Friday, February 16, 2007

Teenage Angst

Meia noite e quarenta e quatro, coloquei Nevermind pra tocar, peguei uma cerveja lá embaixo (Bavaria é horrível, shame on you, dad!) e roubei dois cigarros do meu pai. É, roubei, infelizmente ainda tenho 17. Patético, não? A adolescência é patética na maior parte do tempo, já me acostumei.

Embora tenha irritado insuportavelmente Kurt Cobain o artigo que dizia que “a angústia adolescente compensou”, a ponto de ele abrir seu disco seguinte com essa frase em tom irônico, definir Nevermind e o Nirvana como um todo como “angústia adolescente” talvez tenha sido a mais brilhante significação para o disco que alguém poderia ter pensado.

Kurt definiu esse período de fortes conflitos hormonais e morais como ninguém. O enfado, a decepção, o asco e a própria angústia estão em Nevermind da forma mais limpa possível, mas ainda sim bruta. Talvez seja por isso que o disco também é um antídoto forte, entra na mesma freqüência da tua fúria ou desespero ou tédio e te cura, no fim das contas. Desde uns tempos atrás, tenho estado incrivelmente emputecido com algumas questões e hoje à noite, quando a coisa chegou no auge, não conseguia tirar o riff de Teen Spirit da cabeça.

Smells Like Teen Spirit é o carro chefe do álbum com muita justiça, porque não só é a faixa com maior apelo comercial como também escancara a idéia do que é a fase entre os 13 e os 19 anos, numa alegoria musical bem incisiva. Uma música simples, com uma base e um refrão e um solo bem mais ou menos (e curto) se estica por cinco minutos e se torna uma coisa muito mais dramática do que deveria ser: milhões de discos vendidos, mania, encheção de saco, Kurt, Krist e Dave mais presentes na sua casa do que aquele seu tio que mora não muito longe e, no fim, um tiro na cabeça que até hoje inspira discussões acaloradas entre garotinhas de 13 anos sobre quem o proferiu.

E Kurt foi sim o primeiro. Mesmo que o Iggy já tivesse dito “I’m losing all my feelings, I’m running out of friends”, mesmo que outros já tenham dito que nasceram para perder, nenhum o fez com o tédio do Nirvana. Hail!

Tuesday, February 06, 2007

Arcade Fire - Neon Bible


Recentemente, tive uma discussão sobre indie. O que é? Como soa? Quem é indie? A verdade é que, afora as incógnitas que vão sempre assombrar nossa cabeça, cheguei a uma conclusão bem elucidativa: o que é chamado de indie é algo tão abrangente, musicalmente ou não, que fica difícil não gostar de pelo menos alguma coisa dentro do estilo. Essa é a grande sacada do rótulo, cativar desde os fãs de “eletro-something” tipo Kasabian até os que gostam do country agitado do Kings of Leon. Então, qual o mérito de uma única banda que, em dois discos, passeia entre dois estilos diferentes, volta, torce, estica, mantém o hype e a qualidade inquestionável?

05 de março é o dia marcado para o lançamento do segundo disco do Arcade Fire, Neon Bible, mas graças à internet, veículo-chave, catalisador e principal outdoor do “independente mainstream”, quase-todo-mundo já está ouvindo-o. Neon Bible é o nome do primeiro livro de John Kennedy Toole e é sobre a vida de um jovem chamado David. Nascido e criado numa cidade rural da Louisiana entre as décadas de 30 e 50, o protagonista se vê num cenário dividido por dilemas religiosos e, consequentemente, políticos. O pano de fundo ideológico serve para ilustrar e interferir nas tragédias da família de Dave. Partindo dessa premissa do livro, a banda estabeleceu uma comparação, bastante contundente e lógica, com a atual situação da América do Norte e do mundo. O Jihad petrolífero organizado por Bush gerou tamanho caos que até uma banda como o Arcade Fire, cujo primeiro disco é totalmente autobiográfico e intimista, se viu impelida a gritar sobre isso.

Essa é a principal diferença entre Funeral e Neon Bible, o primeiro fala da tragédia particular, o segundo fala dela incutida no panorama mundial, conta histórias, autobiográficas ou não, sobre pessoas vivendo na América de hoje. A maioria das músicas tem alguma referência sobre aviões se chocando em prédios aos pares, pedidos ao espelho mágico para saber onde cairão as próximas bombas, relutância em lutar numa guerra santa ou algum outro fantasma circunstancial da guerra contra o terror que usa o terror em seu serviço. O direcionamento novo, e o próprio medo em si, exigem uma sonoridade diferente. A música de Neon Bible é mais grandiosa e mais melódica do que a de Funeral. O motivo é de fácil de explicar: quando você fala da dor de perder um parente, pode manter um clima experimental e fechado, mas quando vê cidades sendo destruídas seguidamente, é como se fosse seu dever aumentar um pouco as coisas, para atingir mais gente. Picasso não colocou um ponto bege na tela e chamou de “Guernica”. Criou um quadro forte e dolorido, ciente de que em casos como esse, deve-se causar impressões. O Arcade Fire também sabe disso e, diferente de gente como Bono Vox, não tem ninguém na banda que seja arrogante o suficiente pra se achar o último pacifista do rock and roll, o que valida o esforço e angaria simpatia da parte de quem ouve.

Black Mirror abre o disco e ainda parece um pouco com música do Funeral, mas é mais sombria do que tudo do disco anterior. “Se despeça do Arcade Fire antigo”, diz ela por quatro minutos e onze, um tempo bastante generoso para uma despedida. Pouco generosa seria uma banda com tantos músicos, alguns multi instrumentistas, ficar estagnada no sucesso e no hype do som do disco predecessor. Keep the Car Running tem um ritmo convulso de pós punk e é uma das mais grudentas. Lá pelo meio tem um coro que lembra demais Cure (além da voz de Win Butler, que soa naturalmente com a de Mr. Smith), com aquela festividade meio angustiada... Tipo “Sexta feira estou apaixonado”, e você responde “É, mas provavelmente você vai se matar no sábado”.

O Arcade Fire festeja. Brinda à alta tecnologia, à liberdade, whatever... Festejar o que? Os americanos têm medo. Enquanto dançam e ensaiam seus coros, estão aterrorizados em pensar num avião caindo sobre suas cabeças numa terça feira qualquer. Então rezam. Rezam com a mesma fé cega dos cristãos Republicanos, dos Xiitas, dos Sunitas, dos judeus de Israel, a fé cega que move a guerra (além de outros aspectos bem pouco, digamos, paroquiais)... Saca? É esse o ponto, o clima do disco todo. E é um clima tão presente que torna o álbum quase conceitual. Falam de uma coisa que, nesses últimos cinco anos de “Bush-Oriente-Médio-E-Terrorismo”, ninguém estava falando: do indivíduo metido à força no turbilhão de terror e vaidade dos líderes mundiais.

Ironicamente, a banda dispensou produtores e gravou Neon Bible numa Igreja, abandonada acho, em Montreal. O som fantasmagórico do órgão contribui muito para Intervention, a melhor melodia inédita do disco, e My Body is a Cage também se vale do instrumento para o clima “fantasma da ópera” que tem, talvez um dos mais memoráveis dos anos 2000, e que fará qualquer garotinho blasé molhar as calças xadrez.

Intervention é a melhor melodia inédita do disco porque a melhor mesmo é uma regravação. 8 entre 10 fãs de Arcade Fire (e eu não pesquisei pra afirmar isso, foda-se) têm No Cars Go como uma de suas, vamos dizer, três preferidas da banda. A música apareceu pela primeira vez no lendário (e ligeiramente renegado) EP auto intitulado, de 2003, e agora volta, melhor ainda e provando que ninguém ali tem muitos pudores em fazer o que quiser com a própria música, ainda mais quando ela é tão adequada à temática do disco. Isso é sim é ser fodão!

E no fim, depois de conseguir sintetizar todo o significado dos tempos modernos na alegoria de um único livro, o eu lírico da banda de Montreal se coloca na pele do cidadão que é e clama por sua vida. “Set my spirit free, set my body free” (Liberte meu espírito, liberte meu corpo) é a última frase do disco.

Teste do segundo álbum? O que é isso?

Sunday, January 28, 2007

Small Talk de Começo de Ano... Hell Yeah!

Está aberta a temporada de lançamentos de discos de 2007, ou qualquer besteira do tipo. Janeiro é um mês mezzo morto, mezzo vivo, vários anúncios, pouca coisa concreta. Mas o vazamento do disco novo do Arcade Fire na última sexta abre oficialmente o ano de 2007 na música. Mais que isso: Andrew Bird, Fall Out Boy e Clutch já têm seus novos trabalhos sendo ouvidos por aí. Além disso, o Pearl Jam anunciou uma segunda tour na Europa em dois anos, e Young Modern, novo do Silverchair, deve vazar nos próximos dias.

Para esse ano são esperados Queens of the Stone Age, Metallica, Kings of Leon, Chris Cornell, Brant Bjork, Coldplay, Courtney Love, Los Hermanos, Velvet Revolver, Black Crowes, Smashing Pumpkins, Fu Manchu... AC/DC? Jerry Cantrell? John Frusciante? DVD do Matanza? Chinese Democracy??? Há!

A idéia é dar uma "profissionalizada" nesse blog, ou coisa do tipo, comentando os lançamentos, que afinal, são os discos que são resenhados no "mundo lá fora". Por isso, resenhas de discos de 72 vão ser menos frequentes, ou então até serão frequentes, se eu adquirir mais um par de braços e fizer atualizações a cada 2 ou 3 dias. É uma idéia, pode ser até uma meta. Pelo menos até julho.

