, soul e folk de Twilight as Played by The Twilight Singers. É o primeiro trabalho do grande Greg Dulli como líder e dono do Twilight Singers.

É bem capaz que você nunca tenha ouvido falar nele. Normal. O cara jamais emplacou um hit significativo e suas bandas são sempre inconstantes demais, dando lugar a infinitos projetos. Além disso, Dulli desafina pra burro. Só que não existe outro que desafine com tanta sinceridade e emoção e é aí que ele faz bonito. Se você está mal, pode encontrar companhia na amargura do rapaz. Se estiver feliz, irá louvar suas melodias.

Vestido como Johnny Cash, por vezes esganiçado como Bob Dylan e bêbado como um gambá, Dulli faz música do fundo do coração há quase 20 anos. Seu primeiro conjunto, The Afghan Whigs – e eu podia parar o texto aqui: quem nomeia uma banda como “as perucas afegãs” é gênio e acabou – misturava o clima árido e agressivo do começo do grunge com a sensualidade do soul. As letras traduzem, com palavras chulas e berros doloridos, os desastres das relações adultas. Acurado pra caramba. O resultado disso é uma espécie de efeito Chico Buarque: em seu grupo restrito (porém fiel) de fãs, as mulheres babam pelo cara, que sorri com sua camisa preta semiaberta e um copo na mão.

Em 1994, fez parte da banda que recriou, para o filme Backbeat (Os Cinco Rapazes de Liverpool), o som dos Beatles quando eles ainda tocavam para platéias de turistas em Hamburgo. Junto a ele, estavam Mike Mills do REM, Dave Grohl do Nirvana, Thurston Moore do Sonic Youth e outros músicos-símbolo dos anos 90. Não seria a última participação de Dulli, que no ano seguinte figuraria como a única pessoa na gravação do primeiro álbum do Foo Fighters, além do próprio Dave Grohl. Sua parceria mais notável, no entanto, só foi acontecer em 2008, quando se juntou a Mark Lanegan (Screaming Trees e Queens of the Stone Age) e juntos criaram The Gutter Twins.

Antes disso, em 2000, Dulli lançou Twilight..., inaugurando o que se tornaria sua banda principal, Twilight Singers. E eu não sei porque o disco veio a aliviar minha fossa, tenho apenas hipóteses: pode ser a força das letras – a primeira frase é desoladora, “rock steady, baby, your man is dead” e a última é reconfortante, “everything is gonna be all right”; podem ser as batidas suingadas e remixadas pelo produtores Fila Brazillia; podem ser os arranjos constantemente belos; pode ser Clyde, uma das melhores músicas para fazer sexo já gravadas. Na verdade, é tudo isso, mais um fator importantíssimo: Twilight... mostra que há beleza e melodia mesmo na escuridão e te faz companhia até você sair dessa.

Anos depois, a voz enfumaçada, curtida no tabaco, de Lanegan caiu como uma luva tanto nos trabalhos prévios de Dulli quanto nos discos do Gutter Twins, Saturnalia e Adorata. Pode parecer pesado, e também irônico que eles se auto-intitulem os “irmãos da sarjeta”, mas também faz todo o sentido: a honestidade bêbada e sombria dos dois os faz tiozinhos manguaçados com muito a falar e pouco a explicar.

No ano passado, a dupla veio ao Brasil apresentar “Uma noite com Mark Lanegan e Greg Dulli”, onde tocaram versões acústicas de suas bandas e alguns covers. Consegui trocar uma idéia com ambos e agradeci Dulli pela corda de seu violão, que havia estourado durante a passagem de som (e um funcionário da casa de shows pegou e me deu). Tipo “você nem deve saber, mas valeu aí pela corda”. Ele não foi lá muito gentil, mas mesmo assim guardei a corda. Porque a sinceridade de Greg Dulli é comovente.

Wednesday, April 07, 2010

Rebola!

Do dia 20/3, também para a Tribuna. Se pá ficou legal.

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Laura Fontana cobra R$ 500,00 de cachê para cantar e dançar em programas de televisão. Li num desses blogs de fofocas que ela até já faria exigências em quartos de hotel. Laura tem oito anos e até que manda bem no inglês, considerando sua idade. Você deve conhecer ela como a mini Lady Gaga do programa Qual É o Seu Talento, do SBT. No entanto, a questão aqui não é a aptidão ou o estrelismo da menina, e sim qual o motivo de um cover fazer (relativo) sucesso na televisão.

Tirante o fato de que qualquer inocuidade feita por uma criança tende a parecer a coisa mais bonitinha do mundo, o mérito do sucesso da própria Lady Gaga, frequentemente apontada como uma nova Madonna, não deve ser ignorado. Por que ela tem tanto alcance? O que faz cada nova personalidade pop americana ser encarada como arrasa-quarteirão e eterna enquanto dura?
Numa época em que é fácil se desviar dos grandes sucessos do rádio com a internet – você baixa as músicas que quiser e faz sua playlist –, é notável como os grandes sucessos americanos ainda persistem. Você pode argumentar com a injeção de dinheiro absurda do showbusiness ianque e com a questão da língua inglesa, que se tornou, extra-oficialmente, o idioma oficial do planeta. Mas contar só com isso é complicado. E Lady Gaga está ciente.

Então, ela polemiza, e ataca nos mais diversos âmbitos. Moda, videoclipe, declarações polêmicas, parcerias... Gaga, assim como Beyoncée, Rihanna e tantas outras, aprendeu que a música é meio que secundária hoje em dia. Estamos na era da hipermídia, em que imagem, som e divulgação formam um todo homogêneo. Por isso, é jogo fazer um clipe megalomaníaco como Telephone, que começa a ser visto como o novo Thriller, mesmo numa época em que não se vende mais CDs e não se assiste mais MTV. Porque o Youtube é a nova MTV e Lady Gaga vai muito bem nessa nova plataforma, obrigado.

Enquanto isso, não se pode dizer que nos faltam sucessos pop aqui no Brasil. Ivete Sangalo é a maior, uma espécie de Beyoncée tupiniquim, mas encontramos nas Stefanys Cross Fox, Claudias Leitte e Alexandres Pires os respectivos para Katy Perrys, Rihannas e Justin Timberlakes. O ponto, porém, não é a qualidade de Rebolation versus Single Ladies. Nossos cantores e cantoras pop têm seus méritos e defeitos tanto quanto os estrangeiros, tendo como diferença básica o histórico de cada um, as influências sócio-culturais e, principalmente, a demanda do público.

O que me incomoda no atual pop radiofônico brazuca é a preguiça dos envolvidos em desenvolver um lance realmente bacana, bem pensado e abrangente, como fazem os gringos. Ivete, Claudia, Parangolé e todos esses hits continuam batendo na tecla da indigência cultural do brasileiro. Então, as letras são de constranger uma criança, os clipes são manjadíssimos, a divulgação se restringe a Faustão, Fantástico e Carnaval... É uma espécie de coronelismo cultural que parece perdurar há uns 300 anos por aqui (e olha que o vinil só apareceu há uns oitenta). Assim, nossa música mainstream, de massa, fica estagnada e não somos capazes de construir um fenômeno como Lady Gaga – que está em todas e é capaz de dominar as atenções em diferentes âmbitos do imaginário popular.

Essa é a minha bronca com as cantoras e cantores “que cantam com a bunda” – como define meu editor Kimura – aqui no Brasil: a total falta de ousadia. Posso até não gostar da música, mas se percebesse uma vontade de inovar, de deixar o povo brasileiro um pouco menos burro, aplaudiria de pé. Já que não vejo isso, por enquanto, prefiro continuar vaiando sentado, pra não correr o risco de seguir o Rebolation.

Monday, March 29, 2010

Nossa Fama de Bambi

Fazia tempo que não dava uma cornetada no meu time aqui no blog.

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Que mundo zicado. Ontem, o São Paulo perdeu o terceiro clássico da temporada (quarto, se considerarmos o jogo contra a Lusa). Incrível que mesmo ramelando em toda partida decisiva e moralmente importante, continuamos no tal G4, na frente de Corinthians e Palmeiras. Típico.

O grande problema está ali, no "moralmente". O São Paulo é que nem aquele marido machão que bota banca no trabalho, no boteco, mas que no seu quintal, é desmoralizado pela mulher, pelo cunhado e pelos vizinhos. O pior não é perder um jogo que, no frigir dos ovos, acabou sendo emocionante e igual (além de, argh, justo). O que dói, e dói demais, é perder o terceiro clássico do ano. Não podia. Contra o Corinthians, tínhamos de vencer. Nem que fosse com gol roubado, nem que precisasse quebrar a perna dos melhores jogadores adversários.