E para isso, pretendo aquecer... Fazer uma pré temporada (ainda que esteja muito em cima da hora) lendo alguns certos livros que me inspiram. Vai ser uma beleza, amiguinhos!

Neon Bible, o novo disco do Arcade Fire, vazou e, embora eu tenha relutado em baixar, não resisti. E valeu a pena. Ainda não é nada definitivo, preciso esperar a empolgação passar, mas tá com cara que é melhor que o Funeral. Enquanto o primeiro disco é mais experimental, esse novo parece mais melodioso e intenso, além de ter forte influência do caos que o mundo (aquele que a América do Norte manda, sabe?) está inserido. E, olha que legal, parece totalmente sincero.

Alias, falando em sinceridade, o assunto Eddie Vedder morreu. Cansei de falar dele, cansei de gente que não sabe escrever uma carta pra mãe vindo reclamar de mim e, sobretudo, cansei de encarar a decadência da minha banda preferida, quero me alienar disso, quero pensar que o Pearl Jam ainda é lindo e maravilhoso!

Ouvindo: No Cars Go - Arcade Fire

Friday, January 26, 2007

Eddie Vedder e a Decadência

Falar mal de uma banda com “status inatingível” como o Pearl Jam pode dar merda. E mesmo que você jure de pé junto que é sua banda preferida, afinal, o povo vai chiar, vai duvidar de você, vai tirar conclusões precipitadas. Bem, é disso que é feita a crítica musical, e se não é polêmica, não é boa.

Alguns questionamentos sobre o artigo "Pearl Jam e a Decadência" foram levantados, e certos aspectos ficaram mal explicado ou mesmo obscurecidos pelo meu texto, levemente disléxico às vezes.

Derrubar Eddie Vedder é complicado, porque mexe com os brios das pessoas, amedrontadas em ver um herói seu caindo por terra. Ora, e será que elas não estão amedrontadas justamente porque ele não é mais o que era? Será que Vedder só é tido em tanta estima simplesmente por ter sido o que foi? Repito, ele era o símbolo do rockstar que todo mundo queria ser: Maluco e porra louca, sim, mas articulado e engajado quando sentava à frente de alguém com um Q.I. de uns dois dígitos que tentasse ou quisesse entendê-lo. E agora, o que ele é?

Muita gente ridicularizou (ou só tentou, quando Tico e Teco estavam sonolentos) o texto naquela parte em que a paixão ostensiva do ex frentista pelo surf era questionada. “Vedder sempre surfou, nhé nhé nhé!”. E eu não sei? Mas precisa fanfarrear tanto? Esse culto exagerado ao próprio hobbie, inclusive, é mui contraditório. Eddie ultimamente parece um daqueles caras, tipo Donavon Frankenreiter, que só consegue vender disco se mostrar que sabe subir numa prancha e que tem casa no Havaí. E são os próprios fãs mais puristas que falam que o Pearl Jam não deve satisfação pra ninguém, que não precisam fazer tipo e nem vender disco. Cadê a coerência aí?

Os menos puristas, os que admitem que uma banda tem que vender discos, sim, discordam de mim ao dizer que a nova verve política de Vedder e seus companheiros serve pra vender disco, realmente, mas que ela não é nem um pouco enfadonha. Qual o que! Se os discursos políticos do Pearl Jam não são chatos, minha noção de diversão anda bem distorcida. Quem lembra daquele bootleg deles que chamava “No Fucking Messiah”? A atual fase de Eddie Vedder toma conta de desmentir esse título, seja o sentido dele qual for. O cara está crente de que é a solução perfeita e a curto prazo do problema dos Estados Unidos e faz questão de deixar isso bem claro quando, de uma forma muito bem humorada, muito en passant, anuncia suas músicas políticas ou fala mal de alguém (Da política, claro! Ele não quer ter inimigos no meio da música, ele é Mr. Nice Guy) com aquela propriedade, com aquele know-how falso que tanto me enoja. Dos shows da turnê 2006 do Pearl Jam, só me lembro de ter percebido sinceridade, e, consequentemente, sentido simpatia num discurso do frontman em St. Paul, acho. Ele comentava, nitidamente surpreendido, a decisão de um bilionário em doar a maior parte da sua fortuna (coisa de US$34 bi) para a caridade. E olha que interessante, essa fixação do Vedder por caridade (que não critico, acho bonita, aliás) faz parte da sua “indumentária” política e, foi só ele parecer sincero, que eu já simpatizei com a causa.

Rock sempre teve a ver com sinceridade, nunca foi um estilo que demandasse “estar por dentro”, se incluir. Você pode não tocar nada, mas ser criativo, e você já é um rockstar. Vedder parece que desaprendeu isso. Abnegou da música em prol da panfletagem, quis entrar pro grupinho dos garotos legais. É como se ele se obrigasse a escrever sobre os mesmos temas que todo mundo está escrevendo em vez de ir de acordo com seus sentimentos, suas vontades. Repito o que eu disse anteriormente para uma das pessoas que comentou o fatídico texto: Eu duvido que a essa altura o Eddie fosse capaz de escrever uma música como Sometimes sem se sentir um porco alienado. E não é nada disso, o talento não corresponde a demanda, a inspiração não vem sob condições. Isso que Vedder sente é medo.

Eddie Vedder se revelou, na verdade, um belo cagão. Nunca teve colhões pra sair em carreira solo, nunca os teve pra montar uma outra banda e não está os tendo agora, quando escreve música política no “vai-da-valsa”. É fácil se apoiar no Pearl Jam, uma das últimas bandas intocáveis, difícil é colocar teu nome na capa de um disco e falar tudo o que você sente sem mais quatro caras dividindo a conta do pato. E não é que o Vedder não contribuiu, e muito, para o Pearl Jam ser o que é, mas usar a banda como salvaguarda é o maior sinal de que, talvez, ele não a ame mais como a gente ainda ama.

Outra engraçada do último ano: EV simulando uma limpeza de bunda com as páginas da Rolling Stone que tinham a matéria com ele. Molecagem sem classe e constrangedora. A senilidade teatral de Vedder chegou a níveis que ultrapassaram o limite seguro, protestando contra uma matéria que ele mesmo contribuiu e autorizou! Ou será que obrigaram-no a participar da revista, como parte de alguma conspiração? Será que apontaram uma arma na cabeça da mulher dele (Aliás, mais alguém lembra? “Model, role model, roll some models in blood”)? Bem provável que não.

Qualquer um que tenha polegares invertidos sabe que as atitudes de Vedder andam tão fora de moda quanto polainas. Dizer que o Pearl Jam já é carta fora do baralho é doloroso e precipitado, mas se as coisas continuarem assim, vislumbro um fim melancólico pra uma das bandas mais emocionadas e sinceras que eu já ouvi falar.

Oh, e só uma recomendação. Corta essa de “It’s Evolution, Baby!”, isso aí é clichê e me faz pensar que você não é uma pessoa interessante.

Tuesday, January 23, 2007

Pearl Jam e a Decadência

Músicos de rock não são como vinho. Ou pelo menos uma boa parte deles não é. A máxima do Rock and Roll ainda é a mesma de James Dean e River Phoenix: “Viva rápido, morra cedo, deixe um cadáver bonito”. E não é preciso ser tão literal quanto a “morrer cedo”, basta, sei lá, se lançar em uma carreira solo obscura, virar embaixador da boa vontade da Unicef, abrir um restaurante, trabalhar de encanador...

Veja só como a idade não faz bem às bandas: Os Rolling Stones viraram uma piada de mau gosto, o U2 hoje se resume ao outdoor animado de Bono Vox, o AC/DC não fez nada digno de nota desde Back in Black e nada com qualidade desde a morte de Bon Scott. Eu poderia ficar horas aqui citando bandas que morreram e só esqueceram de deitar, mas acho que os três exemplos acima são bem ilustrativos. E paralelamente, não é fácil perceber quando uma banda está em processo de declínio.

Ou até é, se prestarmos atenção em alguns detalhes moqueados pela aura cool dos rockstars. Como por exemplo, a síndrome de Peter Pan que insiste em acometer gente tão díspar quanto Elvis e Wacko Jacko.

Alguém lembra da psique do Rei por armas de fogo? E daquela palhaçada de colecionar distintivos de polícia? Faz favor, o cara atirava em postos de gasolina, ele queria ser o Kojack... Mas não rolava, porque daí ele lembrava que, além de ter uma bela cabeleira, tinha que fazer música pra comprar o leitinho da filha e quem sabe mais um Cadillac de ouro maciço. Já Michael Jackson, bem, a casa do homem chama Neverland (ou chamava, parece que a receita abocanhou o shangri-la do popstar bicolor), além de tudo que todo mundo ouviu falar, por isso me economizarei.

Mas se tem alguém do qual eu posso falar, cuja decadência está sendo esfregada na minha cara, é Eddie Vedder. Entenda, ele parece estar numa ladeira, e sem freio. E é engraçado, porque o cara sempre foi uma das estrelas mais competentes que eu já vi por aí. Era porra louca o suficiente para pular de uma altura de 4 metros, num dos stage dives mais intensos que eu já vi, mas não ficava vomitando em estúdios de TV, sabia falar, sabia ser gente. Encarnava a máxima de que o segredo do sucesso é a moderação, e levantava multidões por onde passava.

Agora é um típico tiozinho na pior crise da meia idade. Ostenta pra quem quiser ver que ele sabe pegar onda, que tem amigos havaianos, que toca ukelele com Ben Harper e chamou pro Pearl Jam um tecladista que parece um vendedor de peixe de Waikiki. Veja bem, eu gosto do Boom Gaspar, acho-o um tecladista fenomenal, com uma presença magnífica, mas não tem como negar que ele só está lá pra servir de suporte pra nova fantasia tropical do senhor Vedder.

Além disso, nos últimos tempos parece que é tipo melhor amigo de Bono Vox e está ficando tão politicamente pedante quanto o beijoqueiro irlandês. Apesar de ter grandes sacadas, o mais recente álbum do PJ exagera no conteúdo político. Só pra lembrar, quais são mesmo as melhores músicas deles? Quantas dessas falam de política?

Pois é, mas tudo isso seria facilmente relevado se a música estivesse a todo vapor. Porém a acomodação finalmente bateu no Pearl Jam e, principalmente, em Eddie. Ele deu uma pesquisada aqui e ali, fez uma ou outra conta, chegou ao formato ideal de show para agradar todos os tipos de fã da banda e aí ligou o piloto automático. O famoso ovo na boca foi substituído por uma voz anasalada tão insuportável, acompanhada por solos tão infindáveis e babacas e uma bateria tão sem tesão que eu nem me dou mais ao trabalho de baixar aqueles famosos bootlegs oficiais. Pra que? Eu já sei como começa, como prossegue, quando pára e como termina. Talvez essa história de “setlist que varia” do Pearl Jam seja uma farsa tão contundente quanto o Milli Vanilli.

Enfim, não há muito a se fazer quando seu ídolo chegou naquela hora de colocar as chinelas de pelúcia, mas ainda insiste em fazer rock. Só torcer pra que ele abra um restaurante ou entre em coma.

Tuesday, January 16, 2007

Matanza em São Paulo (13/01/07)

Neste sábado fui ao show do Matanza no Hangar 110 em Sampa. Já é a quinta vez que o Matanza toca em São Paulo desde setembro. Deve dar dinheiro tocar por lá.

Foi um show fodido pra caralho, porra, os caras da banda elevam à décima oitava potência esse negócio de que insultar é uma arte. Seja empurrando pra baixo os cretinos que sobem no palco pra dar mosh, seja apresentando as músicas de uma forma, hum, pouco ortodoxa ("Vai tomar no cu, vovó! Bom mesmo é quando faz mal!") ou simplesmente tocando suas músicas rudes e desafiadoras.

Comecei a noite bebendo cerveja no bar da frente. Associei duas coisas de lá ao Rock Rocket, e concluí que seria a banda de abertura perfeita para qualquer show do Matanza precedido por um esquenta num boteco putrefato. Explicando: logo no começo, vi uma garota realmente bonita... Fiquei quase apaixonado (hahahaha, ô!). Fiquei cantarolando "A Mulher Mais Linda da Cidade" mentalmente até entrar no banheiro do lugar. Nojento, como em todo bar de esquina... Daí, era inevitável não pensar em "Cerveja Barata". Teria sido bom ver o Rock Rocket antes do Matanza, tendo em mente as duas outras bandas de bosta que eu já havia visto abrirem pra eles num show anterior. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. A banda de abertura parecia uma merda, e talvez realmente seja. Mas quando a frontwoman japonesa de cabelo moicano e meia arrastão tocou o riff de Whole Lotta Rosie, putz, eu fiquei realmente achando aquilo a coisa mais foda do mundo. Eu estava pegando cerveja na hora, e saí gritando pra todo mundo que via na frente "AC/DC, porra! AC/DC!!". Nada mais normal.

Acabou o show da japa punk, e todos no Hangar ficaram assim, esperando o Matanza. Uns 20 minutos e uns três cigarros depois, a banda entrou. Quer dizer, desde logo depois da abertura, já dava pra ver os integrantes da banda terminando de checar os últimos preparativos para entrar em cena (tem uma cortina, mas sabe como é, a molecada que fica na frente não resiste e espia). Mas nada disso importa. Quando subiu no palco em definitivo, o Matanza se transformou: Jimmy parecia realmente puto, Donida girava a cabeça como um ventilador sem errar uma única nota, China estava se divertindo para cacete e Fausto mantinha o ritmo com seus óculos escuros, emulando um Guy Patterson fanfarrão.

Abriram com a seqüencia matadora de Meio Psicopata e Interceptor V6, sem dúvida nenhuma duas das top 10. O show foi selvagem, eu me segurava pra nao cair no meio daquele bolo de gente se acotovelando e empurrando e me esforçava para desviar dos que se jogavam do palco. Essa brutalidade, esse caos de braços e punhos é exatamente a síntese do que o Matanza prega. E é nesse "cada um por si e deus contra todos", que você entende o que é arte do insulto: socos, cotoveladas e impropérios mútuos. São nos concertos do Matanza que fica mais evidente essa coletividade entre a banda e o público. Você emputece o vocalista Jimmy subindo no palco DELE e ele te manda montar a SUA banda, se quer subir no palco. E que se encostar nele enquanto lá em cima, tá fodido. Dizem que um dos caras que ele empurrou teve de sair dali carregado, que bateu a cabeça quando caiu. Quer atitude mais coerente de um artista do insulto?

Sendo o showman que é, Jimmy sabe que um show de rock é feito de rocks. Então não se alonga muito no culto à própria personalidade e a conversinhas tolas, apresenta as músicas de um jeito rápido e grosseiro, mas engraçado. Talvez seja por isso que a admiração por ele só cresça e cresça, o efeito reverso, mas provavelmente esperado. Mas até esses textos mais cultuados cansam o frontman, que é, afinal, humano. "Já cansei de falar essa merda todo show! O pior pesadelo de um homem, bla bla bla bla bla, ela roubou meu caminhão", diz ele, antes da primeira música de trabalho da carreira do Matanza. Antes era: "O pior pesadelo de um homem não é ela roubar sua comida, não é ela roubar sua bebida, não é ela roubar seu dinheiro... O pior pesadelo de um homem é ela roubar seu caminhão". Entende? A idéia agora é subverter tudo o que havia sido feito e deixar o novo show coerente com o título do novo disco.

E isso é feito muito bem, porque é realmente uma apresentação totalmente diferente de qualquer outra anterior. Contribuem para isso o aspecto supracitado e o set list maleável, característica das bandas que são grandes ao vivo. Nem as covers de Johnny Cash, praxe, mantêm-se. Na primeira vez que eu os vi, foram San Quentin e I Got Stripes. Dessa, Leave that Junk Alone e Cry Cry Cry. Além disso, ainda pude ouvir Imbecil, E Tudo Vai Ficar Pior e Ressaca Sem Fim. Bom, muito bom.

No fim, todos saíram de lá satisfeitos e cantando alto as músicas da banda. No metrô, enquanto ia embora, um último fato serviu para fechar o balanço da noite de forma bastante coerente: um bêbado que cantava alguma coisa ininteligível ficou me enchendo o saco incessantemente para eu fazer air guitar enquanto ele cantava. Mais ultrajante, impossível.

Monday, January 08, 2007

John Frusciante - Shadows Collide with People


Eu deveria estar dormindo. Faltam dois minutos pras quatro agora, e eu estou aqui fazendo um review. Pior: continuo com a minha mania irremediável de só fazer análises de álbuns relativamente velhos. Veja só, 2007 acaba de despertar em berço esplêndido e eu aqui ouvindo, absorvendo e tentando transpor para zeros e uns um disco de fevereiro de 2004. Mas vá lá, é o melhor disco de 2004! Possivelmente um dos três melhores dessa década (que ainda está longe de terminar, é verdade). Exagero? Tente escutar Shadows Collide With People e não considerar o disco, pelo menos, acima da média.

John Frusciante, o prolífico guitarrista dos Red Hot Chili Peppers, é um dos maiores músicos das décadas de 90 e 00, e meu sonho era vê-lo gravando numa banda com Jeff Buckley e Brant Bjork. Mas deixando isso de lado, são só devaneios do imaginário musical das dream bands, é realmente notável a maturidade musical que John atingiu em tão pouco tempo. Não estamos falando de Sinatra ou algum outro cantor que teve 50 anos pra burilar sua música tranqüilamente. Somente em 1989 ele gravou seu primeiro disco com os Chili Peppers e, mesmo assim, nesse ínterim, foi até o inferno e voltou (com o perdão da citação a Justin Hawkins). Duvida? Ouça então Smile From the Streets You Hold, disco de 97 que coincide com a pior época nas drogas de John e que foi feito pra conseguir dinheiro pra heroína. Se você conseguir imaginar a trilha sonora para um trapo ensangüentado sendo torcido sobre um moribundo, ou alguma coisa tão deprimente e sanguinolenta quanto, bem, você tem Smile From the Streets You Hold. E não é um disco ruim, exprime algum tipo de niilismo e arrependimento, principalmente o último, que você verá em Shadows Collide With People, mas não tem a classe deste. Quer dizer, um é um junkie desesperado gritando por heroína e o outro se trata de um junkie recuperado, arrependido pelo que fez e pelo que perdeu e também vendo agora a vida por outro prisma.

Shadows... é basicamente um disco sobre arrependimento e volta por cima e isso é passado totalmente para a música, de modo que não é preciso ler o trecho a seguir pra sacar isso.