Não digo isso pelo fato de ser o nosso adversário mais desprezível, e sim porque, em tese, eles tiveram o azar de nos pegar depois de dois reveses contra rivais importantes. Mais uma vez, o problema está no termo: "tese". O Tricolor vem, sistematicamente, ressucitando cachorros mortos em clássicos. Jogar contra o São Paulo em um momento de crise é quase motivo de comemoração. Os adversários sabem que lá vem um time competente, mas sem um pingo de sangue na veia. Nos "zóio", então... Nunca vi uma equipe com o branco dos olhos tão branco.

É essa falta de garra, de raça, de entrega em campo que confere aos são-paulinos a ingrata pecha de bambi. Não é pela torcida e nem por causa de jogadores ou atitudes extra-campo desses jogadores (a perseguição ao Richarlyson é mais uma consequência do que uma causa). Ser "o bambi" me ofende. Me ofenderia mesmo que eu fosse gay. Porque ser gay é uma questão de opção sexual. Ser "bambi" é uma decorrência da falta de honra.

Existe um movimento que as pessoas chamam de "pussificação" (ou, sem apelar pro estrangeirismo, "embucetamento") do futebol, que consiste em joguinho de bastidores, ações de marketing frescurentas, as absurdas punições extracampo do STJD, jogadores com discurso pronto, politicamente correto. Enfim, um futebol cada vez mais profissional e menos empolgante. Os rumos do São Paulo parecem se enquadrar totalmente nisso. Somos o clube mais rico, o mais competente. E também o mais inócuo. Nossas ações de marketing são risíveis (toda semana recebo um email do restaurante que fica no Morumbi, mas qual foi a última camisa comemorativa que o Tricolor lançou?), nossos jogadores jogam com o dólar na ponta da chuteira, o presidente se concentra em cada picuinha... Até o nosso blog do torcedor no Globo Esporte tem um cronista insosso, adepto do bom mocismo e das piadinhas de firma.

Se parece exagero reclamar desse tipo de coisa, rebato com o óbvio: são essas pequenas nuances que formam a imagem de qualquer coisa. Não somos os bambis porque flagaram uma orgia gay com 50 mil são-paulinos na Praia Grande. Somos os bambis porque repetimos os slogans enganosos da diretoria e aceitamos, passivamente, a rola no rabo que é o joguinho fraco do São Paulo Futebol Clube desde, sei lá, 2007.

Não me importo em ser o bambi, a bicharada, o Elton John que seja. O que enfurece é dar motivo para ser chamado assim. Meu maior sonho, neste momento, é ver o São Paulo entrando em campo de rosa-choque e meter 7x0 na fuça da gambazada indigente. Isso sim é atitude de macho (um tipo de macheza que a maioria dos boleiros-machistas não entenderia, mas não dá pra exigir muito dessa massa ignóbil). Entretanto, enquanto não reunirmos bolas para tanto, aguentaremos os fedorentos cantando que o freguês voltou. Contra fatos, infelizmente, não há argumentos.

Thursday, March 25, 2010

Show do Coldplay: Não Vi e Gostei.

Mais um texto da Tribuna de Indaiá. Ando meio ocupado, minha produção de textos acabase restringindo aos textos da coluna. Aqui vai o do dia 6/03.

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Na última terça-feira (02/03), foi com algum pesar que perdi a apresentação do Coldplay no Morumbi. Não sou o maior fã da banda que você vai encontrar, mas acho o último álbum, Viva La Vida, honestamente bom e a faixa-título sensacionalmente catártica. E mais do que isso, observo no Coldplay sintomas do que é o mundo hoje (que eventualmente podem se tornar tendências do que será o mundo amanhã).

Primeiro que é uma banda cuja fama surgiu de dentro para fora, de um miolo indie para a grande mídia (mainstream). Se parece lógico que as coisas funcionem assim, é bom lembrar que durante anos o público foi forçado a aceitar astros pré-fabricados, entuchados goela abaixo diante da falta de opções e de acesso a alternativas.

Agora, a coisa mudou, e me parece que não só na música, mas na cultura como um todo. O caso do Coldplay, a banda que começou tímida, com clipe intimista na praia chuvosa e que neste momento é a maior banda do planeta, com cancha de “guia das multidões”, é bastante característico. Hoje em dia, para um grande empresário, vale mais apostar em um ícone consagrado em determinado nicho, tribo e/ou gueto cultural do que lançar o próximo “grande sucesso” sem nenhuma base de amostragem. Você vê isso até no Big Brother Brasil, onde alguns dos integrantes desta última edição foram selecionados a partir de uma fama prévia na internet (infelizmente, a web ainda é nicho, pois não é acessível para um monte de gente).