”This is the time to die
I'm not someone on whom to rely
Chances come and chances go
This is letting you know”

As melodias dão conta de traduzir pra você o que John quer dizer. Entende como isso é, de certa maneira, especial? Basicamente todas elas são intrigantes, não te fazem ficar choramingando com a cara no travesseiro, mas também não são música pra se dançar de cueca pela casa (eu não faço esse tipo de coisa, que fique claro). Foram feitas para mexer com você, de uma forma ou de outra. Exemplo: antes de me pôr a escrever este review, eu estava tentando dormir ouvindo o disco. Mas meu organismo reage a esse álbum de uma forma estranha, num tipo de palpitação da alma, primeiro uma angústia que comprime meu peito e logo depois uma euforia que lateja bem nas paredes internas da minha costela. Pode ter a ver com o instrumental, sim, mas o grande trunfo de Frusciante aqui é mesmo sua voz.

Ela dança pela música toda, primeiro soando normalmente como soaria o canto de um cantor folk bem afinado, depois berrando angustiada, depois sumindo por baixo dos sintetizadores eletrônicos, aí sussurrando, resmungando aborrecida, ressentida... O coro inicial de Carvel é a prova inquestionável de que vocal é sim um instrumento. Poucas vezes vi a voz fundir-se à guitarra, bateria e baixo tão perfeitamente, e essa é a palavra, e tão sincera, também. Porque não estamos falando de fades ou zumbidos, e sim um coro forte e marcante.

E se Carvel escancara a habilidade de John em fazer harmonias, Omission tem como função, além disso, mostrar sua versatilidade ao tomar as decisões que os rumos das suas músicas devem seguir. Inesperada e inexplicavelmente, a música pop e limpa ganha um refrão acelerado (e paradoxalmente doce) e com uma levada eletrônica. E com extrema propriedade, aquilo fazia parte da música o tempo todo e você nem sabia! Não é trabalho só dele, a música tem co-autoria de Josh Klinghoffer, mas tudo bem. O imaginável não imaginado não se limita a Omission.

A princípio, todas as músicas tratam também de serem redescobertas e provarem que a música pop pode ser imprevisível (a idéia aqui era encontrar algum superlativo, mas acho que se é imprevisível, então não há porque fazer comparações). Second Walk, Wednesday’s Song, In Relief, todas, são assim.

Em determinados momentos, músicas sem letra e totalmente experimentais entram pra te colocar flutuando ou coisa do tipo. -00 Ghost 27, Failure 33 Object e 23 Go into End são John Frusciante orbitando em seu casulo, ou podem significar qualquer outra idéia ou alegoria. E essa é a beleza dessas faixas, a discordância que podem causar, e qualquer mito que possam criar.

Musicalmente o álbum supre qualquer necessidade de letra (e isso não é nenhum demérito, é só pensar que o Black Sabbath tem algumas letras bem infantilóides), mas quando o sujeito faz um disco desses, de redenção e arrependimento, ele não pode deixar o essencial se transformar em supérfluo, por mais que tenha o aval para isso. E as letras não deixam a desejar. O tema do remorso é recorrente no disco e a minúscula (mas significativa de qualquer maneira) letra de Regret resume tudo o que John Frusciante quer lidar com seu Shadows Collide With People.

“I regret my past
Stay alone”

Não apenas isso, a música também poderia ser algo como um estandarte da adolescência entediada e dramática que existe por aí. Ou a frase-emblema oficial de todos os ex-viciados em heroína do mundo. Poderia estar numa camiseta que vendesse horrores.

Mas nada disso importa, não é mesmo?

Shadows Collide With People é a redenção definitiva de um artista, que o suga para dentro da dor e esperança dele mesmo e ainda redefine certos conceitos da música pop (mesmo que não tenha influência suficiente pra mudá-los definitivamente). Não é isso que faz um grande disco?

Thursday, January 04, 2007

Nick Drake - Five Leaves Left

Breve explicação: Dois posts atrás (creio), eu disse que queria fazer alguma coisa parecida com o que o Lester Bangs fez com o Astral Weeks, de Van Morrison com esse Five Leaves Left. Paguei pela minha boca grande: meu texto não chega a sequer remeter ao do Lester - em estilo e em grandiosidade. Eu estava enferrujado na secular arte de escrever reviews de disco e não estava me sentindo seguro. Fica aí para registro, anyway.

Agradecimentos especiais ao Shepa, ao Djeguin e ao Rafael, que me deram sugestões preciosas para a resenha.


Nick Drake - Five Leaves Left

Five Leaves Left é o clássico que ninguém ouviu. É um fracasso como sucesso, mas é um sucesso como fracasso. Nick Drake é, naturalmente, um virtuoso. Se o conceito de “virtuoso” é (ou ainda é) alguém que simplesmente domina um instrumento e de olhos fechados faz firulas circenses com ele, eu me recuso a aceitá-lo. Para criar músicas como as que estão em Five Leaves Left, é preciso virtude, talento. É preciso que se tenha uma mente tão brilhante que mal caiba na própria cabeça.

Em 1969, Nicholas Drake não era ninguém, gravou um álbum genial e se tornou famoso e multimilionário? Não foi bem assim. Na “época do rock” de Lester Bangs, um cantor folk de uma cidade do interior da Inglaterra acabava passando despercebido pelos olhos do público, sedento ainda pela novidade do rock and roll. A Island Records também não conseguiu fazer a publicidade devida e o disco vendeu pouco.

A tragédia dos talentosos que só foram reconhecidos décadas depois é uma das mais contadas e ouvidas por todo mundo. Mas dizer que Nick é algo como o Van Gogh do folk é cair um pouco no lugar comum que ambos fugiam, ou pelo menos desviavam naturalmente. Mesmo assim, há semelhanças inevitáveis entre os dois. Como, por exemplo, saber que se está fazendo alguma coisa relevante e não obter fama e como isso afeta o trabalho posterior. Pink Moon e os últimos trabalhos de Van Gogh são bonitos, em parte, justamente por causa do sofrimento causado pela incompreensão e indiferença recebidas por suas artes antecedentes. Ou seja, dá pra ver que isso vai continuar pelas eras e que certos gênios só serão descobertos vinte, trinta, cem anos depois de terem feito seus clássicos de porão.

E não tinha porque Five Leaves Left ser esquecido. Se o cenário artístico e musical da época não era favorável, a mágica da canção acústica e orquestrada de Nick valia qualquer esforço para garimpar até achar o disco de capa verde perdido em alguma prateleira da Virgin Records. Começa com Time Has Told Me, uma das melhores primeiras impressões que um álbum poderia passar. River Man e Way to Blue têm as melhores incursões de cordas que eu já ouvi na música pop. Se é que Nick Drake é música pop. O conceito vulgarizado dela, de música descartável e de rádio FM inclinaria qualquer um a classificar a genialidade musical dele como qualquer coisa, menos pop. Mas se pensarmos em “música pop” como temas de fácil assimilação, então há um enquadramento perfeito. Logo na primeira audição, o álbum parece familiar e aconchegante. E é aí que você percebe que Nick te pegou, que pode ser que esse seja um dos seus preferidos.

Parece que era muito simples para ele compor. Bem, eu não estava lá, mas a naturalidade com que os demônios são exorcizados na música de Drake faz parecer que criar era só um detalhe para ele. Aquele negócio de só ter que começar pra sair alguma coisa boa. É claro que não poderia ser fácil assim, mas parece que até os recessos criativos estão presentes na música de forma inspirada. Ouvir Five Leaves Left é entrar no meio do arco-íris de sentimentos que um ser humano pode sentir e conseguir perceber todos eles. Mas você não define um por um. Assim como é muito fácil ser cativado pelas músicas, é impossível definir por que. Nicholas não abre o jogo, ou nem é possível entrega-lo. Se houvesse uma receita para um disco como esses, aberrações da música pop como Jack Johnson seriam elevadas ao status de gênios a cada álbum novo que cagassem.

Esse é outro aspecto que eleva FLL ainda mais à condição de clássico: sua influência. A música de Jeff Buckley, Rufus Wainwright, Elliot Smith, Isobel Campbell e tantos outros comprovam que a década de 90 não teria sido igual (e tão genial) ao que foi sem o disco (e não só ele, toda a obra de Drake). Nick poderia ter composto Lilac Wine em 1970 e ninguém teria achado estranho. Talvez, justamente pela sua influência excessiva aos cantores solos da década de 90 (acho que eles formam um clube), ele tenha começado a ser descoberto. Tanto que já teve seu nome em cerca de 17 trilhas sonoras de filme desde 1995, entre eles “Os Excêntricos Tenenbaums” de Wes Anderson e o recente drama romântico “A Casa do Lago” com Sandra Bullock e Keanu Reeves.

Porque? Por que Nick Drake é adequado. Qualquer drama que ainda não foi nem escrito já suplica por River Man ou Fruit Tree e Three Hours tem passe livre em qualquer road movie mais sombrio.

Se essas músicas soam tão convidativas hoje em dia, certamente soavam na década de 70. Então, qual o tamanho da frustração sentida pelo autor delas? A catástrofe do reconhecimento de Nick tem como um de seus paralelos a rejeição amorosa, por exemplo. Esforçando-se ao máximo para conquistar a garota que mais ama, tudo o que ele recebe em troca é indiferença. Pior: ignorância. A mulher, a fama, o público, as revistas especializadas nem chegam a tomar conhecimento da sua existência. E cacete! Isso é injusto demais! Não quero dizer que o objetivo dele era se tornar uma estrela de Hollywood, com uma Lamborghini na garagem e cocaína fornecida de graça. Mas poder viver de música, para a música. Ter seus discos pelo menos discutidos pelas pessoas. Porra, o cara teve que trabalhar como programador de computadores em 74! O que fazia um programador de computadores em 74? O que isso tem a ver com música?

Dizem que ele era péssimo ao vivo. Que as músicas eram muito complexas pra serem tocadas ao vivo e que a interação com a platéia não funcionava, que Nick era muito tímido e retraído. Pode ser que seja recalque de quem fez o relato, mas acho difícil, devia ser péssimo mesmo. Apesar das qualidades, suas músicas soam ruins pra serem tocada ao vivo em pequenos clubes. Foram mesmo feitas pra grandes execuções em grandes teatros, com uma puta equipe de apoio. Pode ser que seja aí que esteja o motivo do fracasso de Nick: ele era muito classe pra indústria. Ele não combinava com clubes pequenos e nem com grandes festivais. Não era como Dylan, que fazia seu folk político pra platéias enfurecidas com, sei lá, a guerra do Vietnã, a disco music, Rick Nixon, o que fosse...

Há esse furacão envolvendo tudo isso. Milhões de possibilidades pra Nick não ter ido pra frente e ninguém parece ainda se importar muito (apesar das trilhas sonoras). Mas eu acho que isso não é importante. Ainda (ou, espero, ) existem uns gatos pingados que sabem apreçar toda essa doçura sombria, toda essa fúria encaixotada num quarteto de cordas e qualquer outro paradoxo sentimental que eu ou você quisermos inserir aqui, que um disco como Five Leaves Left proporciona. Ainda bem.

Nick morreu sem que seus álbuns figurassem nas listas da Rolling Stone e da NME, nem que coletâneas com o seu nome fossem lançadas e também pode ter morrido exatamente por isso. Pena. Um dia, Five Leaves Left vai estar ao lado de Led Zeppelin IV, The Dark Side of the Moon, Highway 61 Revisited, Tommy e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Pode levar 10 ou cem anos, mas vai acontecer. É só pensar que o injustiçado Van Gogh hoje tem seus quadros vendidos por 80 milhões de dólares.

Monday, January 01, 2007

2007...

You electrify my life diz:
to ouvindo bright eyes
tendo crises
You're solid gold, I'll see you in hell diz:
eu to ouvindo rock rocket e fazendo pirococoptero


Esse é o espírito, saca?

Thursday, December 28, 2006

...And a Happy New Year

Meu último post de 2006, for you, babes.

Fazendo uma retrospectiva desse Blog, acho que a trajetória dele foi bem comum. Começo empolgado mas de qualidade duvidosa, algumas paradas logo em seguida (em maio não houve sequer um post) e mais agora pro fim eu acho que eu acertei a mão (eu conto a partir do Review do Big Fish. Alguém mais concorda?). Falar mais de música e cultura pop e menos da minha vida pessoal (a da Globo foi inevitável).

Quero escrever um review, aliás, eu estou escrevendo um review. E isso é incomum, porque meus textos geralmente acontecem numa tacada só, aquela coisa de separar 2 ou 3 horas da tarde pra escrever. Realmente, minha "fluência literária" parece que está em recesso (como os nossos digníssimos parlamentares) e eu estou levando bem umas duas semanas pra escrever esse review. Quando a inspiração vem eu escrevo uns parágrafos. Adianto qual disco é: Five Leaves Left, do Nick Drake. Por ser o que é pra mim, eu quero fazer alguma coisa realmente especial, tipo como aquele texto sobre o Astral Weeks do Lester Bangs. Não que eu queira ou consiga fazer uma análise tão profunda, mas eu queria um texto longo, que pelo menos dissecasse a epiderme do Five Leaves Left. Mais detalhes nos próximos capítulos.

2006 teve algumas coisas interessantes no mundo da música. O problema é que nada revolucionário aconteceu, mais uma vez. Será que o Grunge foi a última "big thing"? Eu tenho uma teoria (que é bem óbvia e nem deve ser uma teoria minha): com a internet e o rápido e facilitado acesso à informação, fica muito fácil filtrar o que você gosta e o que você não gosta. Sem ter o rádio e a TV e as lojas de discos como única fonte de música, você não é obrigado a aturar o que quer que esteja na moda, se não gostar. Isso dissipa o impacto das coisas. É só ver no futebol, onde a TV ainda é primordial: o impacto da conquista mundial do Internacional não foi diminuído, só se falava disso. Você não tem como fugir disso. Você pode até se enfurnar no site do seu time, mas aquilo vai ser incompleto, vai te dar uma visão unilateralista demais de tudo. Na música, é possível manter-se à margem do que está no centro das atenções e continuar com uma completude total no seu gosto.

Completando o post anterior ainda, nessa última semana ouvi mais 3 bons discos de 2006: Bell Orchestre - Recording a Tape the Colour of the Life, Scott Reeder - Tunnelvision Brilliance e The Eraser - Thom Yorke. Não entrariam no meu top 5, que continua inalterado, mas consolidam 2006 como um ano satisfatório mesmo.

A Rolling Stone saiu no Brasil. É um lançamento importante, a revista está legal, sim.

Humm... Fim da minha retrospectiva torta (mas muito mais interessante que várias super produzidas que tem por aí, dizaê!). Um bom 2007 pra todo mundo, hell yeah.

Bjusmeliga!

Ouvindo Fall Out Boy. Esses emos são legais até.

Thursday, December 21, 2006

Small Talk de fim de ano (ou: top 5 2006)

Minha sinceras desculpas pela falta de atualização... Mas é que parece que eu perdi meu talento pra escrever. Eu virei um trapo, um arremedo humano, uma pindaíba moral. Mas eu ainda hei de fazer os mais belos reviews da paróquia pra embalar sua juventude roqueira e transgressora. Há!

Caralho! Já acabou 2006? Foi o ano mais rápido da minha vida, certeza. E foi bom ter sido rápido, porque não foi nenhuma maravilha (não que tenha sido ruim, mas sei lá, acho que eu sou exigente :D)... E o seu 2006, como foi? Ah, pera aí, não é importante, deixa quieto! ahahuahuahuaha

Sério, agora... Uma das coisas que mais tem em fim de ano são listas. A mais pertinente delas, nesse âmbito de música, róquenrou e etc, é a famigerada de "melhores do ano". Aí, dependendo da prolificidade do ano em questão, podemos fazer um top 10, um top 5... Quer dizer, um top 15 em 1969 seria até pouco... Um top 3 em 2005 seria uma afronta. Sério, 2005 foi um ano podre, muita promessa, pouca coisa realmente relevante. 2006 foi um ano mediano, mas anos-luz à frente de 2005. Musicalmente, foi o ano mais legal da minha vida, pelas coisas que eu conheci, e resoluções que eu fiz, os reviews, este blog... E não tem como não dizer que os lançamentos não tiveram sua importância, pelo menos pra dar um gás na coisa toda. Por exemplo, o disco homônimo do Wolfmother, não entra na minha lista dos 5 mais, mas me impulsionou a pensar algo como "porra, esses caras são fãs de Sabbath como eu, se apóiam em riffs, não sabem solar... E tão fazendo uma tour mundial. Não é impossível". Se esse disco não tivesse saído, minha guitarra podia estar de lado hoje. É só um exemplo exagerado, mas mostra bem como funciona.

Eu acho que um top 5 é pertinente pra 2006, nem muito, nem pouco... Mas foram mais de 5 discos de 2006 os que me agradaram, isso levando em conta que eu ainda nem ouvi o Amputechture e o The Eraser, por exemplo. 2006 ainda pode reaparecer mais pra frente, como um bom ano. A gente nunca sabe por quais ruas o nosso gosto musical vai passar...

5- Pearl Jam - Pearl Jam
Não é um puta disco do PJ, mas tem algumas canções antológicas, já. Come Back é um clássico, é o blues moderno que qualquer artistinha retrô daria uma perna pra ter feito. Yeah, baby, eles não são cool, mas sabem fazer música como quase ninguém (como ninguém em certos aspectos).

4- Mastodon - Blood Mountain
Abre com um solo de bateria, fecha com uma melodia linda. E no meio de tudo isso, você vê uma construção complexa, como se acompanhasse um monstro nascendo e depois ascendendo num mar de sangue. Pô, eu não era épico assim...

3- The Sword - Age of Winters
Pesado como uma pedrada na cara. E agrada porque apesar da temática "épica", "power metal", "moleque de 13 anos querendo ser mau", o som sai bem disso. Como é divertido confundir os ouvintes!

2- Matanza - A Arte do Insulto
É o disco mais pesado da banda mais infame do Brasil. As histórias são menos recorrentes e as filosofias de bar mais. Meio Psicopata é possivelmente a música do ano.

1- Kasabian - Empire
É indie, é cool, mas ninguém fala muito do Kasabian. Toda segunda eu lia a Folha Teen e nunca vi a banda no "Escuta Aqui". Pô, isso é perfeito! Significa que mesmo sendo indie, você não está agradando quem deveria agradar. Quer coisa mais punk que isso? E indie quer ser punk, não é?
O lance de Empire é que o Kasabian encontrou o equilíbrio entre o rock e as batidas eletro e fez o disco mais cativante do ano. "Shoot the runner, shoot, shoot the runner, I'm a king and she's my queen". Animal!