O Coldplay surgiu em 1997 em Londres, como Starfish. Depois de shows em clubes locais e alguns EPs independentes, assinaram com a Parlophone, selo da EMI famoso por lançar os Beatles no começo dos anos 60. Em 1999, o primeiro disco, Parachutes, soava como Travis e Radiohead e teve dois grandes sucessos, Trouble e Yellow. No entanto, esses hits serviram mais como cartão de visita do que como catapulta para o sucesso. Nos anos e trabalhos seguintes, a banda foi consolidando sua fama e crescendo sem parar com In My Place, The Scientist, Clocks, Fix You, etc. Cada vez mais, as canções do vocalista Chris Martin alcançavam o grande público, que gostava e queria mais. Foi mais ou menos nessa época de afirmação que minha mãe virou fã da banda, o que me fez imaginar que, talvez, eles não fizessem mais parte do universo independente “faça-você-mesmo”. Nesse meio tempo, Chris Martin ainda se casou com a mega atriz Gwyneth Paltrow, defendeu causas nobres e tornou-se alvo de paparazzi.

Com tudo (até a perseguição dos tablóides!) conspirando para um sucesso estrondoso, seria estranho que um disco de vocação tão grandiosa como Viva La Vida não desse certo. Coincidência ou não, Chris Martin acabou virando uma espécie de messias justo quando seu álbum mais com cara de U2 viu a luz do dia. O que ele estaria se tornando? Uma versão atualizada de Bono Vox? E o Coldplay? É o novo U2?

Faz todo sentido. Se hoje em dia Bono tem, para os mais jovens (e pode me colocar nesse bolo), mais cara de líder político pentelho do que de músico, Martin ainda apresenta a vitalidade e até certa sofreguidão necessária para ser respeitado como rockstar altruísta. E não dá pra negar que o guitarrista Jonny Buckland bebe na mesma fonte que o escudeiro de Bono, The Edge.

Está criado o cenário. Numa época em que praticamente não existem mais conjuntos musicais com cara de arrasa-quarteirão, o Coldplay é a exceção que confirma a regra. Você que foi ao show, pode ter certeza de uma coisa: assistiu à banda que está a um passo de representar a geração atual durante muitas décadas. Se os membros do Coldplay são as pessoas certas para isso, eu não sei. Mas você não sente um friozinho na barriga vendo a História acontecendo na sua frente?

Wednesday, March 10, 2010

Não Há Cova Que Segure Johnny Cash

Escrevi este pra Tribuna, saiu há duas semanas. Meu preferido até agora. Dei uma leve chupinhada no Lester Bangs no finalzinho do texto, vê se saca aonde.

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O lançamento mais importante a sair nesta semana [Nota: 22 a 27 de fevereiro] foi um disco póstumo. American VI: Ain’t no Grave não é nem o primeiro álbum a sair depois da morte de Johnny Cash e nem o melhor da série American – que consistiu na “redescoberta” do artista pelo superprodutor Rick Rubin. Mas a importância do disco está descrita ali no meio da frase anterior: “Johnny Cash”.

Se você não conhece Cash pela sua música, é possível que tenha assistido à sua cinebiografia, erroneamente intitulada Johnny & June no Brasil (como se a vida do maior nome do country americano fosse uma comédia romântica bem bobinha). Mas Joaquin Phoenix é muito mais bem apessoado do que o personagem que interpreta e pode ser que você se confunda: Johnny Cash tinha cara e voz de velho desde sempre, e foi assim que apareceu para o mundo, com With His Hot and Blue Guitar.

Logo nesse primeiro álbum, sua música mais famosa e emblemática apareceria. Folsom Prision Blues foi provavelmente a primeira canção composta pelo cantor, quando mal sabia segurar uma guitarra, e fala sobre as agruras de estar preso. Mesmo sem nunca ter pisado numa carceragem, Cash conseguiu captar o espírito da coisa e tornou-se uma espécie de padroeiro dos presidiários americanos. Esse tipo de atitude, somada à sua voz honesta e música cascuda, garantiu moral e “credibilidade de rua” para o músico entre os fãs machões de country nos anos 50.

Mas ele nunca se limitou à música caipira. Surgido na gravadora Sun, casa de Elvis Presley, Carl Perkins e Jerry Lee Lewis (além de outros pioneiros do rock), chegou a gravar alguns rocks com os três, numa sessão lendária nos estúdios da gravadora. O nome é sugestivo: The Million-Dollar Quartet. Além disso, durante sua carreira, Johnny gravou cerca de 10 álbuns de hinos religiosos, em homenagem à sua formação musical, nos campos de algodão do Arkansas, quando ainda era J. R. Cash (seus pais não conseguiram pensar num nome e o batizaram apenas com as iniciais).