Friday, December 15, 2006

O dia em que descobri que sou alérgico a trabalho

Para explicar o título do artigo (não sei, isso é um artigo?), preciso contar a história inteira, o épico, a epopéia, a odisséia, que começou no último dia 20 de novembro.

Como todo mundo que me conhece (e até uns que não me conhecem, com uma ou outra capacidade mediúnica) sabe, eu sempre fui um “filhinho de papai burguês fidumaégua” que nunca trabalhou. Mas até que um dia, eu me vi na seguinte situação: estar livre por uns sete meses. E por livre, entenda “na vagabundagem”. Minha mãe, que conhece o filho que tem, decidiu que era imperativo que eu arranjasse um trabalho e me tornasse alguém na vida. Por uns sete meses, né?

Bem, esse mundo está cheio de nepotismo por aí, e como não poderia deixar de ser, arrumei emprego na transportadora do meu tio. Durei quatro dias. Beleza, né? Mas o curioso é que justo no quarto dia, depois de passar três dias carregando caixa de papelão, eu fiquei com uma febre fodida e infecção de garganta. Não foi o motivo pra eu ter largado o honroso emprego de peão, mas foi uma febre bem lazarenta, pode crer.

Mas então, estava eu em Indaiatuba de volta, bodeando, sendo um pária da sociedade, quando meu tio me convida pra ir à filial de Sampa da TV Globo entregar cestas de natal. Freelance de peão. Hell yeah. Além do mais, era a minha chance de ver os atores, atrizes, jornalistas e todo esse monte de gente importante. Aceitei na hora. Quer dizer, atire a primeira pedra quem não acha no mínimo interessante ver umas pessoas famosas. Eu vou ser famoso, eu tenho que aprender como me portar com eles (ou como não me portar).

A Globo é interessante. Tudo lá funciona e parece limpo. Yeah, a podridão da Globo é uma coisa mais abstrata do que concreta, se é que você me entende.

E o legal foi ver umas pessoas tipo a Rosi Campos. Ela marcou minha infância. Se eu voltasse no tempo e dissesse pro pequenino Pedrinho, no esplendor de seus cinco anos, que com dezessete ele veria a Morgana de perto, acho que ele chutava o meu saco (o saco dele mesmo no futuro. Isso deve causar uma confusão, né?) e me chamava de mentiroso. Troquei uma idéia com o Bira. Yeah, eu disse que seria legal. Ele falou que eu parecia jogador de futebol da Alemanha, mas que pensando bem, alemão não é tudo loiro e que eu parecia mesmo era dinamarquês, aí eu contei que eu ia morar na Dinamarca no ano que vem e blá blá blá. Aí ele começou a falar de Recife, que pernambucano não gosta de ninguém e etc, e eu parei de prestar atenção. No fim, eu disse que ia ser rockstar e ia tocar no Jô. Ele perguntou o que eu tocava, eu disse que era guitarra e ele me disse pra conversar com o Tomate. Pena que eu não sei como é a cara do Tomate. Será que eu joguei meu futuro no lixo? Vi o Márcio Canuto fazer umas piadas (ele fala daquele jeito rouco mesmo) e entreguei cesta pra Eva “vilã oficial da senilidade” Wilma. Haha, just kidding, eu gosto da Eva Wilma. Vi mais gente, mas foda-se. Não quero parecer tão groupie.

O chato era mesmo entregar as cestas, e abrir as caixas e carregá-las, foi bem cansativo. Era um trabalho de dois dias. Tudo OK no primeiro. O engraçado é que no segundo eu acordei já com febre. De novo! É daí que eu cheguei à conclusão de que eu tenho essa alergia a trabalho.

Ah, a febre ainda me rendeu a história mais legal da Globo. Todo mundo que viu o jogo do Internacional de Porto Alegre na quarta-feira percebeu como o Galvão Bueno estava todo feliz com o jogo e como ele quase teve um orgasmo quando o Inter ganhou. Okay, foda-se, Galvão. Eu assisti esse jogo e não estava torcendo pros colorados. O lance é que ele não estava no Japão pra narrar o jogo, ele estava nos estúdios de São Paulo pra transmitir.

Foi logo depois do jogo, quando eu estava bem mal e fui até o ambulatório que eu cruzei com ele. Aaaah, eu tinha que zoar o Galvão. E eu até fui bem piedoso (eu estava no meu lugar de trabalho, sou um peão de respeito) e só gritei “Cuidado com o Baaaaaaaaaarça, Galvão”. Ele não subiu nas tamancas como eu esperava, mas virou a cara emputecido e saiu pisando duro. Cool.

Mas quem viu o jogo do Barça sabe que eu to certo, né?

Hum, alguém aí tem um emprego pra mim?


Ouvindo: American Woman – The Guess Who

Monday, December 04, 2006

Butch Goes to Hollywood

Butch nunca foi afeito a convenções. Desde quando era um garoto cabeludo e magrelo com uma camiseta surrada do Iron Maiden, desafiava os mais normais recitando-lhes poemas intermináveis e imitando seus gestos de forma jocosa. Levou muitas surras por conta disso, mas era, apesar de tudo, um garoto querido por muitos. Era espirituoso e inteligente, algumas pessoas gostam desse tipo de coisa.

Mas tudo mudou. Tanto na aparência quanto na personalidade. Continua na tangente das convenções mais tradicionais, mas que mudou, mudou. As circunstâncias, aliás, são quase sobre humanas, ou humanamente impossíveis, fale como preferir. Imaginem que Butch engrandeceu os músculos, graças à entrada na academia militar. Não seguiu na profissão, mas manteve-se trabalhando o corpo. O engraçado, porém, é que as mãos permaneceram pequenas, com os dedos finos, como se ainda fosse o moleque magricelo que fora outrora. O cabelo encrespou e subiu, mas não chega a ser um black power de respeito. Além disso, Butch conta que as letras enegrecidas que formam a palavra “Hollywood” em sua bochecha direita simplesmente apareceram, de um dia para outro. Acordou num sábado com a palavra cravada na cara, e foi aí que percebeu que nascera para o estrelato. Pegou seu Maverick 75 e foi direto para Las Vegas. E foi na cidade que nunca dorme que aconteceu a tragédia principal da sua vida, e por outro lado, o que o torna realmente incrível.

Num dia ensolarado, Butch, não se sabe como, foi parar no meio de um engavetamento, ele como pedestre. Seu corpo se partiu, numa linha quase reta, logo abaixo do tórax. Não é que tenha ficado por um fio ou coisa parecida, seu corpo realmente dividiu-se em dois. Dando como certa sua morte, os paramédicos nem se preocuparam em tentar reanimá-lo. Veja bem, você tem que tentar entendê-los, era um homem cortado ao meio... Mas, foi quando chegou ao hospital que perceberam que Butch estava vivo! E bem. Sim, ele podia falar, respirava normalmente e o coração funcionava de forma natural. Acabou liberado, enfim. No começo se viu atado numa cadeira de rodas, mas um dia, por acaso, descobriu que – pasmem! – podia flutuar por aí. Não muito alto, é verdade, ou então caía de cara no chão. Mas podia flutuar como se tivesse pernas logo embaixo do tronco decepado. Incrível, não? Como o grande corte nunca fechou, se você olhar por baixo dele, pode ver ainda as tripas e outros órgãos internos. De vez em quando, alguns pedaços de carne se soltam do corpo e vão caindo pela calçada, e isso é um pouco nojento e desagradável. Mas deixando esse aspecto de lado, é realmente extraordinário.

Mas não para o próprio. Butch ficou deprimido com o que lhe aconteceu e se distanciou totalmente das outras pessoas e do mundo em geral. Encarcerou a si mesmo num pequeno apartamento escuro e ficou à margem de tudo por longos anos. Nesse meio tempo, toda sua perspicácia se transformou em sarcasmo e sua inteligência voltou-se para estratagemas complicados para assegurar sua vingança contra os que os transformaram naquilo que virou. As poucas pessoas que o visitaram foram recebidas com frieza e por palavras que mais pareciam cortes de bisturi. Quer dizer, seus verbos sangravam em grandes poças espessas. Sangue, sangue, sangue, sangue... Era o único gosto que Butch sentia. Seria cômico se não fosse trágico, ou vice-versa. O homem que tinha nascido para Hollywood se escondia do mundo, se transformando na antítese do que confiava ser.

E foi num momento simples que nosso herói (oh, isso é tão clichê) percebeu o que acontecia. Enquanto se deslocava para a cozinha para pegar um copo d’água, finalmente notou: “Porra, eu FLUTUO!”

Voou para Hollywood no mesmo dia.

Hoje é dublê de filmes gore e dá palestras sobre motivação em empresas e convenções. Justo Butch, que nunca foi muito de convenções.

Saturday, December 02, 2006

Hip Hop Rising

Robbie Williams gravou um hip hop. Estou chocado. O som do gueto é a nova onda. Não que isso seja novidade, mas é que agora eu finalmente me dei conta de que o Hip Hop não tem concorrente nos 00s, assim como o Rock and Roll reinava absoluto e fodão no seu pedestal nos anos 70. Agora quem está por cima, meu amigo, coçando o saco e rindo da sua cara são os brothers do Bronx.

Como eu cheguei a essa conclusão? De uma forma simples. Liguei a TV na MTV (sempre ela destruindo meus sonhos) e assisti, boquiaberto por 4 minutos e 44 segundos ininterruptamente, o clipe dessa música nova do Robbie Williams, Rudebox. Além de ser incrivelmente ruim e constrangedora, me fez perceber que nem gente com a atitude “foda-se” do Robbie está resistindo às cifras do Hip Hop.

E não importa se você acha que é um estilo vazio, sente falta de solos de guitarra, melodia e tudo mais. É o que manda hoje. Vista sua blusa 3 números maior, seu bermudão cinza e o tênis redondo de sua preferência e vá pra rua catar minas, vá fazer sucesso, bicho.

Strokes? Franz Ferdinand? Arctic Monkeys? Bah, não passam de paliativos. Servem mais pros motoqueiros fedendo a naftalina terem assunto nas comunidades do orkut: “O rock de hoje está uma merda, só playboy fazendo som sem emoção e bla bla bla”. Foda-se, cara, o rock saiu de cena e você tem que aceitar isso, redneck imbecil! Repito o conselho do parágrafo anterior. Vá ser um velho enxuto, venda sua Harley e dê uma tunada no seu fusca 78.

Mas o que é que fez um inglês bem sucedido na música “pop” como Robbie largar Feel, Sexed Up, Millenium e tudo mais para ir fazer papelão no som da periferia americana? Grana, mulheres? Nah, o cara sempre teve disso. Digo até mais, o cara só não chegou à Lua por que lá não tem auto-falantes.

A real é que está se criando hoje no mundo uma demanda pelo Hip Hop, que parte principalmente das crianças, e é algo similar ao começo dos anos 70, quando surgiram bandas como o Kiss. O que é o Kiss além do resultado escrachado da comercialização excessiva do Rock and Roll? Então, Robbie, esperto que é, notou que precisa conquistar os consumidores mais jovens para quando for possível, ter, enfim, seu nome cravado na Lua.

E o que faz com que o estilo faça tanto sucesso? É bem capaz que seja pelo fato do Hip Hop e o Rap (e este último principalmente) tratarem de um sentimento básico dos seres humanos, o ódio. Tratam também da desigualdade social. Não é fácil lidar com esses temas e ver outros falando disso com tanta naturalidade causa um fascínio instantâneo, é como se estivessem falando por você. Some isso a umas gostosas rebolando seminuas e você tem um sucesso. O mais irônico disso tudo é que as mesmas pessoas que, a unhas e dentes, asseguraram ao show business toda essa liberdade sexual que hoje impera, estão agora com as mãos nas testas, incrédulas diante do monstro que criaram. Hey, sorte nossa.

Wowooow, mas isso quer dizer que os outros estilos estão mortos e enterrados? Claro que não. Música é uma coisa rotativa, assim como moda e qualquer outra arte. Pode ser que, daqui, hum, vamos ver, 10 anos, tudo volte a ser como os anos 70. Grande entusiasta bobão do Rock and Roll que sou, até torço pra que isso aconteça, embora admita que seria um retrocesso incrível.

Mas a minha idéia é a seguinte: não gosta do que está acontecendo atualmente? MUDE. Mas mude pra alguma coisa NOVA, por favor.



Ouvindo: For Your Life - Led Zeppelin (yeah, eu ainda não me rendi ao Hip Hop)

Thursday, November 30, 2006

Cachorro Grande - Pista Livre

Uma das coisas mais desprezíveis e ridículas que existem na música é a associação dela à indumentária e atitude de algum grupo social. Se você toca metal, se vista de preto. Se faz musica sertaneja, aja como um pecuarista (e o mais irônico é que às vezes esses músicos sertanejos trabalhavam em setores agrícolas antes da fama) e tudo mais. Mas isso já é algo associado naturalmente há décadas e não sou eu que vou mudar esse cenário babaca. Agora, sabe de uma coisa? Eu não consigo me agüentar quando eu vejo esse novo pessoal que parece que caiu numa fenda no tempo. Tipo o Cachorro Grande, e é deles que eu quero falar. Cara, é tão nojento ver a forma como eles se vestem, ou são vestidos… Aquelas roupas de futebol retrô, os terninhos milimetricamente desalinhados, as boinas e toda a merda mais.

Olha só, não nutro nenhum rancor em relação aos caras da banda, não mesmo. Mas fica foda avaliar uma banda que se importa tanto em parecer com outras e não dá nem a cara pra bater: se escondem em trajes e maneirismos antes de mostrar a música.

Pelas entrevistas deles, dá pra notar um certo ar de propriedade em relação a toda a atmosfera que eles criaram em torno de si. Não é que sejam arrogantes, mas eles parecem muito seguros do que fazem, como se os anos 70 estivessem logo ali atrás. Ora, faça-me o favor, eles já têm muita sorte se alguns dos integrantes sequer nasceu nos setenta. Então, do que eles estão falando? Poderia ser algo como “A gente é tão fã dos Beatles e dos Stones que podemos querer ser como eles”. Hum, fair enough. Acontece que se eles querem ser os Beatles, estão mal, porque não são nem o Oasis.

A grande interrogação do Cachorro é como, após 3 discos, a banda continua soando tão datada e tão igual. Não é que eles são o Gov’t Mule, sabe? Eles não são integrantes do Allman Bros, eles não podem. Sabe como é, a moda agora são bandas datadas, mas faça-me o favor! Quem lembra do Jet, após um ano do semi-estouro de Look What You’ve Done? Quem vai se lembrar do Wolfmother daqui dois anos se eles continuarem com esse boquete descarado ao Sabbath e ao Zepp?

O disco Pista Livre não é de todo mal, não é mesmo. Tem ótimos riffs e é um bom disco de rock. É isso que é preciso, certo? Errado. Quem vai escutar Interligado, a faixa 6, se temos Eleanor Rigby? É imperativo que uma banda busque sempre inovar e criar o próprio som, para não cair no esquecimento.

Como é possível, eu me pergunto, que os rapazes do Cachorro Grande não percebam que eles só estão aí na mídia porque a ordem atual do rock é revival? Ou será que eles perceberam e quiseram jogar o jogo? É sempre bom lembrar que ser artista de ocasião é muito perigoso. São raros os que conseguem reverter a situação quando a ordem muda, a maioria cai no esquecimento. Só pensar em alguns exemplos bem simples: as one-hit bands dos anos 80, o Lemonheads (quem lembra deles hoje?) dos anos 90 e, mais atualmente, quanto se falou do novo disco dos Strokes? Uma nulidade, se formos comparar com o primeiro, ou mesmo com o segundo.
Bom, a escolha é deles, mas é muito possível que a piada da banda perca a graça bem rápido, na hora que, hum, vamos dizer, a MTV resolver que a moda são bandas de gordos ou sei lá o que pode passar na linda cabecinha oca e brilhante dos executivos.

Voltando à questão, Pista Livre, como eu disse anteriormente, não é ruim. A primeira música é simplesmente um estouro, você sabe como é, o riff é explosivo. Mas não dá pra tirar da cabeça aquela perguntinha: “eu já ouvi isso onde, mesmo?”. É capaz até que seja um plágio tão descarado que eu nem esteja lembrando de qual música é. Pista Livre é bom pra ouvir uma, duas vezes por ano. Mas se você gosta desse tipo de música, pra que vai ouvir esse disco se os do Who e dos Stones estão logo ali do lado?

O negócio do Cachorro Grande é que é uma banda de um monte de homem barbado que parece que se recusa a crescer, a buscar a parte difícil da coisa. Como é tranqüilo colocar um chapéu esquisito, um terno bacana e imitar os ídolos do passado, né?

Mudança de Planos

Voltei pra Indaiatuba, foda-se. A seguir, um review.

Friday, November 17, 2006

Top 10 - Discos Preferidos Até o Momento

Hey, é o seguinte: amanhã estou indo pra São Paulo, pra morar. Vou trabalhar por lá até meados de junho e em julho viajo pra Dinamarca. Como vai demorar um tempo até eu ter internet por lá e não vai ser todo fim de semana que eu vou voltar pra Indaiatuba (e mais difícil ainda vai ser eu estar inspirado jusrtamente nesses fins de semana que eu vier), acho que quase não vai ter atualização por aqui, pelo menos por uns dois meses. Realmente é uma pena que eu não tenha escrito um review ou coisa do tipo nessa última semana, mas falta de vontade não foi. Sabe, Bill Gates está sempre sabotando as nossas idéias indiretamente. Coitado do cara... A mãe dele deve estar no inferno já, se depender do que todo mundo fala dela e do filho.

Enfim... Já que é capaz que o blog pare por alguns meses, quero deixar como último post alguma coisa meio que definitiva. Então, nada melhor que um top 10 dos meus discos preferidos até agora. Veja só, um top 10 geralmente tende a ser uma coisa equivocada, de momento, ainda mais quando você define esse ranking com apenas 17 anos e uns 4 de rock. Por isso o título "cauteloso" para esse post.

Eu sempre digo pras pessoas que eu não gosto de ter um top 10 de bandas, e sim um top 12, porque são 12 as bandas que eu mais gosto de escutar (é capaz que eu inclua o Red Hot Chili Peppers no grupo e acabe se tornando um top 13 hahahahaha). Por isso, pra fazer essa lista, tive que tirar 2 bandas (na verdade, um de seus discos) e foi com pesar que eu cortei o Purple do Stone Temple Pilots e o Welcome to the Sky Valley do Kyuss do que seria o top 12 original de discos.