A partir do final dos anos 50, sua carreira decolou e seus discos vendiam cada vez mais. Mas ele se afundou na anfetamina, o que tornou a maior parte dos anos 60 um inferno para o cantor. Em 1967 ele se divorciou de sua primeira esposa, Vivian e no ano seguinte conseguiu largar as drogas. Então, no palco, pediu sua companheira de duetos (e eterna musa) June Carter em casamento. Logo depois, os dois se casaram e mais tarde cantaram para uma audiência de detentos da prisão de Folsom, cujo registro acabou se tornando um dos mais importantes álbuns ao vivo e certamente o mais famoso de Cash.

Os anos 70 foram melhores para J. R., que se tornou “o homem de preto”, por causa de sua vestimenta, que ele justificou quase como uma tarefa: “Quando nos lembramos dos que ficam para trás/Na sua frente deve haver um homem de preto” (Man in Black, 1971). Cash ainda teve um programa de TV, pediu reforma prisional para o presidente Nixon e montou o supergrupo de country The Highwaymen com Willie Nelson, Kris Kristofferson e Waylon Jennings. Nos anos 80, porém, sua fama começou a minguar e é aí que entra Rick Rubin.

O produtor e dono da gravadora American Recordings assinou com o homem de preto e investiu na sua carreira. Os discos de Cash pela American mostram um senhor maduro, mas ainda vital. Sua faceta de intérprete capaz de subverter a lógica de uma canção aparece mais do que nunca, com menos composições próprias do que seus álbuns anteriores. Cabeça aberta que sempre foi, ele regravou músicas de artistas como U2, Soundgarden, Beatles e Depeche Mode como se fossem suas. E o resultado é emocionante.

Conforme a série avança, sua voz vai enfraquecendo, mas sem perder coragem e integridade que sempre possuiu. Johnny Cash morreria em 2003. Sete anos depois, Ain’t No Grave ainda é importante porque, como diz o refrão da primeira música do trabalho, não há cova que segure seu corpo. Amém.

Monday, March 08, 2010

Descanse Em Paz, Sparklehorse


Quando escrevi meu top 10 de discos do ano passado neste blog, destaquei a importância e a relevância de Brian 'Danger Mouse' Burton na produção do quarto lugar, Dark Night of the Soul, um disco bonito pra burro. Então, no sábado, seu parceiro na produção do álbum, Mark Linkous se matou dramaticamente com um tiro no coração e, na onda mórbida que sempre segue esse tipo de morte, resolvi escutar um de seus álbuns como Sparklehorse.

Com parcos dois dias de audição, começo a entender por onde se move o espectro musical de Linkous - e até onde se estende sua participação e influência em Dark Night of the Soul. It's a Wonderful Life, terceiro LP do Sparklehorse, é uma ode melancólica à beleza da vida (na Wikipédia esse comentário é feito sobre a música-título, mas eu percebo esse clima durante todo o registro). Linkous se revela como uma espécie de Elliott Smith mais interessado na produção de um álbum. Por isso, mais do que o outro trovador suicidado em 2003, ele consegue trabalhar com influências e sonoridades, chegando a soar até como Radiohead às vezes.

Com essa maior possibilidade de brincar com estilos, vêm as participações de Tom Waits, Nina Persson, Vic Chesnutt, PJ Harvey e John Parish no disco. Anos depois, Persson e Chesnutt apareceriam no supracitado Dark Night of The Soul. Se a atuação de Linkous no projeto tivesse se limitado a conseguir participações incríveis para as músicas, sua importência já seria imensurável. Mas It's a Wonderful Life (e me perdoe por só conhecer esse até o momento) mostra direções musicais - melodias bonitas e, ao mesmo tempo, sujas - que permeiam o todo do trabalho com Danger Mouse.

O bonito dos dois discos de Mark Linkous que ouvi até hoje é notar como as músicas podem ser modificadas e adequadas às inúmeras parcerias e influências sem que percam sua identidade, sua espinha dorsal. Em outras palavras, quando Linkous imprime sua digital numa canção, é foda de apagar. E, na minha humilde visão, é isso que faz um grande artista.

Que este texto sirva para prestar a homenagem devida ao músico e para que ele me perdoe por ignorar sua importância por tanto tempo.

 
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