Sem mais o que falar, segue abaixo o meu top 10 de discos que mais me fizeram feliz nos meus quatro anos de música (porque música tem que te fazer feliz. E não feliz no sentido ortodoxo da coisa. Curtir uma fossa ao som da sua banda gótica preferida é estar sendo feliz com música):

No Code - Pearl Jam
Houses of the Holy - Led Zeppelin
Queens of the Stone Age - Queens of the Stone Age
Facelift - Alice in Chains
Meddle - Pink Floyd
Five Leaves Left - Nick Drake
Soup - Blind Melon
Sweet Oblivion - Screaming Trees
Black Sabbath - Black Sabbath
Ride the Lightning - Metallica

Ouvindo: Conan Troutman - Kyuss

Wednesday, November 15, 2006

You have already fooled the children of the revolution

Na última semana, um amigo meu que esteve em casa viu aberto o livro Confissões de uma Groupie (estou relendo) e, tomando ainda como exemplo um outro volume que eu lia anteriormente, Reações Psicóticas, de Lester Bangs, comentou algo como “Você lê uns livros muito nada a ver, hahaha”. Por nada a ver entenda livros de autores desconhecidos para a maioria, com temas de bibliografia menos extensa e que nunca, nem num sonho, cairiam numa lista dos “fodões” da Fuvest e da Unicamp.

Sim, eu adoro ler a respeito de rock and roll, e, sobretudo, amo rock and roll, em qualquer formato. Mas isso é coisa minha. Você pode amar ahmm... Quadros, literatura, cinema, esculturas, futebol, ginástica artística, direito, quadrinhos, oncologia e etc... Há uns dias eu assisti Basquiat e vi como as pessoas podem revolucionar seu meio com Arte. Veja bem, expressionismo e Arte em geral me interessam muito pouco, mas eu reconheço como é algo tão agitador como a música que eu tanto gosto.

O que eu acho que é meio triste é a falta de paixão com que as pessoas tratam, sei lá, tudo. Ainda na esfera musical, eu não sou ingênuo a ponto de achar que algo como Woodstock pararia uma guerra, mas creio que ouvir Marc Bolan cantando “you won’t fool the children of the revolution” ou John Lennon exigindo poder para o povo pode incutir na geração um sentimento de indignação e um pouco revolucionário, sim. Veja bem, música é uma coisa feita pra divertir, mas eu não entendo mais o que aconteceu com ela. A diversão ultrapassou tanto qualquer propósito que poderia existir que não existe mais diversão na musica popular, quase.

Não sei mais bem o que eu estava tentando dizer, mas é que eu não entendo mais nada sobre quem eu sou e o que eu quero, principalmente nesse meu lado mais chato, que é a exigência em relação à música. Se por um lado, eu acho que não se deve policiar o gosto alheio, eu não consigo ser compreensivo em relação ao estupro do rock e seu conteúdo.

Fica estranho isso tudo, mas tome como um desabafo ou uma crônica confusa de um cronista confuso.

***

Mudando um pouco de assunto... Domingo, se tudo der certo, estarei no Morumbi e se tudo der certo mesmo, verei pela primeira vez o São Paulo ser campeão no estádio. Po, é felicidade demais pra um cara só.

Ouvindo: Cosmic Dancer – Marc Bolan & T.Rex

Tuesday, November 07, 2006

Pra tirar a poeira

O primeiro disco inteiro que eu ouvi quando fiz 17 anos, nessa última madrugada, foi Diorama, do Silverchair. Isso o faz merecedor (ou melhor: é uma conseqüência inevitável que seja feito um) de um comentário. Mas não só por isso, todo disco é merecedor de um comentário, ué. Mesmo que seja pra detonar, o que geralmente é o mais divertido. Diorama poderia, inclusive, ser um disco desses, que espera para ser destruído.

Sabe como é, Daniel Johns é um cara muito azarado. Sempre convivendo com alguma doença pronta para ceifar sua criatividade e integridade física, além de declarados conflitos interiores, o que causa, a princípio, grande desconfiança sobre a qualidade de algum álbum vindouro.

Porém, saído de seu inferno particular em 2001, Daniel veio provar que, não senhor, não havia porque desconfiar. Acima de tudo, Diorama é um álbum maduro. Os adolescentes do Silverchair cresceram e agora sabem bem o que querem. O primeiro disco da banda saiu quando os integrantes tinham 16 anos, e olhe só que injusto, eles já eram rockstars com 17, a idade que eu fiz hoje. Eu estou em casa, na frente do PC, eles estavam em turnê. E todos sabem (ou imaginam) como é a vida de um rockstar em turnê. Isso desgasta a mente de qualquer um na fase mais conturbada da vida. Eu digo isso por mim mesmo. A nossa cabeça muda muito e ,oh!, como tudo é um drama e como eu sei que daqui um ano eu vou ser completamente diferente de como eu sou agora e fui há um ano. Sem frescura, isso é a mais pura verdade.

Longe de tudo isso (ou após descobrir como conviver com isso), a banda solta um disco que parece algo como um Beatles cósmico bolinado pelo Alice in Chains. Plágios constrangedores como Slave inexistem, e isso é um deleite para qualquer um. Afinal, não é mais um disco do Mad Season gravado na Austrália e sim um álbum do Silverchair.


Gostei.

Ouvindo: The Greatest View - Silverchair

Monday, October 30, 2006

Matanza - A Arte do Insulto


O Matanza é a banda brasileira de rock mais legal que existe no momento. Afirmo isso sem nenhum pesar ou incerteza. Quando uma banda tem autoproclamada moral pra te mandar tomar no cu, ou ela é a melhor, ou é a mais risível. Os brutos cariocas possivelmente são os dois. Melhor porque, numa cena musical de sentimentalismo hiperglicêmico e falso moralismo, eles têm o colhão pra falar de “bebida, mulher e porrada”, como definem. E a mais risível porque, apesar da pose de ogros sedentos por sangue de virgem, todo mundo sabe que o "gigante irlandês" Jimmy London se trata de uma pessoa razoável, polida e educada e os outros integrantes não ficam atrás.

Mas toda a teatralidade da banda é justificável. Afinal, como seria possível dizer que fulano é um “boçal, retardado mental e infeliz” sem todo um status de machões?

Mas então, diferente de outras bandas que assumem personalidades, o Matanza não é egoísta: te convoca a beber com eles e se divertir igualmente. Você é o rockstar, você é que é o bom. Junto com eles, claro.

Fui num show deles recentemente e vi na prática como tudo funciona. Enquanto os fãs se digladiam na pista, o vocalista berra a plenos pulmões os prazeres da carne e do álcool (e não importa se você vai vomitar e fazer besteira, apenas beba!). Sim, Jimmy London é, acima de tudo, um entertainer, com showbiz brutal explodindo pelas orelhas. Enquanto esbravejava insultos impublicáveis (Ou não. Pelo menos não nesse blog.), eu estendia minha mão em direção ao palco, numa idolatria quase fascista. Era a noite em que absolutamente todos eram piratas, vikings, cafetões e bêbados.

Então, para dar continuidade ao ótimo trabalho que é o disco de covers do gênio Johnny Cash em versão countrycore, o Matanza lançou, no último dia 13 de outubro, o novo “A Arte do Insulto”. Após algumas audições, é fácil admitir que as novas músicas causarão a mesma catarse coletiva que causaram no show em que eu fui (e em todos os outros, segundo relatos de fãs). A banda não tem vergonha de dizer que está ali pra se divertir e não se prende a conceitos pré estabelecidos como o “amor à música” ou “responsabilidade social” e isso é bem mais sincero do que, por exemplo, uma letra do Tihuana sobre a tal da menina prostituta infantil.

Os riffs estão mais pesados e as frases country agora praticamente inexistem (ou coexistem com o Heavy Metal). Dá pra sentir o gosto de sangue na boca, sabe? E as letras agora abrangem novos temas. A ojeriza dos integrantes da banda (o guitarrista Donida é quem escreve a maioria das letras, mas acho que reflete a opinião geral) a seres humanos (mas talvez isso seja só mais um papel que eles decidiram exercer) está mais clara. O pôquer finalmente é abordado numa música só pra ele (já havia aparecido em "As Melhores Putas do Alabama" do Santa Madre Cassino, mas não tinha uma faixa que falasse 100% do jogo) e há até uma referência sobre o “grande amor”.

Quando o disco vazou, eu tive uma certa discussão com um amigo por causa disso. Eu dizia que o Matanza caga no grande amor, ou pelo menos deveria, se tomarmos ao pé da letra esse reincidente conceito de trolls carniceiros. E então foi aí que eu percebi que nisso também mora a sinceridade da banda. Eles vestem e despem sua imagem quando querem e foda-se! E isso só reforça que eles têm colhão pra te mandar tomar no olho do seu cu a qualquer momento. Eles são o Matanza, você consome o que eles têm a dizer se quiser. Você é merda pra eles nesse sentido. Mas continua os venerando mesmo assim e isso é retribuído com esse compartilhamento da “cerveja musical” nos shows e entrevistas. Quer dizer, se você está com o Matanza e não abre, eles estarão com você também. E isso não é invenção minha. A banda já afirmou isso indiretamente algumas vezes.

Para uma conclusão, seria ideal dizer que “Matanza é uma pérola no meio da lama”, mas a banda não tem cara de pérola, de jeito nenhum. Então, acho que o ideal seria dizer que no meio de tantas Bavárias, o Matanza se destaca como uma das únicas Originais do bar. É uma péssima analogia, mas se você pegar o feeling, vai entender do que se trata.

 
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